Até há pouco um quase ilustre desconhecido, André Ventura, o líder do Chega, tornou-se a vedeta das eleições presidenciais deste ano. Adepto da máxima brasileira “falem bem ou mal, mas falem de mim”, Ventura defende propostas clássicas da direita – como o Estado mínimo, com a consequente privatização da saúde e da educação – e da extrema-direita – como a penalização das minorias, dos imigrantes e das mulheres.

Por: Cristina Portella

Nos primeiros meses da pandemia de Covid-19 em Portugal, chegou a propor um confinamento especial para os ciganos, acusados por ele de serem uns aproveitadores que vivem à custa dos subsídios concedidos pelo Estado português. Em relação às mulheres, foi apresentada no congresso do Chega do ano passado uma moção a defender a remoção dos ovários daquelas que recorram ao Serviço Nacional de Saúde para fazer aborto.

Com uma retórica semelhante à de figuras como o ex-presidente Trump e o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, Ventura considera a Organização das Nações Unidas (ONU) uma produtora e difusora do marxismo cultural e identifica como um dos problemas nacionais a islamização das cidades, que junto com a difusão do marxismo cultural e da ideologia de género causaria “a destruição da nossa base de valores civilizacionais”. Apesar dessas ideias e da proximidade com dirigentes da extrema-direita europeia, como o italiano Matteo Salvini, da Liga Norte, e a francesa Marine Le Pen, presidente do Reagrupamento Nacional, ambos integrantes do Identidade e Democracia (ID), grupo partidário da extrema-direita no Parlamento Europeu, Ventura garante que não deve ser incluído nesse espectro político. O Chega seria apenas um partido dos “portugueses comuns” vocacionado a repor os valores da nacionalidade e a reverter a influência marxista, inclusive aprovando uma nova Constituição.

O líder do Chega procura apresentar-se como um candidato independente e antissistema, mas a sua história e apoios desmentem-no. Durante uma década e meia foi militante do PSD, partido pelo qual foi vereador (candidatou-se às autárquicas em Loures em 2017) e com o qual rompeu em 2019 para criar o Chega. O seu círculo de apoiantes inclui nomes da alta roda da burguesia portuguesa, como o empresário João Maria Bravo, dono da Sodarca, principal fornecedora de armas às forças de segurança e ao exército português, e da Helibravo, proprietária de helicópteros alugados pelo Estado no combate aos incêndios florestais. Esse empresário, para quem o país se “afunda” desde 1974, isto é, desde o 25 de Abril, considera que Ventura é o “único que coloca o dedo na ferida e fala do que queremos ouvir”. Outros dos apoiantes de Ventura são o advogado Francisco Cruz Martins, ligado a recentes escândalos financeiros (Banif, Panamá Papers, entre outros), e o intelectual Jaime Nogueira Pinto, apoiante de Salazar e Trump. Muitos deles terão participado de encontros para angariar fundos para a campanha de Ventura no luxuoso Hotel Palácio, no Estoril.

Por que é que o Chega cresceu?

Não foi, com certeza, graças aos apoios acima mencionados que o partido de Ventura cresceu nas sondagens e, provavelmente, terá um bom desempenho nas presidenciais deste domingo. A resposta talvez esteja numa profunda desilusão com a classe política e os seus partidos, da direita à esquerda, em particular com os dois que se revezam no poder desde o 25 de Abril, PSD e PS. Há mais elementos a adicionar a essa reflexão: o nefasto papel cumprido, nos últimos anos, pelo artefacto político batizado de Geringonça. Gerado como recurso possível frente a esse desencanto político-eleitoral com o objetivo de impedir a manutenção da direita no poder, acabou por fortalecer o outro partido do regime, o PS, e neutralizar a capacidade de oposição da esquerda parlamentar, o Bloco de Esquerda (BE) e o Partido Comunista Português (PCP).

Quatro anos de Geringonça não só não tiraram o país da austeridade, conforme propunham os seus integrantes, como chegaram a acentuar um dos traços mais penalizadores das atuais relações entre o capital e o trabalho, como a precariedade. Portugal continuou no segundo escalão da União Europeia, aumentou a sua dependência para com os países mais poderosos que dela fazem parte, e não investiu como devia em saúde, educação, pesquisa e produção nas áreas de ciência e tecnologia,  transporte e energias renováveis. Esse quadro revela dimensões terríveis na atual pandemia, quando o Governo titubeia em adotar medidas que protejam de facto a vida da classe trabalhadora e impeçam que milhares sejam condenados ao desemprego e outros milhares tenham de recorrer à caridade para não morrerem de fome.

É num país cada vez mais pobre e dependente que figuras como André Ventura – ou Trump e Bolsonaro – ganham força. As suas propostas são reacionárias, incongruentes e só irão, caso levadas à prática, como aconteceu nos Estados Unidos e no Brasil, aumentar a desigualdade e retirar direitos aos trabalhadores. Para combatê-los é precisa uma atitude diferente da adotada até agora pela esquerda parlamentar. É preciso, além de combater politicamente o Chega e Ventura, fazer oposição de verdade ao governo de plantão e aos partidos que geraram o caldo de cultura capaz de alimentar a extrema-direita em Portugal. Sobre esse tema nos deteremos no próximo artigo.