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sexta-feira, fevereiro 23, 2024

Trotski perante as guerras

A invasão russa da Ucrânia, ao ser uma guerra de agressão nacional, de uma potência militar contra uma nação agredida, envolve outras forças e outros interesses mais além deste conflito direto. Como Leon Trotsky disse em A Guerra e a Quarta Internacional, não se pode defender até as últimas consequências o direito de soberania da nação oprimida na guerra sem definir suas forças motrizes, seu desenvolvimento e as consequências às quais ela finalmente leva.

Por Florence Oppen, publicado originalmente na Revista Marxismo Vivo Nº18, Maio de 2022.

O pano de fundo que alimenta o conflito é a rivalidade entre dois blocos, OTAN e Rússia (com apoio chinês), pelo domínio econômico, político e militar na região. Isto explica em parte os grandes debates que estão ocorrendo na esquerda mundial, tanto sobre o caráter da guerra quanto sobre a política dos revolucionários.

No sistema imperialista decadente, tais guerras são recorrentes, e a guerra na Ucrânia é um cenário diferente da guerra travada pelos EUA no Iraque, embora ambas sejam agressões de mesmo caráter. Um cenário muito semelhante à agressão russa na Ucrânia ocorreu na segunda metade dos anos 30, quando duas guerras foram travadas: a Segunda Guerra Ítalo-Etíope (1935-1936), que durou apenas 6 meses, e a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945). Esta última começou, como a Guerra da Etiópia, como uma guerra de libertação nacional, mas entrelaçada à Segunda Guerra Mundial e, com a entrada dos EUA no conflito com o Japão em 1941, a guerra nacional chinesa combinou-se com o confronto interimperialista entre os EUA e o Japão. Em 1944, com a intervenção militar direta dos EUA, o conflito interimperialista tornou-se o eixo principal.

O texto acima mencionado de Leon Trotsky explicava, em 1934, que a crise econômica e social do imperialismo e o rápido rearmamento das grandes potências anunciavam um novo conflito imperialista. Ele também explicava como os revolucionários deviam combinar nas guerras daquele período a luta pelas tarefas de libertação nacional e defesa da URSS com a luta contra todos os imperialismos, e também como as tarefas podiam variar conforme se esteja em um país colonial ou semicolonial, em um país imperialista agressor, ou em um país imperialista que age em uma guerra a favor de uma luta de libertação nacional ou pela defesa da URSS, ou seja, um imperialismo militarmente alinhado com o campo progressista de uma guerra “justa”, mas para defender seus próprios interesses. Este último foi o caso tanto da guerra ítalo-etíope de 1935, quando a Grã-Bretanha procurou intervir contra a invasão da Etiópia pela Itália de Mussolini, ou quando os EUA intervieram militarmente para apoiar a China em sua luta de libertação nacional contra o imperialismo japonês.

Os textos deste dossiê são apenas uma seleção muito inicial do grande acúmulo político do trotskismo mundial na análise e intervenção direta nestas duas guerras de caráter combinado, ou com múltiplas contradições, o que é de grande utilidade hoje em dia.

Trotsky entendeu a Segunda Guerra Ítalo-Etíope como o espaço de articulação de uma dupla contradição ou confronto. Trata-se, naturalmente, de encarar a luta prioritária para assegurar a soberania nacional de um país diante da agressão imperialista italiana, e essa foi definitivamente a principal contradição do conflito. Mas esta guerra também estava ocorrendo num contexto de rápido rearmamento e crescente guerra econômica entre as diversas potências imperialistas, ambas desencadeadas pela brutal crise econômica dos anos 30, pelas rivalidades imperialistas não resolvidas após o Tratado de Versalhes de 1919 e, obviamente, pela necessidade estrutural do capitalismo imperialista de aumentar constantemente seus lucros, o que exige a conquista de novos territórios que forneçam recursos naturais, trabalho e mercados para a realização da mais-valia. Foi, assim, uma guerra de libertação nacional travada no contexto de um prólogo a uma nova guerra imperialista.

Trotsky engajou-se em uma discussão direta com os militantes trotskistas do ILP (Partido Trabalhista Independente da Inglaterra) agrupados no Grupo Marxista, onde C. L. R. James atuava, de quem apresentamos dois textos. Os trotskistas do ILP tomaram uma posição clara em apoio à resistência etíope contra a invasão italiana, embora a Etiópia fosse liderada por Haile Selassie, um tremendo ditador. Eles organizaram uma enorme campanha de solidariedade, promovendo boicotes à indústria de armas italiana e ao imperialismo italiano em geral, que eles chamavam de “sanções operárias”, para contrapor às sanções imperialistas do governo conservador de Baldwin e das Nações Unidas, rejeitadas prontamente pelo ILP. Trotsky apoiou plenamente a política do Grupo Marxista, tanto a firme rejeição a qualquer tipo de apoio às sanções imperialistas, já que era necessário combater a pressão social-patriótica e separar o proletariado britânico de sua própria burguesia, quanto o apoio ativo a todas as atividades de solidariedade com a Etiópia e as sanções operárias. Nesta segunda frente, os trotskistas do Grupo Marxista tiveram que enfrentar pressões social-pacifistas de setores da social-democracia britânica, que defendiam a neutralidade na guerra. Os textos do C. L. R. James mostram como os trotskistas britânicos mobilizaram uma campanha de solidariedade com a Etiópia a partir de uma clara denúncia de seu próprio governo imperialista e de sua política oportunista de sanções.

Em relação ao segundo conflito, Trotsky explica, na carta a Diego Rivera publicada no dossiê, o caráter da guerra sino-japonesa e qual deveria ser a política dos revolucionários chineses e do resto do mundo: lutar contra o Japão pela libertação nacional e, ao mesmo tempo, enfrentar politicamente o regime de Chiang Kai-shek. Qualquer postura de neutralidade nessa guerra seria um desastre. Trotsky também estava em discussão com o SWP americano, que fez uma grande campanha de solidariedade ativa tanto com o partido trotskista chinês quanto com o movimento de resistência, coletando fundos de ajuda direta e promovendo ações de boicote dos trabalhadores contra a indústria de armas japonesa, enquanto criticava a liderança burguesa de Chiang Kai-shek e, é claro, denunciava os verdadeiros interesses e hipocrisia do governo Roosevelt em sua intervenção na guerra contra o Japão. O texto A Guerra no Extremo Oriente mostra que a política do trotskismo é sempre a de buscar uma saída independente para a classe trabalhadora sem confiar em nenhuma liderança burguesa, muito menos imperialista.

Em ambos os casos, então, o desafio para os revolucionários era duplo: primeiro, analisar o caráter dos conflitos concretos por suas tendências objetivas na luta de classes e suas consequências, e não simplesmente por suas direções, levando em conta a totalidade das contradições e, segundo, desenvolver uma intervenção política consistente em cada país. Tanto na Etiópia quanto na China, as lideranças da luta anti-imperialista não eram operárias nem socialistas, mas sim burguesas e reacionárias, mas Trotsky e os revolucionários explicaram o caráter progressista de uma frente militar contra a outra, a importância dos slogans democráticos de libertação nacional e que a vitória do povo etíope, bem como a vitória do povo chinês, contra os imperialismos agressores desencadearia uma nova onda de lutas e revoluções dos oprimidos. Mas, nesta conjuntura, os trotskistas não deixaram por um segundo de se demarcarem politicamente dos imperialismos supostamente amigáveis, que procuravam intervir em tais conflitos para derrotar seus concorrentes imperialistas e aumentar seu próprio domínio colonial. O texto de Klement de 1937, que é um comentário sobre uma parte chave do texto de Trotsky de 1934, analisa as tarefas dos revolucionários nos países imperialistas quando seus próprios governos intervêm em guerras progressistas para ajudá-las e é de grande importância hoje, pois explica como a tarefa do derrotismo revolucionário se concretiza de acordo com o caráter concreto de cada guerra e de acordo com o papel de cada imperialismo nela.

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