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segunda-feira, maio 27, 2024

O último combate de Lênin, a primeira batalha contra o stalinismo

Na reunião do Comitê Central de 6 de outubro de 1922, com Lenin ausente, Stalin aprovou um texto que limitava severamente o monopólio estatal sobre o comércio exterior. Alguns dias depois, Lênin enviou uma carta ao CC com uma dura crítica a essa decisão.

Por: Francesco Ricci

Em 13 de dezembro, Lênin escreve a Trotsky e, percebendo que suas posições sobre essa questão convergem, pede que ele dê uma batalha em nome de ambos na próxima reunião do organismo de direção.

Mas vamos dar um pequeno passo atrás: Por que Lênin não participa das reuniões e se limita a escrever cartas? Porque ele está gravemente doente e acamado. Ele já havia sofrido um primeiro AVC. Mas já no último Congresso do Partido do qual participou, o XI, na primavera de 1922, iniciou uma batalha contra os males da burocratização que, segundo ele, estavam crescendo no Estado. Foi nesse Congresso, em seu discurso de 27 de março, que ele afirma: “A máquina escapa das mãos daqueles de quem a dirige” [1]. É por isso que, alguns meses depois, em uma reunião particular, ele propôs a Trotsky a formação de um bloco “contra o burocratismo em geral e contra o Orgbureau em particular” [2]. E o Orgbureau significa Stalin.

Na noite entre 12 e 13 de dezembro, outro AVC paralisou Lênin. Ele não poderá participar da reunião do CC dessa forma; tendo melhorado nesse período, em 16 de dezembro ele escreve ao CC informando aos seus membros que chegou a um acordo total com Trotsky, que defenderá o ponto de vista comum na próxima reunião.

No CC de 18 de dezembro, a posição de Lênin e Trotsky é aprovada, modificando a orientação anterior. Stálin observou com preocupação o movimento de um Lênin que não havia sido completamente paralisado pela doença. É por isso que ele fez com que o CC lhe confiasse, em 18 de dezembro, a responsabilidade total pelos cuidados de Lênin. Ele queria isolá-lo e pediu aos médicos que limitassem sua atividade política a alguns minutos por dia, durante os quais Lênin só poderia ditar algumas linhas para suas secretárias, mas não poderia receber respostas às suas cartas ou discutir política com os raros visitantes permitidos de ir ao seu leito.

A proibição, como bem observou o historiador Jean Jacques Marie, é desprovida de qualquer fundamento médico: além disso, impedir que um revolucionário que passou toda a sua vida imerso em política, ocupar-se com política é, de fato, tentar destruir sua força, agravar sua doença. Na realidade, a verdadeira preocupação de Stalin não é a doença de Lênin, mas, como Marie escreve: “Stalin quer ter em mãos o homem que decidiu iniciar uma batalha com Trotsky contra ele” [3].

Sabendo da primeira vitória obtida no CC, em 21 de dezembro Lênin ditou a Krupskaia uma carta a Trotsky: “Proponho não parar, mas continuar a ofensiva” [4]. A ofensiva da qual Lênin fala é aquela contra Stálin e os burocratas que o secretário do CC está organizando ao seu redor.

Mas Stalin está no controle e é rapidamente informado do fato de que Krupskaia deixou Lenin ditar uma mensagem para Trotsky; então telefona para ela e a cobre de insultos, ameaçando enviá-la aos organismos disciplinares por comprometer o tratamento de Lenin. Lênin tomará conhecimento desse episódio apenas três meses depois: essa precisão é importante porque significa que, (…) escreveram vários comentaristas, a divergência entre Stalin e a esposa não influenciou no Testamento que Lênin começará a ditar naqueles dias.

O ditado do Testamento

A história da última batalha de Lênin (para recuperar a expressão com a qual Lewin intitulou seu livro sobre o assunto) é geralmente desdenhada pelos historiadores, sejam eles de matriz stalinista, social-democratas ou burgueses. Por quê? Porque é um terreno pedregoso sobre a teoria da continuidade Lênin-Stalin, por sua vez indispensável tanto aos burocratas de ontem para reivindicarem a Lênin para justificar seus crimes, tal como é útil à burguesia e seus agentes para liquidar o comunismo com o stalinilismo e a qualquer projeto de destruição da sociedade dividida em classes.

O que mais tarde ficou conhecido como Testamento são elaborações que Lênin queria enviar ao XII Congresso do Partido Bolchevique, previsto para os meses seguintes [5]. Inicia seu último ditado para as secretárias, Maria Volodiceva e Lydia Fotieva, em 23 de dezembro de 1922 e o concluirá em 4 de janeiro de 1923 com uma última mensagem importante. No texto, Lenin inicia dando razão a Trotsky contra Stalin no debate sobre o Gosplan (a Comissão Estatal de Planejamento). Em seguida, passa a avaliar os principais dirigentes do partido.

Lênin destaca “o enorme poder” que Stalin “concentrou em suas mãos”. Depois de dizer que Stalin e Trotsky são os dois membros “mais eminentes” do CC, acrescenta que Trotsky é “o mais capaz entre os membros do atual CC”. Indica alguns limites do dirigente com quem levou adiante uma batalha contra a burocracia (“uma tendência excessiva de considerar o lado puramente administrativo dos problemas” e “autoconfiança excessiva”), mas esses são insignificantes em relação ao julgamento implacável que ele faz de todos os outros expoentes do grupo dirigente do partido.

E não é só isso. Em 4 de janeiro, ditou mais uma nota sobre Stálin: “Stálin é muito rude, e esse defeito, que é tolerável no ambiente e nas relações entre nós, comunistas, torna-se intolerável nas funções de Secretário-Geral. É por isso que proponho aos camaradas que pensem em uma maneira de remover Stalin dessa tarefa e nomear para esse cargo outro homem que, além de todos os outros aspectos, se distinga do camarada Stalin apenas por uma qualidade melhor, a de ser mais tolerante, mais leal, mais cortês e mais atencioso com os camaradas, menos caprichoso etc.”.

É um golpe muito duro, propõe a destituição de Stalin. Lênin não procura um acordo com Stalin, mas adverte Trotsky contra as manobras do secretário do partido. E a batalha continua. Agora Lênin assume a defesa da questão georgiana, contra a política chauvinista defendida por Stalin. É assim que Trotsky retoma a história em sua autobiografia: “Lênin cita apenas seis pessoas e as caracteriza com palavras comedidas. O objetivo indiscutível do Testamento é facilitar-me o trabalho de direção. Lênin quer realizar essa tarefa, obviamente, com um mínimo de tensão pessoal. Fala de todos com a máxima circunspecção e expressa com delicadeza até mesmo os julgamentos que de conteúdo condenam. Ao mesmo tempo, atenua com algumas reservas minha clara designação para o cargo mais alto. Somente na avaliação de Stalin é que se ouve um tom diferente, que, em uma nota agregada algum tempo depois, chega a ser uma verdadeira ruptura”. Em seguida, Trotsky acrescenta: “Dois meses se passaram, durante os quais a situação ficou definitivamente mais clara. Lênin já estava se preparando não apenas para destituir Stálin da secretaria geral, mas também para desacreditá-lo aos olhos do partido”.

Para “desacreditar Stalin” e continuar a batalha, Lênin ditou dois artigos: “Como organizar a inspeção operária e camponesa” e, mais explicitamente, “Melhor menos, mas melhor”. Observe que a Inspeção que Lênin propôs reorganizar com urgência havia sido chefiada há poucos dias por Stálin. Esse golpe também foi contra Stalin. O politburo do partido discutiu na oportunidade publicar no Pravda o segundo de seus dois artigos. Um dirigente próximo havia proposto a publicação de apenas uma cópia para mostrar a Lênin… No final, o texto foi publicado no Pravda em 4 de março.

Lênin escreveu imediatamente aos dirigentes georgianos declarando-se solidário à posição deles e contra a posição da “Grande Rússia” de Stalin, ou seja, contra a negação do direito de autodeterminação da Geórgia e a possibilidade de criar uma república confederada à Rússia e não subordinada a ela.

Mesmo nessa ocasião, Lênin recorre ao dirigente por quem tem maior estima, aquele que ele considera que deve substituí-lo no caso de sua morte: Trotsky. Em 5 de março, ele ditou uma carta a Trotsky pedindo-lhe que fizesse o que já havia feito por ocasião do debate sobre o monopólio: “Se você concordar em assumir a defesa [da questão georgiana, ndr], poderei eu ficar tranquilo” [6]. Informa outra vez a Trotsky, sempre através de suas secretárias, para atacar frontalmente a Stalin no iminente Congresso.

Durante esse período também foi informado sobre as ofensas de Stalin proferiu contra Krupskaia em dezembro passado. Naquela ocasião, ditou uma carta dirigida a Stalin, anunciando que esperava seu pedido pessoal de desculpas pelo ataque à sua esposa, uma dirigente do partido, e que o considerava um ataque pessoal.

Em 9 de março, quando a batalha estava apenas começando, Lênin sofreu outro AVC, que o privou da fala. De março de 1923 a janeiro de 1924 – meses antes de sua morte – Lênin não verá mais Stalin. As relações entre eles foram rompidas.

O destino do Testamento

Qual foi o destino do Testamento de Lênin? O texto não foi lido no XII Congresso (abril de 1923). Após a morte de Lênin (21 de janeiro de 1924), Krupskaia levou o documento ao CC e pediu que o texto fosse lido no XIII Congresso, que só ocorreria em maio de 1924. Mas os dirigentes – sob proposta de Stalin – Kamenev e Zinoviev (que formavam uma fração secreta) propõem que isso seja feito de forma reservada. Trotsky está em minoria. Após a insistência de Krupskaia, foi decidido que ele deveria ser lido apenas para os dirigentes-delegados, em uma reunião realizada em 22 de maio de 1924, com o compromisso de sigilo dos presentes e nem mesmo de fazer anotações: na plenária geral dos delegados, o texto não foi distribuído nem lido.

A publicação, primeiro em partes e depois na íntegra, será feita no exterior um ano depois por Max Eastman, um militante próximo de Trotsky. Na Rússia, o Testamento só foi publicado em 1956, por Krushev, como um instrumento na luta que se abriu entre as diversas frações em disputa após a morte de Stalin (1953), no curso da chamada “desestalinização”.

Muitos textos foram escritos com base nas considerações de Deutscher, um dos mais importantes biógrafos de Trotsky, por um período dirigente trotskista (contrário à constituição da Quarta Internacional em 1938), que presumem uma hesitação por parte de Trotsky: Por que ele não protesta contra a publicação do texto? Por que ele não inicia rapidamente uma batalha contra Stalin?

Na realidade, como documentaram todas as melhores biografias e os estudos mais recentes, Trotsky simplesmente acha que não é taticamente oportuno, com Lênin gravemente doente, muito menos depois de sua morte, lançar um ataque frontal para a destituição de Stálin. Ele procura travar um combate político preparatório, tentando acumular as forças necessárias. Daí sua aceitação de uma série de compromissos na que ele entende ser uma batalha que não pode ser vencida somente por ele e em um único golpe. Acima de tudo, espera que a revolução na Europa, na Alemanha, possa romper o isolamento russo, a principal causa do avanço da burocracia.

Em 1994, é descoberta uma primeira falsificação do Testamento.

Até a abertura dos arquivos de Moscou após a queda do stalinismo no final da década de 1980, isso era tudo o que sabíamos sobre o Testamento.

O próprio Trotsky explicou como aquela única frase do texto, na qual Lênin se refere a ele em termos relativamente negativos, teria que ser considerada no contexto do raciocínio de Lênin, que então o indicava, de fato, como seu sucessor para a direção da revolução.

Em particular, no artigo “Sobre o Testamento suprimido de Lênin”, Trotsky insistia na interpretação falsificada dessa frase pelos stalinistas, que a fizeram circular junto com a “síntese” do Testamento, não baseada na versão original.

Qual é a frase em questão? Daquela em que Lênin, depois de já ter falado positivamente de Trotsky, chegando então aos outros dirigentes do primeiro escalão, Kamenev e Zinoviev, sublinha “não casualmente” os graves erros políticos que eles cometeram no decorrer de 1917 (…). É nesse ponto que Lênin acrescenta que, de qualquer forma, esses erros não deveriam ser jogados na cara dos dois dirigentes, assim como não se poderia acusar Trotsky de seu passado não bolchevique.

Essa não é a versão “original” – ou, pelo menos, a considerada original também por Trotsky. Stalin, ao contrário, fez circular leituras em que essa frase era invertida: tanto os erros de Kamenev e Zinoviev quanto o passado não bolchevique de Trotsky não poderiam ser subestimados ou esquecidos porque teriam reflexos no presente.

O fato é que Trotsky nunca questionou publicamente essa frase (pelo menos na versão que ele acreditava ser a original), embora, sem dúvida, essas palavras fossem contraditórias com o resto do texto e, especialmente com o contexto da última batalha de Lênin. Por que Lênin deveria retornar, ainda mais enfaticamente, ao passado não bolchevique daquele que se tornou, depois de 1917, em suas próprias palavras, “o melhor dos bolcheviques”, o principal dirigente com Lênin na revolução? Por que ele entregaria nas mãos de Stalin uma arma contra Trotsky, enquanto Trotsky era seu principal aliado na batalha contra Stalin e a burocracia?

Durante anos, esse ponto permaneceu obscuro. Até que, com a abertura dos arquivos de Moscou, surgiram novos documentos. Vejamos.

Em 1994, o historiador Jurij Buranov escreveu um livro intitulado Lenin’s will. Falsified and forbidden; from the Secret Archives of the former Soviet Union [O Testamento de Lênin. [Falsificado e proibido; dos Arquivos Secretos da antiga União Soviética]. No livro, ele desenvolve um tema que já havia abordado em sua revista russa em 1991, para o qual também recebeu espaço no diário italiano La Stampa, em artigos de Giulietto Chiesa (durante anos, o enviado da Unitá em Moscou).

Nos artigos de 1991, e também no livro de 1994, Buranov explica ter encontrado nos arquivos soviéticos uma página manuscrita datada de 23 de dezembro de 1922, que abre o texto de Lênin mais tarde conhecido como Testamento, compilado (como confirmado por especialistas em caligrafia) por Nadiezhda Allilueva, uma das secretárias de Lênin e também esposa de Stalin.

A situação é interessante por vários motivos: não era o turno de Allilueva com Lênin naquele dia (como atestam os diários das secretárias). Naquele dia, Volodiceva estava com a tarefa. Esta última, como já havia aparecido nas entrevistas que permaneceram inéditas até 1989, realizadas em 1967 pelo historiador Aleksandr Bek com as secretárias de Lênin, admitiu que, como Lênin ditou o Testamento, as secretárias rapidamente levaram o texto a Stalin.

Quando Volodiceva, sob as ordens de Fotieva – a responsável pelas secretárias – levou o primeiro ditado de Lênin ao escritório de Stalin, ela encontrou Allilueva, Bukharin e outros dirigentes. Stalin leu o texto e, visivelmente assustado, deu a ordem para queimá-lo. Mas pede à sua esposa que faça primeiro uma cópia a ser guardada, enquanto ordenava a Volodiceva que inserisse na cópia a ser mantida no arquivo algumas frases que Lênin não havia ditado. E foi a partir dessa versão modificada que são feitas as cinco cópias dos textos de Lênin.

Assim, o texto encontrado nos arquivos por Buranov, escrito pela mão da esposa de Stalin, é uma cópia do texto original realmente ditado por Lênin. Essa página difere em uma frase daquela publicada posteriormente nas Obras de Lênin e considerada por todos, durante décadas, como o original: onde Lênin diz que concorda com Trotsky sobre a questão do Gosplan (“na reunião, a esse respeito, com o camarada Trotsky”), por ordem de Stalin foi acrescentado: “até certo ponto e sob certas condições”.

Essas poucas palavras, como se pode ver, distorcem o significado da frase: não apenas relativizam o acordo entre Lênin e Trotsky sobre esse importante ponto (que constitui o início da batalha contra Stálin), mas fazem com que pareça quase uma diferença entre os dois, que Lênin resolveria com um compromisso parcial.

Buranov demonstrou desse modo, inequivocamente, que Stalin falsificou o Testamento, pelo menos na página em que a cópia do original foi encontrada. Mas é possível acreditar que no restante do texto, que foi pontualmente entregue pelas secretárias a Stalin como Lênin ditou, não haveria outras falsificações?

A hipótese de Canfora

Muitos anos mais tarde, Luciano Canfora, um historiador com formação stalinista e certamente sem nenhuma suspeita de simpatia por Trotsky, empenhado geralmente em descobrir alguma diferença inexistente entre Stalin e Togliatti, a fim de beatificar este último e a chamada “via italiana para o socialismo”, ou seja, o reformismo stalinista dirigido por um dos piores stalinistas da história, Togliatti, publica um livro dedicado às falsificações de vários textos históricos. No livro, ele também trata do Testamento de Lênin.

Recapitulando as descobertas feitas por Buranov, que provam incontestavelmente que pelo menos o ditado de 23 de dezembro foi adulterado por Stalin, Canfora se pergunta: e se a mesma coisa, usando o mesmo método, ou seja, acrescentando uma frase para distorcer o significado, tivesse sido feita também em outras partes do texto?

Relendo o Testamento, parece evidente que a frase mais contraditória é a que mencionamos acima, aquela sobre o passado não bolchevique de Trotsky. Essa frase constituiu (seja na versão “original” ou em sua deformação) na época, e por décadas, o cavalo de batalha dos stalinistas: a frase graças à qual eles tentaram obscurecer o verdadeiro significado do Testamento.

O raciocínio de Canfora a esse respeito é muito simples: sabemos que Stalin mandou falsificar uma frase na parte inicial do ditado; sabemos que ele teve a possibilidade, por meio de suas secretárias, de acrescentar outras “correções” ao texto de Lênin (que não sabia que suas páginas acabavam diretamente na mesa de Stalin); sabemos que aquela frase, fundamental, não está em sintonia com as intenções de Lênin; sabemos que essa frase, mesmo do ponto de vista linguístico, não concorda com o texto.

Canfora não tem provas, porque não foram encontradas outras cópias das outras páginas originais do Testamento. É possível que Stalin não tenha mandado fazer cópias, como fez com o ditado de 23 de dezembro. Ou é possível, para não dizer provável, que as cópias feitas tenham se perdido nos arquivos ou destruídas. A conclusão do historiador, repetimos, desprovido de simpatias pelo trotskismo, é, portanto, uma só: a quase certeza, com base em todas as evidências, de que Lênin nunca ditou em seu Testamento qualquer frase sobre o passado não bolchevique de Trotsky.

Sabendo o que Stalin fez depois: a falsificação sistemática de toda a história revolucionária para reivindicar para si um papel fundamental que ele nunca desempenhou nos momentos cruciais; o extermínio de todos os dirigentes bolcheviques; talvez também, como alguns historiadores suspeitam sem ter provas, o envenenamento de Lênin; sabendo de tudo isso, seria estranho surpreender-nos se a hipótese de Canfora coincidisse com a verdade dos fatos.

É significativo que nem a descoberta de Buranov nem a hipótese de Canfora tenham encontrado espaço nos sucessivos estudos históricos e suas publicações. Quanto a nós, o assunto despertou apenas algum interesse jornalístico e, pelo menos na Itália, também se seguiu uma ampliação dada por Canfora à investigação de Buranov.

Mesmo que a hipótese de Canfora encontrasse confirmação documental, a situação não mudaria o curso da história nem acrescentaria muito aos crimes do stalinismo. Mas seria mais uma demonstração, somando-se a inúmeras outras, de que entre Lênin e Stálin havia uma diferença irreparável. De um lado, a revolução e o Partido Bolchevique, do qual o primeiro foi o autor; do outro, a contrarrevolução e a burocracia stalinista, pela qual o segundo foi responsável.

Uma curiosidade: o erro de Canfora

Para concluir, vale a pena observar o fato – que aparentemente também escapou a todos os que revisaram o livro de Canfora – de que “A história falsa” contém uma falsificação involuntária, ou pelo menos um erro grosseiro, ainda mais imperdoável em um livro que desmascara as falsificações históricas.

Na reconstrução do momento em que os dirigentes do partido foram conhecer o Testamento de Lênin, Canfora se baseia na reconstituição feita pelo escritor Emil Ludwig, que, citando Radek (na época um dirigente próximo a Stálin), escreve sobre “um salto na cadeira” que Trotsky teria dado durante um CC no qual Stálin leu o Testamento e, em particular, no momento da leitura da frase sobre seu passado anti-bolchevique. De acordo com Ludwig, citado por Canfora, Trotsky teria pedido a Stalin para reler esse fragmento.

Depois de apontar corretamente que a primeira leitura do Testamento foi, de fato, feita em uma plenária restrita do XIII Congresso, em maio de 1924, Canfora dá como certo o resto da história de Ludwig e Radek, e arrisca em suposições de que Trotsky pode ter achado a frase suspeita, mas não o suficiente para demostrá-lo. Provavelmente, acrescenta Canfora, Trotsky já conhecia o texto original (sem a frase criminosa), visto que uma das secretárias de Lênin, Marija Gljasser, era politicamente próxima a ele e poderia ter lhe dado essa informação.

Mas Canfora comete um erro que poderia ter evitado se tivesse se dado ao trabalho de ler o artigo em que Trotsky, em 1932, dedica à história do Testamento. Nele, Trotsky explica que Ludwig-Radek mentem para ampliar a lenda propagada pelos stalinistas de que o Testamento conteria duras acusações de Lênin ao passado não-bolchevique de Trotsky, quando, ao contrário, no texto original (ou melhor, podemos dizer hoje, o texto que Trotsky supunha ser o original) Lênin diz que não imputaria a Trotsky seu passado não-bolchevique. Trotsky acrescenta que não deu nenhum “um salto na cadeira” e que toda a reconstrução de Ludwig é falsa não apenas porque (como lembra também Canfora) o Testamento foi lido para os dirigentes em outro momento, senão porque que o leu foi Kamenev e não Stalin. Um “um salto na cadeira”, conclui Trotsky, efetivamente se deu, mas em outra ocasião. Foi em um plenário do Comitê Central em 1926 que vários textos até então inéditos de Lênin foram lidos (dessa vez por Stalin). Foi nessa ocasião que Trotsky interrompeu Stalin durante a leitura da carta de 5 de março de 1923 (citada acima), uma carta na qual Lênin convidava Trotsky a defender a questão da Geórgia no CC. Essa carta terminava com palavras muito afetuosas,  que eram raras para Lênin: “Com as melhores saudações comunistas”. Ao ler, Stalin pulou palavras e leu de forma mais sucinta “saudações comunistas”, então Trotsky (cuja memória recordava desse detalhe significativo da carta recebida de Lênin) o interrompe e pede que ele releia as palavras com precisão. O que Stalin teve de fazer, irritado porque aquelas “melhores saudações comunistas” eram dirigidas por Lênin ao dirigente com quem ele havia decidido travar sua última batalha, a primeira tarefa dos bolcheviques contra a degeneração stalinista.

Notas:

[1] LENIN, V. I., em Opere Complete, vol. 33, p. 253.

[2] TROTSKY, La mia vita, p. 441.

[3] MARIE, J. J. Lénine, p. 271 (nossa tradução do francês).

[4] LENIN, V. I. op. cit., vol. 45.

[5] Veja V.I. Lênin, op. cit., vol. 36.

[6] Citado em V. I. Lênin, op. cit., vol. 45.

Tradução para o espanhol: Nívia Leão e Natalia Estrada.

Tradução para o português: Rosangela Botelho

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