Boletim Eletrônico



Eleições da Grécia: Contra a Troika e seus planos de austeridade PDF Imprimir E-mail
DECLARAÇÃO LIT-QI
Escrito por Secretariado da LIT-QI   
Sáb, 26 de Maio de 2012 17:10
Por uma frente que prepare um governo da esquerda, recuse o Memorando da Troika e prepare um plano de resgate dos trabalhadores e do povo.
 
Os resultados das eleições gregas do dia 6 de maio refletem a enorme rejeição do povo grego aos contínuos “planos de ajuste” impostos pela troika (União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional). As eleições consumaram a queda do governo de Luca Papademos, o ex-chefe do Banco Central Europeu (BCE), que a Troika impôs sem passar pelas urnas.
 
As eleições foram uma derrota eleitoral dos governos identificados com os duros ataques aos trabalhadores, sejam os conservadores, liberais ou social-liberais. A rejeição aos governos que atacam os trabalhadores vem sendo uma constante desde o início da crise. Como na Grécia, essa rejeição se expressou nas eleições municipais ou regionais na Inglaterra, Itália, na Alemanha e nas eleições presidenciais da França.
 
Os resultados gregos foram uma péssima notícia para a troika, e expressaram uma crise bem mais profunda no regime político e na institucionalidade vigente, demolindo o bipartidarismo no qual se sustentou, durante mais de 40 anos, a democracia capitalista grega.
 
As eleições, longe de reconduzir a situação política para a estabilidade desejada pelos partidos do regime, impuseram uma situação de “desgoverno’ e de crise de todo o regime. A democracia capitalista a cada dia mostra mais sua natureza de classe. Além de não representar a vontade popular, atua, em tempos de crise, em conflito total com a vontade da imensa maioria dos trabalhadores e do povo, como demonstram as votações de aprovação do “memorando” (plano de ajuste imposto pela troika) pelo Parlamento e o governo grego, contra 90% da população mobilizada, em greves gerais, em manifestações de centenas de milhares ou na já histórica Praça Syntagma.
 
Uma surra aos partidos do regime
 
Os partidos do regime, o social-democrata PASOK e o conservador Nova Democracia, receberam uma autêntica surra e passaram de 77% dos votos obtidos nas eleições anteriores para 32% nas últimas.
 
Outro aspecto das eleições foi o fortalecimento dos partidos e coalizões à esquerda da social-democracia, em especial o Syriza [1], e à direita, como o grupo fascista Aurora Dourada.
 
O Syriza obteve o segundo lugar nas eleições, com 16,6% dos votos que, somados aos 8% dos votos do KKE (Partido Comunista Grego) e aos 6,1% da Nova Esquerda, resultam em mais de 30% dos votos, isto sem contar numerosos grupos de esquerda, que de conjunto obtiveram uma votação nada desprezível, que ficaram fora do Parlamento.
 
As alternativas de esquerda, que questionaram a entrega do país à Troika e recusaram o seu Memorando, saíram respaldadas por milhões de trabalhadores gregos. Mas há também o surgimento do Aurora Dourada, uma organização nazi-fascista que defende a instalação de minas na fronteira com a Turquia para impedir a imigração e também a criação de campos de concentração para imigrantes. O surgimento do Aurora Dourada mostra a polarização social na Grécia, apesar de não ser neste momento uma opção da débil burguesia grega, nem do imperialismo. Porém, deve-se supor que tal alternativa não está totalmente descartada, principalmente se uma crise revolucionária se abrir no país.
 
A força desse grupo fascista não se assenta só na violência organizada e na xenofobia, mas também porque surge diante do país como um partido nitidamente contrário ao saque da Grécia pela UE, defendendo abertamente a saída da Grécia da zona do euro e da União Europeia.
 
O fracasso da “unidade nacional”
 

O plano da troika, da direita e da social-democracia na Grécia e em toda Europa é responder ao agravamento da crise com a formação de governos de “unidade nacional”. A “estabilidade” que eles querem não é mais do que uma tentativa desesperada de roubar nas negociações o que o povo grego conquistou com sua luta e com o resultado eleitoral. Quando chamam a toda a esquerda a assumirem sua “responsabilidade” não estão fazendo outra coisa senão um chamado à cumplicidade com esse roubo.
 
Os governos de “unidade nacional” não vão tirar o povo grego nem o povo europeu da miséria. São apenas governos que tem o objetivo de garantir a aplicação dos planos de ajuste, os cortes sociais e tentar evitar uma explosão social. A convocação de novas eleições para o dia 17 de junho é a confirmação da dupla derrota da Troika e seus lacaios gregos. Fracassaram em sua tentativa eleitoral e fracassaram em sua tentativa de formar um governo de “unidade nacional” para que nada mude.
 
Acatar o Memorando ou sair do Euro
 
Mediante dois “resgates” e os sucessivos planos de saque, a União Europeia vem preparando, há pelo menos dois anos, as condições para a saída da Grécia do bloco (algo que se torna mais provável conforme avança a destruição do país e a impossibilidade de pagar a dívida) sem arriscar o Euro, preservando o sistema financeiro europeu. Não é a toa que os grandes bancos e seguradoras - alemãs e francesas, sobretudo - já tenham transferido a dívida grega à UE (BCE e os países). O povo grego é espoliado, a economia grega é desmantelada e o país é convertido em uma semicolônia, marginalizado desde o ponto de vista de sua inserção no mercado europeu.
 
Ainda que continuem apostando em manter a Grécia dentro da zona do euro, o capital financeiro não hesitará em expulsar a Grécia da UE caso não cumpra com suas “obrigações”. Neste momento, porém, a expulsão da Grécia poderia aprofundar a crise de outros países do bloco, como a Espanha, ou levar a Europa a uma recessão ou uma total crise política da UE.
 
Por isso, o governo alemão continua a chantagear a Grécia, com o apoio do novo presidente da França, François Hollande. Assim, por via do BCE e do FMI, pressionam a Grécia para que aceite o Memorando e não saia da Zona do Euro. O novo presidente francês, em que pese seus discursos a favor do “crescimento” e da permanência da Grécia no Euro, tem acordo nos temas fundamentais com a chanceler alemã Ângela Merkel. A tarefa de Hollande, como social-democrata, é agora tentar convencer o Syriza.
 
Para a esquerda grega não há como fugir do problema. Por isso, não tem sentido a proposta defendida pela direção do Syriza de se opor ao Memorando, ao mesmo tempo em que defende a permanência do país na zona do euro.
 
A esquerda grega está diante de uma encruzilhada: Ou a expulsão da Grécia do Euro (se o Syriza não ceder totalmente ao Memorando ou não atender insuficientemente às exigências alemães); ou ceder “para não ser expulso do euro” e estender a agonia do povo grego. Aceitar a segunda opção é a aposta de condenação à miséria do povo grego, e seria um suicídio político do Syriza. Além disso, permitiria um claro fortalecimento do partido fascista que teria em suas mãos a bandeira da ruptura com a UE e o Euro.
 
Uma grande oportunidade para o povo grego e para todos os trabalhadores europeus
 
Os trabalhadores e o povo grego são a vanguarda de todos os trabalhadores da Europa. Suas contínuas greves gerais, manifestações em massa e agora o repúdio eleitoral à Troika marcam um caminho de esperança para todos.
 
O agravamento da crise e a situação que antecede a bancarrota de vários países europeus não podem ser compreendidos sem a tenaz resistência dos trabalhadores e dos povos, com os gregos à frente.
 
Na Grécia se vê o dilema para o resto da Europa. Ou os capitalistas serão salvos, ou serão os trabalhadores e o povo. Tal dilema está expresso nas próximas eleições gregas. Por um lado estarão os que defendem um governo de “unidade nacional” exigido pela Troika, que vai manter o saque do povo. Por outro, é necessário que se apresente uma proposta de um Governo da Esquerda, recusando o Memorando da Troika, e que possa oferecer melhores condições para lutar por uma saída operária e popular à crise.
 
Não serão poucos os esforços para “domesticar” um eventual governo do Syriza e da esquerda grega. Não serão poucas as ameaças de apocalipse na Grécia, caso triunfe um governo que se recuse a aplicar o Memorando e suspenda o pagamento da dívida. Os capitalistas ameaçam jogar a Grécia pra fora da zona do euro e da própria União Europeia se o próximo governo não se submeter aos ditames da Troika; e a expulsão do euro, dizem, representaria “uma catástrofe”. De que catástrofe falam estes senhores quando são eles os responsáveis por desmantelar o país, condenar à fome e à miséria milhões de trabalhadores, rebaixando salários e aposentadorias, desmantelando a educação e a Previdência pública? De que catástrofe falam quando milhões de jovens não têm nem presente nem futuro?
 
A catástrofe é a situação atual. E mais catástrofe vai atingir o povo se seus recursos continuarem sendo enviados para pagar a dívida aos banqueiros e aos que desmantelaram a indústria da Grécia.
 
A UE e o Euro não representam nenhuma unidade para os povos da Europa, são uma máquina de guerra social para o salvamento do coração da indústria e das finanças europeias (da França e Alemanha, especialmente) aprofundando a miséria dos países da periferia do bloco. A União Europeia é a Europa dos banqueiros, dos capitalistas e dos ricos.
 
A saída do Euro originaria, sem dúvida, uma situação muito complicada de forma imediata. O que exigiria aplicar um programa de medidas radicais como a suspensão do pagamento da dívida, a expropriação dos bancos e das indústrias fundamentais e empresas de setores estratégicos, o estabelecimento do monopólio do comércio exterior, além de medidas de urgência que suspendam todas aquelas aprovadas pelos governos da Troika e a a aplicação de um plano de recuperação do emprego que comece pela repartição do trabalho.
 
Em que pese as inevitáveis pressões, a hostilidade e o boicote dos ladrões da Troika, aplicar um plano como este seria o único caminho para acabar com a miséria dos trabalhadores e do povo e com o saque do país.
 
Por outro lado, o enfrentamento com os capitalistas deve se sustentar na mobilização dos trabalhadores e do povo grego, em busca do apoio e da solidariedade dos trabalhadores do resto da Europa. Sem dúvida, eles verão nessas medidas um verdadeiro modelo alternativo para sair da crise, um autêntico plano de resgate dos trabalhadores e do povo.
 
Uma saída para Grécia
 
Por uma frente que prepare um governo de esquerda que recuse o Memorando e aplique um plano de resgate dos trabalhadores e do povo.
 
Pesquisas eleitorais mostram a possibilidade de uma vitória do Syriza nas eleições do dia 17. A responsabilidade de todas as organizações da esquerda grega - a começar pelo Syriza - perante os trabalhadores e o povo adquire uma dimensão histórica. Em suas mãos está a opção em consumar a vitória diante da Troika conquistada no dia 6 de maio.
 
Por isso, é necessário se constituir uma Frente da Esquerda, encabeçada pelo Syriza com o KKE, Nova Esquerda e todos os outros grupos de esquerda que ficaram fora do Parlamento, como o Antarsya.
 
Os trabalhadores e o povo precisam impulsionar a conformação desta frente para que ela se organize com base em um programa de ruptura com a Troika, de rejeição ao Memorando e por um verdadeiro plano de resgate dos trabalhadores e do povo.
 
Um governo da esquerda provocaria uma crise no conjunto dos governos do euro, abriria melhores condições para a luta e contaria, sem dúvida alguma, com a simpatia e o respaldo de milhões de trabalhadores de toda a Europa.
 
As atitudes da direção do Syriza não aceitando, com justa razão, o Memorando, mas alentando a falsa ilusão de que a Troika aceitará a rejeição do mesmo sem expulsar a Grécia do Euro; defendendo medidas, mais do que justas, como a suspensão do pagamento da dívida, mas sem alertar que defender esta opção até suas últimas consequências leva à ruptura com a União Europeia, geram críticas e desconfianças reais no resto da esquerda sobre se o Syriza se manterá firme ou acabará cedendo às pressões da Troika.
 
No entanto, essas legítimas desconfianças e a exigência de firmeza ao Syriza quanto à rejeição do Memorando e à aplicação de um verdadeiro plano de medidas anticapitalistas, não pode servir de desculpa para negar a imperiosa necessidade de unir as forças de toda a esquerda opositora em torno da rejeição ao Memorando e na necessidade de um plano de resgate dos trabalhadores e do povo. Por essa razão não se pode compartilhar a política da direção do KKE, que se nega a realizar esta unidade e aponta como única perspectiva o voto nos comunistas.
 
Construir e sustentar a Frente nas urnas e na rua
 
À medida que cresce a resistência aos planos dos governos da Troika, os capitalistas respondem com seu típico cinismo “democrático”. A repressão, o cerceamentos das liberdades, a ilegalidade dos partidos, a modificação das leis eleitorais, as mudanças nas constituições sem consulta popular alguma, etc., têm sido a resposta destes governos. A ousadia do capital financeiro é tamanha que chegam a impor, como na Itália e na Grécia, presidentes de governos que, sem passar pelas urnas, foram designados pela Troika. Sua infâmia chegou ao ponto de cogitar a possibilidade de não convocar eleições (as de 6 de maio) na Grécia!
 
Quando na Grécia está colocada a possibilidade de um triunfo da esquerda que enfrente os planos da Troika, esperar eleições limpas e acreditar que vão assumir tranquilamente sua derrota ou desconhecer a existência de forças fascistas como o Aurora Dourada – que estarão a serviço de preservar o sistema a todo custo quando este se ver ameaçado – é como esperar que a raposa tome conta do galinheiro.
 
A Frente de Esquerda deve se construir, desde o início, chamando todas as organizações sindicais e populares, os imigrantes, para lhe dar seu respaldo. A frente deve se comprometer diante dessas organizações com um programa de confronto à Troika, submetendo seu governo às resoluções dessas organizações, além de chamá-las a acompanhar o processo eleitoral com a mobilização, manifestações e por uma greve geral por tempo indeterminado, caso seja necessário. Assim é possível mostrar aos inimigos do povo que se está disposto a não deixar que a vitória seja roubada.
 
Também é preciso constituir organismos de unidade nas empresas, bairros, faculdades e escolas para alentar a campanha e organizar a defesa diante de qualquer reação dos bandos fascistas. Neste sentido, a organização da autodefesa às atividades fascistas adquire uma importância decisiva, em particular entre os trabalhadores imigrantes.
 
Todo apoio e solidariedade ao povo grego
 
O que ocorre hoje na Grécia transcende os limites geográficos do país. A derrota dos partidos do Memorando, a vitória da esquerda grega e a conformação de um governo que se oponha à Troika, seria uma vitória de todos os trabalhadores europeus. Mostraria para todos que é possível derrotar a Troika e fortaleceria a resistência diante dos ajustes e a luta por uma Europa dos trabalhadores.
 
A Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI) denuncia a União Europeia como a responsável pela guerra social contra os trabalhadores e o povo. Combaterá todos os governos da Troika e defende uma saída operária e popular à crise. A mobilização das massas é a via para construir governos dos trabalhadores e para a mudança social. A LIT-QI luta por uma verdadeira união europeia, a construção dos Estados Unidos Socialistas da Europa. Por tudo isso, não podemos mais que colocar todas nossas esperanças e forças a serviço do triunfo do povo grego.
 
A LIT e todos os seus partidos, particularmente na Europa, oferece toda sua solidariedade à luta dos trabalhadores e do povo grego.
 
  • Abaixo o Memorando da Troika!
  • Nem um euro a mais para os saqueadores da Grécia!
  • Que os capitalistas paguem pela crise!
  • Por um plano de resgate dos trabalhadores e do povo grego!
  • Por um governo da esquerda que recuse o Memorando e prepare um plano de resgate dos trabalhadores e o povo!
  • Por uma Europa dos trabalhadores e do povo!
 
LIT-QI – Liga dos Trabalhadores – Quarta Internacional
 
20 de Maio de 2012
 
Tradução: Jeferson Choma

[1] NdT: Organizações que compõem o Syriza: Synaspismos (organização majoritária da qual participa Alexis Tsipras); AKOA - Esquerda Comunista Ecológica e Renovadora; KOE - Organização Comunista da Grécia (maoísta); DEA - Esquerda Internacionalista dos Trabalhadores; Kokkino (Ligado ao Secretariado Unificado); APO (Grupo Político Anticapitalista); Rosa; KEDA - Movimento pela Unidade na Ação da Esquerda; Energoi Polites - Cidadãos Ativos; Rizospastes; Eco-socialistas Grécia; DIKKI (Movimento Democrático Social).

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