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“Resgatemos as escolas e as conquistas dos trabalhadores, e não os banqueiros” PDF Imprimir E-mail
Revista CORREIO INTERNACIONAL
Escrito por Editor de Correo Internacional   
Sex, 23 de Março de 2012 00:23
Publicamos aqui um extrato de uma extensa entrevista com a companheira Florence Oppen do grupo simpatizante da LIT-QI nos Estados Unidos que se organiza em torno do jornal Workers’ Voice/A Voz dos Trabalhadores.
 
Como os trabalhadores e os setores populares a que vocês estão ligados veem a discussão entre o governo democrata de Obama e os republicanos sobre a dívida pública?
 
Florence Oppen: A população sabe que o que vai acontecer com a crise da dívida pública é que vão impor mais cortes às conquistas dos trabalhadores e ao setor público. E a população já está começando a questionar o fato de os bancos terem sido resgatados e de não se resgatar o setor público e os serviços sociais. Então há uma palavra de ordem muito popular que é “Resgatemos as escolas, não os bancos”, “Resgatemos os serviços sociais, não os bancos”.
 
Começa a surgir uma consciência de que há uma contradição muito grande no governo, que diz defender os direitos dos trabalhadores, mas está protegendo os grandes banqueiros.
 
E depois o problema é que, hoje, toda a política está ordenada em torno de uma vitimização de Obama. Que Obama não pode aprovar o orçamento porque os republicanos não deixam. O último é que os militantes do Tea Party, um setor de ultradireita dos republicanos, não deixam o presidente fazer isso. E é assim que a burguesia tem se justificado tradicionalmente para não implementar nenhum dos planos que prometeu, como o de imigração, de saúde, a reforma sindical, acabar com a guerra.
 
A grande contradição é que a população está começando a se dar conta de que tudo isso é uma farsa, que os democratas e os republicanos aplicam a mesma política. A população perdeu a confiança no governo, mas não vê uma alternativa política.
 
Que outros tipos de ataques os trabalhadores vêm sofrendo, além do rebaixamento salarial?
 
FO: São principalmente os ataques aos chamados benefícios, à assistência médica e às aposentadorias. Nos Estados Unidos, não há um plano nacional ou federal de seguridade social pública no âmbito da saúde ou das aposentadorias. Então, todos os trabalhadores que têm seguro de saúde é por convênio trabalhista. Mas só 12% dos trabalhadores são sindicalizados e têm convênio e contrato. A grande maioria dos trabalhadores está sob o sistema chamado “à vontade”, o que na verdade significa que está à vontade da empresa. Se você tem contrato, a empresa tem que negociar com o sindicato o que fazer com o seguro de saúde, e se você não tem contrato, a empresa pode tirar o seu seguro a qualquer momento.
 

O que estamos vendo no setor do funcionalismo público é uma privatização do sistema de aposentadoria. O trabalhador tem que contribuir com uma parte de seu salário mensalmente para ter direito a uma aposentadoria. Isso significa um corte salarial. Na universidade estadual onde eu trabalho agora a contribuição é de 5% do salário. Mas isso é só o começo. Também há um encarecimento muito rápido do plano de saúde. Hoje, se o trabalhador quer que o plano tenha cobertura para o cônjuge e os filhos, tem que pagar 300, 400 ou 600 dólares a mais por mês. O que se torna uma coisa impossível. Mas toda a saúde da família depende desse trabalhador. Sendo assim, de fato o trabalhador tem que se calar e aceitar esse corte salarial. E isso é o que mais enfurece os trabalhadores, porque sentem que atacam cada vez mais sua família. E se perguntam: se amanhã meu filho adoece, o que vou fazer? Mas têm que aceitar, porque há muito desemprego e não há condições para mudar de trabalho. Esse é o ataque mais forte. Esses cortes na saúde são o principal motivo para entrar em uma luta.
 
Quanto aos salários, há um estancamento desde os anos 1980. Os salários têm um aumento igual ou abaixo da inflação. E agora vemos alguns cortes salariais fortes, não em todos os setores.
 
Que lutas ocorreram?
 
FO: Entre março e maio, houve uma grande luta no estado de Wisconsin. Foi uma luta contra o ataque ao poder de negociação do sindicato do funcionalismo público. As burocracias sindicais do estado já haviam aceitado todos os cortes na saúde e na aposentadoria. Mas o que a burocracia não estava disposta a aceitar era perder o monopólio do poder de negociação, que era o que o governador republicano pretendia.
 
Ao sair à luta, os trabalhadores adicionaram a palavra de ordem “Não aos cortes”. Isso foi uma grande divisão entre a burocracia, que só dizia “pelos direitos sindicais”, e os trabalhadores, que diziam “pelos direitos sindicais, não aos cortes, greve geral”. A greve geral não se concretizou e os cortes continuam.
 
O que houve é que a burocracia e os democratas pretendiam que a população fizesse uma mobilização por um dia, mas foram atropelados. Foi montado um acampamento ao redor da câmara legislativa estadual em Madison, capital do estado, e depois a tomada da câmara. Lamentavelmente, pela falta de uma direção alternativa, essa luta se diluiu.
 
Mas depois surgiu uma discussão política entre os trabalhadores e os estudantes: o que fazemos agora? E aí apareceu o debate da necessidade de uma organização diferente, uma coordenação de lutas ou o que nos Estados Unidos se conhece como um Congresso de Sindicatos. Não surgiu uma oposição organizada no sindicato do funcionalismo público. Mas o CWA, o sindicato das comunicações, chamou uma jornada nacional de solidariedade aos trabalhadores de Wisconsin. Isso foi no dia 4 de abril. E, para todos os setores de esquerda, esse dia se transformou em um dia de ações simbólicas em todo o país. E serviu para iniciar uma reorganização em alguns setores de base.
 
Há uma discussão na vanguarda: se foi uma derrota, porque não conseguiram reverter os cortes, ou se foi uma vitória, porque obtiveram um avanço na consciência política e na mobilização.
 
A verdade é que, mesmo que não tenha havido uma grande luta nacional, a luta de Wisconsin é parte de uma série de sintomas que mostram que começa a haver as condições para isso. Devido à violência dos ataques contra os trabalhadores.
 
Existe alguma diferença importante entre como os operários nativos norte-americanos, brancos e negros, veem a situação e os de origem latina?
 
FO: Os operários brancos, tradicionalmente sindicalizados, sentiram-se traídos pelas direções de seus sindicatos e começaram a expressar objeções, inclusive fortes oposições aos planos de redução salarial das empresas. Por exemplo, os trabalhadores de uma planta da Ford na cidade de Indianápolis rejeitaram o contrato que a direção de seu sindicato, a UAW, havia acordado com a empresa. Apesar dessa rejeição, a direção nacional do sindicato (que se chama “internacional” porque abarca também os trabalhadores do Canadá) interveio e impôs o contrato, passando por cima da vontade dos trabalhadores.
 
As pessoas acham que há uma prosperidade que se perdeu nos Estados Unidos e que deveria ser possível recuperá-la. Este era o discurso de Obama. Como voltar aos anos 1950 e 1960.
 
Mas, para os trabalhadores imigrantes, não há lugar nesse projeto. Nunca acreditaram que com Obama voltariam a uma sociedade norte-americana de crescimento, porque nunca a viveram. Para eles, o governo de Obama era um governo menos racista, menos agressivo, menos violento e que prometia uma reforma na lei de imigração que daria condições de vida menos precárias à maioria dos trabalhadores ilegais. Mas não há nenhum setor de trabalhadores imigrantes que acredita na promessa de voltar à prosperidade dos anos 1950 e 1960.
 
Há uma cooptação do movimento de imigrantes pelo Partido Democrata, com um discurso de integração muito forte. Há propaganda nas ruas que diz: “eu não sou mexicano, sou norte-americano”. Mas, quando alguém fala com os setores operários de origem latina, percebe que ninguém quer ser norte-americano, ninguém acredita no sonho norte-americano. Este nunca foi o seu sonho e nunca será.
 
Por outro lado, os setores de operários brancos estão decepcionados, porque acreditavam nesse sonho. E sua reação automática é “vou votar nos republicanos” ou “não vou votar”.
 
Quais são as bases para desenvolver um trabalho político nos Estados Unidos?
 
FO: Posso apresentar sinteticamente alguns elementos.
 
A maioria dos grupos que atuam entre os trabalhadores pensa que o surgimento de uma oposição à burocracia é o suficiente. Não se preocupam em ter uma plataforma, um programa. Nós, ao contrário, sabemos que é necessário termos um programa. Mas qual programa?
 
Nós aprendemos muito com as experiências de companheiros de outros países, em especial do Brasil com o PSTU e a Conlutas. Mas há questões nos Estados Unidos que são específicas.
 
O fato de que estamos em um país imperialista é crucial. Por exemplo, a relação dos trabalhadores com a guerra é um ponto muito importante. O movimento operário não se posicionou em relação à guerra. Nenhum sindicato fez isso. Nenhum sindicato mobilizou para as marchas contra a guerra. Inclusive há um rumor de que a AFL-CIO censurou todas as notícias sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão em seu site e seu blog até as eleições do ano que vem. Por exemplo, nós somos uma das cinco organizações que fazem parte da coordenação nacional antiguerra.
 
A luta contra a guerra é algo que ninguém quer discutir. O argumento é que não se pode falar disso no movimento operário porque os trabalhadores têm uma consciência muito atrasada. Mas é justamente o papel do partido levar a discussão à classe operária para que esta comece a elevar sua consciência e a dar uma resposta a esse problema decisivo.
 
A coordenação nacional contra a guerra também colocou a questão de Israel e da Palestina. Isto é um tabu ainda maior no movimento operário. É um tema que as burocracias sindicais censuraram completamente. Não é permitido dizer nada sobre Israel.
 
Nós não achamos que esses sejam os únicos temas. Mas, se estamos em um país que está em guerra e está invadindo outros países, não podemos ficar calados sobre esse ponto.
 
Esta dimensão internacionalista e anti-imperialista parece-nos muito importante.
 
Inclusive é algo que os trabalhadores latino-americanos e afro-americanos que estão nos Estados Unidos entendem perfeitamente. Porque, cotidianamente, são vítimas deste Estado imperialista, racista e colonial. Então com eles não é uma batalha tão longa e difícil como pode ser com os trabalhadores brancos. Temos que nos apoiar nesses setores para desenvolver a discussão.
 
Junto com isso, a questão étnica – lá as pessoas chamam de “racial” - é incrivelmente importante, dada a opressão que os latinos e todos os imigrantes sofrem, além dos afro-americanos.
 
E, nesse contexto, está a luta contra o ajuste permanente a que os trabalhadores são submetidos, para fazê-los pagar pela crise provocada pelos banqueiros. Isso dá uma importância enorme à palavra de ordem que está adquirindo força de “salvemos as escolas e os serviços sociais, e não os banqueiros”. Porque dá a perspectiva para uma luta que vai contra o centro e o coração da política imperialista de superar sua crise à custa dos trabalhadores e do povo.
 
Estreitamente ligada a isso está a luta contra a burocracia nos sindicatos, pela democracia operária e por uma nova direção do movimento operário que organize de verdade a luta contra os cortes.
 
É necessário agregar a luta pelas liberdades democráticas e pelos direitos da mulher, especialmente das trabalhadoras.
 
Depois, há a questão de que perspectiva político-organizativa é possível propor nos Estados Unidos. Há uma discussão sobre a necessidade ou não de construir um Partido Operário, uma discussão muito presente nos anos 1930. Houve uma direção sindical, a dos Teamsters (caminhoneiros), que em um dado momento propôs essa perspectiva há poucos anos. Mas isso se diluiu. Nós não estamos em condições de nos posicionar sobre essa questão neste momento.
 

É óbvio que isso não esgota nem um pouco todas as questões fundamentais.

Fonte: Artigo publicado na Revista Correio Internacional (Terceira Época) no. 06

Tradução: Marcos Margarido


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