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O capitalismo saqueia e mata, a luta continua PDF Imprimir E-mail
ARGENTINA
Ter, 20 de Março de 2012 07:57

 O final do século XIX nos Estados Unidos e as primeiras décadas do século XX foram sacudidos por duras greves têxteis, a indústria pujante do momento.

As jornadas intermináveis, os salários miseráveis e as condições desumanas de trabalho, lançavam os operários à greve sob grito de: Redução da jornada de trabalho! Aumento de salário! Apesar das 16 horas diárias na fábrica, de socorrer às que desmaiavam de cansaço, de alumbrar a seus filhos sob os teares, de chorar companheiras envelhecidas pela brutalidade do trabalho ou doentes de tuberculose, que aos 30 anos agonizavam em seus postos, as mulheres tinham forças para lutar.

Em 1908 as operárias do vestuário de Chicago fizeram uma longa campanha por suas reivindicações. Em 1909, Nova York assistiu a vários meses de paralizações e manifestações protagonizadas por quase meninas que não chegavam aos vinte anos. E 1911 foi o ano de uma famosa greve têxtil que terminou de forma desastrosa. As trabalhadoras da Triangle Shirtwaist Company decidiram encerrar-se na planta até que a empresa escutasse suas demandas. A patronal trancou as portas e incendiou a fábrica.

Mas as lutas não cessaram: as mulheres se organizavam e lutavam por seus direitos, sobretudo com apoio das socialistas. Foi assim que Clara Zetkin, destacada dirigente do Partido Social-democrata Alemão, propôs em 1910, durante a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, que se instaurasse um dia internacional da mulher. Aprovou-se e decidiu-se que a lembrança devia ser ativa, mas não se determinou uma data. No ano seguinte um milhão de mulheres marcharam pela Europa. Em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro do velho calendário) as costureiras de Petrogrado mobilizaram-se ante a falta de alimentos, dando início ao processo revolucionário que acabaria no mês de outubro desse mesmo ano, com a conquista do poder por parte dos trabalhadores dirigidos pelo partido bolchevique. Assim, o Dia Internacional da Mulher passou a ser comemorado em 8 de março em todos os países.

Como vemos, a data surgiu de organismos de mulheres revolucionárias, como jornada de luta e em homenagem à mulher trabalhadora, seus sofrimentos e lutas. Entretanto, os que querem apagar seu caráter de luta, tomam como referência 1975, quando a ONU declarou o Ano Internacional da Mulher.
 
As mulheres não são todas iguais

A crise global o demonstra. Acreditam que estamos orgulhosas de Ángela Merkel, a primeira ministra alemã, que elabora os planos para colonizar a Grécia e afundar os trabalhadores europeus? ou de Hillary Clinton, a chanceler de Obama e coautora da política exterior do imperialismo ianque? Poderíamos, talvez, nos identificar com Margaret Tatcher, símbolo da pirataria inglesa nas Malvinas?

Quiçá Dilma Rousseff ou Cristina Kirchner pareçam mais próximas. Mas os efeitos da situação mundial vão revelando de que lado estão. Na Argentina, a Lei Antiterrorista, o projeto X, a proteção à megamineração, as mornas reclamação ante o espolio inglês, o amparo à TBA e as vacilações frente a seu crime, o ajuste aos trabalhadores e até a repressão aos quem lutam, mostram para onde aponta o governo na hora de pagar a crise.

Essas mulheres representam os interesses das grandes empresas e a patronal, defendem o capitalismo, um sistema que saqueia e mata em seu afã de lucro. Por outro lado, as trabalhadoras e desempregadas são o maior grupo explorado e oprimido do planeta.
 
O que significa comemorar o 8 de março?

É lutar para que os salários atinjam a cesta básica; contra os empregos precários; para fazer valer o direito à maternidade; para acabar com a violência das mortes por abortos clandestinos e conquistar o aborto seguro em hospitais públicos; pelo fim da violência doméstica ou o flagelo do tráfico de pessoas.

É apoiar às milhares de trabalhadoras da educação que lutam em todo o país; às companheiras que se rebelam contra as mineradoras; às que se mobilizam para penalizar a empresa ferroviária e os responsáveis políticos do desastre de Onze.

E significa sentir-se parte das milhares que lutam contra o ajuste europeu e das que, no Norte da África e Oriente Médio, são a vanguarda mundial da revolução.

Organizar-nos pelos direitos da mulher trabalhadora

“…Depois que a obrigaram a judicializar o caso, a mãe de uma menina de 11 anos que ficou grávida como consequência de um estupro resolveu que a gestação continuasse. A pequena tinha expressado sua intenção de “voltar a ser como antes”…”
 
“…Através da figura legal do compromisso, Marcelo Tomaselli recuperou a liberdade, depois de casar-se com Carla Flores, a quem tinha violentado, e a que assassinou a punhaladas poucos dias depois…”
 
“…Em 3 de julho de 2002 Marita Verón foi sequestrada próximo de sua casa. Tinha 23 anos e uma filha de 6. Foi vendida como mercadoria a uma rede de tráfico de pessoas dedicada à exploração sexual…”
 
Segundo um relatório da CEPAL, na Argentina e na América Latina diferentes formas de violência exercidas diariamente obscurecem a vida das mulheres. Incluem maus-tratos de parceiros, assédio e violência sexual, o tráfico de pessoas e a violência contra imigrantes, indígenas e negras.

A violência é o ponto mais estridente da discriminação contra as mulheres. Assim, apesar dos avanços médicos, são alarmantes os números da mortalidade materna, como consequência da falta de sistemas de proteção adequada. Em nosso país, o primeiro lugar é ocupado, de forma constante há 30 anos, pelos tristes números de abortos inseguros.

Há progressos?

As lutas pelos direitos das mulheres têm gerado avanços no terreno jurídico, maior participação sindical e política, acesso à educação e incorporação ao trabalho.

Nos governos kirchneristas sancionaram-se, entre outras, as leis Nacionais de Educação, de Saúde Sexual e Reprodutiva, de Educação Sexual, Contra a Violência à Mulher, Contra o Tráfico de Pessoas, e se estabeleceram a AUH e o Plano Nascer para mulheres com filhos ou grávidas, desocupadas ou sem amparo social.

Que resultados foram obtidos? Dois terços dos analfabetos são mulheres; praticamente não existem creches e são totalmente insuficientes os jardins de infância; aumentam as cifras de gravidez na adolescência, fonte de conformação de famílias pobres; em 2011 registraram-se 282 femicídios, mais que no ano anterior, com uma longa lista de mulheres queimadas por seus parceiros ou ex-companheiros, como Wanda Taddei, cujo caso está atualmente em julgamento; não diminuiu o tráfico de pessoas, essa máfia que envolve policiais, políticos e juízes.

Além disso, em 30 de novembro de 2011, no Congresso Nacional, onde o kirchnerismo possui ampla maioria, perderam status parlamentar a despenalização do aborto e a lei de fertilização assistida. Não só a Igreja pressionou; se essas atividades passassem aos hospitais públicos, a saúde privada perderia dois enormes negócios.

Oprimidas e exploradas

A opressão é mais velha que o capitalismo, mas dela se aproveita os patrões. Realizamos os piores trabalhos, pagam-nos menos, mantém-nos contratadas de forma precária durante anos. Se temos filhos não conseguimos emprego, nos demitem se estamos grávidas ou quando lhes convém. Nem sequer podemos optar, em caso de não estarmos em condições de ter um filho, porque o aborto é um “crime”, exceto claro, para as que podem pagar uma clínica cara.

Somos peça fundamental do que Marx chamou de “exército industrial de reserva”. Mantêm-nos na miséria e usam-nos para diminuir o salário e tirar conquistas de toda a classe trabalhadora.

Além disso, a educação, os meios de comunicação, a Igreja, fazem-nos responsáveis pelo bem-estar da família. Assim o estado e as empresas poupam muito dinheiro em restaurantes, lavanderias, creches, cuidado de idosos. Mas o mais importante: impedem, para metade da classe trabalhadora, as mulheres, a participação sindical e política. Deste modo dividem à classe e diminuem a força de milhões de companheiras.

Creches nos locais de trabalho e estudo

São muitos os problemas femininos não resolvidos por este governo. No entanto, um dos que mais nos preocupam é: quem cuida e educa nossos filhos enquanto procuramos emprego ou trabalhamos? Não há creches gratuitas e os jardins de infância são escassos.

Pagam-nos metade da cesta básica ou menos, por jornadas de 12 horas e não vemos nossos filhos durante todo o dia. Se queremos estudar é ainda pior: escolher ser mamãe implica renunciar a um emprego ou interromper a educação. A maioria ignora até a existência do artigo 179 da Lei de Contrato de Trabalho que dispõe a obrigatoriedade de creches, em locais onde trabalhem pelo menos 50 companheiras. A violência completa-se com a ilegalidade do aborto.

Isto mostra que Cristina Kirchner se diferença muito pouco de seus antecessores na proteção à mãe trabalhadora. As centrais sindicais também não ocuparam-se do tema.

Mas existem creches funcionando, em repartições estatais e em várias empresas. A partir daí, podemos começar a nos organizar em cada bairro, local de trabalho e estudo para comprometer os sindicatos e centros de estudantes, e exigir dos governos ou empresas, as creches que tanto precisamos.

Tradução: Érika Andreassy

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