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A Revolução Árabe nos meios de comunicação burgueses PDF Imprimir E-mail
OPINIÃO
Escrito por Florence Oppen   
Seg, 11 de Julho de 2011 03:09
Cinismo, racismo e manipulação
 
Simpatia ou hipocrisia?
 
A simpatia inicial dos meios de comunicação imperialistas (principalmente nos Estados Unidos e na Europa) em relação aos processos revolucionários no Norte da África só pode ser suspeita.
 
Na realidade, a mídia burguesa, longe de querer gerar algum tipo de apoio ou simpatia genuínos à revolução, revela a ideologia do imperialismo, e avisa de antemão o contexto em que este vai conter e tolerar esta revolução, o que reduz e limita terrivelmente seu potencial. A prova disso é que, a partir de certo momento, os processos revolucionários deixaram de aparecer na televisão.
 
Este enfoque de interpretação tem motivações e também consequências políticas, cuja análise é de grande importância tanto para as massas árabes como para a classe operária dos países imperialistas. Se não desmontarmos esta análise e mostrarmos seu caráter político, ou de classe, verdadeiro, muitos trabalhadores podem acabar pensando que, por exemplo, Obama ou Sarkozy apoiam as revoluções árabes e estão a favor da democracia operária.
 
“Eles” e “nós”: Dois mundos ou um só?
 
“Eles” e “nós”: a barreira “democrática”
 
A primeira característica do enfoque midiático é que apresenta a revolução na Tunísia, Egito, Líbia e outros países como uma revolução unicamente democrática. Isto é, uma revolução que não só se limita à conquista dos direitos democráticos, mas que também quer chegar a uma democracia burguesa como a dos Estados Unidos e dos países europeus: “O despertar árabe está focado na dignidade humana e nos direitos da população comum - valores nos quais se vive no Ocidente e que o Ocidente busca promover (The Economist, 17 de março de 2011). E, desta forma, a mídia divide sutilmente o mundo em dois blocos: os que vivem na democracia (burguesa) e os que vivem sob ditaduras.
 
Desta leitura se extrai, consciente ou inconscientemente, um enfoque neocolonial de tais processos políticos, em que se pressupõe que há países “avançados” econômica, política e culturalmente, e que há países “atrasados”. E que, portanto, o curso da história é um curso linear de desenvolvimento do “progresso” humano. Este “progresso” está supostamente liderado pelas potências imperialistas, que se apresentam como as mais “desenvolvidas” enaltecidas em uma falsa promessa de democracia.
 
Neste contexto tão desigual, a burguesia imperialista caracteriza essas revoluções como um passo em direção ao “progresso”- pré-desenhado no marco do capitalismo - desses países mais “atrasados” que supostamente são os países árabes.
 
Esta inabarcável “distância histórica” imposta pelos meios de comunicação na qual “eles”, os trabalhadores dos países árabes, aproximam-se de “nós” (a esse “nós” que os meios de comunicação representam - e a partir de onde se manifestam), não só está cheia de arrogância, não só expõe de novo a ideologia neocolonial do imperialismo, mas, além disso, constrói dois mundos que, na realidade, estão unidos no capitalismo como um sistema econômico internacional. Separa implicitamente os povos e a classe trabalhadora internacional, que no fundo têm as mesmas necessidades e preocupações, e estabelece um contexto no qual o trabalhador imperialista não pode se identificar de igual para igual com o trabalhador árabe em luta.
 
Uma revolução democrático-burguesa?
 
O objetivo ideológico dos meios de comunicação é, assim, bem claro: transformar a revolução em um processo de democratização burguesa, despojando-a de todo seu caráter de classe e ocultando o fato de que são revoluções contra governos burgueses, que têm, portanto, um conteúdo socialista.
 
Alguns meios de comunicação a comparam às revoluções europeias de 1789 ou de 1848, que marcaram uma transição do feudalismo ao capitalismo e da tirania à democracia burguesa, como se o Egito de hoje tivesse chegado finalmente ao lugar da “Europa” de ontem, esquecendo que foi precisamente o imperialismo europeu que impôs o capitalismo em suas colônias no século XIX.
 
O véu midiático sobre os interesses da classe operária mundial
 
As consequências desta análise e da manipulação do caráter social da revolução, que não é de nenhuma maneira uma revolução burguesa e “democrática”, mas uma revolução feita pelas massas trabalhadoras, são duas.
 
Por um lado, a mídia oculta a realidade social e material do que ocorre nesses países (uma revolução cuja natureza de classe é socialista). Redefine uma revolução que não é a sua, expropria dos revolucionários egípcios, que raramente são entrevistados, a palavra e a substitui sempre pela voz do comentarista europeu ou norte-americano, negando-lhes uma expressão política própria.
 
Por outro, ocultam dos trabalhadores dos países imperialistas sua própria realidade social e política. Como se eles não enfrentassem os mesmos ataques e desafios que os trabalhadores tunisianos durante esta crise, como se nos países imperialistas houvesse uma democracia real e bastasse votar nos partidos do governo para solucionar seus problemas.
 
Os governos burgueses imperialistas, em colaboração com seus aparatos de propaganda que são os meios de comunicação em massa, têm muito medo de que a revolução do Norte da África chegue a seus países. Por isso, devem controlar a mensagem política e a interpretação da revolução, assinalando, como já dissemos, que se trata unicamente de uma revolução democrático-burguesa.
 
O objetivo da burguesia é manipular o processo revolucionário para que a classe operária dos países imperialistas não enxergue interesses comuns com as lutas dos trabalhadores nos países árabes, utilizando a democracia burguesa como único esquema de interpretação e linha divisória.
 
Ao ignorar, minimizar ou censurar as lutas operárias, as greves e as ocupações de fábricas, as demandas sociais e econômicas dessas revoluções, escondem e dificultam o verdadeiro caráter político da revolução, bem como as bases para o desenvolvimento, em todos os países, de uma consciência internacional anti-imperialista e de luta pelo socialismo.
 
Uma nova oportunidade para que o imperialismo propague seu racismo e islamofobia
 
“Eles” e “nós”: a diferença de fundo é “cultural”
 
Segundo a burguesia, a classe operária norte-americana e europeia não só não compartilha os mesmos interesses e necessidades, não só nega a base material que une toda a classe operária mundial, que é a exploração e a opressão diária sofrida pela imensa maioria da população, mas, além disso, a burguesia insiste em separar esses setores da classe operária enfatizando diferenças “culturais” entre o mundo “civilizado” cristão, também conhecido como o bloco monolítico que supostamente é o Ocidente ou o Oeste, e o mundo árabe-muçulmano, “não civilizado”.
 
Essa é a segunda característica da análise burguesa do processo de revolução permanente: o âmbito do “choque de civilizações” que divide o mundo com linhas culturais rígidas e cheias de preconceitos, e não segundo a dinâmica real dos processos sociais, que são a luta de classes e a revolução permanente.
 
Comentaristas e jornalistas burgueses centram o debate sobre a compatibilidade ou não entre o “Islã” e os “valores democráticos”, ou entre a “cultura árabe” e a “civilização ocidental”: “não há nenhum modelo já disponível para uma sociedade árabe aberta e democrática, seja uma república ou uma monarquia constitucional”, a sociedade árabe é tão diferente que o modelo democrático “tem que ser reinventado do zero”. (The Economist, 10 de março de 2011).
 
Ou de maneira mais bruta e sincera: “O Egito é um país jovem, enfurecido e pobre. A imprensa do país só afirmou sua independência recentemente. Tem universidades inertes, pouca história de divergência individual e não tem tradição parlamentar. Está caracterizada pelo desprezo pelo Ocidente e pelo ódio por Israel. Faltam-lhe as fundações da democracia.” (The Economist, 10 de março de 2011).
 
O racismo da mídia contra a solidariedade internacional da classe operária
 
Poderíamos nos perguntar: qual é o objetivo real de tanta xenofobia? Tal representação não manipula só a realidade dos processos revolucionários, mas também tenta moldar a relação dos trabalhadores dos países imperialistas com os trabalhadores dos países semicoloniais ou dependentes. Trata-se mais que tudo de propaganda para conter e alienar suas próprias bases, a classe operária norte-americana e europeia, com os seguintes argumentos.
 
Primeiro, o sujeito colonial ou neocolonial sempre aparece no contexto ideológico em que aspira a se parecer com o colonizador, sempre despossuído de uma cultura própria e “civilizada”, e, o que é pior, sem a possibilidade de escolher um curso histórico diferente do “desenvolvimento capitalista”.
 
Segundo, as delimitações de classe estão totalmente ausentes. O explorado e oprimido nunca aparece questionando nem a exploração nem a opressão gerada diretamente pelas potências imperialistas. A relação de dominação e de exploração é o ponto cego dos meios de comunicação burgueses. Cria-se uma relação artificial de exterioridade ao sofrimento e à raiva do sujeito oprimido. O sentimento que incitam é a compaixão passiva e condescendente, não a solidariedade na luta.
 
Terceiro, o sujeito colonizado aparece fora do contexto no qual vive o trabalhador capitalista. Apesar de que o primeiro aspire a se assimilar ao segundo, estabelece-se primeiro uma alteridade radical (cultural ou “racial”) que parece impossível de ser superada, em que a “democracia” ou a “civilização” do colonizado, ainda que se pareça muito com a Ocidental, nunca chegará a ser plenamente igual dada as suas origens impuras. Este racismo epistemológico é a salvaguarda ideológica da burguesia imperialista, que mantém as massas dos países dependentes superexploradas e oprimidas, para que a revolução não chegue até as portas de sua própria casa, mas que permaneça lá, nesse “mundo atrasado”.
 
O contexto da análise burguesa tem, pois, um segundo objetivo muito claro: reproduzir o racismo que evita que o trabalhador norte-americano ou europeu se identifique social e politicamente com o trabalhador árabe e tunisiano em luta nas ruas, já que pertencem a culturas e religiões irremediavelmente incompatíveis. Para isso, a mídia deve simular uma falsa simpatia em relação às massas árabes, para, no fundo, reproduzir a mesma ideologia mesquinha, racista, colonial e arrogante da burguesia imperialista.
 
Corrupção das “elites governantes” ou crise do sistema capitalista?
 
O falso radicalismo da imprensa burguesa
 
Mais surpreendente é a análise daqueles setores críticos da burguesia, pequena-burguesia e classe média, que se autodenominam “progressistas” e “liberais”, e dizem ter uma análise objetiva e imparcial dos fatos.
 
A maioria dos “analistas” e jornalistas burgueses e de “especialistas” universitários chega à conclusão unânime de que, ainda que os EUA nem sempre tenham ajudado a preservar os valores democráticos na região, a origem do descontentamento está localizada e circunscrita a esses países. Trata-se, por um lado, da falta de democracia, dada sua inevitável “diferença cultural” que fazem parecer um determinismo; pelo outro, da extrema corrupção de suas elites governantes. Continuam cegos, ou talvez continuem fechando os olhos voluntariamente às verdadeiras causas objetivas da revolução: a política do imperialismo na região, as contradições do sistema capitalista e os interesses opostos que as burguesias nacionais mantêm com seus povos.
 
Por um lado, é verdade que alguns meios de comunicação apontam o “erro” sistemático cometido por todos os sucessivos governos ao dar apoio a essas ditaduras. Seja o apoio explícito, como o do governo de Chirac a Ben Ali em 1995, que o elogiou pelo “milagre econômico” e por defender os direitos humanos, ou as declarações de Sarkozy, em 2008, em que afirmava que as liberdades estavam se expandindo na Tunísia, seja o apoio implícito, como o do governo Obama, que não se atreveu a proferir nenhuma crítica a Mubarak.
 
Mas os analistas não se questionam sobre as causas desses “erros” de avaliação sistemáticos, desse apoio incondicional de que dispõem todos os regimes ditatoriais no mundo e que está condicionado a que apliquem a política do imperialismo. Não se indagam sobre nada disso, que é o essencial, porque nem sequer pensam sobre a relação imperialista que seus próprios países têm com os países dependentes do Norte da África que hoje estão vivendo revoluções.
 
Também não se propõem a investigar ou inclusive questionar os resultados nefastos das políticas econômicas impostas, nos últimos 20 anos, pelo BM e pelo FMI à Tunísia e ao Egito e a outros países da região, nem a presença esmagadora de empresas das “metrópoles” nesses países. Nem sequer se questionam, por exemplo, por que os EUA destinam mais de um bilhão de dólares anuais em ajuda militar ao Egito e ao regime de Mubarak.
 
O enfoque sobre a corrupção: oportunismo neocolonial
 
O que irrita profundamente os comentaristas europeus e norte-americanos é a “corrupção” flagrante das elites locais, sua falta de transparência, a acumulação de riquezas e propriedades, a malversação de fundos etc. Esta, e não a política do imperialismo, é, segundo eles, a verdadeira causa dos processos revolucionários. Para os problemas da Tunísia, Egito e Líbia, sempre encontram o mesmo culpado fácil: a incapacidade dos povos “atrasados” para governar-se e a recorrente e quase fatal corrupção de seus líderes políticos.
 
O New York Times, por exemplo, dedica-se, junto com outros jornais, a revelar os escândalos de corrupção da camarilha militar que governa o Egito: o escândalo do hospital militar público financiado pelos EUA que se transformou em provedor de serviços de saúde, a frota aérea Gulfstream da qual a junta militar faz uso pessoal. “Com Washington dando ao Cairo 1,3 bilhões de dólares ao ano em ajuda militar, o episódio do hospital mostra que as Forças Armadas egípcias, que funcionavam como empresas, às vezes encontraram maneiras de usar essa ajuda para aumentar seus ganhoseconômicos.” (New York Times, 5 de março de 2011).
 
Para a imprensa burguesa, o problema não é o projeto imperialista dos EUA de apoiar incondicionalmente o Estado de Israel comprando as burguesias nacionais. Também não é o apoio político e econômico a um regime ditatorial como o de Mubarak, e é menos ainda a política de recolonização da região imposta ao povo árabe desde os anos 70. A política dos EUA nunca é questionada em todo este processo: o problema não está nos EUA, mas no Egito, o problema não é o sistema imperialista de dominação neocolonial e de exploração, mas, sim, que “as elites corruptas” tenham feito “mau uso” de todo esse dinheiro, é a “malversação de fundos”. O escândalo para os leitores norte-americanos é que o dinheiro dos “contribuintes” tenha ido parar nas mãos de uma corrupta burguesia militar. É uma questão de “bad management”, não o resultado de uma política econômica que ameaça acabar com a humanidade.
 
Assim, de repente, para o New York Times , os culpados se tornam precisamente aqueles que serviam aos interesses do imperialismo na região: a junta militar egípcia, que os EUA financiaram durante 40 anos para que aplicasse sua política na região.
 
Cada imperialismo tem seu porta-voz midiático, que expõe a corrupção do mesmo regime que tranquilamente apoiava pelas costas dos trabalhadores. Do mesmo modo, Le Monde e Libéracion centraram todos seus recursos intelectuais e heurísticos em expor detalhadamente a corrupção da família de Ben Ali, publicando dossiês especiais, mapas de influências, descobertas de fraudes etc.
 
Mas aos numerosos artigos e programas televisivos sobre Ben Ali não corresponde nenhuma investigação ou reportagem sobre os interesses do imperialismo francês na Tunísia, nem dos laços orgânicos de Ben Ali e seu camarilha com as multinacionais europeias, e menos ainda uma conexão entre a sobrevivência do imperialismo francês e o subdesenvolvimento da Tunísia (sem falar do passado colonial do país).
 
Eles e nós: Organizemos a classe operária mundial contra o imperialismo!
 
Vemos, assim, que a representação que os meios burgueses fazem das revoluções não só deforma seu caráter, dá uma falsa análise do que realmente ocorre, ignorando as lutas operárias em curso e as reivindicações sociais e econômicas do movimento revolucionário. Em resposta a isso, nós devemos insistir no caráter socialista da revolução em curso. É uma revolução levada a cabo pela classe operária, ainda que não seja sempre sua direção consciente e seus dirigentes não tenham um programa socialista, explicando e aplicando a teoria da revolução permanente.
 
Além disso, devemos combater o esquema de leitura neocolonial e racista que a mídia reproduz e que contribui para manter a classe operária mundial dividida e para evitar que seja organizada uma verdadeira solidariedade aos povos árabes em luta. A mensagem implícita não é só que o problema está localizado no Norte da África, devido a suas especificidades culturais, seu atraso e a corrupção de suas elites dirigentes, mas também que a solução está localizada lá. É necessário mudar os dirigentes burgueses. De repente, já não se mencionam os laços entre os governos imperialistas e as burguesias nacionais que administram seus interesses.
 
Devemos insistir, primeiro, em que os interesses e os desafios da classe trabalhadora tunisiana, egípcia e líbia são os mesmos que os dos trabalhadores europeus e norte-americanos, ou seja, acabar com a exploração e a opressão e com o sistema capitalista mundial. Mas também devemos fazer questão de explicar que a solução desse problema não pode ser uma solução nacional ou regional, mas uma luta de toda a classe trabalhadora mundial. Devemos contestar o chauvinismo burguês dos meios de comunicação levantando a bandeira do internacionalismo proletário.
 
Na realidade, a melhor forma que os trabalhadores norte-americanos e europeus têm para apoiar as revoluções no Norte da África é enfrentar a sua própria burguesia e fazer tremer, por dentro, o imperialismo, construindo os instrumentos políticos para a luta revolucionária. Porque, até que não se destruam os Estados imperialistas, não haverá paz, liberdade, bem-estar nem igualdade no Norte da África nem em nenhum lugar no mundo. Por isso, contra a separação “cultural” dos povos, nós devemos agitar a unidade internacional da classe trabalhadora, a necessidade da solidariedade operária e do confronto das burguesias imperialistas.
 
Tradução: Érika Andreassy

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