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A gripe "suína": pobreza e crise sanitária PDF Imprimir E-mail
ARGENTINA
Escrito por FRENTE OPERÁRIA SOCIALISTA   
Ter, 14 de Julho de 2009 00:00

Dr. Eduardo Barragán, secretário da Associação de Profissionais Universitários do Hospital Larcade, San Miguel, província de Buenos Aires.

 

O país inteiro está comovido pela gripe A, que produz o vírus H1N1. As máscaras estão fazendo parte da paisagem quotidiana em hospitais, escolas e nas ruas da cidade. As eleições do último dia 28 de junho foram a expressão da crise de um governo, de um regime e um sistema que não dão resposta às mais elementares necessidades e direitos da população: o da saúde.

 

Até o dia 29 de junho foram registrados 1.488 casos confirmados na Argentina, 35 deles morrerem pela ação do vírus. Argentina é o terceiro país em quantidade de falecimentos, após o México, com 116, e os Estados Unidos, com 87. O país está acima de Canadá com 19, e do Chile com 7 vítimas. Estes são os cinco países mais atingidos pela epidemia.

 

Contudo, por trás destes números há uma importante diferença: nos Estados Unidos declararam-se 27.717 casos, no México 8.279, no Canadá 7.775 e no Chile 5.186. Na Argentina existem 35 mortes para cada mil habitantes que contraíram a doença. É uma cifra bem mais alta do que daqueles países onde a epidemia tem sido mais grave. O México tem 14,1 por mil doentes; os EUA 3,13; o Canadá 2,44 e Chile 1,34.

 

Por que estas diferenças tão significativas?

 

Alguns consideram que existe uma mutação do vírus que atua na Argentina, que o torna mais agressivo. Tal hipótese merece consideração, contudo isso por si só não justifica que a mortalidade em relação aos casos confirmados seja três vezes mais alta que no México, e mais de 20 vezes maior do que no Chile, países de desenvolvimento econômico e social parecido com o da Argentina.

 

Esta diferença só é possível pelos altos níveis de pobreza e pela profunda crise sanitária que existe no país. O que é resultado de uma política sanitária sistematicamente aplicada pelo governo nacional, pelas províncias e municípios, cujo objetivo é destruir a saúde pública gratuita e colocá-la nãos mãos dos capitais privados pela via das terceirizações, seguros de saúde, planos múltiplos planos que incorporam à medicina privada e das pré-pagas como prestadores de saúde financiados pelo Estado (PROFE, por exemplo).

 

O que ocorre com a gripe A é o mesmo que se passou com o dengue: não há prevenção, nem os medicamentos ou insumos necessários para controlar a epidemia. Não há recursos humanos, médicos, enfermeiras, técnicos, etc., e muito menos infra-estrutura adequada para atender à população que já é penalizada pela situação crítica dos hospitais e centros de atenção primária da saúde. Quando a saúde se converte em uma mercadoria para ser vendida aos clientes, o objetivo fundamental é o lucro e não a saúde da população.

 

Gripe A e pobreza

 

Estas são algumas das recomendações do Ministério de Saúde da Província de Buenos Aires para as famílias que têm uma pessoa doente em casa com o objetivo que não se contagie o resto da família e dos vizinhos:

 

* Manter o doente em um cômodo separado e com um banheiro aparte;

* Usar máscaras cirúrgicas;

* Perguntar ao médico se é preciso medicar pessoas com doenças crônicas que convivem com o doente.

 

Há outras normas, estas são as mais importantes. Os milhões de habitantes que se encontram abaixo da linha de pobreza não podem cumprir com estas recomendações. Os milhões que têm trabalho precário e salários ou rendimentos abaixo dos 1.500 pesos (aproximadamente mil reais), também não.

 

A única alternativa para o isolamento do paciente, o uso de máscaras e medicamentos, é que o Estado forneça estes recursos. Ao não fazê-lo, a epidemia se propagará mais rapidamente e mais mortes serão registradas em todo o país. A conclusão é uma só: a pobreza acelera a extensão da epidemia e produz mais mortes.

 

A crise do sistema de saúde

 

Nos hospitais da região metropolitana, sobretudo nos do segundo e terceiro cordão da Grande Buenos Aires, faltam recursos humanos. Em muitos deles não há máscaras para os pacientes internados nem para o conjunto dos trabalhadores. O oseltamivir (medicamento indicado) só é fornecido aos que estão internados, já os pacientes de ambulatórios não o recebem. Os leitos não são suficientes para o volume das internações, as terapias estão saturadas e muitos dos pacientes morrem sem receber a atenção adequada. Nas salas, sem isolamento, convivem pacientes com gripe A com pacientes com tuberculoses e Aids, com pacientes cardíacos ou com patologias gastrointestinais. Além disso, nesta época do ano à gripe A se agrega a bronquites e as pneumonias.

 

Todas estas carências levaram ao colapso do sistema de saúde, porque o novo modelo que se deseja impor (com o respaldo do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional) não garante o direito da saúde, mas a converte numa mercadoria para o lucro das multinacionais e dos grandes grupos nacionais.

 

Há uma só resposta para isso: um sistema único de saúde pública, gratuito e de qualidade, financiado pela renda nacional.

 

         O que fazer frente à epidemia?

 

 Declarar a emergência sanitária e com ela impedir toda aglomeração que facilite a extensão da epidemia: lugares públicos, espetáculos, meios de transporte em massa, locais de trabalho (fábricas, empresas, comércios, etc.) sem as condições de ventilação adequadas;

 Que o Estado tome o controle de todo o sistema de saúde, colocando as clínicas privadas e as obras sociais sob o controle do Estado e dos trabalhadores;

 Aumento de emergência do orçamento de saúde para:

 

a) Garantir máscaras, isolamento, medicação e tudo que for necessário para atender a população;

b) Nomear a todo pessoal profissional e não profissional que necessite o sistema de saúde;

c) Acelerar a absorção dos bolsistas e de outros contratos precários, melhorar a oferta salarial aos trabalhadores da saúde municipal e preencher as vagas nas províncias e nos municípios;

d) Garantir a proteção de todos os trabalhadores da saúde;

 Prover água potável a todos os habitantes do país;

 Garantir uma dieta adequada nos restaurantes escolares;

 Lançar uma campanha educativa para o conjunto da população.

 

Misérias do capitalismo     

 

Com a epidemia, o preço das máscaras multiplicou-se por dois e por três em muitas farmácias. É a voracidade dos capitalistas, que aproveitam a doença e a morte para aumentar seus lucros. O principal beneficiado é o laboratório Roche, que produz o oseltamivir, a principal droga para combater a doença. Custa entre 135,45 e 151,29 pesos (entre 36 e 40 dólares). Quem pode comprá-lo para todos os infectados da família? Quanto pouparia o Estado se em lugar de comprar o medicamento em laboratório privado, o produzisse nos laboratórios estatais que há no país? Se tivesse produção estatal todos os que necessitassem teriam máscaras e medicação gratuita e isto facilitaria o controle da doença.

 


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