Boletim Eletrônico



LIT-QI/Especial 30 anos: Bolívia - A insurreição traída PDF Imprimir E-mail
BOLÍVIA
Escrito por Eugenio Greco   
Seg, 13 de Agosto de 2012 00:08
Nós não preconizamos, de modo algum, a insurreição em qualquer momento nem sob quaisquer circunstâncias. Mas exigimos que o pensamento dos social-democratas não seja inseguro e vacilante. Se você reconhece que se dão as condições para a insurreição, deve reconhecer também a própria insurreição, deve reconhecer as tarefas específicas que são colocadas para o partido em relação a ela." Lenin1
 
Em março de 1985, os trabalhadores bolivianos enfrentaram com uma greve geral de dezesseis dias o governo de Hernán Siles Suazo. Em seu transcurso, dez mil mineiros armados com dinamite ocuparam a capital, La Paz, enquanto o exército permanecia dividido e vacilante, sem começar a repressão. Em Oruro, uma cidade fundamental porque concentra ao seu redor as minas mais importantes do país, os trabalhadores depuseram o prefeito e apoderaram-se do governo, até o entregarem voluntariamente à polícia local. Enquanto isso, os camponeses apoiavam o movimento operário bloqueando as estradas, a população de La Paz se solidarizava com os mineiros de mil formas diferentes e o movimento estudantil lutava lado a lado com os trabalhadores.
 
Essa imensa mobilização revolucionária foi organizada pela Confederação Operária Boliviana (COB). Os mineiros que ocuparam La Paz fizeram isso sob as bandeiras de seu sindicato, a Federação Sindical de Trabalhadores Mineiros da Bolívia (FSTMB), que integra a COB e é sua coluna vertebral. Os trabalhadores que tomaram o governo em Oruro marcharam sob a direção da Confederação Operária Departamental (COD), a seção local da COB. Os camponeses que bloqueavam as estradas eram da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), que está aliada à COB e na qual tem representação.
 
As organizações estudantis que se mobilizaram também estão representadas na COB. E todos os trabalhadores do país, que se lançaram à greve geral de forma unânime, fizeram-no organizados em seus sindicatos, que estão dentro da COB.
 
Apesar de ter tudo a seu favor, a greve geral não triunfou. As reivindicações econômicas que a originaram não foram atendidas. O movimento revolucionário retrocedeu. A burguesia conseguiu montar uma armadilha eleitoral que, mediante fraude, deu o governo ao notório reacionário Víctor Paz Estenssoro. Ele lançou imediatamente um novo ataque às massas bolivianas, na mesma linha do FMI que seu antecessor, porém muito mais violento. Uma nova greve geral foi organizada em setembro, mas desta vez foi categoricamente derrotada.
 
Analisando retrospectivamente, esta segunda greve geral já foi uma batalha na retaguarda, defensiva. Sua sorte estava determinada em grande medida pela greve anterior: o retrocesso de março explica a derrota de setembro. Por isso, extrair até o final as conclusões da greve de março é absolutamente necessário para armar politicamente o movimento operário boliviano e os revolucionários do altiplano e do mundo inteiro. Não apenas para encontrar as razões da derrota, mas também, e principalmente, para entender por que escapou à classe operária boliviana, mais uma vez, uma vitória que tinha ao alcance das mãos.
 
Duas traições
 
Segundo o nosso ponto de vista, a greve de março não triunfou por uma única razão: a direção reconhecida do movimento operário boliviano, fundamentalmente Juan Lechín e em segundo plano o Partido Comunista e o Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), traíram-na. Essa greve geral só poderia triunfar caso se transformasse em uma insurreição, derrubasse o governo por meio da violência e colocasse o poder nas mãos da classe operária e do povo, isto é, nas mãos da COB. Isso é o que a direção dos operários e do povo boliviano não fez.
 
Era de se esperar que fosse assim, visto que jamais uma direção não proletária leva os trabalhadores ao poder por sua própria vontade. E nem Lechín, nem o PCB, nem o MIR são direções proletárias. As duas primeiras são burocracias antioperárias, em suas variantes nacionalista (Lechín) e russa (o PCB). O MIR é uma direção pequeno-burguesa.
 

Mas o mais grave é que muitos dos que se dizem revolucionários e trotskistas não tiveram uma política para fazer a revolução, para impulsionar as massas até a insurreição e substituir, em algum momento dessa luta, as direções traidoras. Por isso, o centro desta polêmica seja destacar os enormes erros teóricos e políticos dos que traíram mais uma vez a revolução boliviana da maneira mais infame: abrigando-se sob as bandeiras revolucionárias do trotskismo. Faremos esta polêmica a partir das posições da única corrente que levantou uma política revolucionária para a Bolívia: a Liga Internacional dos Trabalhadores.
 
Os protagonistas deste debate são os seguintes:
 
A Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI), seu partido boliviano, o Partido Socialista dos Trabalhadores (PST) e a organização simpatizante da LIT na Argentina, o Movimento ao Socialismo (MAS).
 
O Secretariado Unificado da Quarta Internacional (SU) e sua seção boliviana, o Partido Operário Revolucionário Unificado (POR-U)
 
Dois grupos nacional-trotskistas, debilmente associados à chamada Tendência Quartainternacionalista (TC): o Partido Operário Revolucionário da Bolívia dirigido por Lora (POR-Lora) e o Partido Operário (PO) da Argentina.
 
A greve geral e o problema do poder
 
A greve geral de março foi uma luta revolucionária de massas contra o governo e o regime burguês, que questionou o sistema capitalista semicolonial boliviano. Todo o mundo entendeu assim. A burguesia, aterrorizada, denunciava-a. Lechín a reconhecia ainda que, evidentemente, acrescentava que a classe operária não poderia triunfar porque não estava armada.
 
As organizações com as quais polemizamos também descreviam assim a situação. André Dubois, jornalista do SU, dizia que “desde o começo desta greve... a reivindicação mais imediata põe na ordem do dia um enfrentamento sócio-político e coloca, de fato, a questão do poder2.
 
A TC, por meio do jornal Masas, órgão do POR-Lora, afirmava que “a greve, desde o momento de sua eclosão, coloca em termos inequívocos o problema do poder3. E o PO informava sobre a “confraternização revolucionária” nas ruas de La Paz de mineiros, trabalhadores fabris, docentes e estudantes; a redução do governo a uma “máscara impotente” e o “legítimo temor de que as forças armadas se desintegrem” se fossem lançadas a reprimir4.
 
A LIT e o PST boliviano, por sua vez, vinham afirmando, há mais de dois anos, que na Bolívia estava colocado o problema do poder, e a greve geral de março tornava-o candente. Podemos dizer, então, que todas as tendências que se reivindicam trotskistas descreveram corretamente a situação como revolucionária e a greve geral como uma greve política que colocava “o problema do poder”.
 
Até aí, todos concordamos com nossos mestres, que sempre atribuíram esse caráter às greves gerais. Lenin, por exemplo, dizia que “o papel de classe verdadeiramente avançada... que levanta as massas para a revolução... é desempenhado pelo proletariado industrial, que cumpre esta tarefa com suas greves revolucionárias5.
 
Trotsky afirmava que “toda greve geral, quaisquer que sejam as palavras de ordem sob as quais tenha surgido, tem uma tendência interna a se transformar em conflito revolucionário declarado, em luta direta pelo poder... Paralisando as fábricas, os transportes, todos os meios de comunicação em geral, as usinas elétricas etc., o proletariado paralisa assim não apenas a produção, mas também o governo. O poder do Estado fica suspenso no ar... A greve geral apresenta, inevitavelmente, a todas as classes da nação a pergunta: quem vai ser o dono da casa?6.
 
Crise revolucionária e a questão do poder
 
A greve geral de março não foi, contudo, um raio em céu azul. Foi o auge de uma crise revolucionária prolongada, que se iniciou em 1982 com a queda da ditadura militar de García Meza, atenuou-se com as expectativas das massas no recente governo de Siles Suazo e ressurgiu três meses depois de sua posse. A partir de então, uma sequência de paralisações, várias greves gerais, manifestações, ocupações de empresas, bloqueios de estradas e outras milhares de formas de luta das massas questionaram permanentemente o governo e o Estado burguês. Sem levar a uma clara situação insurrecional, este prólogo da greve de março constituiu uma situação crônica de duplo poder, poderíamos dizer uma situação pré-insurrecional, que se prolongou por mais de dois anos.
 
Esta situação enquadra-se na descrição de Lenin: “A classe operária não dá trégua ao inimigo, interrompe o curso normal da vida industrial, detém constantemente o aparato da administração local e cria em todo o país um estado de alarme, mobilizando novas enovas forças para a luta. Nenhum Estado pode resistir durante muito tempo a semelhante investida...7.
 
Se era assim, os revolucionários estavam obrigados a propor ao movimento de massas, em sua propaganda e agitação, que este deveria tomar o governo em suas mãos, não só durante a greve de março, mas em todo o período de crise revolucionária que a precedeu. Em situações como essa, a palavra de ordem de poder é a mais importante, é o eixo do programa revolucionário. Todas as demais palavras de ordem que mobilizam as massas (no caso boliviano, o salário mínimo, vital e móvel; o controle operário da produção, dos preços e do abastecimento; as medidas agrárias, o não pagamento da dívida externa etc.) mantêm toda a sua vigência. Mas são propostas em torno da palavra de ordem do poder. Queremos o salário para os operários! Salvar da fome os camponeses! Romper o jugo econômico e político imperialista! A única forma de consegui-lo é fazendo com que esta grande mobilização operária e de massas culmine com a derrubada do governo Siles e com a tomada do poder pelos trabalhadores, pelos camponeses e pelo povo!
 
Contudo, isso não é suficiente. É necessário mostrar à classe operária e ao movimento de massas como se concretiza a “ditadura do proletariado” (expressão favorita de Lora) ou o “governo dos trabalhadores” (palavra de ordem do POR-U)8. É necessário dizer com quais instituições, com quais organizações a classe operária e o povo podem tomar o poder, destruir o Estado burguês e colocar-se a governar o país.
 
Com a COB e contra a COB
 
Esta discussão já dura mais de 30 anos na Bolívia. Está colocada desde a revolução de 1952, quando o movimento operário boliviano, aliado ao movimento camponês, devastou o exército burguês, criou suas próprias milícias sindicais e camponesas e, como resultado deste grande triunfo, construiu a COB.
 
A partir de então, a corrente trotskista que hoje se encontra organizada na LIT propôs que a COB deveria tomar o poder para instaurar um governo operário e camponês, e levantou consequentemente esta palavra de ordem em cada ocasião em que a luta de classes permitia. Porém, também faz mais de 30 anos que Lechín, acompanhando pelo SU, Lora e companhia se opõem a que a COB governe a Bolívia. E assim voltou a acontecer nos quase três anos de crise revolucionária e na greve geral de março.
 
O dirigente do POR-U, Antonio Moreno, afirma que a COB “é a única instituição que propôs uma solução alternativa à crise, mediante uma série de medidas imediatas e de transição” que “mobilizaram não só os trabalhadores, mas também os camponeses e certos setores da pequena burguesia que, portanto, reconhecem a direção da COB”. Mas depois de aceitar que a COB é a organização reconhecida pela imensa maioria da população boliviana – “trabalhadores”, “camponeses” e “setores da pequena burguesia” –; que é o canal organizativo de toda luta operária e popular; que é a “única instituição que apresenta uma alternativa à crise”; o dirigente do POR-U chega à surpreendente conclusão de que a COB não serve para tomar o governo e fala da “necessidade de uma saída política que vá mais além do âmbito da COB9.
 
André Dubois também defende que a COB “refletia mal a dinâmica real do movimento social e havia se mostrado facilmente manipulável pelo velho aparato oficialista reunido ao redor de Juan Lechín”, razão pela qual era necessário “construir um instrumento mais representativo”.
 
Lora teoriza: “Mais que a teoria, a larga experiência teórica (sic)demonstrou que, por sua própria natureza, as organizações sindicais estão impedidas, particularmente por sua heterogeneidade ideológica, de cumprir o papel de estado maior das multidões revolucionárias10.
 
Seguindo Lora, o dirigente do PO, Roberto Gramar, afirma que a COB “não é um mecanismo para a tomada insurrecional do poder político”. Porém, avança mais em seu ódio pela COB quando profere: a COB “não foi a autora de nenhuma das medidas de luta que foram adotadas na Bolívia, mas a encarregada de levantá-las, anulá-las ou entregá-las.11.
 
A COB é muito mais que um sindicato
 
Antonio Moreno, Dubois, Lora e Gramar cometem o mesmo erro: identificar a COB com a sua direção burocrática. É indiscutível que há uma burocracia lechinista na COB e que é necessário combatê-la com medidas que imponham a democracia operária também em sua cúpula. Mas o que eles propõem não é isso, e sim que a COB não serve para tomar o poder e, portanto, é necessário construir outros organismos para esse fim.
 
Outro argumento que utilizam é que a COB é uma organização sindical. Lora diz isso claramente e o SU insinua, quando aponta a necessidade de um instrumento mais amplo e representativo. Este raciocínio se choca com a realidade histórica e atual da COB.
 
Apesar de ser verdade que sua estrutura básica são os sindicatos, a COB é muito mais que uma central sindical. A COB de 1952 construiu milícias operárias que, junto às milícias camponesas, tornaram-se a única força armada do país até que, pela traição de sua direção, a burguesia conseguiu reconstruir seu exército. A COB atual agrupa em seu interior, além dos sindicatos, as organizações camponesas, estudantis, de mulheres etc. E teria bastado que sua direção chamasse os soldados e policiais a se organizar pela base para que, automaticamente, se incorporassem a ela.
 
Quando Lora afirma que a COB não pode tomar o poder porque tem as limitações de qualquer “organização sindical”, por sua “própria natureza”, só está dizendo uma estupidez totalmente esvaziada de todo conteúdo real. Desafiamos Lora a explicar como se encaixa na “própria natureza” de um sindicato, da forma como ele entende, formar milícias e agrupar os camponeses e demais setores explorados da população.
 
O primeiro antecedente: a Comuna de Paris
 
Afirmar que a COB não é um organismo apto para tornar e exercer o poder porque está estruturado ao redor de uma determinada forma organizativa – os sindicatos – indica uma enorme ignorância histórica e teórica sobre as instituições de poder. Tanto a experiência histórica como a teorização que Marx, Engels, Lenin e Trotsky fizeram sobre ela afirmam que os organismos de poder do proletariado e das massas revolucionárias não se ajustam a nenhuma receita organizativa rígida, e sim que adotam as formas mais variadas, segundo as próprias massas o constroem nas situações de crise revolucionária.
 
O primeiro organismo de poder que a classe operária construiu não foi um soviet nem um sindicato: foi o Comitê Central da Guarda Nacional, que tomou o poder em Paris durante a insurreição da Comuna. Esta é uma verdade indiscutível para nossos mestres, ainda que existam diferenças sobre o caráter do governo que o substituiu, a Comuna eleita por votação de toda a população.
 
Marx e Engels relataram como “a Guarda Nacional se reorganizou e confiou sua direção suprema a um Comitê Central eleito por todos os seus efetivos”, para enfrentar as tropas prussianas que avançavam sobre Paris. Depois, “a gloriosa revolução operária de 18 de março se apropriou indiscutivelmente de Paris. O Comitê Central era seu governo provisório12. Marx inclusive criticou o fato de que “o Comitê Central abandonou o poder muito cedo para dar lugar à Comuna13.
 
Para Lenin, “a revolução de 18 de março... pôs inesperadamente o poder nas mãos da Guarda Nacional, nas mãos da classe operária e da pequena burguesia, que havia se unido a ela14. Trotsky afirma que a eleição por voto universal da Comuna para que substituísse o Comitê Central da Guarda Nacional no poder foi “uma estupidez”, já que, para ele, a “instituição da Comuna” foi “o município democrático”. E acrescenta: “esta estupidez só era possível depois da conquista do poder pelo Comitê Central da Guarda Nacional, que era o ‘comitê de ação’ ou o soviet do momento15.
 
É verdade que Marx, Engels e Lenin defenderam que a Comuna era um governo operário, enquanto Trotsky afirmou que era um município democrático-burguês. Mas todos eles coincidiram em que o primeiro organismo de poder operário da história, que fez a insurreição e atuou como governo, foi o Comitê Central da Guarda Nacional. Isso deveria ser um chamado de atenção para todos os que pensam que um organismo de poder, para sê-lo, deve seguir determinadas receitas organizativas e, consequentemente, negam esse caráter à COB boliviana por se assentar sobre os sindicatos.
 
Os soviets russos
 


A partir do triunfo da Revolução Russa de 1917, a palavra soviet se transformou em sinônimo de organismo de poder da classe operária. Os soviets eram algo muito diferente dos sindicatos. Nasceram como comissões operárias para organizar as greves na revolução em 1905.
 
Reapareceram na revolução de fevereiro de 1917, estendendo-se aos soldados e mais tarde aos camponeses. Coordenaram-se nacionalmente em um Congresso dos Soviets e tomaram o poder em outubro de 1917, dirigidos pelo Partido Bolchevique.
 
A palavra de pode estratégica de Lenin e Trotsky durante o período de fevereiro a outubro de 1917 foi: “Todo poder aos soviets!”. O seu êxito transformou os soviets na organização de poder operário por excelência para os trabalhadores e os revolucionários de todo o mundo.
 
Lenin definiu os soviets como “órgãos da luta direta das massas. Surgiram como órgãos da luta grevista. Sob a pressão da necessidade, transformaram-se rapidamente em órgãos da luta geral revolucionária contra o governo16. Esses “novos órgãos de poder revolucionário... eram criados exclusivamente pelas camadas revolucionárias da população... por seu caráter político-social isto era, em sua forma embrionária, a ditadura dos elementos revolucionários do povo17.
 
O fetichismo soviético
 
Contudo, ao mesmo tempo Lenin já alertava que “o papel dos soviets... cercou essas organizações de uma auréola que, às vezes, são consideras com certo fetichismo. Acredita-se que estes órgãos são, sempre e em todas as circunstâncias, órgãos ‘necessários e suficientes’ para o movimento de massas18.
 
Trotsky também batalhou incansavelmente para “destruir o culto fetichista da forma soviética de duplo poder”. Polemizando com o stalinismo, que defendia que “a revolução proletária só pode ser realizada através dos Conselhos (soviets)”, Trotsky respondia: “Todo este esquema é, certamente, perfeitamente inútil. Os Conselhos são uma forma de organização, mas em política o decisivo é o conteúdo de classe de uma organização e não sua forma19.
 
Em síntese, tanto para Lenin como para Trotsky o que definia os soviets como órgãos de poder não era sua forma organizativa, mas seu “caráter político” e seu “conteúdo de classe”. Daí que a definição mais geral que Trotsky faz não se refere a uma determinada forma de organização, mas ao caráter de classe e as tarefas colocadas: “O soviet é a forma mais elevada de frente única na etapa em que o proletariado luta pelo poder20. Exatamente a mesma definição de Lenin: um organismo de “luta geral revolucionária” das “camadas revolucionárias da população” para tomar o poder.
 
Nossos mestres não se prendiam à forma soviética de organização até tal ponto que, em plena revolução de 1917, em determinado momento, Lenin abandonou a palavra de ordem de “Todo poder aos soviets!” e colocou a necessidade de “deslocar o centro de gravidade aos Comitês de Fábrica”, já que eles deveriam “se converter nos órgãos da insurreição21.
 
Em seu livro História da Revolução Russa, Trotsky explica assim esta brusca virada do dirigente bolchevique: “Depois da derrota de julho, Lenin proclamou: já não se pode conquistar o poder senão mediante uma insurreição armada; e para isso, provavelmente, terá que se apoiar não sobre os soviets desmoralizados pelos conciliadores, mas sobre os comitês de fábricas; os soviets, como órgãos de poder, serão reconstruídos depois da vitória22.
 
Este exemplo – comenta – mostra quão pouco nos inclinávamos, já nessa época, a considerar a forma soviética de organização como uma panaceia universal23.
 
Trotsky na França, Alemanha e Inglaterra
 
Em todas as oportunidades em que teve que dar uma resposta de poder aos processos revolucionários de sua época, Trotsky deu mostras dessa mesma elasticidade e de seu repúdio a todo esquematismo organizativo.
 
Em junho de 1936, estourou na França uma grande greve geral que fez Trotsky dizer “a revolução francesa começou24. Desde muitos meses antes, o proletariado francês acumulava forças para esse rompante revolucionário, enquanto a Internacional Comunista, usurpada pelo stalinismo, tratava de impedir a revolução, prendendo a classe operária no cárcere da frente popular com a burguesia. Mas, ao mesmo tempo, propunha a criação de “comitês de ação”, isto é, organizações de base da Frente Popular. Ante o fato de que o choque entre as classes se aproximava e não surgiam outros organismos para a luta pelo poder, em novembro de 1935 Trotsky qualificou esta proposta como “a única idéia progressiva” dos stalinistas, já que, “em certas condições, os comitês de ação podem se converter em soviets25.
 
Recapitulando o ocorrido na Alemanha em 1923, Trotsky verificava que, por mais que houvesse uma situação propícia, não haviam surgido soviets pela falência das direções do movimento operário, mas “pela pressão da base, os comitês de base ocuparam por si mesmos no movimento operário alemão, durante o outono de 1923, o lugar que os soviets haveriam tido”. Em vista desse fato, “proclamar em tais circunstâncias a palavra de ordem dos soviets seria cometer o maior erro teórico que se pode conceber26.
 
Finalmente, para os que questionam a capacidade da COB para tomar o poder por seu caráter sindical, recordemos que Trotsky afirmava que “os sindicatos ingleses podem ser um poderoso palanque da revolução proletária; inclusive, em certas condições e por certo período, podem substituir os soviets operários”.
 
Cabe acrescentar que, depois da morte de Trotsky, no segundo pós-guerra vimos outro tipo de organizações não previstas por nossos mestres, que serviram para tomar o poder. Referimo-nos aos partidos-exércitos guerrilheiros, como o de Castro e o de Mao.
 
Recapitulemos: o Comitê Central da Guarda Nacional na Comuna de Paris, os soviets e os comitês de fábrica na revolução russa, os comitês de ação da frente popular na França, os comitês de base na Alemanha, os sindicatos na Inglaterra, os partidos-exércitos guerrilheiros na China, Vietnã e Cuba: todos eles foram, real ou potencialmente, órgãos de poder. Ninguém que possua conhecimentos elementares de história e de teoria marxista revolucionária pode defender seriamente que a COB não serve para tomar o poder porque se baseia nos sindicatos.
 
Menos ainda se considerar o mais categórico desses exemplos: os sindicatos ingleses. O fato de Trotsky afirmar que eles podiam cumprir o papel de soviets, apesar de serem sindicatos “clássicos”, que não abrigavam em seu interior os camponeses e os estudantes, como a COB; apesar de serem dirigidos por uma burocracia laborista mil vezes pior que a de Lechín, pois era agente direta do imperialismo britânico; deveria fazer Lora, Dubois e companhia pensar.
 
A “heterogeneidade ideológica” da COB
 
Outro argumento contrário à COB como organismo de luta pelo poder é o que Lora agita quando a descarta por sua “heterogeneidade ideológica”. Ao contrário, um organismo para tomar o poder deve ser, segundo ele, ideologicamente homogêneo. Conclusão: Lora não tem a menor idéia da diferença entre uma organização de massas e um partido revolucionário.
 
Toda organização de massas, desde um sindicato até um soviet, é ideologicamente heterogênea, já que agrupa todos os operários e os setores da população que lutam. Um partido é ideologicamente homogêneo porque agrupa todos os que compartem de seu programa. Se uma organização de massas não fosse ideológica e politicamente heterogênea, não seria de massas, já que excluiria todos aqueles que, ainda que queiram lutar, não compartilham da ideologia de sua direção. Por isso, os soviets russos não eram apenas dos operários bolcheviques, mas também incluíam os partidários dos mencheviques, dos socialistas-revolucionários e inúmeras outras correntes.
 
Por isso, Lenin definia o futuro “governo provisório revolucionário como uma “organização comum... sem partido ou interpartidária27.
 
Trotsky, por sua vez, dizia que quando “as massas se veem arrastadas para a luta, sentem... a profunda necessidade de uma organização com prestígio que se eleve acima dos partidos28. Assim surgem os soviets, que são capazes “de unir a classe operária em seu conjunto, seja qual for o número” dos que chegaram a “compreender os problemas da conquista do poder29. E dado que “as massas entram na luta com todas as suas idéias, grupos, tradições e organizações..., os partidos não são excluídos, pelo contrário, supõe-se que são necessários; ao mesmo tempo, são controlados na ação e as massas aprendem a libertar-se da influência dos partidos putrefatos30.
 
Quer maior “heterogeneidade ideológica” que esta, que inclui os “partidos putrefatos” no órgão de luta pelo poder? Precisamente por ser um organismo de frente única do proletariado e das massas exploradas, todo órgão de poder se apoia obrigatoriamente na presença, em seu interior, da ampla maioria do movimento de massas, com suas ideologias e partidos reformistas, centristas e revolucionários. O partido revolucionário luta pela direção do organismo de massas, contra os outros partidos. Trata de impor seu programa e sua política. Porém, se consegue isso, não expulsa o restante das correntes; jamais exige de um organismo de massas a homogeneidade ideológica que pretende o ultrassectário Lora.
 
Capitulação a Lechín
 
Consequentemente, com sua palavra de ordem de poder à COB, o PST formulou-a sob a exigência de que Lechín se encarregasse do governo do país em nome da COB e submetido à sua disciplina. Nem o SU e nem a TC levantaram essa palavra de ordem. Para Lora, um governo da COB seria “nada mais que uma variante dos governos burgueses” se a burocracia lechinista continuasse à sua frente. Gramar disse textualmente o mesmo. Dubois e Antonio Moreno nem sequer mencionam este problema.
 
Tanto o SU como a TC manifestam uma absoluta falta de política perante a direção burocrática de Lechín, que se transforma numa capitulação total a ele, disfarçada com uma linguagem ultraesquerdista. Ao não exigir de Lechín, direção da COB, que tome o poder e que governe sob a disciplina da COB, o SU e a TC não só desconhecem a mais urgente necessidade do proletariado boliviano – tomar o poder com a direção e a organização que tem –, mas também não comprometem o burocrata ante as massas por trair essa necessidade. Finalmente, não se postulam como direção alternativa que se propõe a fazer o que a situação exige – tomar o poder com a COB –, já que Lechín se nega a fazê-lo.
 
Lora ataca a exigência do PST de que Lechín fosse presidente tomando o poder com a COB ou, caso contrário, renunciasse à sua direção, alegando que isso significa que a tomada do poder “é tarefa de alguns dirigentes sindicais, e não das massas31. Parece que Lora não leu Lenin e Trotsky – ou não entendeu nada do que leu –, uma vez que esta tática não foi inventada pelo PST nem pela LIT, mas pelos bolcheviques durante a Revolução Russa.
 
Quando a direção conciliadora dos soviets empantanava a revolução, Lenin propôs a “formação de um governo constituído por socialistas-revolucionários e mencheviques, responsável ante os soviets”. Se eles aceitassem, os bolcheviques “renunciarão imediatamente à exigência da transferência do poder ao proletariado e aos camponeses pobres e aos métodos revolucionários de luta em prol a favor dessa reivindicação32.
 
Trotsky fez o balanço desta tática genial: “os mencheviques e os socialistas-revolucionários rechaçaram este compromisso... Nas mãos dos bolcheviques esta recusa se transformou na mais poderosa arma para a preparação da insurreição armada, que, sete semanas depois, varreu os mencheviques e os socialistas-revolucionários33.
 
Abdicar da exigência de que Lechín tome o poder e governe em nome da COB e como responsável perante ela significa simplesmente capitular a Lechín. É negar-se a usar a “arma mais poderosa” para “varrê-lo” da direção do movimento de massas boliviano.
 
Capitulação à burguesia e aos oportunistas
 
Significa também negar-se a derrotar a burguesia, pois, enquanto as massas aceitarem Lechín como seu dirigente, não há outra forma de propor a elas que tomem o poder que não seja exigindo que sua direção reconhecida o faça. Não se tratava, portanto, de uma simples manobra para desmascarar Lechín. Havia possibilidades de que realmente se desse na Bolívia, da mesma forma que, para Lenin, havia na Rússia34. “Mas talvez – se perguntava –já seja impossível” que os conciliadores tomem o poder? E respondia: “Talvez. Mas se existe, ainda que não seja mais do que uma possibilidade em cem, valeria a pena tentá-lo35.
 
Pensamos que na Bolívia, como na Rússia, valia à pena tentar. Sobretudo porque essa “possibilidade em cem” foi a que se deu em todas as revoluções deste pós-guerra, em que direções pequeno-burguesas ou burocráticas, como Tito, Mao e Castro, tomaram o poder obrigadas pela crise sem saída e pela pressão do movimento de massas, tornando realidade a hipótese que Trotsky colocava no Programa de Transição36.
 
O SU e a TC não capitulam somente por omissão, não exigindo de Lechín que tome o poder. Também capitulam positivamente ao propor todo tipo de frentes aos partidos inimigos da revolução. Lora, por exemplo, propõe “uma frente de esquerdas” que “não é outra coisa senão a frente anti-imperialista37. O SU propõe uma “frente de esquerda unida e eficaz”.
 
Trata-se evidentemente de frentes políticas, já que a frente para a ação, a organização de luta comum à qual todos os partidos operários e de esquerda se veem obrigados a disciplinar-se – por mais que lhes custe – existe e é a COB. Mas em uma situação mais que revolucionária, em que, como o SU e a TC reconhecem, “está colocado o problema do poder”, a única frente política possível para os trotskistas é com as organizações que querem que a revolução seja feita. A única frente política que os bolcheviques fizeram em outubro foi a frente com os socialistas-revolucionários de esquerda, para juntos impulsionar a tomada do poder pelos soviets.
 
Pelo contrário, as frentes que o SU e a TC propõem seriam com o PC, o MIR, o PS-1, – talvez também com o PRIN de Lechín? –, já que esses são os únicos partidos “de esquerda” na Bolívia. Todos esses partidos são inimigos mortais da tomada do poder pelos trabalhadores. Uma frente com eles seria uma frente contra a revolução. As frentes contra a revolução que o SU e a TC querem são a face capituladora de sua política, assim como a sua negativa de exigir de Lechín que tome o poder à frente da COB é a sua face sectária. As duas são faces de uma mesma política nefasta.
 
Inventar não custa nada
 
Tendo descartado a COB como organismo de poder, o SU e a TC se dedicam a inventar organismos “de massas” para fazer a revolução.
 
Antonio Moreno quer que o poder seja tomado por “conselhos de coordenação popular”. Seu partido, o POR-U, pelo contrário, prefere “desenvolver os conselhos populares, os comitês e outras organizações de base”, mas “principalmente... uma assembleia nacional do povo”. Dubois, com uma imaginação mais totalizadora, gosta dos “comitês populares de bairro, para cumprir funções indispensáveis como o abastecimento”, e também de “uma estrutura nacional unitária para defender um plano de salvação nacional”, e ainda de “fazer surgir estruturas tais como os comitês populares, as organizações operárias e camponesas em um fórum ou assembleia nacional, pouco importa o nome”.
 
Lora, por outro lado, inventa “um organismo entre os partidos operários e as organizações de massas que atue como direção e canal de mobilização38. Também descobre que na Bolívia “brotam organismos de poder” porque “no povoado de Chuñu Chuñu os camponeses prenderam um homem que roubou uma ovelha e de comum acordo castraram-no e cortaram sua língua39.
 
Assim, o SU e a TC atuam de forma inversa aos marxistas. Em vez de perguntar-se que organismos foram construídos pelas massas e propor que com eles tomem o poder, dedicam-se a tirar de seus febris intelectos uma série de receitas organizativas: conselhos populares, assembleias ou fóruns nacionais, estruturas nacionais dos comitês de bairro, frente dos partidos operários que não querem tomar o poder para que tomem o poder. Qualquer coisa menos reconhecer que o organismo que as massas têm para lutar é a COB.
 

Trotsky recomendava o oposto: não inventar nada; descobrir que organizações de poder foram construídas pelas próprias massas. Porque,
“caso se tenha chegado ao estágio da conquista do poder, se as massas estão dispostas para a insurreição, sem que existam soviets, isso significa que outras formas e outros métodos de organização permitiram efetuar o trabalho de preparação que assegurará o êxito da insurreição40.
 
Não era tão difícil descobrir essas “formas e métodos de organização” na Bolívia, já que existia o antecedente da insurreição triunfante de 1952, feita pelos sindicatos com suas milícias. Somente uma profunda repugnância pela classe operária, por seus métodos e organizações, própria de pequeno-burgueses sem remédio, pode explicar que os dirigentes do SU e da TC não vissem a COB como a organização revolucionária das massas bolivianas. Pior ainda, que opusessem a esta central organismos que só existiam em suas cabeças, substituindo – diria Trotsky – “a ação revolucionária pelo mais nefasto dos jogos, aquele que consiste em distrair-se, no campo da organização, com puerilidades41.
 
Greve geral e insurreição
 
“Todo o poder à COB!” foi, portanto, a única palavra de ordem verdadeiramente revolucionária durante o período que vai desde as primeiras lutas contra Siles até a greve geral de março. No entanto, a estratégia revolucionária não se esgota na palavra de ordem, que aponta o objetivo do movimento, mas não os meios para sua realização.
 
Gramar afirma corretamente que não se deve confundir situação revolucionária com insurreição. Efetivamente, nem uma situação revolucionária nem uma greve geral são suficientes para a tomada o poder: é necessária uma insurreição.
 
O curioso é que nenhuma das correntes com as quais discutimos chamou os trabalhadores a fazer a insurreição, a se organizar e se armar para ela. Polemizando com o MAS, Gramar defende que na Bolívia não se esteve nem sequer perto de uma insurreição, já que a “insurreição não foi acolhida pelas massas”. Lora afirma, em meio à greve geral, que “não se pode dizer que entramos na etapa insurrecional42. O SU não fala da insurreição.
 
O SU e a TC desconhecem o mais elementar da teoria marxista revolucionária, já que para Lenin e Trotsky a greve geral sempre tendia à insurreição. Trotsky afirmava que “a greve geral não resolve o problema do poder, não faz mais que levantá-lo. Para apoderar-se do poder é preciso, apoiando-se na greve geral, organizar a insurreição43. Em 1920, referindo-se às lições da revolução de 1905, Lenin dizia que “a luta revolucionária alcançou tal nível de desenvolvimento e tal potência que a insurreição armada coincidiu com a greve de massas.” E acrescentava: “esta experiência tem significado mundial para todas as revoluções proletárias44.
 
No março boliviano, a tendência à insurreição se expressou, portanto, no simples fato de que houve uma greve geral. Mas a realidade superou esta verdade teórica. Muitas greves gerais, sobretudo na Argentina por razões históricas, mantêm congelada e latente sua tendência natural à insurreição. Nunca foi assim na Bolívia, e menos ainda na greve geral de março.
 
Já vimos o exemplo de Oruro, onde os trabalhadores tomaram o governo em suas mãos por um dia. Mas o melhor exemplo é o de La Paz. O que significa a ocupação da capital do país por dez mil mineiros armados com dinamite, que fazem nela o que querem enquanto a burguesia se esconde debaixo da cama, a pequena burguesia acomodada treme de pânico, a classe operária e o povo pobre os apoiam, e o exército se mostra incapaz de intervir pelo que o próprio PO denomina “perigo de desintegração”?
 
Se não querem chamar isso de semi-insurreição, começo de insurreição ou “tendência à insurreição”, não sabemos que outro nome pode ter. Parece bem ao SU e à TC denominar de “manifestação armada”? Mas não foi uma manifestação armada, trata-se claramente de uma insurreição em curso. Lenin descobriu esta dinâmica já em 1905: “a greve transformou-se em greve geral e desembocou numa formidável manifestação... Começou a insurreição45.
 
A cegueira do SU e da TC, que os impediu de ver que estavam diante de um começo de insurreição, tem sua explicação última na cegueira em relação à COB: se os trabalhadores e o povo boliviano não haviam construído um organismo para a insurreição e para governar... a insurreição não existia.
 
O PO, como de costume, todavia foi mais longe. Em meio à greve geral, escreveu que “as jornadas bolivianas provocam a tentação de compará-las com as chamadas ‘jornadas de julho’ da revolução russa”.
 
Aqui se demonstra uma ignorância fantástica, já que o que caracterizou as jornadas de julho foi a ofensiva em direção ao poder do mais avançado do proletariado de São Petersburgo, antes que as grandes massas de toda a Rússia estivessem dispostas a acompanhá-lo, o que o levou a uma derrota nas ruas. Enquanto que, na Bolívia, as grandes massas populares acompanharam de forma unânime e em todo o país a greve geral e a ocupação mineira de La Paz e não houve uma derrota nas ruas, mas um retrocesso. O próprio retrocesso não se deveu ao fato de a insurreição ser prematura, mas porque estava mais do que madura e não se concretizou por causa da traição das direções.
 
No entanto, o mais grave dessa comparação é que constitui uma traição direta à greve geral, já que significava dizer aos trabalhadores que faziam greve que eles estavam condenados à derrota, a uma “jornada de julho”.
 
A insurreição social e a insurreição “como arte”
 
Gramar faz uma distinção correta quando diz que existe uma insurreição “massiva e irrefreável” e outra insurreição que, “enquanto ação política consciente, é uma arte”. A primeira é a que fazem as massas em luta, que chegam até a disputar o controle das ruas com o regime burguês; a que, como já vimos, Lenin define como o passo da greve geral às manifestações. A segunda é a ação concreta dos destacamentos armados dessas massas em luta para apoderar-se do poder político.
 
A diferença que temos com Gramar é que, para nós, a insurreição “massiva e irrefreável” estava em marcha na Bolívia no mês de março: greve geral, ocupação armada de La Paz pelos mineiros, apoio dos camponeses e do povo pobre, crise completa da burguesia, paralisia e vacilação do exército. Faltava fazer a insurreição como “ação política consciente”. Concretamente, que os mineiros se dirigissem até os quartéis para fazer a grande parte da base do exército passar para o bando revolucionário, que por essa via melhorassem seu armamento somando os fuzis à dinamite, que se dirigissem aos trabalhadores fabris e funcionários públicos e aos estudantes para armar junto com eles pequenos destacamentos de combate e que, finalmente, ocupassem a sede do governo e os centros nevrálgicos de transporte e comunicação46.
 
Esta diferença entre a insurreição como fenômeno político-social e a insurreição como ação político-militar explica a aparente contradição de Lenin, quando afirma, por um lado, que os soviets são “órgãos da insurreição” e, na página seguinte, defende que os soviets “são insuficientes... para organizar a insurreição no sentido mais rigoroso do termo”. Trata-se, de fato, de uma organização especificamente militar para fazer a insurreição.
 
Os soviets”, diz Lenin, são necessários “para aglutinar as massas para forjar uma unidade combativa, mas são insuficientes para organizar diretamente as forças de combate”. É necessário contar, ao mesmo tempo, como uma organização militar, “uma organização direta das forças”, “uma organização de combate... em forma de destacamentos operários armados”. Sem ela, “todos os soviets, todos os delegados das massas serão impotentes”.
 
A diferença entre ambas as organizações radica em que os soviets abarcam “a massa através de seus representantes”, enquanto a organização militar abarca “a massa daqueles que participam diretamente na luta das ruas e na guerra civil47.
 
Essa diferença entra a organização de massas e de poder e a organização especificamente militar que faz a insurreição cria as condições para uma defasagem política entre uma e outra. Isso se deu na própria Revolução Russa: enquanto os soviets eram dominados nacionalmente pelos mencheviques e socialistas-revolucionários, mortalmente contrários à insurreição, os bolcheviques dominavam amplamente os destacamentos operários armados e os regimentos.
 
Isso precipitou uma discussão entre Lenin e Trotsky sobre o momento da insurreição. Trotsky propunha esperar o Congresso Nacional dos Soviets, no qual os bolcheviques ganhariam a maioria, para iniciar a insurreição. Lenin contestava: “Deixar passar um momento como este e ‘esperar’ o Congresso dos Soviets seria uma perfeita idiotice ou uma completa traição48. “Quem assumirá o poder? Isto, agora, não tem importância: que assuma o Comitê Revolucionário, ou ‘outra instituição’... Se hoje nos apropriamos do poder, não nos apropriamos dele contra os soviets, mas sim para eles49.
 
Nessa discussão tática, Trotsky, mais ligado à situação concreta que Lenin, já que este se encontrava na clandestinidade, teve razão: os bolcheviques esperaram o Congresso dos Soviets, ganharam a maioria e lançaram a insurreição. Mas, na realidade, o Congresso dos Soviets proclamou a insurreição, não a organizou. Ela foi feita e organizada pelo organismo previsto por Lenin. Trotsky conta como “o Soviet de Petrogrado, sob minha presidência, criou definitivamente o Comitê Revolucionário Militar, que desde o seu nascimento assumiu todos os preparativos para a insurreição”.
 
Voltando à Bolívia, devemos dizer claramente que os dez mil mineiros armados ocupando La Paz já eram um organismo militar para fazer a insurreição ou, pelo menos, um embrião desse organismo militar. Era a eles que deveria ser proposto que se pusessem em marcha até a tomada do poder pela força, até a insurreição. Esse organismo deveria reforçar-se, estender-se a todo o proletariado e aos quartéis, elaborar um plano concreto para a insurreição e executá-lo.
 
Tudo isso, é claro, sem esperar nenhum minuto que Lechín mudasse de posição e se declarasse a favor da insurreição. A insurreição seria feita mesmo que a COB, oficialmente, não a convocasse. E depois? Depois, possivelmente, quase seguramente, os insurretos entregariam o poder à COB. Parafraseando Lenin: apesar de Lechín e companhia, que dirigem a COB, estarem contra a insurreição, se os trabalhadores armados tomassem o poder não o fariam “contra a COB, mas para ela”.
 
O problema do armamento
 
Não foi em vão que Lechín se colocou, durante décadas, à frente dos grandes movimentos revolucionários do proletariado boliviano para melhor entregá-los ao inimigo de classe. O velho burocrata viu que uma insurreição estava se gestando, disse que era necessária... e que não podia ser feita porque não havia armas. Gramar tem a mesma opinião de Lechín: para ele, a dinamite é apenas “um instrumento de trabalho” e “não foi a dinamite que decidiu a situação em 1952, mas uma insurreição irrefreável.” Dubois disse o mesmo: “o povo boliviano não está armado”.
 
Concordamos com Lechín que não há insurreição que triunfe se não é resolvido o problema do armamento. E concordamos com Gramar que, sem insurreição, a dinamite por si mesma não resolveria nada em 1952... nem nunca.
 
Mas discordamos do conceito um tanto burocrático de Gramar sobre a dinamite, que o leva a coincidir com Dubois e com Lechín em que os mineiros armados com dinamite... não estão armados. Para dizê-lo de uma fora compreensível a Gramar: se a dinamite for usada para extrair o mineral, é um “instrumento de trabalho”; se for usada para matar fascistas e militares da burguesia, é uma arma. A insurreição de 1952 foi “irrefreável” porque colocou em movimento os operários e os camponeses e dividiu o exército, parte do qual mudou de lado e entregou as armas ao campo revolucionário. Mas, acima de tudo, foi uma verdadeira insurreição porque os trabalhadores começaram a se armar com o que tivessem nas mãos, usaram a dinamite em vários combates com os contrarrevolucionários; e isso foi um fator decisivo para que acontecesse todo o resto.
 
Os mineiros com dinamite que ocuparam La Paz já haviam começado a se armar. Este fato político e militar é fundamental. Mesmo sem dinamite e sem nada, bastaria que tivessem começado a se organizar para a luta física nas ruas para que a insurreição já estivesse em marcha. Porque, ao contrário do que disse Lechín, o armamento é produto da organização militar da insurreição e não um requisito prévio.
 
Lenin recomendava organizar militarmente a insurreição criando “grupos voluntários de dez, cinco e até três membros... de partido e sem partido, todos vinculados por uma tarefa revolucionária comum: a insurreição contra o governo... antes de obter as armas, independentemente do problema do armamento50. Trotsky acusava de “céticos que não creem na força do proletariado” aqueles que “invocam... a ausência de armamento... para explicar por que ainda não encararam a criação da milícia51.
 
Milícia e exército
 
Em relação ao outro aspecto do armamento, a questão do exército, Lenin e Trotsky o subordinavam à organização militar da insurreição. Lenin dizia que “todo movimento verdadeiramente popular produz inevitavelmente... a vacilação das tropas”, mas que sua “mudança de lado” não é “um ato simples, mas o fruto de uma verdadeira luta para ganhar o exército52. Essa luta é impossível, segundo Trotsky, sem “a milícia operária” que, “com o apoio de toda a classe... deverá derrotar, desarmar e aterrorizar as quadrilhas de bandidos da reação e abrir o caminho aos operários até a confraternização revolucionária com o exército53.
 
Em síntese, a base do exército não é ganha para a revolução só nem fundamentalmente com a propaganda, mas armando a milícia operária. Na Bolívia, a política revolucionária estava colocada dessa mesma forma, concreta e material. Era necessário desenvolver a organização armada embrionária constituída pelos mineiros com suas dinamites, estendê-la aos trabalhadores fabris e aos estudantes revolucionários, ocupar as ruas exterminando qualquer fascista narcotraficante que levantasse a cabeça e marchar até os quartéis para ganhar os soldados.
 
Tanto o SU como a TC falaram propagandisticamente e ligeiramente sobre o armamento e que os soldados deveriam passar para o campo da revolução. Mas ao não encarar, nem sequer propor medidas concretas, práticas para organizar militarmente a insurreição, não fizeram nada para armar o proletariado e ganhar a base do exército.
 
Como se forja um partido revolucionário
 
Existe uma polêmica, às vezes explícita e quase sempre tácita, entre duas concepções sobre a forma como se forja um partido revolucionário. Uma delas, que poderíamos denominar “possibilista”, afirma que o partido se constrói fazendo o possível, isto é, o que seu desenvolvimento e sua influência no movimento de massas permitem. Dada a situação mundial em que, por razões históricas, os partidos trotskistas são marginais e não possuem influência de massas em nenhum país do mundo, o “possível” é fazer sindicalismo, comentários, críticas aos partidos oportunistas de massas etc. Mas o curso dos acontecimentos está fatalmente determinado pelos “fatores objetivos” - entre os quais se inclui o domínio das massas pelos aparatos burocráticos - e o partido trotskista, pequeno, marginal, não pode fazer nada para modificá-lo.
 
Desta concepção nascem graves deformações, tanto políticas quanto práticas. No âmbito político, leva a que, ainda que em algumas ocasiões seja possível fazer descrições certeiras sobre uma situação, isso não se organiza em palavras de ordem claras, concretas, contundentes e precisas para atuar sobre essa realidade e modificá-la a favor da revolução. No prático, os dirigentes e militantes desse partido, educados na lição de que nada podem fazer para mudar a história, carecem da audácia necessária para atuar nessas raras ocasiões em que efetivamente podem fazê-lo, ou seja, nas crises revolucionárias.
 
A outra concepção é oposta: os revolucionários intervêm na luta de classes como podem, para incidir sobre ela e tratar de levar o proletariado à vitória. Não importa se já temos a influência sobre as massas que nos permita mudar a história ou se ainda não a temos. Em toda circunstância propomos à classe operária e à sua vanguarda linhas de ação revolucionárias, práticas, concretas.
 
Sabemos que, quando a luta de classes não é aguda, não podemos impor nossas políticas, são “impossíveis”. Sabemos que, inclusive nas crises revolucionárias, para que nossas políticas se imponham, é preciso um mínimo de força e organização; do contrário, são “impossíveis”. Mas, ainda assim, seguimos o exemplo de Marx, que, do exterior, propunha políticas e medidas claras e concretas aos revolucionários da Comuna de Paris e sem ter um único militante organizado em Paris.
 
Essa concepção de como se constrói um partido revolucionário forja partidos, dirigentes e militantes para a ação revolucionária, convencidos de que podem mudar a história, não se limitar a contemplar e comentar como outros o fazem... ou não fazem. O grande valor do que Marx escrevia sobre a Comuna de Paris não foi sua incidência sobre ela, que foi nula, mas o precedente histórico deixado pelo seu apaixonado esforço para conseguir, da única forma que tinha ao seu alcance, que a revolução triunfasse. Grande parte das geniais descobertas de Lenin e Trotsky sobre como fazer a revolução se assenta nesse precedente histórico deixado por Marx. E outra parte se apoia na convicção apaixonada de Lenin e Trotsky de que eles e suas organizações existiam para atuar sobre a luta de classes, para fazer a revolução, não para propor políticas “possíveis”, segundo algumas condições “objetivas” que eles não se sentiam capazes de modificar.
 
O “possibilismo” é um câncer que impede a intervenção de forma revolucionária em qualquer luta de classes, inclusive na mais defensiva das greves do mais estável dos países. Mas este câncer é mortal nas situações revolucionárias agudas, já que nelas o “fator subjetivo” adquire um peso decisivo. Quando as massas se lançam ao assalto contra o velho sistema e este oscila em sua crise agonizante, a ação de uma pequena organização revolucionária pode adquirir um peso objetivo: definir a situação com um triunfo revolucionário (precisamente por isso, é nessas circunstancias quando a pequena organização, se tiver uma clara política revolucionária e a audácia necessária, pode, em poucos meses ou semanas, ganhar influência de massas). Mas, se tiver sido educada no “possibilismo” durante toda sua existência anterior, será totalmente incapaz de formular tal política e de adquirir tal audácia.
 
“Possibilismo” e bolchevismo na Bolívia
 
A revolução boliviana permite desnudar o que há de nefasto na concepção “possibilista”. Em última instância, tanto o SU como a TC atuaram convencidos de que a vitória da revolução era impossível ou, pelo menos, que não dependia deles. Era impossível que a única organização operária e de massas existente e reconhecida tomasse o poder... porque Lechín a dirigia, porque era um sindicato e não um soviet, porque a “esquerda” não se unia em uma frente, porque as massas não estavam armadas... pelo que fosse, mas era impossível. O que era preciso fazer? Esperar... que o partido trotskista crescesse e ganhasse as massas, que a esquerda se unisse, que surgissem soviets ou algo parecido, que as massas rompessem com Lechín.
 
A classe operária e as massas haviam chegado o mais longe que podiam chegar pelos seus próprios meios: haviam realizado 90% da preparação da insurreição. Mas nossos “possibilistas” diziam em coro que a insurreição não estava colocada... era preciso esperar. Eles não se consideravam capazes de aproveitar essas excepcionais circunstâncias revolucionárias para atuar e mudar a história da Bolívia.
 
Contudo, na Bolívia, teriam bastado 200 ou 300 militantes revolucionários decididos e audaciosos, que em um trabalho de anos tivessem ganhado 50 a 100 ativistas mineiros para a política revolucionária correta, para que a insurreição se desenvolvesse e triunfasse. Que esses 50 mineiros dissessem aos 10 mil que ocupavam La Paz:
 
É necessário derrubar o governo! Os que querem fazê-lo juntem-se em grupos de combate e comecem a conseguir armas! Vamos aos quartéis para ganhar os soldados! Vamos às fábricas, universidades e bairros para organizar mais grupos de combate! Mandemos uma delegação a Oruro para dizer aos trabalhadores que não saiam da sede do governo porque em La Paz nós vamos fazer o mesmo com o Palacio Quemado!
 
Só com isso era possível - não seguro, mas muito provável – que a revolução boliviana triunfasse. Um partido educado na ação revolucionária poderia tê-lo feito. O PST boliviano, muito pequeno e muito jovem, tentou fazê-lo: mas suas forças não foram suficientes. O POR-Lora e o POR-U nem sequer tentaram.
 
Em meio a uma revolução que bramia nas ruas, o SU e a TC se contentaram em tagarelar acerca da inevitabilidade da insurreição... em um futuro indefinido. Lenin desprezava os que se dedicavam a “falar da inevitabilidade” da insurreição. Para ele, “se se quer ser partidário da revolução, é preciso falar sobre se é necessária a insurreição para a vitória da revolução, se é necessário ou não preconizá-la ativamente, propagá-la, prepará-la imediata e energicamente54. Se “reconhecemos” que estamos diante de “uma verdadeira revolução... a tarefa política mais urgente e central do partido será a de preparar as forças e a organização do proletariado para a insurreição armada55.
 
Nossos “possibilistas” do SU e da TC reconheciam que na Bolívia estava em curso “uma verdadeira revolução”, mas em nenhum momento encararam “a tarefa mais urgente” para um leninista. É uma traição muito grande e muito grave. O POR-U fez parte da direção da COB como integrante da Direção Revolucionária Unificada que, segundo o próprio Dubois, “representou um polo decisivo no sexto congresso da COB, em agosto de 1984”. O POR-Lora se autoproclamou, em meio à greve, “a direção das massas e não somente da classe operária56; não era, mas, sim, era o partido trotskista mais conhecido e numeroso da Bolívia. A responsabilidade do SU e da TC pelo fato de a revolução boliviana não ter triunfado é imensa.
 
Notas:
 
1. Lenin, Obras Completas, Cartago, Buenos Aires, 1958, T. XI, p. 348.
2. INPRECOR, 15/4/85, p. 3-7.
3. Masas, 21/3/85.
4. Prensa Obrera, 20/3/85.
5. Obras Completas, T. XIX, p. 220.
6. Trotsky, Adónde va Francia?, Pluma, Buenos Aires, 1974, p. 79-80 e 86.
7. Obras Completas, T. IX, p. 341.
8. Apesar de Lora e o SU falarem muito do governo operário, nenhum deles tomou esta palavra de ordem de poder como eixo de seu programa, nem sequer no meio da greve geral. O Manifesto de 13 de março do POR-U, publicado na INPRECOR n° 194, levanta um programa de medidas econômico-sociais que não inclui a derrubada de Siles e a tomada do poder como única forma de conquistá-las. Por sua vez, Lora defendia no Masas de 20 de março que a “vitória plena do movimento” seria... a “conquista” do “salário mínimo vital com escala móvel”.
9. Intercontinental Press, 15/4/85.
10. Masas, 17/3/85.
11. Este colossal disparate não é porque Gramar tenha ficado mais louco que Lora. A verdadeira razão da maior prudência de Lora radica no fato de ele escrever em La Paz, rodeado por um povo que reconhece na COB sua própria organização, o que certamente exige alguma cautela, ainda que na loucura. Gramar e seu mestre Altamira escrevem de Buenos Aires, sem estar expostos a tão desagradáveis pressões; por isso se animam a dizer que a COB é a organização dos fura-greves e delatores, não dos operários em luta.
12. Prensa Obrera, 18/4/85.
13. Marx & Engels, Obras Escogidas, Cartago, Buenos Aires, 1957, p. 349-350.
14. La Comuna de Paris, Polémica, Buenos Aires, 1973.
15. Idem, p. 105.
16. Trotsky, The Crisis of the French Section, Pathfinder, New York, 1977, p. 111.
17. Obras Completas, T. XI, p. 118.
18. Obras Completas, T. X, p. 237.
19. Obras Completas, T. XI, p. 118.
20. Trotsky, La lucha contra el fascismo en Alemania, Pluma, Buenos Aires, 1973, T. 1, p. 41.
21. Idem, p. 149.
22. Citado por Pablo Solón, La COB debe ser gobierno, Ed. Trinchera Socialista, La Paz, 1984, p. 22.
23. Trotsky, Historia de la Revolución Rusa, Pluma, Colombia, 1982, T. III, p. 88.
24. La lucha contra el fascismo, … T. I, p. 41- 42.
25. Trotsky, Stalin: el gran organizador de derrotas, Distribuidora Baires, Buenos Aires, 1974, p. 254.
26. Idem, p. 181.
27. Obras Completas, T. XV, p. 343.
28. Trotsky, La revolución española, Yunque, Buenos Aires, 1973, p. 100.
29. Stalin: el gran organizador.. . p. 253.
30. Adónde va Francia?, p. 121.
31. Masas, 14/3/1985.
32. Obras Completas, T. XXV, p. 297-298.
33. La lucha contra el fascismo, fl. 1, p. 139.
34. Não nos propomos a discutir aqui que tipo de governo e de regime político seria o da COB dirigida por Lechín. Poderia considerar-se um governo “operário e camponês” de tipo transicional, como é definido por Trotsky e caracterizado por Lenin o possível governo dos socialistas-revolucionários e mencheviques na Rússia. Mas também, baseando-se no fato de que a COB é uma instituição operária, seria possível defini-lo como uma ditadura do proletariado com um governo burocrático. Inclinamo-nos por esta segunda hipótese. Mas somente a história poderia desvelar esta incógnita, já que seria a primeira vez que uma instituição operária com uma direção não revolucionária tomaria o poder. Mas agora o que nos importa é que, seja qual for a definição, daria um enorme passo revolucionário e não um novo “governo burguês”, como asseguram Lora e o PO.
35. Obras Completas, T. XXV p. 298.
36. Não é possível - diz o Programa de Transição - negar categoricamente a priori a possibilidade teórica de que, sob a influência de uma combinação muito excepcional de circunstâncias (guerra, derrota, crack financeiro, ofensiva revolucionária das massas etc.), os partidos pequeno-burgueses, sem excluir os stalinistas, podem chegar mais longe do que eles queriam no caminho de uma ruptura com a burguesia.
37. Masas, 16/3/1985.
38. Masas, 19/3/1985.
39. Masas, 22/3/1985.
40. Stalin: el gran organizador…, p.252.
41. Idem, p. 255.
42. Masas, 20/3/1985.
43. Stalin: el gran organizador..., p. 198.
44. Obras Completas, T. XXXI, p. 326.
45. Idem, T. VIII, p. 67.
46. Evidentemente, como para Gramar tudo o que as massas bolivianas fizeram durante a greve não tem nada a ver com uma insurreição “massiva e irrefreável”, de forma alguma estava colocada a “insurreição como ação política consciente”. Daí o PO falar das “jornadas de julho”: nada de lutar pelo poder; foi um erro desafiar o governo burguês nesse momento ou, como disse Gramar, “é simplesmente uma aventura propor que um aparato burocrático se lance a uma insurreição que não tenha sido acolhida pelas massas”.
47. Idem, T. XI, p. 118-120.
48. Idem, T. XXVI, p. 71.
49. Idem, T. XXVI, p. 220-221.
50. Trotsky, Stalin, Yunque, Buenos Aires, 1975, T.II, p. 63.
51. Obras Completas, T. XI, p. 120.
52. Adónde va Francia?, p. 34.
53. Obras Completas, T. XI, p. 167.
54. Adónde va Francia?, p. 94.
55. INPRECOR, 15/4/85, p. 3-7.
56. Masas, 15/3/1985.
 
Publicado em Correio Internacional nº 15, Dezembro de 1985.
 
*Eugenio Greco fez parte da equipe de elaboração dirigida por Nahuel Moreno. Atualmente não pertence à LIT-QI.
 
Tradução: Cynthia Rezende e Eujácio R. Silveira

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