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domingo, julho 14, 2024

Ao defender Maduro, Lula ajuda a legitimar uma ditadura capitalista que reprime a classe trabalhadora

Por PSTU-Brasil

Aqui no Brasil, foi muito importante derrotar Bolsonaro nas urnas. Isso porque, caso triunfasse, seu governo continuaria avançando contra as liberdades democráticas e instalaria uma ditadura no país.

Um ativista ou militante sindical venezuelano que luta por seus direitos no país, parte deles presos inclusive, certamente entendeu essa mobilização contra Bolsonaro e o perigo que ele representava. O que deve ter causado perplexidade foram as recentes declarações de Lula em defesa das eleições no país e de Maduro. Lula defendeu a lisura do processo, destacando que “não se pode colocar dúvidas antes de as eleições acontecerem“, marcadas pelo regime venezuelano para 28 de julho.

Pois bem, se Bolsonaro instalaria uma ditadura aqui, na Venezuela já há um regime ditatorial, que reprime e persegue qualquer tipo de oposição. Apoiar Maduro, como Lula faz, é apoiar uma ditadura capitalista, que nem ao menos possui algum caráter “antiimperialista”, como querem fazer parecer alguns.

Não é segredo para ninguém que o regime venezuelano é uma ditadura apoiada nas Forças Armadas,  tem pleno controle sobre a Suprema Corte de Justiça do país, incluindo o Conselho Eleitoral. Processar, afastar e prender líderes opositores que possam ameaçar Maduro tornou-se a regra. A ex-deputada María Corina Machado, escolhida pela chamada Plataforma Unitária Democrática para concorrer às eleições, foi declarada inelegível por 15 anos por suposta “traição à pátria”, e chegou a ser detida em dezembro.

No último dia 8, o coordenador de sua campanha, Emil Brandt, foi preso pelo serviço secreto do governo de Maduro, sem qualquer acusação. Espera-se que ele seja acusado de “traição” ou “terrorismo”, como ocorre frequentemente com os opositores de Maduro. Sejam opositores de direita, ou lideranças populares e sindicais.

Na presença do primeiro-ministro do Estado espanhol, Pedro Sánchez, Lula não só defendeu a legitimidade das eleições na Venezuela, como ironizou a prisão e o afastamento da candidata das eleições. “Eu fui impedido de concorrer em 2018. Em vez de ficar chorando, eu indiquei outro candidato“, afirmou.

A realidade é que Lula sabe muito bem que a Venezuela não tem nada a ver com o Brasil. O que Maduro impôs em seu país, na verdade, foi justamente o plano que Bolsonaro arquitetava em sua tentativa de reeleição: o controle do Supremo Tribunal Federal (STF), das Forças Armadas, e de todas as instituições do regime. De tal forma que, o que existe hoje na Venezuela, não é uma democracia dos ricos que vigora por aqui, ou seja, um regime que favorece os bilionários e as multinacionais, com algumas liberdades democráticas, como de expressão ou organização, mas uma ditadura capitalista que persegue, prende e reprime opositores.

Trabalhadores são as maiores vítimas

Quem mais sofre com a repressão do governo Maduro nem é Corina Machado, uma política de direita ligada ao Partido Republicano dos EUA e a Trump, com um programa abertamente neoliberal. Quem sofre na pele são os trabalhadores, que amargam uma crise econômica sem precedentes, uma política de arrocho aplicada pelo governo e sem direito de, ao menos, protestar. 

No início do ano, diversos trabalhadores de estatais e categorias do setor público, principalmente do magistério, realizaram uma série de mobilizações com reivindicações como aumento dos salários de acordo com a inflação da cesta básica, pela revogação da retirada de direitos, por liberdade sindical, com eleições livres nos sindicatos (que hoje não existem), liberdade de protesto, e a libertação dos trabalhadores presos por lutarem.

O governo respondeu recrudescendo a repressão e prendendo diversas lideranças dos trabalhadores, como o presidente do Sindicato de Trabalhadores da Educação do estado de Barinas, Víctgor Venegas, e de seu irmão, Jose Gregorio Venegas. O punho ditatorial de Maduro recai ainda sobre ativistas, como a advogada de direitos humanos, Rocío San Miguel, presa no dia 9 de fevereiro. 

Como denuncia a Unidade Socialista dos Trabalhadores (UST), seção da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI) no país: “Em todos estes casos, se repete o mesmo padrão, detenção arbitrária sem ordem judicial prévia, desaparição forçada durante vários dias, apresentação posterior sem contato com os familiares e sem presença de advogados da defesa, imputação por acusações de ‘terrorismo e conspiração’ e nenhuma informação oficial do centro de reclusão“. A organização lembra ainda que diversas importantes lideranças operárias seguem presas, como os sindicalistas da SIDOR (Siderúrgica del Orinoco), Leonardo Azócar e Daniel Romero, presos após um protesto reivindicando o cumprimento de contratação coletiva dos operários da empresa.

O governo Maduro é uma ditadura, apoiada e amparada pelas Forças Armadas, que vem aumentando ainda mais a repressão para conter protestos e poder jogar a crise nas costas dos trabalhadores. Como também afirma a UST: “a escalada repressiva do governo de Maduro obedecem, por um lado, ao seu caráter de ditadura burguesa, inimiga dos trabalhadores, que precisa ser cada vez mais repressiva para continuar aplicando o brutal ajuste através do qual descarrega o peso da crise sobre as costas dos trabalhadores e do povo pobre do país. E, por outro, ao seu temor aos protestos e mobilizações operárias”.

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Venezuela: Mobilizações operárias, repressão ditatorial e a necessidade de uma alternativa para a classe operária

Uma ditadura e, ao contrário do que tentam argumentar setores de esquerda, capitalista, sem nada de esquerda ou progressista. Um regime que se beneficia com a renda do petróleo, exportado a vários países do mundo e multinacionais, como a Chevron, e sobre a qual se formou a chamada “boliburguesia”, uma burguesia próxima e incrustada no governo e nas Forças Armadas. E que conta com o Exército e suas milícias particulares para manter seu poder.

A diferença entre o regime de Maduro e a oposição encabeçada por Machado se resume a quais setores da burguesia controlarão os bilhões de dólares do petróleo, mantendo o país em sua condição de dependência e subordinação, e o povo na miséria. A oposição de direita, inclusive, sequer representa uma alternativa mais “democrática”, haja visto as sucessivas tentativas de golpe que já tentou impetrar sob os auspícios dos EUA.

A ditadura venezuelana e a boliburguesia se beneficiam dessa relação, e o imperialismo mais ainda. Ou seja, para além das palavras, Maduro não é “antiimperialista”, nem se propõe a enfrentá-lo. Mas, suponhamos que fosse, e que houvesse um real enfrentamento com os imperialismos dos EUA, da China ou o europeu. Mesmo assim, não justificaria uma ditadura capitalista contra os trabalhadores e a população.

Num hipotético enfrentamento, até se poderia discutir uma unidade de ação com o chavismo, porém, jamais apoiando uma ditadura ou a proibição de oposição e restrições às liberdades democráticas dos trabalhadores.

Apoiar Maduro é apoiar uma ditadura capitalista

Não foi a primeira vez que Lula, em seu terceiro mandato, defende a ditadura de Maduro. Em 2023, o presidente recebeu com pompas Maduro. Agora, ajuda a legitimar um simulacro de eleição que todos sabem que só servirá para consagrar a ditadura que está no poder. Lula, assim, ajuda a legitimar e fortalecer um regime que superexplora a classe trabalhadora do seu país, reprime ativistas e protestos sociais, e qualquer tipo de oposição. Papel também cumprido por aqueles setores de esquerda que insistem em ver algum papel “antiimperialista” nesse regime.

Maduro não é democrata, não é antiimperialista, e muito menos socialista. É um ditador capitalista, e é lamentável que qualquer um que se diga socialista se cale, e mais ainda, apoie as declarações de Lula. Seja em defesa de Maduro, seja em defesa de outras ditaduras igualmente capitalistas, como a de Ortega, Putin ou Xi Jiping. É tão absurdo quanto apoiar Netanyahu, Orban e cia.

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