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Brasil

Unificar a greve das estaduais paulistas e nacionalizar a luta estudantil!

Rebeldia - Juventude da Revolução Socialista

maio 13, 2026

Manu Souza, Diretor de Universidades Públicas da UEE-SP e Maria Clara, Coordenadora do DCE da USP e do CAELL

A greve dos estudantes da USP está para completar um mês. A ocupação da reitoria da USP, no dia 7 de maio, e a entrada da Unicamp e UNESP em greve, marcam uma nova etapa da luta em defesa da educação pública em São Paulo e abre a possibilidade de fazermos uma luta unificada estadual e nacional. 

Na USP, depois de duas rodadas de negociação, a reitoria respondeu às reivindicações estudantis com uma proposta vergonhosa e que os estudantes não aceitaram: só R$ 27 de aumento no PAPFE (Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil) e R$5 de aumento para os moradores do CRUSP (Conjunto Residencial da USP), que recebem um auxílio parcial. Como se não bastasse o desrespeito às condições de permanência, encerrou arbitrariamente a mesa de negociação, deixando evidente que não pretende atender as demandas estudantis nem dialogar de fato com a mobilização que chegou 140 cursos em greve. A ocupação da reitoria foi uma resposta legítima dos estudantes por uma nova mesa de negociação e o aumento real do auxílio de permanência. 

No Dia das Mães, a resposta do governo do estado e da reitoria da USP foi a repressão. Os estudantes realizavam, há três dias, uma ocupação legítima no prédio da reitoria, nomeada “Rafael Gomes”, em homenagem a um trabalhador terceirizado da Esalq que faleceu soterrado em um acidente de trabalho.

A polícia atacou a ocupação no meio da madrugada, sem mandado e sem qualquer aviso prévio, utilizando de cacetetes, gás de pimenta, bomba de efeito moral e um corredor polonês para encurralar os estudantes. Isso evidencia o caráter repressivo do Estado diante de uma manifestação pacífica e legítima dos estudantes. Trata-se da PM que tem o sangue negro das periferias de São Paulo em suas mãos, que deixa centenas de mães sem seus filhos, que projete os interesse dos ricos e não da população. 

A repressão policial à ocupação da reitoria da USP teve um objetivo claro: impedir a reabertura das negociações com o reitor Aluísio. A ação da polícia, que deteve quatro estudantes e feriu dezenas de pessoas, demonstra mais uma vez a postura antidemocrática da reitoria, que afirma não ter responsabilidade sobre a repressão, mas segue se recusando a negociar.

É importante ter nítido que o que está em jogo não é apenas o valor do auxílio permanência. As reitorias e os governos vêm implementando um projeto de universidade cada vez mais subordinado ao mercado, com cortes permanentes, terceirização, precarização do trabalho e redução das políticas de permanência a medidas mínimas e insuficientes. Enquanto a pesquisa e a estrutura universitária são colocadas a serviço dos interesses capitalistas, milhares de estudantes trabalhadores enfrentam dificuldades para permanecer estudando. 

Por isso, a revolta que explodiu na USP não está isolada. Ela faz parte de um processo mais amplo de enfrentamento contra a precarização da educação pública imposta pelos governos e administrada pelas reitorias. Enquanto a greve da USP já dura semanas, diversas lutas despontam no estado de São Paulo. Professores municipais seguem em greve contra a intransigência de Ricardo Nunes e por reajuste salarial. Metroviários constroem assembleias e paralisações contra a política privatista de Tarcísio de Freitas. Os governos da extrema direita avançam com um projeto de sucateamento dos serviços públicos, ataque aos trabalhadores, repressão e destruição da educação.

Greve unificada das estaduais paulistas

Nas universidades estaduais, a mobilização cresce e uma greve das estaduais está sendo construída pela indignação estudantil. Na Unicamp, uma assembleia massiva com mais de dois mil estudantes aprovou o indicativo de greve, agora debatido nos cursos e institutos, com a pauta de moradia, melhorias no campus e pela permanência estudantil. Na UNESP, diversos campi aprovaram paralisações, estados de greve e mobilizações contra a falta de professores, o repasse desigual do orçamento e o aprofundamento do sucateamento das universidades estaduais paulistas, com a possibilidade de todos os 24 campi entrarem em greve nas próximas semanas.

Por isso, a tarefa central do próximo período é unificar as lutas. A greve da USP precisa se conectar com a mobilização da Unicamp, da UNESP e também com a luta dos trabalhadores da educação e do metrô em São Paulo. O chamado para um encontro estadual das universidades na reitoria da USP no dia 9 de maio apontou para a unificação, definindo uma nova data de reunião para o próximo dia 16. Defendemos construir um comando unificado de greve, como organizador estadual da luta, junto a construção de uma marcha estadual em São Paulo até o Palácio de Tarcísio no dia 20.

Nesse cenário, cresce a necessidade de construir uma verdadeira greve geral da educação no Estado de São Paulo, unificando estudantes, técnicos, docentes e trabalhadores da educação básica. A luta pela permanência estudantil precisa ir muito além de reajustes pontuais. É necessário defender moradia estudantil, bandejões gratuitos, transporte, contratação de professores e funcionários, ampliação das bolsas e acesso real da juventude trabalhadora à universidade pública.  Só a força da mobilização unificada pode derrotar os cortes e arrancar investimentos reais para a educação pública.

Nacionalizar a luta e preparar um dia nacional de mobilização e paralisação estudantil

Ao mesmo tempo, em 56 universidades federais, os técnicos administrativos estão em greve contra os cortes, o ajuste fiscal e a precarização. Somando-se a esta luta, na UFRJ, os estudantes estão construindo uma paralisação para o dia 19 de maio, com mais de 30 cursos já tendo aderido. Os estudantes também sentem diretamente o peso da política fiscal do governo Lula. Falta moradia estudantil, bolsas permanência, professores, condições mínimas para permanecer estudando.

Enquanto isso, governos e reitorias seguem aplicando políticas de ajuste e tentando criminalizar as mobilizações. Nesse caso, a política federal é diretamente responsável pelo sucateamento das condições de trabalho e estudo. Os cortes e o sucateamento são consequência de uma escolha política expressa no arcabouço fiscal e na prioridade dada ao pagamento da dívida pública e aos interesses do mercado financeiro. Enquanto bilhões seguem destinados aos banqueiros, faltam investimentos para garantir condições dignas de estudo e trabalho nas universidades. 

Mas essa luta também esbarra nos limites das direções majoritárias do movimento estudantil, que se recusam a impulsionar uma mobilização nacional consequente porque não querem enfrentar a política de ajuste fiscal do governo Lula. A luta dos técnicos deve impulsionar a luta dos estudantes, assim como foi na greve construída na USP, em que a greve dos servidores foi um pontapé e que a unidade com os trabalhadores segue fundamental no fortalecimento da luta contra o projeto de universidade defendido por Tarcísio-Segurado. 

A majoritária da UNE — UJS,  JPT e Juventude Sem Medo (Afronte e Rua) — dirige grande parte dos DCEs das universidades federais em greve, mas até agora não fizeram nada para organizar uma resposta de luta dos estudantes e sequer apoiam a greve dos técnicos A precarização provocada pelos cortes e pelo ajuste atinge estudantes, técnicos e professores, deteriorando as condições de permanência e estudo nas universidades. Uma greve unificada colocaria em peso as reivindicações dos trabalhadores e dos estudantes. Ainda assim, essas direções evitam organizar um enfrentamento nacional mais profundo em nome da sustentação política do governo federal e do suposto combate à extrema direita.

O combate à extrema direita, contudo, não será feito freando as lutas. Em São Paulo, são justamente os setores da Oposição de Esquerda da UNE que vêm impulsionando os enfrentamentos mais duros contra Tarcísio, Nunes e o projeto de sucateamento da educação pública. Já na Unicamp, onde o DCE é dirigido pelo Afronte e UJS, a majoritária estava contra a construção da greve, mas pela pressão dos estudantes, pelo exemplo da USP e o ato unificado contra as reitorias, o movimento ultrapassou os limites das direções. Por isso, nós do Rebeldia, compreendemos que, para derrotar a extrema direita, é preciso apostar na mobilização e ser oposição de esquerda ao governo Lula, que fortalece o bolso de banqueiros, empresários e um projeto capitalista de país e de educação. Somente pela mobilização verdadeiramente independente, de oposição de esquerda ao governo, é possível derrotar aqueles que atacam a classe trabalhadora e os estudantes. 

Por bolsa permanência, bandejão e moradia: por uma paralisação nacional das universidades!

É preciso preparar um grande dia nacional de mobilização da educação. Os estudantes das federais precisam unificar sua luta com os técnicos e docentes em greve. A mobilização nas estaduais paulistas pode servir de exemplo para uma luta nacional contra um projeto de educação que aparece de forma brutal nos governos da extrema direita, mas também se expressa nos cortes, no ajuste fiscal e no sucateamento mantidos pelo governo federal. Não por acaso, os técnicos das universidades federais seguem em greve em todo o país.

Se a luta avançar pela unificação das universidades e pela construção de uma greve geral da educação, será possível transformar a revolta estudantil em uma força capaz de enfrentar os governos, as reitorias e o projeto de precarização da educação pública em todo o país e garantir permanência estudantil. Nesse sentido, a Oposição de Esquerda da UNE tem muita responsabilidade: por um lado, cobrar a majoritária da UNE para construirmos unitariamente a nacionalização; por outro, tomar em suas mãos a responsabilidade de construí-la imediatamente. 

Por fim, essa luta está atrelada não apenas à conquista da permanência estudantil e derrotar o projeto econômico de Tarcísio e Lula, mas também à construção de uma alternativa política independente. Acreditamos que uma luta unificada dos estudantes nacionalmente, e da Educação em São Paulo, podem ser um ponto de apoio para afirmarmos uma nova direção para o movimento estudantil que aposte na luta de classes e não na conciliação com governos e reitorias. Nós do Rebeldia nos colocamos à disposição dessa batalha, afirmando uma oposição de esquerda ao governo Lula e um programa socialista para romper com as engrenagem do sistema capitalista. 

  • Por bolsa permanência, bandejão e moradia nas estaduais e federais!
  • Derrotar os Parâmetros de sustentabilidade da USP, o Arcabouço fiscal e arrancar mais repasse de verba para as universidades estaduais!
  • Por um comando de greve das estaduais que coordene a greve unificada em São Paulo! Rumo à marcha estadual em São Paulo contra Tarcísio!
  • Unificar estaduais e federais: por um dia nacional de mobilização e paralisação dos estudantes!
  • Que a UNE acorde e convoque a luta, e que a Oposição de Esquerda da UNE dê consequência à essa construção desde já!
  • Independência em relação a todos os governos e reitorias: nossos aliados são os trabalhadores!

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