Tolima em chamas: o fogo, o Estado e a disputa pelo território. O fogo não surgiu de um dia para o outro
Quando, neste mês de agosto, o Tolima se tornou o epicentro de uma das maiores emergências florestais do país, o departamento já acumulava, havia meses, sinais de alerta: altas temperaturas, redução das chuvas, municípios em risco, incêndios recorrentes e chamados institucionais para fortalecer a capacidade de resposta.
A cronologia mostra que a emergência foi crescendo progressivamente. Entre 3 de maio e 23 de julho, haviam sido registrados 151 incêndios florestais e mais de 821 hectares afetados. No início de agosto, o número acumulado chegava a 271 incêndios e, no dia 6 do mesmo mês mês, 46 dos 47 municípios do departamento estavam em alerta vermelho ou laranja devido ao risco de incêndios.
A pergunta que essa sequência deixa é inevitável: o que aconteceu entre os alertas e a catástrofe? Porque um incêndio pode começar com uma faísca, mas uma crise ambiental dessa magnitude não pode ser explicada apenas pelo instante em que surge a chama. O fogo se espalhou por um território concreto, atravessado por desigualdades sociais, diferentes capacidades institucionais, relações de propriedade e disputas históricas pelo controle da terra e dos recursos naturais. O fogo não caiu sobre um espaço vazio. Ardeu sobre um território.
Os alertas antes do desastre
A ameaça foi identificada antes de alcançar as dimensões de agosto. Em 28 de maio de 2026, a Cortolima (Corporação Autônoma Regional do Tolima) adotou, por meio da Resolução 3426, um Plano de Contingência diante da probabilidade e dos possíveis efeitos do fenômeno do El Niño. Entre as medidas estavam a prevenção de incêndios de cobertura vegetal, a proteção dos recursos hídricos e restrições a fogueiras e queimadas a céu aberto.
Em 8 de julho, o Governo do Tolima informava que 28 municípios estavam sob algum nível de risco de incêndios. Duas semanas depois, entre 3 de maio e 23 de julho, já haviam sido contabilizados 151 incêndios e 821,19 hectares afetados. Em alguns municípios, as temperaturas ultrapassavam 39 graus Celsius.
Em 3 de agosto, foram registrados 68 incêndios durante apenas um fim de semana. Doze incêndios permaneciam ativos e a própria Secretaria de Meio Ambiente e Gestão de Riscos alertava que a capacidade de resposta dos órgãos de socorro poderia ficar comprometida caso a situação continuasse se agravando. Três dias depois, 36 municípios estavam em alerta vermelho e 10 em alerta laranja. Os alertas existiam, os incêndios também, e o risco havia sido identificado. No entanto, a emergência continuou crescendo até atingir dimensões que obrigaram à mobilização de recursos extraordinários. Aqui aparece uma das primeiras contradições políticas da crise.
Não se pode afirmar que o Estado permaneceu completamente ausente. Houve planos de contingência, monitoramento, reuniões institucionais e solicitações de apoio. Mas a cronologia mostra que a maior capacidade de resposta foi ativada quando a emergência já havia ultrapassado os mecanismos ordinários.
A pergunta, então, não é se as instituições fizeram alguma coisa. Fizeram tarde.
A questão é por que as ações extraordinárias chegaram quando o território já estava em chamas e havia um problema ambiental de grande escala.
O Estado entre a prevenção e a reação
Em 10 de agosto, já havia 15 incêndios florestais ativos. Um dia depois, 36 incêndios permaneciam ativos em 20 municípios. Em San Luis, eram relatados mais de 2.000 hectares afetados e danos em moradias rurais. Em 13 de agosto, o Tolima enfrentava um de seus dias mais críticos: 39 incêndios florestais ativos em 18 municípios.
A resposta envolveu bombeiros, Defesa Civil, Cruz Vermelha, Exército Nacional, Polícia, Força Aeroespacial, órgãos de socorro e comunidades. Foram realizadas operações terrestres e utilizadas aeronaves para atender aos focos mais graves. Mas, no dia seguinte, o Conselho Departamental de Gestão de Riscos reconheceu que a emergência havia ultrapassado a capacidade ordinária. O Tolima declarou calamidade pública departamental.
A declaração permitiu agilizar recursos e fortalecer a capacidade institucional para enfrentar os incêndios ativos. As operações posteriores conseguiram reduzir temporariamente o número de focos, mas, naquele momento, os danos ao território já haviam alcançado uma dimensão muito maior.
A crise deixa uma pergunta incômoda: se o Estado podia mobilizar recursos extraordinários, aeronaves e mecanismos excepcionais quando a emergência atingiu dimensões críticas, por que essa capacidade não esteve presente com a mesma intensidade durante as etapas anteriores de prevenção?
Esta não é apenas uma discussão administrativa. É uma discussão política. A prevenção exige investimento permanente em territórios onde, muitas vezes, a presença do Estado é limitada: fortalecimento dos corpos de bombeiros, brigadas comunitárias, proteção das fontes hídricas, manutenção das estradas rurais, sistemas de alerta precoce e monitoramento ambiental. São investimentos pouco visíveis.
Uma brigada comunitária que evita um incêndio não produz as mesmas imagens que um helicóptero despejando água sobre uma montanha em chamas. A catástrofe, por outro lado, concentra a atenção pública e permite demonstrar capacidade institucional quando o dano já se transformou em uma realidade impossível de ignorar. Essa contradição revela uma característica fundamental da relação entre Estado e território: a presença institucional não é distribuída de maneira uniforme. Há territórios onde o Estado está presente permanentemente. E há outros onde aparece principalmente quando a crise já eclodiu.
De uma perspectiva marxista, o problema não pode ser reduzido à ineficiência administrativa ou à falta ocasional de coordenação institucional. O Estado intervém sobre territórios atravessados por relações desiguais de poder, propriedade e capacidade econômica. A distribuição dos recursos públicos expressa prioridades políticas: enquanto alguns investimentos voltados à prevenção permanecem invisíveis e recebem atenção limitada, outras formas de intervenção são ativadas rapidamente quando a crise ameaça atividades econômicas, infraestrutura estratégica ou produz uma pressão pública impossível de ignorar. A questão, portanto, não é apenas por que faltaram recursos, mas como e em função de quais interesses são historicamente definidas as prioridades de investimento e de presença estatal.
A catástrofe ambiental não afeta todos os territórios da mesma maneira porque os territórios também não partem das mesmas condições.
A catástrofe não é apenas natural
A explicação mais cômoda consiste em atribuir tudo ao clima.
As mudanças climáticas e a variabilidade climática são fatores fundamentais. Elas criam condições favoráveis para incêndios mais intensos e difíceis de controlar.
– Mas o clima não organiza os orçamentos públicos.
– O clima não decide onde será construída a infraestrutura.
– O clima não determina a capacidade dos órgãos de socorro.
– O clima também não explica, por si só, por que determinadas comunidades rurais enfrentam maiores dificuldades para acessar mecanismos de prevenção e resposta.
O fogo precisa de condições materiais para se espalhar. Vegetação seca, altas temperaturas e ventos fazem parte dessas condições. Também é necessária, na maioria dos casos, uma fonte de ignição, que pode ser acidental, resultado de negligência, consequência de determinadas práticas produtivas ou resultado de ações intencionais. Determinar a causa específica de cada incêndio cabe às autoridades competentes, e não podemos descartar interesses econômicos. Mas limitar a investigação à origem imediata das chamas seria insuficiente.
Uma crise ambiental também deve ser entendida como um processo social. Os incêndios ocorrem em territórios historicamente transformados pelas atividades humanas, pelos modelos produtivos, pelas formas de propriedade e pelas relações econômicas. As florestas não existem fora da sociedade. A água não existe fora da economia. A terra não existe fora das relações de poder.
De uma perspectiva marxista, a natureza não pode ser entendida como um cenário externo sobre o qual ocorre a história humana. Ela é uma das condições materiais que tornam possível a vida e a produção.
– Sem água, não há agricultura.
– Sem solos férteis, não há produção de alimentos.
– Sem ecossistemas funcionais, deterioram-se as condições de vida das comunidades.
Por isso, a crise ambiental também deve ser entendida como uma expressão da fratura metabólica entre a sociedade e a natureza. A produção humana depende permanentemente dos solos, da água, das florestas e dos ciclos ecológicos. Entretanto, uma economia orientada prioritariamente pela acumulação pode extrair recursos, transformar ecossistemas e expandir atividades produtivas sem assumir plenamente os custos ecológicos dessa transformação. O resultado é uma contradição: enquanto a produção depende da natureza para existir, determinadas formas de acumulação podem deteriorar as próprias condições materiais que tornam possível a vida e a produção futura e, inclusive, como ocorre na Amazônia, a destruição muitas vezes é intencional com o objetivo de ampliar a fronteira agrícola e pecuária.
O território que ficou sob as cinzas
O incêndio não termina quando as chamas desaparecem. Em 12 de agosto, a Cortolima informava que cerca de 2.000 hectares haviam sido afetados. Dez dias depois, uma análise realizada por meio de imagens de satélite e cartografia oficial determinou que 22.319 hectares haviam sido afetados em 28 municípios.
Em 26 de agosto, o número subiu para 31.046 hectares. Os municípios mais afetados eram Ortega, Armero-Guayabal, San Luis, Guamo, Coyaima e Chaparral. Mas os hectares não são apenas números. Dentro dessas áreas havia florestas, pastagens, plantações, ecossistemas seminaturais, fauna silvestre e solos produtivos. A análise da Cortolima revelou que uma parcela significativa das áreas afetadas correspondia a florestas e ecossistemas seminaturais. Também foram registrados impactos diretos sobre a fauna silvestre.
O dano também não termina na superfície. Os incêndios podem alterar a estrutura do solo, reduzir a matéria orgânica e deixar extensas áreas expostas a processos posteriores de erosão. Quando as chuvas retornarem, os solos sem cobertura vegetal poderão se transformar em fontes de sedimentos para córregos e rios, representando risco de deslizamentos e avalanches.
Por isso, a emergência não pode ser medida apenas pelo número de incêndios. Deve ser medida também pelo que desapareceu dentro das áreas queimadas. Quando uma floresta queima, não desaparece apenas uma cobertura vegetal.
– Um território é transformado.
– Fontes de água são afetadas.
– A capacidade produtiva dos solos é modificada.
– O habitat de espécies é alterado.
– Ecossistemas dos quais comunidades inteiras dependem são enfraquecidos.
A natureza, nessa perspectiva, não é uma paisagem que deve ser protegida apenas por razões estéticas ou sentimentais.
– É uma condição material da existência.
– Defender uma floresta significa defender a água.
– Defender o solo significa defender a produção de alimentos.
– Defender os ecossistemas significa defender as condições de vida das comunidades que deles dependem.
A partir dessa perspectiva, surge uma contradição fundamental entre o valor de uso e o valor econômico do território. Para uma comunidade camponesa, uma floresta pode significar água, alimentos, proteção do solo e continuidade da vida. Para determinados interesses econômicos, esse mesmo espaço pode ser avaliado principalmente segundo sua capacidade de gerar rentabilidade. A disputa ambiental começa precisamente quando as condições materiais necessárias à vida são subordinadas à lógica da valorização econômica.
A catástrofe também não tem as mesmas consequências para todos os setores sociais. A perda de uma floresta, de uma fonte de água ou de uma plantação afeta de maneira diferente quem possui múltiplas propriedades e uma família camponesa cuja reprodução material depende diretamente de uma pequena parcela de terra. De uma perspectiva de classe, os desastres ambientais tendem a aprofundar desigualdades preexistentes: aqueles que possuem menos recursos têm menor capacidade de recuperação, enquanto os setores com maior capital podem absorver mais facilmente as perdas ou até adquirir novos ativos em contextos de crise.
Depois do fogo começa a disputa
O conceito de ecocídio permite dimensionar politicamente a magnitude de uma destruição ambiental em grande escala. Entretanto, determinar se os fatos constituem juridicamente um crime ambiental específico ou se houve incêndios provocados intencionalmente ultrapassa nossas possibilidades.
Atualmente, existem investigações e denúncias sobre possíveis incêndios intencionais. As autoridades mencionaram indícios relacionados ao uso de acelerantes e pessoas supostamente envolvidas na provocação de alguns focos. Esses fatos devem ser investigados. Mas, mesmo que cada incêndio tivesse uma explicação imediata diferente, a questão política permaneceria.
O que acontecerá com o território depois das chamas?
O Tolima não é apenas uma região agrícola. Sua geografia reúne ecossistemas estratégicos, importantes bacias hidrográficas, áreas de produção agropecuária e regiões com riqueza geológica e potencial minerador.
– O território não é uma superfície vazia.
– É um espaço de disputa.
Ali se encontram comunidades rurais, recursos naturais, atividades econômicas, formas de propriedade e interesses relacionados ao uso da terra. Atualmente, não existem provas judiciais, técnicas ou científicas que permitam afirmar ou descartar que os incêndios florestais de 2026 tenham sido provocados deliberadamente para facilitar projetos de mineração e energia, de hidrocarbonetos ou processos de expansão da pecuária.
Mas a ausência de uma relação direta comprovada entre um incêndio e um interesse econômico específico não elimina outra questão fundamental: quais transformações poderão ocorrer posteriormente nos territórios afetados?
Uma leitura marxista não precisa construir teorias conspiratórias para reconhecer que a destruição ambiental ocorre dentro de espaços onde existem relações econômicas concretas. A investigação deve olhar para antes e depois do incêndio.
Antes, para compreender quais processos estavam transformando o território: mudanças no uso do solo, expansão de atividades produtivas, fragmentação de ecossistemas, pressão sobre os recursos naturais e concentração da propriedade.
Depois, para observar quem compra as terras, quem as ocupa, quem decide sobre sua restauração e quais novas atividades econômicas surgem nos territórios degradados. O incêndio não precisa necessariamente ser a causa original desses processos para se transformar em um acelerador de transformações que já estavam em andamento.
A partir dessa perspectiva, a análise não precisa demonstrar que uma atividade econômica provocou diretamente o incêndio para investigar suas consequências territoriais. Uma catástrofe pode se transformar em um momento de reconfiguração do espaço. Quando comunidades perdem capacidade econômica, os ecossistemas se degradam e as terras diminuem temporariamente sua capacidade produtiva, podem surgir novas condições para processos de compra, concentração ou transformação do uso do solo. A investigação deve determinar se, depois da emergência, os territórios afetados serão restaurados em benefício das comunidades e dos ecossistemas ou incorporados progressivamente a novas dinâmicas de acumulação.
Essa é uma das questões fundamentais deixadas pela emergência. O que acontecerá com as mais de 31 mil hectares afetadas? Serão restauradas? Serão protegidas? As comunidades participarão das decisões? Ou a degradação ambiental abrirá caminho para novas formas de transformação e apropriação econômica do território?
A pergunta sobre o futuro das terras queimadas conduz inevitavelmente à questão da propriedade. Em uma sociedade profundamente desigual, a capacidade de decidir sobre o território não está distribuída democraticamente. Quem possui grandes extensões de terra ou dispõe de capital para adquiri-las tem maiores possibilidades de intervir sobre o uso futuro do solo do que uma comunidade camponesa afetada pela perda de plantações, água ou condições de produção. Por isso, qualquer processo de reconstrução posterior aos incêndios deve acompanhar não apenas a recuperação ecológica, mas também possíveis processos de concentração da propriedade e deslocamento econômico das comunidades locais.
O Tolima depois do fogo
As mudanças climáticas explicam parte da crise. Não explicam toda a história. Uma explicação exclusivamente climática corre o risco de transformar uma catástrofe política e social em um fenômeno natural inevitável. E, quando uma catástrofe parece inevitável, desaparecem as perguntas sobre responsabilidade. Quem deveria prevenir? Onde estavam os recursos? Por que a capacidade extraordinária chegou quando a emergência já havia alcançado dimensões críticas? O que acontecerá com os territórios depois?
Uma leitura marxista da crise ambiental obriga a olhar para além do momento da destruição. Obriga a analisar a relação entre natureza e acumulação, entre território e propriedade, entre capacidade estatal e desigualdade social. Porque a natureza não está fora das relações de poder. A terra, a água, as florestas e o subsolo fazem parte das condições materiais sobre as quais a vida se organiza e a economia se desenvolve. Quem controla esses recursos tem poder.
Por isso, a reconstrução posterior aos incêndios não pode se limitar a apagar os últimos focos, contabilizar hectares perdidos e declarar superada a emergência. A verdadeira discussão começa depois. Quando for preciso decidir o que será feito com as terras queimadas.
– Se os ecossistemas serão restaurados.
– Se as fontes hídricas serão protegidas.
– Se as comunidades terão participação nas decisões.
Ou se a destruição ambiental acabará facilitando novas formas de concentração da terra e transformação econômica.
– As chamas podem ser extintas em questão de dias.
– As consequências podem durar décadas.
O que acontecer no Tolima depois dos incêndios permitirá determinar se as cinzas foram o início de um verdadeiro processo de restauração ecológica e justiça territorial ou se, pelo contrário, a destruição abriu caminho para novas formas de apropriação.
A defesa ambiental não pode ser reduzida a uma política técnica administrada exclusivamente por instituições ou empresas. A defesa dos ecossistemas exige participação efetiva das comunidades que habitam os territórios. Defender um rio significa defender aqueles que dependem de suas águas. Defender uma floresta significa defender as condições materiais das comunidades rurais. Defender o solo significa defender a possibilidade de produzir alimentos. Por isso, a luta ambiental está inseparavelmente ligada à luta pela democratização do território e pelo direito das comunidades de participar das decisões sobre a terra, os recursos naturais e seu futuro coletivo.
Porque uma catástrofe nunca ocorre sobre um território vazio. Ocorre sobre terras habitadas, trabalhadas, disputadas e atravessadas por relações de poder. O fogo destruiu milhares de hectares. Mas a disputa pelo território está apenas começando.
Juan Castro, engenheiro agrônomo da Universidade do Tolima
Agosto 2026




