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Meio Ambiente

El Niño 2026: impactos de um planeta mais quente

Jeferson Choma

setembro 7, 2026

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado, entre outros fatores, pelo enfraquecimento dos ventos alísios e pela alteração da circulação atmosférica conhecida como célula de Walker. Essa mudança na circulação redistribui o calor e a umidade na atmosfera e pode provocar alterações significativas nos padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.

O El Niño de 2026 vem sendo apontado como potencialmente um dos mais intensos já registrados desde o início das medições modernas, na década de 1950. Por sua intensidade prevista e por seus possíveis impactos, o fenômeno vem sendo comparado ao El Niño de 1877–1878, cujas consequências foram brutais em diversas partes do mundo, particularmente na China, na Índia e no Nordeste brasileiro.

A pesquisa do historiador Mike Davis, apresentada no livro Holocaustos Coloniais, demonstra que o El Niño de 1877–1878 ocorreu simultaneamente à consolidação de uma nova fase do imperialismo colonial. Davis argumenta que o Império Britânico se aproveitou das consequências sociais e econômicas provocadas pelas crises climáticas para aprofundar relações de produção capitalistas, privatizar terras comunais, desapropriar populações tradicionais, ampliar o trabalho assalariado, aumentar o endividamento externo dos países coloniais e criar um mercado mundial de grãos enquanto mais de 50 milhões sucumbiram a fome devido às secas.

Ao mesmo tempo, Davis ressalta que as grandes crises de fome e as transformações provocadas por esse processo também contribuíram para o surgimento e o fortalecimento de revoltas e movimentos de resistência. Entre eles, destacam-se a Rebelião dos Boxers na China e o fortalecimento do movimento nacionalista indiano, além de processos de revolta e resistência que ocorreram em outras partes do mundo, inclusive no Brasil, como em Canudos.

Para compreender a dimensão do fenômeno atual, é importante estabelecer uma comparação com os eventos anteriores. Um El Niño muito forte, ou “super El Niño”, ocorre quando as águas da região equatorial do Oceano Pacífico apresentam uma anomalia de temperatura superior à de 2 °C acima da média.

O El Niño de 2023–2024, embora tenha sido muito forte, não foi o maior já registrado. A anomalia chegou a aproximadamente 2 °C acima da média. Nos eventos de 1997–1998 e 2015–2016, considerados entre os mais intensos do período moderno, os valores ultrapassaram 2 °C. Portanto, a ocorrência de um novo super El Niño não seria inédita. A questão é saber qual será a intensidade do fenômeno de 2026 e em que condições climáticas e sociais ele ocorrerá.

El Niño           Classificação Pico aproximado da anomalia

1982–1983      Muito forte / Super El Niño   2,2 °C acima da média

1997–1998      Muito forte / Super El Niño   2,4 °C acima da média

2015–2016      Muito forte / Super El Niño   2,6 °C acima da média

Mas, se já ocorreram El Niños muito fortes, por que o fenômeno de 2026 preocupa? A resposta não está apenas na intensidade do aquecimento do Pacífico. O problema é que um possível El Niño excepcional ocorrerá em um planeta que já apresenta temperaturas médias muito mais elevadas em razão do aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito estufa. Assim, o aquecimento associado ao fenômeno poderá se somar a uma linha de base climática já elevada.

Por outro lado, como se pode observar no gráfico abaixo, nas últimas décadas o fenômeno El Niño tem se tornado cada vez mais frequentes (com ciclos mais curtos) e intensos (cada vez mais fortes) devido ao próprio aquecimento da Terra. É por isso que os alertas científicos indicam que os efeitos do El Niño atual poderão ser muito mais catastróficos dos os registrados no passado.

Os efeitos do El Niño de 2023-2024

No Brasil, as consequências do El Niño de 2023–2024 ainda estão frescas na memória e mostrou de maneira concreta como uma alteração na circulação atmosférica pode produzir efeitos extremos e muito diferentes.

Em setembro de 2023, no auge do El Niño, o Rio Grande do Sul registrou, em apenas 19 dias, uma quantidade de chuva equivalente ao triplo da média mensal. Ao mesmo tempo, milhares de quilômetros ao norte, o Rio Negro atingiu em Manaus o nível mais baixo já registrado.

A situação voltou a se agravar meses depois. Em maio de 2024, ainda sob influência do mesmo evento climático, as chuvas extremas atingiram novamente o Rio Grande do Sul. O rio Guaíba chegou a 5,37 metros, ultrapassando o recorde registrado desde 1941. O estado sofreu uma das maiores catástrofes climáticas de sua história, com enormes prejuízos econômicos e sociais. Cerca de 90% das fábricas do estado foram afetadas, e 184 pessoas morreram em consequência das enchentes.

Os impactos do El Niño, entretanto, não se limitaram às enchentes. O evento também agravou as condições de seca em outras regiões do país, particularmente na Amazônia, contribuindo para o aumento da vulnerabilidade da floresta às queimadas. No período, o Brasil enfrentou a seca mais severa já registradas, cujos impactos atingiram inclusive importantes regiões do agronegócio brasileiro. A redução das chuvas comprometeram o desenvolvimento das lavouras de soja, obrigando os fazendeiros a realizar o replantio.

A relação entre seca, queimadas e saúde pública também ficou evidente. No pico das queimadas, foram registrados 3,7 milhões de atendimentos de saúde relacionados à seca e à fumaça em apenas um mês, sendo quase um terço deles envolvendo crianças. Em setembro daquele ano, uma enorme quantidade de fumaça das queimadas se deslocou por centenas de quilômetros e atingiu diferentes regiões do país. São Paulo chegou a registrar níveis de poluição atmosférica entre os piores do mundo.

A seca também afetou profundamente as populações que dependem dos rios para sobreviver. Em 2024, comunidades ribeirinhas do Amazonas enfrentaram enormes dificuldades de deslocamento e acesso à água e aos alimentos. Com a redução do nível dos rios, trajetos que normalmente eram realizados de barco precisaram ser percorridos a pé sobre leitos de areia.

Um dos episódios mais dramáticos ocorreu em setembro de 2023, quando um lago na região amazônica secou de maneira extrema. Com a redução do volume de água, sua temperatura subiu de aproximadamente 32 °C para 40 °C. A elevação da temperatura da água teve consequências fatais para a fauna local: 70 botos morreram no lago em um único dia.

Uma nova seca poderá atingir uma floresta que ainda não se recuperou dos impactos de 2024. O que é preocupante: quanto mais degradada a floresta, menor sua capacidade de reter umidade e contribuir para a formação das chuvas. Uma nova estiagem, portanto, poderá encontrar a Amazônia mais vulnerável e agravar ainda mais seus impactos.

No caos da Amazônia, o El Niño não provoca diretamente os incêndios florestais, mas cria condições para a expansão das queimadas que são usadas pelos fazendeiros e grileiros de terras como arma para se apropriar de terras públicas ou pressionar as Terras Indígenas. Em 2023 e 2024, os grandes focos de incêndios se concentraram, sobretudo, nas regiões das novas fronteiras do agronegócio (Matopiba, no entorno da BR 163 e no Amacro) e nas fronteiras das Terras Indígenas e Parques Nacionais.

El Niño no contexto da emergência climática

Mas a preocupação não está apenas na intensidade do El Niño. O fenômeno poderá ocorrer em um planeta que já está mais aquecido pelas mudanças climáticas. Esse aquecimento pode potencializar os efeitos do El Niño, elevando o risco de temperaturas extremas, secas, incêndios, chuvas intensas e outros eventos climáticos extremos.

O recente colapso de uma geleira no Himalaia ilustra muito bem essa questão. A avalanche de rochas, lama e água que devastou aldeias e povoados foi provavelmente desencadeada pelo derretimento do permafrost ocasionado pelo aumento das temperaturas na região. Estudos científicos já apontavam para essa possibilidade, e outros indicam que mais da metade das geleiras localizadas em cordilheiras poderão desaparecer até o final do século XXI, devido ao aquecimento global.

A gravidade da situação e incapacidade dos governos capitalistas em combater o aquecimento ficou evidente após a divulgação de um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) durante a COP 30, realizada em Belém. Segundo o documento, mesmo que todos os compromissos assumidos desde o Acordo de Paris sejam cumpridos, a temperatura média do planeta deverá aumentar perigosamente até o fim do século.

O gráfico abaixo apresenta quatro cenários possíveis para a evolução do aquecimento global ao longo do século XXI. No primeiro cenário, de continuidade das políticas atuais, existe 80% de probabilidade de o aquecimento permanecer abaixo de 3 °C, mas apenas 8% de possibilidade de ficar abaixo de 2 °C e nenhuma possibilidade de limitar o aquecimento a 1,5 °C. A estimativa aponta para um aquecimento de aproximadamente 2,6 °C.

O segundo cenário considera o cumprimento das NDCs incondicionais, isto é, das metas de redução de emissões que os países assumiram independentemente da obtenção de apoio externo. Nesse caso, a possibilidade de permanecer abaixo de 2 °C sobe para 25%, enquanto a probabilidade de ficar abaixo de 3 °C chega a 92%. Entretanto, a possibilidade de limitar o aquecimento a 1,5 °C é de apenas 1%. A estimativa de aquecimento é de aproximadamente 2,3 °C.

No terceiro cenário, são consideradas também as NDCs condicionais, que dependem de financiamento, transferência de tecnologia e cooperação internacional para serem plenamente implementadas. Nesse caso, há 37% de probabilidade de permanecer abaixo de 2 °C e 95% abaixo de 3 °C. A chance de limitar o aquecimento a 1,5 °C é de apenas 3%. A estimativa central chega a aproximadamente 2,1 °C.

O quarto cenário é o mais otimista, mas também o mais improvável. Ele pressupõe o cumprimento das NDCs condicionais e de todos os compromissos de neutralidade climática (net zero) anunciados pelos países. Nesse caso, a probabilidade de permanecer abaixo de 2 °C sobe para 78%, enquanto a de ficar abaixo de 1,5 °C chega a 21%. A estimativa central de aquecimento seria de aproximadamente 1,8 °C. Ou seja, esse é o único cenário em que não se prevê a superação dos 2°C.

A comparação entre os quatro cenários revela uma questão fundamental: a inevitabilidade de ultrapassarmos os 2°C até o final do século XXI, o que terá consequências catastróficas difíceis de prever com rigor, uma vez que os pontos de retorno do sistema Terra terão sido cruzados, retroalimentando o aquecimento e jogando a humanidade em um cenário de caos climático absoluto.

El Niño e capitalismo imperialista decadente

O super El Niño não será uma repetição de 1877. O mundo que enfrentará um eventual El Niño em 2026 é profundamente diferente daquele marcado pelo grande El Niño de 1877–1878. Naquele momento, o capitalismo encontrava-se em uma fase de expansão imperialista e de consolidação do mercado mundial e os sistemas naturais se encontravam muito longe da degradação atual. Hoje, porém, estamos diante de um capitalismo monopolista altamente integrado e atravessado por uma crise estrutural, no qual praticamente todos os territórios estão conectados por complexas cadeias globais (dependente de energia fóssil!) de produção, circulação e financiamento. Uma perturbação climática em determinada região pode, portanto, rapidamente produzir consequências sobre preços de alimentos, energia, transportes, comércio internacional e condições de vida em outras partes do planeta.

O El Niño de 1877 ocorreu em um mundo em que as relações econômicas internacionais estavam ainda sendo integradas. Atualmente, a produção capitalista funciona como uma espécie de organismo econômico mundial, no qual empresas transnacionais distribuem suas etapas produtivas por diferentes países em busca de menores custos, maior rentabilidade e acesso a matérias-primas. Essa integração, entretanto, não significa maior capacidade de enfrentar a crise. Ao contrário, ela deixa a população mais vulnerável aos efeitos em cadeia produzidos por crises econômicas, guerras, pandemias e eventos climáticos extremos.

Certamente, haverá quebras de safras, destruição de forças produtivas e impactos sobre as condições gerais da produção, que não se restringirão às condições naturais.

O fenômeno permitirá observar a relação indissociável entre natureza e capital: embora o capital procure tratar a natureza como recurso externo e subordinado às necessidades da valorização, sua reprodução depende permanentemente das condições naturais que sustentam a produção. Quando essas condições são alteradas ou degradadas, seus efeitos alcançam as próprias bases materiais da acumulação. Nesse sentido, o El Niño poderá revelar como as condições naturais da produção interferem nas condições sociais e econômicas da produção e, consequentemente, na reprodução do capitalismo monopolista.

Entretanto, esse processo se manifestará de forma tipicamente capitalista, e seus impactos poderão se expressar por meio de pressões inflacionárias, aumento do desemprego, redução da renda, agravamento da fome e da miséria, deslocamentos de refugiados climáticos e aprofundamento das desigualdades sociais.

Essa vulnerabilidade é aprofundada pelas consequências crise econômica de 2008, que inaugurou um longo período de baixo crescimento. A resposta predominante dos governos foi o neoliberalismo com a adoção ou manutenção de políticas de austeridade fiscal, privatizações, redução de investimentos públicos e flexibilização do trabalho. Em muitos países, essas políticas atingiram justamente os serviços responsáveis por prevenir e responder às emergências: sistemas de saúde, defesa civil, infraestrutura urbana, habitação, saneamento, monitoramento ambiental e serviços de emergência.

O possível El Niño de 2026 também se insere em um cenário internacional marcado pela disputa por recursos naturais e fontes de energia – terras raras, reserva e novas fronteiras de petróleo – no marco de uma disputa interimperialista entre EUA e China. A corrida por esses recursos envolve controle de territórios, cadeias produtivas e tecnologias estratégicas. Nesse contexto, o agravamento da crise climática pode torná-la ainda mais intensa, aumentando as pressões sobre territórios ricos em minerais, água, terras e fontes de energia.

Ao mesmo tempo, a crise ecológica ocorre em meio à expansão de guerras, militarização e genocídios. O genocídio em Gaza contra o povo palestino deve ser compreendido também como um alerta sobre as formas de violência que podem se ampliar em um mundo atravessado pelo agravamento da crise climática. Gaza deve ser vista como um laboratório extremo de uma experiência global futura. Afinal, no processo de aprofundamento da catástrofe climática com deslocamento de mais de 3 bilhões de refugiados climáticos, segundo previsões da ONU para este século, cabe perguntar: quem serão os palestinos de amanhã?

Nesse contexto, a extrema direita pode encontrar condições favoráveis para ampliar sua influência. A combinação entre precarização social, aumento do custo de vida, insegurança alimentar, migrações e desastres ambientais pode ser mobilizada politicamente para responsabilizar imigrantes, populações pobres e outros grupos socialmente vulneráveis pelos efeitos dessas crises. Nesse processo, setores da burguesia podem recorrer a alternativas políticas mais autoritárias e reacionárias para preservar seus interesses diante do agravamento das desigualdades e dos conflitos sociais.

O quer fazer?

O El Niño de 2026 é uma tragédia mais do que anunciada, cujos efeitos, ainda que diferenciados, serão sentidos em todos os continentes. Suas consequências catastróficas são amplamente previsíveis pela ciência, mas, apesar dos sucessivos alertas, os Estados nacionais não estão atuando para se precaver contra o pior.

A crise climática exige a necessidade de ampliar o planejamento público, fortalecer as políticas de prevenção, investir em infraestrutura e garantir a capacidade do Estado de responder aos impactos dos eventos extremos. No entanto, essas necessidades entram em contradição com a lógica neoliberal, que pressiona pela redução dos gastos sociais, pela privatização de serviços públicos e pela submissão de áreas essenciais, como saúde, energia, saneamento e transporte, à lógica do mercado.

Por isso, neste momento, é imprescindível que os trabalhadores se mobilizem e comecem a se preparar. A partir de suas organizações (sindicatos, associações de moradores, movimentos sociais etc), é necessário discutir quais poderão ser os impactos locais do fenômeno no próximo período e quais populações estarão mais expostas aos seus efeitos. Essa preparação deve incluir a cobrança dos governos por medidas efetivas de prevenção, como o fortalecimento dos sistemas de alerta, a elaboração de planos de emergência, investimentos em infraestrutura urbana, a proteção das populações pobres que vivem em áreas de risco e o reforço dos serviços públicos de saúde, assistência e defesa civil.

Ao mesmo tempo, é fundamental que as próprias organizações dos trabalhadores construam formas coletivas de enfrentamento e solidariedade. Diante da possibilidade de enchentes, secas severas, ondas de calor e outros eventos extremos, a organização popular pode ser decisiva para identificar situações de risco, pressionar o poder público e garantir apoio às comunidades mais atingidas. A preparação para uma crise dessa dimensão não pode ficar restrita às autoridades e as promessas oficiais: ela precisa envolver diretamente as populações que estarão na linha de frente dos impactos. Quanto maior for a capacidade de organização e mobilização dos trabalhadores, maiores serão também as condições de enfrentar os efeitos sociais das catástrofes anunciadas.

Ao mesmo tempo, o agravamento da crise climática coloca a necessidade de superar o capitalismo, responsável por uma lógica de produção que aprofunda a catástrofe ambiental. A humanidade estará diante de uma escolha cada vez mais decisiva: ou avança em direção à barbárie climática, marcada pelo aprofundamento das desigualdades, conflitos, possíveis genocídios e pelo fortalecimento de governos autoritários, racistas e repressores, ou caminha na direção do socialismo, baseado no controle social da produção para que a humanidade tenha melhores condições de enfrentar as consequências das mudanças climáticas, preservar as condições de vida e reorganizar sua relação com a natureza.

Nessa perspectiva, a construção de uma sociedade socialista pressupõe o controle social dos meios de produção e um planejamento democrático da economia, orientado pelas necessidades humanas e pelos limites ecológicos do planeta. Trata-se de promover uma revolução das forças produtivas e das relações sociais de produção, criando condições para reorganizar a relação entre sociedade e natureza e buscar a recomposição de um metabolismo equilibrado com a Terra, devastado pelo capitalismo.

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