Balance do Governo Petro: o progressismo não pode dar mais
A gestão de Petro: uma análise crítica da conciliação entre interesses populares e a lógica do capital.
Finalizado o governo de Petro, é necessário fazer um balanço de sua gestão e resultados, do ponto de vista dos interesses dos trabalhadores e setores populares, que depositaram suas ilusões de que através dele seriam conquistadas as reivindicações levantadas durante as paralisações de 2019 e 2021.
Desde o princípio, Petro declarou que seu programa de governo se enquadrava em cumprir a Constituição de 91, centrando-se em desenvolver a concepção de “Estado social de direito” que propõe um desenvolvimento harmônico e democrático do capitalismo, o desenvolvimento de um “capitalismo humano”, segundo suas próprias palavras.
Toda a sua política se centrou na negociação e conciliação de seus planos com a burguesia no cenário das instituições da democracia burguesa, como o Congresso. Como parte da mesma política de conciliação, incluiu em seu governo representantes burgueses, principalmente do santismo, o que inevitavelmente o levou a reproduzir as mesmas práticas corruptas na gestão dos dinheiros públicos dos governos anteriores. Dessa forma, o governo mostrava desde seus inícios as grandes limitações que teríamos os trabalhadores e os setores populares para alcançar as principais exigências levantadas durante as paralisações de 2019 e 2021.
Em matéria socioeconômica, tentou alavancar a pequena burguesia com créditos facilitados para fomentar o desenvolvimento de seus pequenos negócios ou “empreendimentos”, como os denominam agora. No entanto, o desenvolvimento de uma sociedade de pequenos proprietários é utópico no âmbito do sistema capitalista, uma vez que a competição, a centralização e concentração de capitais levam à dominação dos grandes monopólios em todas as áreas da produção.
Com a reforma trabalhista de 2025, Petro devolveu aos trabalhadores algumas pequenas conquistas que haviam sido arrancadas nos governos anteriores, como o pagamento das horas extras e os adicionais noturnos; o aumento do salário mínimo que, embora tenha sido significativo, ainda não cobre o valor da cesta básica familiar e continua a terceirização trabalhista como norma geral aplicada em todos os setores da produção.
Os capitalistas, por outro lado, apesar da retórica da oposição burguesa, nesses quatro anos viram suas ganancias crescerem em níveis até superiores aos de governos anteriores, como demonstram os 14,2 trilhões de ganhos que os bancos relataram em 2025, 71% a mais que o ano anterior, e os 138,1 trilhões em lucros líquidos das 10 mil maiores empresas do país, um aumento de 13,9% em relação ao ano anterior.
As reformas da mudança
A “reforma” da previdência. Dentro de seu programa de reformas, Petro conseguiu a aprovação no Congresso de uma reforma da previdência que garante uma miserável aposentadoria aos idosos que não contribuíram para o sistema, mas deixou o controle de uma parte importante das contribuições de aposentadorias/pensões dos trabalhadores para os fundos privados, o que lhe confere um caráter de contrarreforma. Através do chamado sistema de pilares, essa reforma entrega as contribuições dos trabalhadores a partir de três salários mínimos à voracidade do capital financeiro, que as utiliza para especular no mercado de ações e, se houver perdas, estas serão assumidas pelos trabalhadores como até agora. Atualmente, essa reforma está em espera da última palavra da Corte Constitucional.
A reforma trabalhista, como foi indicado antes, devolveu algumas conquistas que haviam sido perdidas nos governos de Uribe, como os adicionais noturnos e dominicais, mas o grande obstáculo da terceirização laboral permanece intacto e com isso continuam de fato abertas de par em par as portas à superexploração laboral, à perda efetiva de direitos trabalhistas como a seguridade social e o direito à sindicalização de milhões de trabalhadores.
A reforma da saúde, uma das mais importantes, porque se esperava que daria solução à crise de um sistema de saúde desfalcado pelas EPS, terminou afundando nas duas oportunidades em que foi apresentada, apesar de que nunca buscou eliminar as EPS, a verdadeira raiz da crise, e muito menos o caráter mercantilista da saúde, mas simplesmente buscava devolver ao Estado o controle sobre a gestão dos recursos públicos do sistema.
As EPS apenas utilizaram os recursos para enriquecer a si mesmas com métodos corruptos e abertamente criminosos para se apropriar dos recursos públicos da saúde. Justamente, após tantas situações de falta de atendimento para casos urgentes, negação de medicamentos e zombarias aos pacientes para negar-lhes o acesso aos serviços médicos, a eliminação das EPS foi uma das exigências levantadas na paralisação de 2021.
O alto custo dos serviços públicos para a população sequer mereceu a apresentação de uma reforma que voltasse a estatizar as empresas de serviços privatizadas, a maioria delas hoje nas mãos de empresas transnacionais, principalmente espanholas.
Os serviços públicos. Com decretos tímidos, o governo tentou controlar a voracidade dos monopólios privados que elevaram de forma exorbitante os preços dos serviços básicos como a energia elétrica em regiões como a costa caribenha. Diante dessa séria problemática, Petro apenas ergueu sua utópica proposta de geração solar comunitária, que não só é irrealizável em termos práticos para a grande maioria da população, mas também reacionária porque não ataca de frente o verdadeiro problema: a privatização dos serviços públicos essenciais, que constitui um fator crítico de encarecimento do custo de vida para a grande maioria da população.
Quanto ao meio ambiente, a transição energética do governo Petro não rompeu com o interesse do mercado mundial, em vez de estatizar o setor energético, continuou sob controle das multinacionais com tarifas que para a população acabam sendo uma forma de extorsão, e parte importante do financiamento do Estado continuou dependendo das rendas do petróleo e do carvão.
A Paz Total de Petro fracassou em boa medida por tentar negociar simultaneamente com redutos da insurgência armada e grupos narcotraficantes herdeiros da desmobilização paramilitar. No começo, Petro levantou a consigna de legalizar o narcotráfico, cuja ilegalidade não é mais do que um pretexto para a intervenção imperialista, mas cedeu para enfrentar grupos vinculados a cartéis transnacionais que disputam as rotas do narcotráfico e não se interessam em desmobilizar-se, na prática, terminou aplicando a política antidrogas do imperialismo enquanto discursava contra.
As liberdades democráticas. Produto da luta na paralisação nacional de 2021, impuseram-se liberdades políticas que Petro deveria atender, estabeleceram-se protocolos para atender a protesto, mas tudo ficou pela metade; o Esmad não foi desarticulado, simplesmente mudou de nome para Undmo, e na prisão ainda permanecem cerca de 110 jovens acusados falsamente de terrorismo e outros crimes por terem participado nos protestos de 2021.
Começa a alternância
Com a política de negociação, governando com a velha maquinaria, incluindo políticos corruptos dos partidos tradicionais e instrumentalizando a mobilização, com a colaboração das direções políticas e sindicais, o balanço do governo de Petro não rompe com a dinâmica da alternância entre governos “progressistas” e de direita, e devido às suas contradições abre espaço a um novo governo de direita. Esse é seu balanço.
A independência dos trabalhadores foi hipotecada
Há uma parte do balanço que corresponde às direções políticas e sindicais majoritárias dos trabalhadores e setores populares, que entregaram a independência da classe trabalhadora para se acomodar e se submeter completamente ao governo de Petro e à sua política de negociar reformas no congresso, o que desativou o processo de mobilização da paralisação de 2021 e a possibilidade de conquistar, pelo menos, parte das reivindicações que foram levantadas então. As direções transformaram a mobilização nas ruas, de uma ferramenta de luta operária, em um mecanismo de pressão institucional e propaganda oficialista, deixando para trás o princípio de que, governe quem governar, os direitos se defendem.




