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Bolívia

Bolívia: a crise se mantém e se aprofunda

A luta popular deve ser a resposta à crise imposta pelo governo e pelo capital.

Lena Souza

setembro 15, 2026

Os bloqueios que durante 54 dias paralisaram as principais estradas do país foram levantados, mas a crise que os provocou não desapareceu. O governo de Rodrigo Paz conseguiu, por meio do desgaste da mobilização, o acordo com a COB e a utilização do estado de exceção, recuperar temporariamente o controle. No entanto, não conseguiu resolver nenhum dos problemas fundamentais que levaram milhares de trabalhadores, camponeses, indígenas e setores populares às ruas.

Pelo contrário, durante os últimos meses a crise se aprofundou e adquiriu novas dimensões. À escassez e ao aumento do preço dos combustíveis se somam o deterioro do poder aquisitivo, o aumento do dólar, a pressão do FMI, a intervenção da YPFB e uma crescente instabilidade política.

Todo isso confirma o que apontávamos nos artigos anteriores: pôr fim às mobilizações, através de acordos e repressão, não significou uma saída para a crise. O governo de Paz continua sendo um governo fraco, sustentado pela repressão e por um programa econômico que descarrega o peso da crise sobre os trabalhadores e os setores populares.

Continua as medidas econômicas em favor da burguesia e do imperialismo

Rodrigo Paz chegou ao governo prometendo tirar a Bolívia da crise. No entanto, sua resposta tem sido aprofundar um programa de ajuste e abertura econômica. A eliminação dos subsídios aos combustíveis, a redução do papel do Estado na economia e a aproximação ao Fundo Monetário Internacional fazem parte de uma mesma orientação.

Esta semana foi tornado público o acordo alcançado com o FMI por aproximadamente 1.900 milhões de dólares, depois que seus principais conteúdos foram apresentados oficialmente no dia 10 de setembro. O programa, que terá uma duração de 36 meses, compromete o Governo com um forte ajuste fiscal orientado a reduzir o déficit, mediante a contenção do gasto público, a redução da investimento estatal e a reestruturação de empresas públicas consideradas não viáveis. Entre as medidas mais importantes está a eliminação completa da subsídio aos combustíveis a partir de janeiro de 2027, quando seus preços deverão alcançar níveis de recuperação de custos, além de uma política de redução de outros subsídios. Consolida o regime de tipo de câmbio flexível que o Governo já havia começado a aplicar desde junho e estabelece que se deverá avançar para um regime de flutuação determinado pelo mercado. Limita o financiamento do Estado por parte do Banco Central e promove reformas destinadas a facilitar o investimento privado, particularmente em setores como hidrocarbonetos e mineração.

Dessa forma, o custo da chamada estabilização econômica vai recair principalmente sobre os trabalhadores e os setores mais pobres, enquanto se criam melhores condições para os grandes empresários e o capital privado. Paz sustenta que os subsídios são insustentáveis e que é necessário “ordenar” a economia. Mas a pergunta que devemos nos fazer é outra: ordenar a economia para quem?

A política de combustíveis é um exemplo evidente. A eliminação dos subsídios encarece o transporte e aumenta os custos de produção e distribuição. O impacto acaba sendo repassado ao conjunto da população por meio do aumento do preço dos alimentos e de outros produtos básicos.

A questão cambial não é um problema abstrato para a população. A desvalorização e a perda do poder aquisitivo significam aumento. O dólar paralelo estava em torno de Bs 11,16 no início de agosto. Para os primeiros dias de setembro, já estava em torno de Bs 12,4, o que representa um aumento próximo a 10% em aproximadamente um mês e o Banco Central estabeleceu desde 7 de setembro uma taxa de câmbio oficial de Bs 12,58 por dólar.

O governo apresenta essas medidas como parte de uma modernização inevitável. Mas por trás desse discurso existe uma política clara: fazer com que os trabalhadores e setores populares paguem pela crise enquanto se garante um novo espaço para o capital privado e para os organismos financeiros internacionais.

E quem sofre as consequências são os trabalhadores, camponeses, pequenos comerciantes e setores populares. A crise que provocou os bloqueios, portanto, continua presente.

O desgaste político do governo

O desgaste do governo se deve às medidas econômicas, mas também é político. O escândalo em torno de Fernando Cerimedo, que estourou em 18 de Agosto, abriu uma profunda crise política no governo. Embora Rodrigo Paz tenha tentado ocultar ou minimizar seus vínculos com Fernando Cerimedo, os fatos evidenciam e revelam a relação de setores do novo governo com operadores de uma direita internacional à qual Paz tenta se apresentar como alheio.

Junto a isso e como consequências, começaram os rompimentos entre os aliados do governo Paz. O Partido Democrata Cristão (PDC) está dividido, com um setor que mantém seu apoio e outro que rompe com o Governo, denunciando falta de coordenação, corrupção e perda de confiança. A isso se soma o distanciamento de outros aliados, como Unidade Nacional, que começa a condicionar seu apoio.

Rodrigo Paz perde apoio também nas ruas. Segundo Ipsos Ciesmori, em uma pesquisa realizada entre 19 e 31 de agosto, sua aprovação caiu de 65% em janeiro para 21% em agosto, enquanto a desaprovação chegou a 65%. Além disso, 81% dos entrevistados considera que a Bolívia está indo na direção errada. Entre as principais razões para a rejeição aparecem a percepção de corrupção, a má gestão e a crise de combustíveis.

O caso Cerimedo, que aprofunda a percepção de corrupção e má gestão, também permite observar as conexões internacionais da nova direita latino-americana. Cerimedo é conhecido por sua participação em estratégias de comunicação política digital e por sua relação com setores da direita radical da região. As denúncias que vinculam Cerimedo a um tentativa de feminicídio e com ações de intimidação contra testemunhas expressam métodos de uma direita que, em diferentes países, combina práticas de perseguição, violência e intimidação para defender seus interesses.

Paz se sustenta à custa do estado de exceção e da perseguição aos movimentos sociais

Frente às mobilizações, o Governo respondeu com o estado de exceção e a perseguição judicial de dirigentes sociais. Das 365 pessoas presas durante as operações contra os bloqueios registrados pela Defensoria do Povo, 118 permaneciam em distintas situações jurídicas, enquanto a Promotoria de La Paz informou que 26 pessoas estavam com detenção preventiva pelos processos derivados dos 53 dias de conflito.

Neste contexto, o escândalo de Fernando Cerimedo adquire uma dimensão política maior: além das graves denúncias que pesam sobre ele, existem acusações sobre sua participação na estratégia do estado de exceção e em um suposto operativo para capturar Evo Morales. O caso expõe assim os vínculos de Paz com setores da direita internacional e mostra que, diante da perda acelerada de apoio popular, o Governo combina ajuste econômico, estado de exceção e perseguição dos movimentos sociais para se sustentar.

Perspectivas da luta

Os 53 dias de mobilização deixaram uma experiência que continua viva entre os trabalhadores, camponeses, indígenas e setores populares. A suspensão dos bloqueios significou um recuo, mas não uma derrota definitiva: as causas que levaram milhares de pessoas às ruas —o aumento do custo de vida, a crise de combustíveis, a perda do poder aquisitivo e a rejeição ao ajuste— continuam presentes. Paz precisa de tempo e tranquilidade social para aplicar o acordo com o FMI, aprofundar o ajuste e avançar na abertura da economia e na entrega dos recursos naturais ao capital privado e estrangeiro. Mas o Governo sabe que o conflito não está resolvido. Por isso, diante dos anúncios de novas mobilizações para outubro, setores do oficialismo já impulsionam a ampliação do estado de exceção, cuja vigência termina em 18 de setembro.

Por isso, outubro pode se tornar um novo momento de lutas. As organizações sociais e sindicais preparam novas medidas de pressão e alguns setores anunciaram que esperarão o fim do estado de exceção para retomar as mobilizações. O próprio Governo reconhece que existe essa preparação e utiliza essa ameaça como argumento para tentar prolongar o regime de exceção. O desafio será transformar o descontentamento que permanece nas bases em uma nova mobilização,  buscando unificar as lutas. Outubro pode abrir uma nova etapa de mobilização e permitir que os trabalhadores e setores populares retomem a iniciativa nas ruas.

É preciso aprender com a experiência

A mobilização dos 53 dias deixou uma lição fundamental: não basta com a força do movimento social se suas direções terminam negociando separadamente, traindo e freando a luta. Também não é suficiente conquistar a revogação de uma medida pontual se permanece intacto o programa econômico que descarrega a crise sobre o povo. As bases precisam romper com as direções e organizações que, uma e outra vez, demonstraram que não estão dispostas a romper com o sistema e terminam freando ou negociando as lutas de cima para baixo.

É necessário construir uma alternativa própria, independente e baseada na organização e nas decisões democráticas de trabalhadores urbanos e rurais, camponeses, povos indígenas, estudantes e demais setores populares. Uma alternativa na qual os representantes sejam eleitos e possam ser revogados pelas próprias bases, e na qual as decisões sobre a luta não sejam tomadas em negociações de cúpula.

O problema de fundo continua sendo quem pagará a crise: Paz, o FMI, os empresários e as transnacionais pretendem que sejam os trabalhadores e o povo. Nossa alternativa não pode ser aceitar nem administrar esse ajuste, mas lutar para que a crise seja paga por aqueles que se enriqueceram às custas do país. A próxima etapa da luta deve servir não apenas para defender nossas conquistas, mas também para construir uma direção e uma alternativa política própria, democrática e independente, sob o controle das bases e dispostas a romper com o sistema que sustenta o poder da burguesia e das transnacionais.

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