As autoridades de Praga removeram em abril deste ano o monumento ao marechal soviético I. Konev, que, de acordo à historiografia russa, “comandou as tropas de libertação da Tchecoslováquia” ao final da 2ª Guerra Mundial. A remoção gerou um escândalo diplomático e uma guerra de informações. As autoridades russas acusam as autoridades da capital tcheca de “blasfêmia”, “profanação da memória”, “reescrita da história” e quase que de apoio aos nazistas. Deixemos um pouco de lado a propaganda oficial russa e busquemos entender de que se trata.

Por: POI – Rússia

Muitas perguntas podem ser feitas em relação a este caso.

Por exemplo, uma questão geral seria: é realmente necessário erguer monumentos para marechais? Por que não, por exemplo, para os soldados que suportaram o peso da guerra e deram suas vidas nela?

Em segundo lugar, os tchecos também lutaram contra o nazismo e, em particular, protagonizaram a revolta de Praga antes mesmo da chegada do exército soviético. É correto, justo e ético, portanto, que na capital tcheca, que lutou pela liberdade de seu território contra o exército de Hitler, haja um monumento gigantesco ao “marechal-libertador” (russo)? Não há algo de errado nisso? Não seria mais correto, neste caso, um monumento aos combatentes da Tchecoslováquia (hoje República Tcheca e República Eslovaca) contra o nazismo, junto aos soldados soviéticos?

Há também outra pergunta: as autoridades que ergueram o monumento ao marechal estrangeiro I. Konev perguntaram por acaso a opinião do povo tcheco? A questão é obviamente apenas retórica, uma vez que após a guerra, o sistema político implementado na Tchecoslováquia era uma cópia do regime stalinista da URSS.

Pode-se fazer ainda outra pergunta: Konev merecia um monumento, considerando que na época em que Krushchev “empurrava” o marechal Zhukov[1] para escanteio, no âmbito de uma luta burocrática disfarçada, Konev difamou publicamente o último?

Bem, não exageremos com excesso de perguntas. Afinal, Konev de fato contribuiu para a luta contra o nazismo, para a libertação da Tchecoslováquia e Praga das tropas de Hitler. Admitamos, portanto, que tenha merecido o monumento.

Mas Konev se destacou na Tchecoslováquia não apenas na guerra contra o nazismo. Ele esteve envolvido na repressão armada da Primavera de Praga de 1968 (depois de participar da repressão à análoga Revolução Húngara de 1956)[2]. Naquela ocasião, em resposta às manifestações de rua com dezenas de milhares de pessoas exigindo liberdades democráticas, contra a censura e os excessos burocráticos (de onde surgiu o slogan “socialismo com rosto humano”), o Kremlin enviou tanques a Praga, esmagando a revolta popular, causando dezenas de mortos e centenas de feridos. Konev não comandou diretamente as tropas. Mas poucos dias antes da repressão, ele, como parte da delegação das forças armadas soviéticas, chegou à agitada capital da Tchecoslováquia, como parte dos preparativos para o envio das tropas.

O esmagamento da Primavera de Praga ficou como uma ferida aberta para todo o povo da Tchecoslováquia (e, a propósito, encontrou eco na URSS, porque era claro que isso não era correto e que “isso não se faz”, especialmente com “amigos”, como eram oficialmente chamados os tchecos e eslovacos). Depois de tudo isso, como pareceria aos olhos dos tchecos um monumento a Konev? Se tivesse sido instalado depois de 1945, pela sua participação na libertação do povo da Tchecoslováquia, não seria lógico e justo removê-lo depois de 1968, por sua participação na repressão contra o mesmo povo?

Mas a verdade é bem pior. Porque o monumento a Konev foi erguido após a repressão, já em 1980. Um monumento gigantesco a Konev, o repressor do povo… com um buquê de libertador nas mãos. Se poderia imaginar uma humilhação maior? Não é difícil imaginar o que tchecos e eslovacos, moradores de Praga, devam sentir.

E foi inaugurado ainda no dia 09 de maio (a data em que se comemora a vitória contra Hitler na 2ª Guerra Mundial). A fim de sufocar a liberdade da Tchecoslováquia com um enorme monumento em nome de sua libertação. É possível imaginar uma “blasfêmia” (nas palavras do Ministério das Relações Exteriores da Rússia) maior do que colocar uma vitória sobre a opressão e humilhação do povo a serviço de sua opressão e humilhação? É possível manchar mais o Dia da Vitória sobre o nazismo? É possível “achincalhar a memória histórica” ​​mais do que isso?

Nessa situação, é compreensível o motivo pelo qual esse monumento se tornou alvo, como dizem no Ministério das Relações Exteriores da Rússia, de “vandalismo”, que na verdade não é vandalismo, mas um ato político contra a opressão. Não é óbvio que os tchecos jogaram um vaso sanitário na estátua, a mancharam com tinta e, ao final, derrubaram a estátua não do Konev coparticipante da libertação da Tchecoslováquia em 1945, mas do Konev coparticipante de sua repressão em 1968? E esse motivo foi afirmado claramente durante a remoção.

Pode-se assim apreciar em toda a sua extensão a “sujeira” que o stalinismo lançou sobre tudo, como perverteu a história e como criou amálgamas repugnantes, que seguem sendo utilizados até ​​hoje. Quando Putin e Lavrov[3], ou seus porta-vozes, indignados com a remoção da estátua de Konev, retratam hipocritamente o justificado ódio tcheco contra ela como uma tentativa de “atropelar a memória da Grande Guerra Patriótica[4]” e “reescrever a história”, e o Comitê de Investigação da Rússia inclusive inicia uma investigação criminal sobre esse assunto, sem constranger-se de que o caso se dá em outro país, na verdade eles não estão defendendo a vitória sobre Hitler em 1945, mas o sufocamento de Praga em 1968, pela “grande bota patriótica”, continuando a promover uma terrível falsificação histórica.

Box 1. A derrubada das estátuas de Lenin na Ucrânia.

A situação com a estátua de Konev é semelhante à da derrubada das estátuas de Lenin na Ucrânia. Obviamente, os ucranianos, que defendem sua independência e liberdade, não atacaram a política de Lenin do direito das nações à autodeterminação e da ucranização[5] da Ucrânia. E sim, contra uma enorme lápide do chauvinismo russo em forma de Lenin, com a qual o stalinismo tentou esmagar os direitos nacionais da Ucrânia. Pela mesma razão, não é necessário buscar contradições no fato de que o governo Putin, que odeia Lenin, defenda os “Lenins” derrubados na Ucrânia: Ele não se preocupa com a memória de Lenin, mas com essa grande lápide chauvinista russa contra os direitos nacionais ucranianos, derrubada por eles.

Box 2. A remoção do monumento aos poloneses que combateram Hitler e foram executados.

Em contraste com a situação com o monumento de I. Konev, o governo de Putin não divulga uma outra história com monumentos, ocorrida desta vez em território russo. Em maio deste ano, foi removida do prédio da Universidade Médica de Tver, onde nos tempos de Stalin funcionava a NKVD[6], uma placa memorial instalada em 1990 em homenagem aos prisioneiros de guerra poloneses, fuzilados no prédio.

Estes prisioneiros de guerra poloneses são aqueles que foram capturados pela União Soviética após a divisão da Polônia sob o Pacto de Stalin com Hitler e o desfile conjunto dos exércitos nazistas e soviéticos em Brest. É parte da história do massacre de Katyn[7]. No total, mais de 20.000 poloneses foram fuzilados pela NKVD, e seus corpos enterrados nas florestas russas sob o máximo sigilo. Outra parte de poloneses capturados, aqueles que viviam antes da guerra na metade da Polônia ocupada por Hitler, não foi fuzilada, mas “gentilmente” entregue a Hitler. Como “símbolo de paz”, Stalin entregou ainda para Hitler várias dezenas de militantes antifascistas alemães que haviam fugido da Alemanha para a URSS depois que os nazistas chegaram ao poder.

A historiografia “patriótica” russa por muito tempo ocultou e negou toda essa história. E pode-se entender o porquê: é muito difícil “orgulhar-se” de como Hitler começou a Segunda Guerra Mundial em aliança e conluio com a “nossa Pátria” e como esta “nossa Pátria” fuzilou milhares de soldados poloneses que haviam lutado contra Hitler. Por essa razão, a placa em questão foi removida em silêncio na véspera do Dia da Vitória, ao que tudo indica, para que estas páginas extremamente sombrias da História não estragassem a “gloriosa história dourada de nossa Pátria”, não lançassem sombra sobre a “verdade histórica” e não ofuscassem o festejo. A “memória eterna dos heróis”, da qual Putin gosta de falar, não se aplica aos poloneses que lutaram contra Hitler, e seus retratos não entram no “Regimento Imortal” de Putin. A culpa deles foi terem lutado contra Hitler num momento em que nossa “Pátria” se encontrava junto com Hitler, no mesmo campo militar.

Juntamente com a placa em homenagem aos poloneses, uma outra foi também removida, em homenagem às demais vítimas da repressão stalinista que passaram pela prisão de Kalinin da NKVD. Em toda a URSS, de acordo com dados soviéticos, foram 700.000 fuzilados e 4,4 milhões de encarcerados. Incluindo 40.000 membros fuzilados do exército soviético, que terminou assim, decapitado na véspera da guerra. Se não fosse o stalinismo, estes também teriam se tornado heróis. Mas eles não aparecem nas listas, nem nas placas memoriais. Nem essas pessoas, nem a memória delas e desses eventos são necessárias para Putin, o protegido da FSB, a herdeira de suas “colegas”, a NKVD e a KGB, e que acoberta os crimes delas e os seus próprios.

[1] O Marechal Zhukov foi o comandante soviético que dirigiu a tomada de Berlim, em 1945, impondo a derrota final a Hitler. Seria colocado em 2º plano por Khrushev, como parte de disputas internas de poder

[2] A Primavera de Praga e a Revolução Húngara de 1956 foram duas tentativas de revoluções políticas, que defendiam a democratização, o fim da repressão, censura e controle soviético. Foram duramente reprimidas pela URSS, que as acusava de serem provocações ocidentais ou levantes fascistas

[3] Ministro da Relações Exteriores de Putin

[4] Como é chamada na Rússia a 2ª Guerra Mundial

[5] Lenin defendia o direito à autodeterminação de todas as nações, inclusive das que se haviam incorporado à URSS, até o seu direito de se retirarem da mesma. Defendeu e implementou ao mesmo tempo uma política de “ucranização” da Ucrânia, resgatando seu idioma, valorizando-o, como contraexemplo contra a opressão das nações sob o capitalismo. Stalin implementou uma política oposta, de opressão e “russificação” da Ucrânia. Este tema, aliás, foi a primeira discordância de Lenin com o rumo que vinha assumindo a direção do partido, um pouco antes de sua morte

[6] NKVD, antigo nome da KGB, a polícia política soviética, principal órgão repressivo da URSS. Hoje se chama FSB. Putin era oficial da FSB antes de se tornar presidente

[7] Execução de prisioneiros poloneses pela NKVD após a ocupação soviética de “sua” metade da Polônia, como acordado entre Stalin e Hitler no Pacto por eles assinado em 1939 de divisão da Polônia