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sexta-feira, abril 19, 2024

Massacre no Crocus em Moscou: O terrorista Putin tenta se juntar à “luta contra o terrorismo”?

O espetáculo macabro do massacre e incêndio no Crocus City Hall, em Moscou, tem sido o centro das atenções mundiais há vários dias. As redes se inundaram com vídeos e testemunhos de grande impacto e abundam os mais diversos comentários, hipóteses e análises de “especialistas”.

Por :Taras Schevchuk

Cada um dando a sua opinião sobre “quem está por trás” desta sangrenta operação terrorista com 160 mortos e inúmeros desaparecidos. Deixando em segundo plano que 5 dias antes, foi amplamente divulgada a notícia sobre uma “nova reeleição” de Putin com quase 80% dos votos, mostrando ao mundo um suposto “apoio sólido” do eleitorado ao ditador que está no poder há 25 anos. Ainda mais relegada foi toda a informação sobre a intensificação dos massivos e mortíferos bombardeios russos sobre quase todo o território da Ucrânia. A proclamada “luta contra o terrorismo” permitiu a Putin, durante décadas, consolidar o seu poder e restringir ao extremo as liberdades políticas e sociais. Agora precisa redobrar a repressão. Fica então a nossa opinião: Quem são os autores, os organizadores e os instigadores deste ataque terrorista e ao serviço de que objetivos foi perpetrado?

Um pouco de história do século 21 na Rússia

Para formar a nossa opinião e compartilhá-la, levamos em conta os antecedentes das ações da antiga KGB e do seu sucessor, o FSB. Porque é a instituição fundamental do atual regime e o centro de poder encarnado na figura de Putin, em torno do qual se reúne a atual elite oligárquica, cujos membros mudaram desde a restauração capitalista com a “Perestroika”.

A ascensão de Putin ao poder em 1999 foi catapultada por atos terroristas semelhantes ao atual, nos quais ao longo do tempo o papel do FSB como organizador ou executor foi exposto. Na memória política de milhões de russos estão o ataque a edifícios residenciais na rodovia Kashirskoe, no sul da cidade de Moscou, com mais de 300 mortes; a tomada do “Teatro Dubrovka” – também conhecido como “Nord-Ost” – onde o “resgate” dos reféns pelas tropas especiais produziu um massacre com centenas de mortos, envenenados pelo gás paralisante utilizado na operação e a falta de atenção médica oportuna; o massacre na escola “Beslan”, na Ossétia do Norte, onde morreram 334 reféns, incluindo 183 crianças, devido à ação das tropas de choque para esmagar os independentistas chechenos, que tomaram a escola.

No entanto, o caso que mais expôs a perversidade traiçoeira de Putin e do seu círculo é o ataque com explosivos que o FSB preparava em Ryazan, em 1999, num edifício residencial, quando alguns residentes os descobriram e denunciaram antes de ser realizado. Os vizinhos relataram que no porão de sua casa havia três sacos com substância desconhecida, equipados com detonador e mecanismo de relógio. Esta queixa amplamente divulgada obrigou Nikolai Patrushev, na altura chefe do FSB e atual secretário do Conselho de Segurança Russo, a dar explicações: “Não estava sendo organizado um ataque. É apenas uma simulação, que deve se assemelhar à realidade. O objetivo era examinar a capacidade policial e manter a população alerta. Não havia explosivos nos sacos, havia açúcar”, declarou. A indignação geral causada obrigou-o novamente a pedir “desculpas pelo impacto psicológico do exercício”. O fato ficou registrado na memória popular como “o açúcar de Ryazan”.

Mais perguntas do que certezas sobre o massacre em Crocus

Por que os agressores decidiram vagar serenamente por quase uma hora dentro da sala Crocus, sem qualquer urgência aparente? Na Rússia, onde a polícia e os serviços especiais, especialmente o FSB, são omnipresentes e agressivos, não só não foram incapazes de impedir o ataque, como estes atacantes armados comportaram-se como se soubessem que não seriam interceptados por um grupo de operações especiais.

Outro elemento fundamental se destaca: as armas. Eles não tinham pistolas simples, mas fuzis de assalto poderosos e modernos. Como conseguiram adquiri-los e inseri-los no lugar sem serem detectados? Ao contrário de muitos atacantes jihadistas em situações semelhantes, estes homens não usavam coletes ou cinturões suicidas, ao estilo daqueles que preferem morrer do que ser capturados.

Outro aspecto estranho e surpreendente: a rápida captura. Demorou muito pouco tempo – para que as mesmas forças de segurança russas que não conseguiram evitar o pior ataque em 20 anos, que aconteceu debaixo dos seus próprios narizes – capturar os suspeitos, tortura-los, obter as suas confissões imediatas – inclusive que receberiam meio milhão de rublos cada um – e processá-los.

Tudo isto, somado à sinistra tradição do FSB de encenar provocações e assassinatos, dá origem a diversas hipóteses sobre algum tipo de “conspiração interna” do Kremlin, ou uma operação facilitada ou organizada pelas próprias forças de segurança com o objetivo perverso de comover as massas e conseguir uma reviravolta no apoio popular à sua invasão da Ucrânia. Um exemplo desta intenção foi a mensagem televisiva de Putin, na qual, sem absolutamente qualquer prova, mencionou que “os terroristas foram capturados quando se dirigiam para a fronteira com a Ucrânia, onde estava preparado uma janela para eles escaparem” … Quando em realidade eles foram capturados a 16 quilômetros da fronteira com a Belarus!

A análise dos vídeos revela a intervenção de comandos russos

Atualmente, com o uso massivo de celulares como câmeras de vídeo, as pessoas gravam vídeos, mesmo quando estão prestes a ser assassinadas. E por isso é difícil para as forças repressivas fazer com que a sua narrativa corresponda aos fatos. Porque estes fatos, registados às centenas, questionam e destroem a “história” do regime de Putin sobre o ataque e massacre em Crocus. Um analista militar, o opositor armênio Sergey Aslanian, divulgou as suas opiniões:

“Foram os que sempre fizeram isso sob a supervisão do FSB. Os atores eram seus… Caminhavam de dois em dois, ou seja, praticavam o “contato de casal”, um vai na frente, o outro cobre. Essa é a “dupla” das forças especiais… as tropas não agem assim…. O atirador atuava com confiança, com uma calma impressionante, não foi a primeira vez para ele. Não são os supostos ‘taxistas’ ou ‘barbeiros’ que ontem fizeram um contrato e hoje foram matar uma multidão. São pessoas que têm profissão e formação nas forças especiais russas… Eles tinham munição, tinham muitos cenários possíveis planejados. Eles se moviam de acordo com uma rota e sabiam exatamente o que fazer e onde. Enquanto alguns matavam no salão, outro grupo começou a atear fogo. Mas foi com bombas incendiárias, não com coquetéis molotovs. A sala pegou fogo e o sistema de combate a incêndio deveria ter sido acionado imediatamente. Mas estava desativado. Ou não existia mesmo?… Os que atuaram eram profissionais e já tinham feito isso mais de uma e mais de duas vezes. Eles tiveram saída garantida, foram direcionados e coordenados de fora e, quando tiveram que sair, largaram tudo e saíram com calma. Estes profissionais levaram consigo vários ‘Tadjiques’ (cidadãos do Tajiquistão) para o matadouro, que foram gravados pelas câmeras. E pelo que foi visto na rápida captura subsequente, eles foram orientados a levar seus passaportes consigo…. Muito suspeito! Se é que se dirigiam para a parte mais vigiada da fronteira russa, como a fronteira com a Ucrânia, porque é que no seu contrato concordaram em pagar em rublos e não em hryvnias?…

Crocus está localizado muito perto do anel viário da cidade de Moscou. Nas proximidades também estão o Governo da Região de Moscou e o Tribunal Regional de Moscou. Do outro lado e muito próximo está o batalhão da polícia de choque “Avangard”. Deixaram os comandos terroristas entrar calmamente no edifício. Montaram uma armadilha no telhado, depois que o telhado desabou soterrando várias centenas de espectadores na sala, as pessoas correram e as portas se fecharam… As forças de segurança apareceram quando tudo tinha acabado!…

A opinião de um especialista militar ucraniano

Citamos aqui fragmentos de um relatório de Román Svitán, oficial da aviação reformado, que lutou no Donbass desde 2014, é muito crítico ao governo Zelensky e denuncia a pressão do imperialismo ocidental pela paz com anexações:

“Na verdade, o Kremlin pode aplaudir o trabalho do FSB. Fizeram tudo com muita competência. Porque há um mês percebeu-se que Putin precisava de um análogo do “açúcar Ryazan” para unir os russos contra alguém ou alguma coisa.

Além disso, o FSB trabalhou com uma velocidade suspeita, supostamente para prender a todos. Parece que eles estavam sendo direcionados desde o início. Ou talvez esses “fundamentalistas islâmicos” fossem coronéis do FSB. A grande questão é: foi realmente o ISIS? Pressionaram a essa gente para que realizassem este ataque terrorista, tal como há mais de 20 anos, os casos do “açúcar Ryazan”, as casas da “rodovia Kashirskoe”, “Beslan” … Este é um ataque terrorista em estado puro, destinado a matar civis. Não há perdão para ele.

Como eles não poderiam evitar esse ataque? Se isto fosse um erro de cálculo ou uma omissão do FSB, o chefe do FSB não seria mais o chefe. Voariam as cabeças do FSB e não condecorações, como agora as estão distribuindo ao FSB. Se estão sendo condecorados, significa que a operação é deles.

Por outro lado: de onde veio o ISIS? Quais serviços secretos o criaram? Todas estas organizações, como o ISIS e similares, foram criadas pelos serviços de inteligência para “realizar as suas tarefas”. Ou a Mossad não encorajou o crescimento do Hamas para enfrentar a Al-Fatah? Putin mostra as suas intenções: por um lado, aparecendo num movimento global contra o ISIS, aliando-se aos americanos e europeus com o slogan “vamos lutar juntos contra o ISIS”, tentando evitar a responsabilidade por centenas de milhares de ucranianos mortos, por cujas vidas e almas que nunca permitiremos que seja perdoado.” E, por outro lado, tenta ligar a Ucrânia a este ato terrorista. No entanto, não há forma de Putin conseguir ligar os terroristas à Ucrânia. Os seus terroristas foram para Gomel, na Belarus, e não para a Ucrânia. Todo mundo entende isso perfeitamente. Há 20 anos, o FSB explodiu várias casas e matou centenas de pessoas. Estas são provocações dos serviços especiais russos. Isso não afetará a Ucrânia diante da opinião mundial.”

Algumas primeiras conclusões

As declarações de Putin e dos seus porta-vozes vão mudando e são cada vez mais contraditórias com as evidências do massacre, dos seus alegados principais executores, organizadores e instigadores. Agora Putin salienta que não há provas de que o ISIS estivesse por trás do ataque e que não teria motivos para atacar na Rússia. E insiste que estes terroristas foram encorajados e treinados pela Ucrânia e pelo “Ocidente”. Há um mês, os serviços de inteligência dos Estados Unidos alertaram os seus concidadãos para tomarem precauções e não participarem em eventos massivos na Rússia. Agora os EUA confirmaram que, na sua opinião, foi o Estado Islâmico, o ISIS, que esteve por detrás deste ataque horrível, com a única evidência de que o ISIS – ou mais precisamente a facção IS-K – assumiu a responsabilidade. E acreditamos que esta simplificação faz parte da política do imperialismo: fechar os olhos aos crimes do FSB para permitir aceitar o convite de Putin para “lutarmos juntos contra o terrorismo”, como nos velhos tempos depois das Torres Gêmeas de Nova York. Faz parte da sua política não favorecer o bloco Rússia-China.

É evidente que a CIA e a NSA não se preocupam com a vida das famílias russas num show de rock. Mas a informação vazada que permitiu aos Estados Unidos, um mês antes do ataque, alertar publicamente os seus cidadãos em todo o mundo para não participarem em eventos de massa, veio muito provavelmente de agentes do FSB. E em resposta a isso, o FSB não fez nada de eficaz para evitá-lo. Isto não é mais uma prova de que o FSB preparou, supervisionou ou deixou acontecer?

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