O jornal “Expresso” noticiou na semana passada que refugiados ucranianos estavam a ser recebidos por russos pró Kremlin no município de Setúbal. O caso não era isolado e se espalhava pelo país inteiro. O fato é sem dúvida escandaloso.

Por: Em Luta – Portugal

Segundo o “Expresso”, pelo menos 160 refugiados foram recebidos por Igor Khashin, que presidiu a Casa da Rússia e o Conselho de Coordenação dos Compatriotas Russos, entidade vinculada ao Ministério russo de Relações Exteriores. Igor não tinha qualquer vínculo institucional com a câmara de Setúbal. Ele e a mulher Yulia, entretanto afastada das suas funções, teriam tirado fotocópias dos documentos de identificação dos ucranianos, embora esse procedimento não fosse necessário e feito questionamento a respeito da localização dos familiares na Ucrânia.

É um abuso aos refugiados de guerra e direta colaboração com o governo russo. Não se trata de negar a solidariedade do povo russo com a resistência ucraniana, esta é parte fundamental de combater a guerra. Igor Khashin é ligado à organizações de apoio direto ao governo russo, com conhecimento do presidente da câmara de Setúbal e inclusive do Estado português, não é um russo antiguerra. É escandaloso e de altíssima gravidade.

A embaixadora ucraniana havia denunciado o problema já desde o início da guerra, com conhecimento para o conjunto do governo e posteriormente, uma semana antes da denúncia do Expresso, fez outra denúncia para o conjunto do parlamento. Governo e parlamento, com todos os seus partidos, tinham conhecimento do problema e nada fizeram. Mais do que isso, parte das câmaras municipais acusadas de receberem os refugiados ucranianos com russos ligados ao Kremlin, como Aveiro, Gondomar e Albufeira, são geridas pelo PS e PSD, não é apenas a câmara municipal de Setúbal.

Não temos dúvida de que André Martins, o presidente da câmara municipal de Setúbal, já não tem condições de se manter em funções. Mas o mesmo critério deve ser utilizado às outras câmaras, independente dos partidos que a gerem.

A hipocrisia da solidariedade com os refugiados ucranianos

A invasão da Ucrânia pela Rússia, iniciou um forte e importante sentimento de solidariedade com a Ucrânia e de rechaço à Putin. Parte importante da resolução da guerra passa por fortalecer e tornar ativa essa solidariedade.

No entanto, instituições que anteriormente legitimavam a morte de refugiados no mediterrâneo ou tratavam imigrantes como caso de polícia, como foi com o ucraniano Ihor Homeniuk assassinado por inspetores do SEF em março de 2020, buscam melhorar a sua imagem construindo uma solidariedade aparente.

Costa é hipócrita quando declara a solidariedade incondicional com a Ucrânia, mas permite que em território português o Kremlin tenha acesso aos refugiados e seus familiares. Não é a primeira vez que o PS permite ao poder russo acesso a informações, basta lembrar o caso da câmara municipal de Lisboa que informava à embaixada russa os dados dos organizadores das manifestações contra Putin. O então presidente da câmara, Fernando Medina, foi agora promovido à ministro das finanças.

O apoio do estado português e do Governo de Costa à resistência ucraniana e aos seus refugiados vai até ao primeiro momento em que seus interesses políticos e económicos estejam em causa. Longe de apoiarem incondicionalmente a Ucrânia utilizam este momento para a sua autopromoção, para o rearmamento do estado, o fortalecimento da OTAN e da União Europeia.

Não podemos ter dúvidas, a verdadeira solidariedade só pode ser construída a partir da classe trabalhadora. É preciso seguir o exemplo do comboio[1] organizado pela central sindical brasileira a CSP Conlutas, o Solidaires de França e Inicjatywa Pracownicza da Polónia, que foi até Lviv na Ucrânia levar apoio político e material à resistência ucraniana. Temos de construir o apoio da classe trabalhadora dentro dos nossos países recolhendo o apoio material para a Ucrânia e também boicotando as relações políticas e comerciais dos nossos governos e patrões com o Kremlin e os oligarcas russos. E assim, no marco do apoio à resistência ucraniana, construir um polo alternativo à Zelensky e à sua política contra os trabalhadores que está a ser levada a cabo neste momento.

É preciso nos somar a todos os russos que se colocam contra a guerra e denunciam a política assassina de Putin. Nem todos os russos apoiam a guerra e os que a rechaçam são parte fundamental da vitória da resistência ucraniana.

O PCP e sua política traidora para a Ucrânia

Obviamente não poderíamos terminar este artigo sem mais uma vez criticar a política do PCP face a guerra da Ucrânia

Dizíamos no nosso último jornal: “Novamente rendidos ao mal menor, os dirigentes do PCP desprezam a terceira alternativa que tem sido a luta corajosa e sacrificada que o povo e trabalhadores ucranianos têm travado e que tem alterado o plano agressor. (…) A esquerda, a classe trabalhadora de todo o mundo, tem que fazer todo o possível para merecer o respeito e confiança daquele povo.” [2]

E por isso o PCP cumpre um grande desserviço à luta da classe trabalhadora em todo mundo. Não nos somamos à crítica seletiva ao PCP, acreditamos ser fundamental que os trabalhadores reflitam a postura deste partido que diz estar ao seu lado. E é tarefa da classe trabalhadora portuguesa superar o partido comunista e suas concepções estalinistas e de colaboração de classes, que leva o PCP a ser conivente com a invasão russa e desrespeitar o direito do povo ucraniano a ser livre.

É preciso uma alternativa revolucionária dos trabalhadores que só se pode construir no campo do apoio à resistência ucraniana, com nítida independência ao Zelensky, à OTAN e à UE.

[1] https://litci.org/pt/csp-conlutas-vai-a-ucrania-com-comboio-operario-internacional-e-realiza-entrega-de-donativos/

[2] https://litci.org/pt/portugal-para-onde-vai-o-pcp-a-paz-como-cobertura-a-invasao-criminosa-de-putin/