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Após um ano do novo governo colorado, Mario Abdo Benítez [MAB] nunca teria imaginado o nível de crise política pelo qual está atravessando. A instabilidade política geral que colocou seu governo no pelourinho a partir da “ata entreguista” com o Brasil, foi o marco gravitacional dos acontecimentos ao completar seu primeiro ano.

Por: PT-Paraguai

Fatores indiretos como a desaceleração econômica que deixa todas as classes sociais nervosas, a responsabilidade direta na ata entreguista, a dura disputa interna colorada, a fração de Horacio Cartes [HC] que salva o governo de MAB por conveniência própria, e a ira popular ante o entreguismo, constituem os fatores que explicam a extrema debilidade do governo.

Como Abdo chegou ao poder?

Para se ter uma radiografia mais exata possível, é necessário lembrar que a ascensão de Abdo Benítez –como dissemos em repetidas ocasiões – foi produto do cansaço das pessoas contra o cartismo e seu modelo. O modelo político e econômico cartista avançou em seus planos duplicando a dívida externa, cerceou direitos civis como o da liberdade sindical, deu cobertura a determinados grupos criminosos de fronteira, configurando assim um círculo político burguês que se distinguiu por ser o mais autoritário, degradado e corrupto do arco político colorado.

Da complicada relação Abdo – Cartes ao acordo de impunidade mútua. 

O início do governo teve como novidade deixar correr as acusações de figuras destacadas da corrupção da ala cartista com o objetivo prioritário de “ganhar a simpatia” das pessoas com seus ataques aos mais odiados do regime político, assim como acomodar-se com a oposição, buscando contemporizar interesses para avançar nos seus planos.

Em busca de maior governabilidade, MAB aposta em seus correligionários e atende ao pedido de paz de Cartes, que busca ter caminho livre para seus negócios obscuros. Dessa forma, Marito entrega a presidência das duas câmaras do congresso aos fiéis cartistas e em troca, os projetos antipopulares do governo são aprovados com folga no parlamento.

Com a crise desatada pela Ata entreguista de 24 de maio esse acordo foi levado a outro nível. Mario Abdo é salvo do julgamento político, Cartes é o principal responsável por deixar MAB e Hugo Velazquez impunes e assegura sua própria impunidade de delitos cometidos e dos que seguramente continuará cometendo.

Continuidade do cartismo econômico no contexto de uma desaceleração econômica

MAB não retrocedeu um milímetro nas medidas aplicadas por Cartes e nas que pode avançar, avançou; como no caso da reforma fiscal, onde se aumenta o aperto ao povo trabalhador e concede uma anistia fiscal à burguesia.

Como Cartes, Mario Abdo coloca toda a economia a serviço da burguesia, mas ele tem que navegar na turbulência da contradição econômica que começou a ser sentida com força durante todo este ano. Tentou atenuar com a nova emissão de abonos no valor de 1,5 bilhões, lançou mão também dos fundos da caixa fiscal, continuar com a pedalada da dívida e injetar liquidez no mercado.

Esta difícil situação gera muita preocupação nos setores da burguesia que pressiona o governo no sentido de medidas mais efetivas para não cair em uma recessão.

Os problemas estruturais continuaram se agravando

Todas as problemáticas relacionadas com o tema saúde e educação brotaram novamente com denúncias de todo o tipo e a partir de diferentes setores.

Quanto à saúde, as denúncias de precarização e falta de insumos é generalizada, chegando inclusive, no último período, a uma greve geral no Hospital das Clínicas que foi vitoriosa nos atendimento às reivindicações levantadas, mas que em alguns aspectos continuam sem resolução por parte do governo.

A situação no setor camponês também voltou a ser motivo de novas mobilizações em torno de demandas por isenção de créditos, refinanciamento, mercados, etc. A crise foi resolvida com um acordo “firmado com saliva” que não tem uma possibilidade de continuidade.

Os atos de corrupção, generalizados nas diversas entidades estatais, continuaram de vento em poupa, sendo um dos mais escandalosos o vinculado às licitações em matéria de seguridade privada do Instituto de Previdência Social – IPS que envolve dirigentes colorados, o presidente da entidade, os conselheiros, assim como o meio-irmão de MAB, Benigno López. A isto se soma a denúncia de fraude e péssimo atendimento aos segurados.

Negociações e negociatas em Itaipu explodem nas mãos de MAB

Ante a crise aberta no governo, após o escândalo do acordo bilateral entreguista assinado com os representantes brasileiros, a onda de indignação não parou de crescer colocando contra a parede o Presidente Abdo e o Vice Presidente Velazques, ambos à beira de um julgamento político, salvos pelo cartismo, que optou por mantê-los como reféns.

A tormenta política deixou um rastro de mortes e feridos deixando o governo profundamente debilitado e desnudando sua genuflexão ante a burguesia brasileira e agora, ante os principais inimigos no interior de seu próprio partido.

O que prima é a mais absoluta falta de credibilidade e desconfiança ante tudo o que Abdo pudesse dizer e fazer para tentar de sair da lama. Perdeu num abrir e fechar de olhos o que tanto se esforçou para ganhar com o lema “caia quem caia” ou seu lema de #maritodelagente (#marito do povo).

Pode-se dizer sem sombra de dúvida que assistimos a um período em que o governo atual é de um “Marito sem o povo”, pela perda completa desse leve apoio popular que estava procurando, tanto que segundo uma publicação de UH[1], 70% da população avalia o governo como ruim ou muito ruim.

As mobilizações não cessaram com diversos níveis de força e protagonistas. O fator positivo desta crise, aos olhos dos interesses da classe trabalhadora, é que o tema energético deixou de ser um tema de vanguarda para constituir-se, com diversos níveis de compreensão, em uma causa de caráter nacional.

As perspectivas para o governo

O governo aprisionado, deverá continuar sobrecarregado com o lastro que toda esta crise e a total falta de credibilidade e desconfiança, sobretudo ante a revisão do Anexo C de Itaipu em 2023.

Só por alguma circunstância excepcional poderia se recuperar mas é muito improvável tendo em conta a crise econômica, a relocalização e fortalecimento do cartismo, o reposicionamento da oposição burguesa diante das próximas eleições municipais, pois farejam um partido colorado mais dividido e debilitado abrindo maiores possibilidades de substituição por cima.

As tarefas da classe trabalhadora

A primeira tarefa é tirar lições desta crise política onde o papel da mobilização foi importante para anular a ata entreguista.

A classe trabalhadora também deve levantar a bandeira contra a corrupção e a impunidade, já que mais uma vez fica claro que os setores burgueses e suas expressões políticas encabeçadas pelo Partido Colorado, vão permanecer neutras.

Oposição férrea ao plano econômico do governo para fazer com a crise seja paga pela classe trabalhadora.

Sobre Itaipu, que as negociações incluam a totalidade do tratado e lutemos pela nulidade para garantir a livre disponibilidade da energia. Pela defesa da ANDE como empresa pública e controladora da energia elétrica. Para isto o Sitrande deve fazer parte das negociações.

Só poderemos levar estas reivindicações em frente com um movimento operário forte e coeso, daí que a tarefa fundamental é a reorganização e mobilização da nossa classe, construindo a partir das bases e com a implacável denúncia às direções traidoras, oportunistas e sectárias.

Esta primeira tarefa é a que nos dará possibilidade de influenciar outros setores mais debilitados e atrasados e poder desenvolver no momento certo, organismos surgidos no calor da mobilização popular para desfazer-nos de toda podridão política que infesta nosso país e ter representantes genuínos a serviço de um programa operário e socialista. A tarefa é difícil, leva tempo e consideráveis esforços e sacrifício, mas não temos outro caminho a não ser o de lutar para impor um programa a serviço dos interesses da classe operária e popular.

Abaixo o governo entreguista!

Basta de corrupção e impunidade fora MAB e Velazquez!

Nenhuma confiança na oposição!

Abaixo as medidas antipopulares!

Por um governo operário e socialista!

Notas:

[1] https://www.ultimahora.com/casi-el-70-ciento-aplazan-gestion-del-gobierno-abdo-n2837997.html

Tradução: Lilian Enck