Depois das mobilizações da semana passada, cuja radicalidade está eficazmente sintetizada nas imagens dos estudantes que investiram contra o Senado Italiano, as lutas contra o Decreto-lei Gelmini (Atual ministra da educação de Berlusconi)  explodiram de novo com força na terça-feira, dia da votação final do documento. Pelo menos, um milhão de estudantes, pesquisadores, precários e docentes saíram às ruas para dizer não aos cortes e à drástica aceleração dos processos de privatização do ensino público. Depois do corte no Ensino de 180 mil trabalhadores precários, do congelamento dos salários dos trabalhadores do serviço público (professores e pesquisadores incluídos), da destruição do ensino público secundário com a chamada “reforma” das escolas superiores, é agora a vez da destruição definitiva do Ensino Superior público.
 
 
Centro-direita e centro-esquerda unidos nas privatizações
 
 
Depois de décadas de leis bipartidárias (de Berlinguer e Fioroni no centro-esquerda e de Moratti e Gelmini no centro-direita), que desmantelaram o ensino público e aceleraram os processos de privatização, hoje o governo Berlusconi desfere o golpe final à Universidade estatal. O Decreto-lei aprovado prevê o corte drástico dos financiamentos às universidades. As que se encontra com os orçamentos no vermelho não só não verão os seus recursos econômicos redimensionados, mas arriscam-se mesmo serem entregues a comissões. Serão introduzidos em todas as Universidades Comissões de Administração abertas à participação de empresas, que transformarão o ensino universitário numa oportunidade de investimento para o capital privado. A consequência imediata será um aumento estratosférico das taxas universitárias. Para compensar os cortes do governo, as taxas aumentarão substancialmente, com a consequente impossibilidade para os filhos da classe operária de terem uma formação universitária.
Tudo isto é o resultado lógico das leis de autonomia promulgadas anteriormente pelos governos de centro-esquerda. Por esta razão são também hipócritas e ridículas as afirmações de Bersani, de Vendola, de Di Pietro e Ferrero em apoio aos pesquisadores e aos estudantes. Para dar apenas um exemplo, o decreto que pela primeira vez transformou os institutos escolares (escolas de ensino professional superior) em fundações de direito privado tem o nome do próprio Bersani (o aperto de mão do secretário do PD aos precários da pesquisa é como o beijo de Judas).
A tudo isto se adicionam, quer os cortes das bolsas de estudo (até já se fala apenas de alguns “empréstimos” para os mais… “meritórios”), quer o congelamento das contratações por tempo indeterminado dos pesquisadores (fala-se de contratos trianuais renováveis apenas por duas vezes, depois ou se passa ao quadro de efetivos – perspectiva decididamente improvável, tendo em conta o turnover – ou se é despedido). A piada está no facto de que, enquanto aumenta a carga de trabalho para os docentes precários, diminuem os salários e as garantias para o futuro, pois está a decorrer um demissão de milhares de bolsistas e doutorandos, que durante décadas desenvolveram actividades de pesquisa, a troco de umas míseras bolsas de estudo.
 
 
A explosão das lutas: um aviso para governos e patronato
 
 
Em toda Europa, as lutas estudantis estão a irromper com uma força que há décadas não se via. Em Londres, as manifestações estudantis são quase quotidianas, com inúmeras investidas contra os edifícios do governo. Em França, em todas as cidades, existem coordenações de luta entre operários e estudantes. Também em Itália, nestes dias, as massas estudantis, em conjunto com pesquisadores e docentes precários, invadiram as estradas, as avenidas e as praças das principais cidades italianas. Apenas na terça-feira, centenas de milhares de jovens, parafraseando um dos slogans lançados nestes dias, “bloquearam as cidades”. Em Bolonha, milhares de estudantes criaram uma barreira humana na estrada. Em Pisa, Génova, Pádua e Cosenza, as estações dos trens foram invadidas pela onda estudantil. Foram centenas e centenas as faculdades e os institutos superiores ocupados. Mobilizaram-se também os centros universitários, como os de Bérgamo e Brescia, que nas últimas décadas não tinham conhecido qualquer movimento de protesto. Claramente, a força de colisão das lutas estudantis ignora o endurecimento das leis de segurança desejadas por Maroni (com graves sanções penais para aqueles que bloqueiem o trânsito e as estradas). Esta é a demonstração de que apenas com a mobilização das massas se pode reverter as relações de força. Como na semana passada, o centro do protesto é Roma. Os estudantes, em massa, cercaram o Parlamento; a polícia, na base da força, travou a enchente humana, impedindo o ingresso no Montecitorio (sede da camara dos deputados) com a colocação de viaturas. Mas os estudantes não pararam e procuraram derrubá-las.
 
E agora, greve!
 
As palavras de ordem dos estudantes demonstram uma maior consciência em relação aos anos passados. As derrotas recentes, incluindo a aprovação do Decreto-lei, precisamente na terça-feira passada, demonstram aos jovens que não é lícito esperar seja o que for dos partidos do governo, nem dos seus interlocutores parlamentares e governamentais. Por isso, hoje os estudantes gritam: “nós não pagaremos a crise” ou “voltemos a agarrar o futuro”. Por entre as palavras de ordem, está a consciência fundamental de que este sistema econômico e social nada tem para oferecer às jovens gerações. Mas nenhuma reivindicação poderá ser ouvida ou ser vitoriosa, se a luta dos estudantes não se aliar à dos trabalhadores. É necessário construir uma grande greve geral europeia, a partir da qual dar vida a um movimento de lutas de modo a que, em conjunto com a ocupação das fábricas e a criação de comitês de luta em todos os locais de trabalho, se transformem as relações de força a favor das massas proletárias. A crise do capitalismo mostra, na pele dos jovens e dos operários, que apenas a ruína deste sistema econômico e a construção de uma economia socialista podem garantir um futuro às jovens gerações
 
 
De seguida, apresentamos algumas breves reportagens de luta, enviadas para o nosso site, pelos camaradas do PdAC, ativos nas mobilizações estudantis
 
Roma: assalto ao Parlamento!
Texto de Claudio Mastrogiulio, estudante da Universidade La Sapienza de Roma
 
Os estudantes, com toda a sua radicalidade, finalmente sacodem o estagnado panorama político italiano. Em particular em Roma, milhares de estudantes do politécnico e universitários paralisaram cidade. A passeata dos universitários partiu, já quando a manhã ia alta, da Universidade La Sapienza, para percorrer grande parte da cidade, até chegarem às proximidades do Montecitorio. O destacamento de forças policiais, ordenado pelo ministro do Interior Maroni, foi uma provocação inaceitável à qual a manifestação, com justiça, respondeu com a tentativa de violar a designada “zona vermelha”. A polícia, nada mais sabendo fazer do que espancar os que lutam pelos seus direitos, carregou sobre a multidão desprotegida, tendo inclusive prendido um estudante. Depois, a passeata dirigiu-se à estação Termimi, e no percurso recebeu a solidariedade de grande parte dos transeuntes (neste caso, os condutores, geralmente irritados com os problemas de tráfego criados por manifestações espontâneas), para acabar por ocupar uma dezena das mais de vinte linhas da estação Termimi. Na prática, hoje os estudantes deram uma verdadeira demonstração de força, lutando contra as injustiças decretadas por esta reforma pró-patronal, contra as brutalidade que nestes dias as forças da ordem estão a perpetrar nos confrontos com este movimento.
 
 
Turim: uma massa de protestos!
Por Giuliano Dall’Ooso, estudante universitário em luta em Turim
 
Sim, é verdade! Também em Turim, como em todas as outras cidades, os estudantes recarregaram as baterias e demonstraram que o movimento estudantil turinense não está morto, pelo contrário. No prazo de um mês, os estudantes, pertencentes a diversas faculdades, fizeram ocupações nos maiores “centros de ensino”. Às mãos dos estudantes caíram, primeiro, o Politécnico, de seguida foi a vez do Palazzo Campana. A própria sede das Ciências representa um símbolo da cidade, por que foi a dela que partiu o 68 turinense, que tanto fez tremer a burguesia. Nas últimas semanas, foi também ocupado o Palazzo Nuovo, sede das faculdades de humanidades, onde os estudantes se encontravam para debater e para participar nas numerosas assembleias da Universidade, que se foram realizando com maior frequência e foram um laboratório de expressão das diversas vozes das faculdades.
A escalda dos protestos espalhou-se até locais que tinham até agora estado esquecidos, como a estação da Porta Susa, o Museu do Cinema no interior da Mole, sendo que ainda foram ocupadas diversas vezes as linhas da estação Porta Nuova e algumas estações do metrô foram bloqueadas durante muito tempo. Um passo em frente foi dado contra o ataque ao ensino e no contato com o público, graças à intervenção na apresentação no Festival de Cinema de Turim no Teatro Régio. Os estudantes foram para as ruas, fecharam o trânsito e ocuparam diversas escolas e colégios superiores, bem como participaram na tentativa de assalto ao Palazzo da Regione e na contestação ao Senador Dell’Utri, que apresentava os diários do Duce (Mussolini, o ditador fascista) numa livraria.
 
 
Bolonha: trânsito bloqueado!
Texto de Anna Paduano, estudante em luta da Universidade de Bolonha
 
Em Bolonha, os estudantes em mobilização dividiram a Itália em duas! Um longa passeata, de cerca de 10 mil estudantes, bloqueou primeiramente o trânsito ao longo das ruas da cidade, tendo depois ido em direcção à auto-estrada, cortando o trânsito em todas as direcções das vias. Depois deste blitz, a passeata regressou à cidade, bloqueando também o trânsito na perimetral. Para terminar, todos em assembleia na Letras. Uma grande jornada de luta, começada logo de manhã com descargas de estrume largadas em frente à sede do PDL (partido de Berlusconi). Verificaram-se também confrontos com a polícia e alguns estudantes foram feridos. Aqui a luta não tem qualquer intenção de parar.
 
 
Nápoles: o protesto é contra a Confederação das indústrias
Texto de Rogerio Freitas, da Universidade de Nápoles
 
Nápoles, por volta das 10h00. Uma marcha de estudantes do secundário e universitários, sob forte chuva, foi em direcção à sede da Confederação das Indústrias. A defesa do ensino e da Universidade pública, de qualidade e para todos, é o núcleo das reivindicações da manifestação, que se coloriu de faces pintadas e com uma miríade de guarda-chuvas abertos. A passeata, depois de cerca de duas horas, chega à beira-mar e à sede da Confederação das Indústrias, tida, com razão, como inspiradora do ataque ao direito ao ensino, quer através da privatização da Universidade e das pesquisas, quer através da redução drástica dos postos de trabalho, dos salários, das aposentadorias. Alguns estudantes ocuparam também o Palazzo Reale.
 
 
Vicenza, cidade em luta
Texto do colectivo de estudantes do ensino público 
 
Esta manhã, como colectivo de estudantes pelo ensino público, iniciámos uma manifestação que foi também auto-organizada pelos estudantes das várias escolas superiores, com marchas espontâneos de cada instituto em direcção à estaçãode trem. Daqui, partimos em passeata, não autorizada, ao longo das vias principais do centro da cidade, com megafones e faixas para proclamar o nosso repúdio ao decreto-lei Gelmini. Manifestámo-nos pela defesa do direito ao ensino. As bolsas de estudo, segundo o previsto no decreto-lei, não virão, efectivamente, do Estado, mas de uma empresa sob a forma de empréstimo temporário (empréstimo de honra), com base meritocrática e não mais por critérios de renda: só que tenha possibilidades econômicas de se sustentar, poderá permitir-se frequentar a universidade.
Também nos manifestámos contra a privatização da Universidade, prevista pelo Decreto-lei, sob a forma mascarada das Comissões de Administração, com um mínimo de 40% de fundos privados, que ditarão os percursos acadêmicos e de pesquisa. Como estudantes do secundário, quisemos apoiar os protestos dos universitários, visto que, em um futuro não muito remoto, também nós frequentaremos a Universidade, que hoje a ministra Gelmemi quer desmantelar com esta reforma feita com base em cortes, mais inspirada no ministério da economia de Tremonti do que no ministério da Educação, para quem a formação é vista apenas como um custo e não como um recurso.
Protestamos contra o decreto-lei porque, também em Vicenza, falta coletivo de universitários, temos o dever de fazer a nossa parte numa mobilização nacional que nestes momentos envolve todas as universidades do país.
Como partilhamos a proposta de ocupação das diversas universidades e das estações ferroviárias em muitas cidades da Itália, também em Vicenza nos fizemos sentir ocupando parte do Liceo Artistico Martemi, organizando assembleias e momentos de debate. Como em toda Itália, continuaremos com a mobilização até que o decreto-lei seja revogado.
 
 
Cagliari em manifestação.
Texto de Diego Soru, estudante em luta da Universidade de Cagliari
 
Nos últimos dias, também em Cagliari o nível de protesto no mundo do ensino cresceu de forma significativa. Em assembleia, realizada na passada semana, decidiu-se que ontem se efectuaria uma distribuição itinerante de panfletos durante a manifestação dos diversos setores da Universidade, que deveria finalizar-se em frente à Reitoria. A iniciativa correu bem, muito além de todas as previsões, em poucos minutos uns quinhentos estudantes juntaram-se a cerca de outros quatrocentos. À tarde uma outra concorrida marcha desenrolou-se pelas ruas da cidade e esta manhã repetiu-se a experiência da manhã de ontem, com os mesmos números, desta vez chegando ao centro de Cagliari, em frente à sede do Consiglio Regionale da Sardenha (envolvendo praticamente todos os estudantes, que nas faculdades seguiam a discussão do decreto-lei na Câmara). Não obstante a aprovação do decreto, os estudantes permanecerão em mobilização permanente, conscientes do facto de que a fase de revolta social, que se está a desatar (a começar pela marcha do Movimenti Pastori (pastores) Sardi que sairão às ruas a 7 Dezembro), exige uma forte participação e uma posterior expansão do movimento estudantil.
 
Bérgamo: cidade bloqueada!
Texto de Stefano Bonomi, da secção bergamesa do PdAC
 
Também em Bérgamo, os estudantes protestaram contra a reforma de Gelmemi. Dos universitários, aos alunos das escolas superiores, a cidade regista esta manhã, terça-feira 30 Novembro, mobilizações “diversificadas”. A começar pelas dos estudantes do Instituto Natta, todos manifestarem-se fora dos edifícios, enquanto uma vintena deles subiram ao telhado do edifício com vários cartazes, entre os quais um mais eloquente dizia: “Queriam-nos ignorantes, nos terão rebeldes”.
Por sua vez, a porta de Sant'Agostino foi bloqueada por uma outra manifestação, a dos universitários, que fizeram um cordão humano dividindo a alta da baixa da cidade. Foi um blitz surpresa, não comunicado às autoridades, tal como está a suceder em tantas outras cidade de Itália. Todos parados em longas filas em ambos os sentidos das vias por mais de uma hora. Os estudantes têm engolido uma série de insultos no passado, mas não abrandaram o passo. Permaneceram sentados à porta até ao momento de votação da reforma. Somente após o convite da polícia, os manifestantes decidiram continuar o protesto na universidade, sem criar ainda mais inconvenientes para os cidadãos. “Somos um movimento que nasceu espontaneamente – explica um dos organizadores da manifestação – e decidimos sair à rua, uma vez que também Bérgamo não pode ficar calada perante esta reforma que nos nega o direito ao ensino”. Manifestação também no centro, com o movimento estudantil a bloquear, por uma dezena de minutos, a Porta Nuova.
 
 
As lutas contra o Decreto-Lei de Gelmemi na Puglia
Texto de Adriano Lotito, dos colectivos dos estudantes do Politécnico
 
Nestes dias, em Bari, centenas de estudantes, doutorandos e pesquisadores ocuparam a faculdade de engenharia do Politécnico, para reafirmar a sua oposição à reforma universitária da ministra Gelmini, enquanto ainda decorria a ocupação da Universidade e das faculdades de Direito e Ciências Políticas. Realizaram-se assembleias inter-faculdades e marchas internas. Os protestos várias vezes provocaram o caos no trânsito, com ocupações das estradas e das ruas da cidade. O teatro Petruzzelli foi tomado simbolicamente e na sua fachada foi afixada uma faixa. Há uma semana realizaram-se mobilizações estudantis também em Lecce, onde se verificaram marchas e discursos na praça e a ocupação do anfiteatro romano e de outros edifícios históricos da cidade, que envolveram milhares de estudantes. Também em Foggia, foram feitas manifestações em defesa da Universidade pública com a ocupação, por cerca de uma centena de estudantes, dos telhados do edifício da sede da Faculdades de Letras e Filosofia.
 
 
Reggio Calabria: aula magna ocupada
Texto de Carmelo Idone, estudante universitário
 
Em Reggio Calábria, os alunos da Mediterranea, após uma reunião organizada pelo colectivo da universidade, com ampla adesão também de alguns professores, decidiram ocupar a aula magna da universidade. Relata-nos Antonio Quistelli:
“A ocupação iniciou-se cerca de uma hora após a reunião e ainda enquanto escrevo (30 Novembro, já noite adentro) o anfiteatro está ocupado. A nossa não é uma ocupação apenas física, mas também profundamente moral, uma vez que o tempo que passamos entre aqueles muros não foi passado com banalidades, passamos a organizar as intervenções por parte dos estudantes, dos professores e dos pesquisadores. Foram debates nos quais se falou dos problems sem dúvida irreversíveis. Organizaram-se eventos de criatividade como recitais, projeções… em suma, tudo aquilo que de bom uma mente jovem pode ainda desenvolver. Corremos o risco de ter um futuro pouco promissor, mas ainda estamos a tempo de lutar contra quem não deseja ver no futuro uma Itália melhor.
 
 
Também em Salerno, estudantes em luta.
Texto de Rossella Bosco
 
Depois da manifestação de 8 Outubro, com uma boa participação dos estudantes de Salerno, no dia 20 Novembro, para receber Gelmini estava um grupo menor, mas, em compensação, muito determinado, não sendo monopolizados, como em Outubro, pelo aparato do PD-CGIL. Contrariamente àqueles das outras organizações, incluindo a COBAS, que se retiraram ordeiramente, seguindo as indicações da polícia, os alunos permaneceram em firmes, conosco, os camaradas do PdAC. Também no campus universitário de Fisciano, como está a acontecer em grande parte das outras universidades, saíram às ruas estudantes, precários e docentes. O protesto continuou novamente na terça-feira, tanto na cidade como na Universidade, repudiando o “assassinato do ensino”, da responsabilidade de Gelmini, sob o mandato de Tremonti.