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sexta-feira, maio 24, 2024

A grandeza de Nahuel Moreno

Completam-se 100 anos do nascimento de Nahuel Moreno. Muitos nos reivindicamos “morenistas”, a partir de diferentes ângulos, e lhe estamos homenageando nesta data.

Por: Alicia Sagra

Ao completar-se 30 anos de sua morte, Ricardo Napurí manifestou: O fato de que milhares e milhares de ativistas e militantes ainda se reivindicarem como pertencentes ao “morenismo”, é o aviso de sua vitalidade política.[1]

Teríamos que acrescentar que outra indicação da vitalidade de seu pensamento, são os ataques que continuam até hoje, de organizações como PO e PTS da Argentina.

Ernest Mandel disse sobre ele: “Foi um dos últimos representantes do punhado de quadros de dirigentes trotskistas que, depois da II Guerra Mundial, manteve a continuidade da luta de Léon Trotsky, em circunstâncias muito difíceis»[2].E somos muitos os que opinamos que foi Moreno quem melhor cumpriu essa tarefa.

Quem foi Nahuel Moreno e o que o diferenciou dos trotskistas de sua época e explica sua permanência.

Foi uma personalidade multifacetada, por isso para homenageá-lo podemos falar do extraordinário construtor na classe operária que, “tirando leite das pedras” construiu, em pleno auge do peronismo e do guerrilheirismo foquista, o PST argentino, o maior partido trotskista da América Latina, com grande peso operário. O construtor da corrente internacional que deu origem à LIT-QI. Podemos nos referir ao seu papel na construção dos partidos no Brasil, Peru, Bolívia, Colômbia…

Podemos destacar seu papel como formador de quadros e a importância que dava à formação de quadros mulheres. Podemos contar como nos maravilhavam seus cursos, suas palestras informais, onde, sem usar nenhum tom professoral, nos fazia avançar na compreensão do marxismo e no conhecimento da cultura geral.

Para nós que tivemos o privilégio de militar com ele, é impossível não lembrar seus aspectos humanos, sua grande capacidade de ouvir, sua compreensão dos diferentes problemas pelos quais os camaradas passavam. Características que fizeram com que fosse, não só muito respeitado, mas também querido e muitas vezes era procurado como confidente por diferentes companheiros e companheiras. Todos lembramos seu grande senso de humor, a capacidade para rir de si próprio. Suas piadas faziam com que reuniões que, às vezes tinha sido muito tensas pelas discussões políticas, terminassem fraternalmente, entre gargalhadas.

O otimismo revolucionário fazia parte de sua personalidade, entretanto, nunca o fez perder de vista nossa marginalidade, a debilidade que isso implicava e a necessidade de sair dela, não buscando atalhos, mas levando o programa revolucionário à classe operária.

Poderíamos desenvolver a revolução camponesa-indígena do Peru dos anos 60 e o papel de Hugo Blanco que sempre o reivindicou como seu grande mestre e dirigente. Ou poderíamos falar de Moreno e da Brigada Simón Bolívar. Ou da Guerra das Malvinas e da grande campanha internacional pela derrota da Inglaterra e a vitória da Argentina, da elaboração da consigna do Não ao pagamento da Dívida Externa, que hoje é patrimônio da vanguarda anti-imperialista mundial.

Provavelmente outros camaradas, se referirão ao fato de que o PST argentino, foi o primeiro a defender publicamente a legalização do aborto na década de 70 e ao reconhecimento público dos fundadores do Movimento de Libertação Homossexual de que foi o partido de Moreno, o único que deu seu apoio, nos mesmos anos 70.

Também se poderia desenvolver sua permanente defesa da moral revolucionária e da democracia partidária no marco do centralismo democrático. E de como essa moral se manifestou tragicamente com os mais de 200 militantes presos, desaparecidos e assassinados do PST argentino, que suportaram as mais terríveis torturas sem que o resto da organização fosse prejudicado.

Outro aspecto central na vida de Moreno é a batalha pela construção da direção internacional, pela reconstrução da IV Internacional, defendendo o “trotskismo ortodoxo” e combatendo permanentemente o revisionismo que se expressou em : sua luta contra o “pablismo” e sua capitulação ao estalinismo[3];  seu enfrentamento com Lora e seu apoio crítico ao governo do MNR, verdadeira traição à revolução boliviana de 1952, sua proposta frente populista da FRA nos anos 70; o combate ao desvio guerrilheirista e vanguardista de Mandel na década de 70, assim como a sua posição democratista de capitulação ao eurocomunismo; o enfrentamento ao SU de conjunto e sua proibição de construir partidos trotskistas em Cuba e Nicarágua, o que o levou a romper com essa organização; a luta contra a capitulação à Frente Popular de Lambert e contra sua metodologia de excluir os que questionavam sua política.

Essa identificação com o “trotskismo ortodoxo” que tinha Moreno não implicava dogmatismo, nem idolatria. Por isso, não duvidou em marcar os erros que via em seus mestres, como o fez em relação às Teses do Oriente[4] votadas pelo IV Congresso da Terceira Internacional e às Teses da Revolução Permanente.[5]

Da mesma forma que não duvidou em combater a posição do SWP norte-americano em relação à questão da mulher e seu chamado à construção de um movimento autônomo de mulheres.[6]

Todos estes aspectos identificam Moreno, e fazem com que o reivindiquemos como um grande dirigente. Mas quero destacar outra característica de sua personalidade que, para mim, é o aspecto central de sua grandeza, e que o diferencia e o faz superior aos dirigentes trotskistas de sua época e também aos posteriores.

Um permanente reconhecimento e correção dos erros

Moreno era um homem apaixonado. Se apaixonava pela construção na classe operária, pelas lutas, pelas revoluções, pelo estudo do marxismo, pelos avanços da ciência, pelas competições esportivas.  Mas, nunca se apaixonava por suas ideias, nunca considerava um documento como o definitivo. Pelo contrário, era comum ouvi-lo dizer: Não sou um gênio; vivi toda minha vida cometendo erros[7]

Em janeiro de 1982, quando se fundava a LIT-QI, dizia: “…Os dirigentes do movimento trotskista se consideravam colossos que não se equivocavam nunca. Entretanto, o trotskismo dirigido por eles era lamentável…” “…Essa experiência de andar sempre entre “gênios” nos levou a fazer indiretamente propaganda sobre nossa base para convencê-la de que nos equivocamos muito, que devem pensar por sua conta, já que nossa direção não é garantia de genialidades. Queremos por todos os meios inculcar um espírito autocrítico, marxista, e não uma fé religiosa em uma modesta direção, provinciana por sua formação e bárbara por sua cultura. Por isso, acreditamos na democracia interna e a vemos como uma necessidade imprescindível…Avançamos através dos erros e ataques e não temos vergonha de dizê-lo”

Não eram declarações declarativas, mas que tinham a ver com ações, nas quais não só se reconhecia e corrigia os erros que via, mas os fazia públicos. Alguns exemplos:

Autocrítica em relação à política para Palestina

No Avanzada Socialista 79, de 10-10-73, se coloca que na Guerra dos 6 dias (1967), a posição do nosso partido teria sido reconhecer o direito de autodeterminação do povo judeu no marco de uma Federação Socialista do Oriente Médio, mas que “A direção do nosso partido rediscutiu e revisou essa posição no que se refere ao direito dos judeus à autodeterminação e a ter seu próprio estado na Palestina.

Entendemos que o mais correto é apoiar a criação – no território que hoje ocupa o Estado sionista – de um único Estado Palestino, laico, não racista e com amplos direitos democráticos para todos seus habitantes”[8] E, no mesmo artigo, se esclarece que a posição anterior foi um erro importante, já que o direito de autodeterminação se aplica para as nações oprimidas e não para as opressoras.

Autocrítica em relação à revolução cubana e sua direção

Nenhuma corrente do movimento trotskista soube responder com uma posição principista ao novo e complexo fenômeno [a revolução cubana]. Ninguém foi capaz de fazer a seguinte análise global e principista: ao expropriar-se a burguesia, Cuba se transformou em um estado operário; mas ao fazer esta revolução sob uma direção pequeno burguesa, profundamente nacionalista (embora seu nacionalismo tivesse aspectos progressivos naquele momento por ser latinoamericanista), o novo estado operário era burocrático desde seu nascimento e, portanto, era necessária uma revolução política e a construção de um partido trotskista, já que o Movimento 26 de Julho primeiro, e o PC cubano depois, eram partidos pequeno burgueses ou burocráticos. Dito de outra forma, uma direção pequeno burguesa não vai deixar de sê-lo porque não seja stalinista ou, mais ainda, embora seja antistalinista. [9]

Autocrítica sobre a reunificação da IV Internacional de 1963

Moreno aderiu criticamente a reunificação que deu origem ao SU em 1964. Sua crítica tinha a ver com o fato de não ter se realizado previamente um balanço. Em 1980, declarou o seguinte:

Para o pablismo e o mandelismo, a revolução cubana foi uma magnífica oportunidade de fortalecer e reviver seu revisionismo, sua negação da necessidade de construir partidos trotskistas. O revisionismo encontrou a oportunidade de transferir ao castrismo, a tarefa de dirigir a revolução socialista que antes havia deixado nas mãos do stalinismo(…) O rompimento entre a URSS e China leva o SI[10] durante um tempo a propor algo parecido em relação ao maoísmo. O grave é que o SWP aceita totalmente esta revisão do programa e análise trotskista no que se refere ao castrismo, embora continue opondo-se ao maoísmo, com justa razão, como uma variante stalinista nacional.

É assim que o SWP vai à unificação com o SI.

Com base em muitas afirmações programáticas corretas e principistas, como o correto reconhecimento de Cuba como estado operário, se esconde uma profunda capitulação ao castrismo e o abandono da razão de ser do trotskismo: a imperiosa necessidade de se construir um partido trotskista em Cuba e no resto da América Latina para combater essa corrente pequeno burguesa à frente de um novo estado operário, a castrista, até conseguir uma revolução política dos operários cubanos contraela. A base política da reunificação passava por um acordo revisionista: não combater a direção castrista[11]como inimiga do trotskismo e do movimento operário.

Autocrítica em relação ao sujeito social da revolução

 “A esta altura da minha vida, estou convencido de que nosso “sectarismo”, no sentido de permanecer junto ao movimento operário, é inteiramente correto. Não há forma de enganar o processo histórico e de classe. Se eu dirijo o movimento camponês à conquista do poder, não posso construir uma democracia operária. É impossível chegar ao socialismo com democracia baseando-se no campesinato, é algo que vai contra as leis descobertas pelo marxismo e confirmadas pela história. A superestrutura política que surgir será de acordo com a classe que tomar o poder (…) Ao longo da minha vida política, depois, por exemplo, de olhar com simpatia o regime que surgiu da Revolução Cubana, cheguei à conclusão de que é necessário continuar com a política revolucionária de classe, embora postergue a chegada ao poder para nós em vinte ou trinta anos, ou o que for. Nós aspiramos que seja a classe operária a que verdadeiramente chegue ao poder, por isso queremos dirigi-la.”[12]

Estes são só alguns poucos exemplos da grande quantidade de erros que Moreno viu, reconheceu publicamente e corrigiu. Não viu outros, e a realidade os colocou em evidência depois de sua morte, como seu prognóstico equivocado sobre a revolução política, não ter visto o processo de restauração na China que ocorreu na década de 70, ou o início do processo na Rússia.

Em suas últimas elaborações, Moreno chegou à conclusão de que “a essência do trotskismo é a revolução socialista internacionalque éacompanhada por duas outras categorias: “a democracia operária (…)queremos que a classe operária se expresse democraticamente através de seus organismos e tome o poder exercendo essa democracia (…)E um subproduto disso, é que queremos que o partido que dirija e acaudilhe as organizações democráticas da classe operária, também seja democrático(…)Digo isto porque toda esta teoria que hoje estou dizendo leva à LIT uma questão muito importante: somos defensores incondicionais do regime da ditadura do proletariado que é a favor da democracia operária (…) E o terceiro é um fenômeno social: acreditamos que é a classe operária que tem que voltar a tomar, ser a vanguarda do processo”.[13]

Partindo dessa definição e com essa perspectiva, é que nos propomos a continuar com a luta de Moreno, devemos encarar a necessária tarefa de atualização programática. E devemos fazê-lo com este método que nosso mestre nos deixou, que considero um de seus maiores legados: estudar profundamente, com espírito crítico, sem nenhum tipo de idolatria, as elaborações de nossos mestres e as nossas, contrastá-las com a realidade e, a partir daí, realizar as mudanças e atualizações que sejam necessárias.


[1] Testemunho de Ricardo Napuri, na edição de homenagem do livro “Conversações com Nahuel Moreno”, pág. 195. Editora Lorca, Edições Marxismo Vivo.

[2] Declaração de Mandel ao saber da morte de Moreno, em 25 de janeiro de 1987.

[3] Pablo e Mandel defenderam o entrismo “sui generis”, a longo prazo, sustentando que uma terceira guerra mundial contra a URSS os levaria a desenvolver processos revolucionários.

[4] Moreno sustentou que as Teses do Oriente que a frente Anti-imperialista propunha com a burguesia nos países coloniais e semicoloniais, estavam equivocadas, e que eram a expressão da Frente Popular naqueles países.

[5] Moreno propôs a necessidade de atualizar essas Teses, já que elas não refletiam as revoluções pós-segunda guerra mundial. Mas, esclarecia, que continuava defendendo a Teoria da Revolução e inclusive as Teses, já que estas “só se equivocaram em alguns países no ponto da estação onde se parava o processo da revolução permanente conduzida pelos partidos pequeno burgueses – ou estalinistas – mas acertava que o processo se detinha totalmente se estes partidos não fossem substituídos por um partido leninista (Atualização P. de T, Teses XXXIX)

[6].Moreno sustentava que esse movimento não só era frentepopulista, mas, que a proposta geral implica uma revisão da Teoria da Revolução Permanente pela questão dos múltiplos sujeitos da revolução.

[7] Escola de quadros da Venezuela 1982, pag 16, Crux Edições

[8] Avanzada Socialista, jornal do PST argentino. Negritos nossos.

[9] Atualização do Programa de Transição, Teses XI. 1980. Negrito nosso.

 

10 Em 1953, a IV rompeu dando origem ao SI, dirigido por Pablo e Mandel, que defendiam o entrismo “sui generis” nos partidos comunistas. E o CI, liderado pelo SWP dos EUA, onde participavam as seções francesas, inglesas, a organização de Moreno, que enfrentavam essa política do pablismo.

[12] Conversações com Nahuel Moreno. Capítulo 2. Negritos nossos

[13] Escola de quadros da Argentina-1984. Pag 82. Edições Crux

Tradução: Lílian Enck

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