A oposição aos centros de dados continua crescendo
Mobilização popular exige controle democrático sobre recursos e rejeita a dominação capitalista dos centros de dados.
Em todo o país, o movimento contra os novos centros de dados continua crescendo. A cada dia, nas ruas e nas prefeituras, as pessoas levantam a voz contra a sua construção. No dia 18 de julho, foram registrados 142 protestos em 42 estados contra os centros de dados, a maioria delas no Texas. As preocupações citadas costumam ser os elevados custos da eletricidade, o consumo de água, as emissões e a poluição luminosa e acústica.
No entanto, além disso, os protestos contra os centros de dados —e os protestos afins contra a proliferação das câmeras de vigilância Flock— revelam o surgimento de um novo movimento de massas que exige o controle democrático das localidades e dos recursos que as cercam, em oposição à tomada de controle da economia por parte dos bilionários do setor tecnológico. Este novo movimento de massas também demonstrou seu potencial para superar as divisões partidárias habituais entre as comunidades da classe trabalhadora, nas quais os eleitores republicanos e democratas se opõem em grande medida entre si.
Este protesto massivo mergulhou os políticos capitalistas de ambos os lados em uma crise, e tanto Nova York como Texas foram obrigados a anunciar moratórias sobre os centros de dados para mitigar a indignação. Os protestos contra os centros de dados, e a pressão que estes exercem sobre os políticos capitalistas, representam uma nova oportunidade para a política de massas nos EUA, à qual todos os trabalhadores deveriam se juntar e apoiar, pois atacam diretamente um pilar fundamental do domínio autoritário dos interesses empresariais.
A composição do movimento
A construção de centros de dados conta agora com a oposição de sete de cada dez americanos. A maioria de quem se mobiliza contra os centros de dados vive em comunidades rurais ou da classe trabalhadora, já que a expansão desses centros tem dado prioridade às áreas com baixos valores imobiliários e às zonas industriais já existentes dentro dos limites das cidades, muitas vezes perto de comunidades marginalizadas que sofrem as consequências dos resíduos industriais.
Dado que esses projetos se concentram em grande parte em localidades pequenas, muitas das lutas mais importantes estão sendo travadas nas prefeituras, onde os residentes lotaram as salas e exigiram que seus vereadores locais revogassem as autorizações concedidas. Exemplos como Peculiar (Missouri), San Marcos (Texas) e Pittsburg (Califórnia) correspondem a comunidades menores que se organizaram com sucesso e pressionaram suas prefeituras para que paralisassem os projetos de centros de dados, muitas vezes após reuniões maratonas nas quais os responsáveis foram interpelados por horas.
Embora essas vitórias sejam importantes e devam ser celebradas, a luta terá que ir além das meras disputas nos municípios. Um exemplo das limitações da organização a nível municipal ficou patente em Saline Township (Mississippi), onde os promotores de um centro de dados da Stargate AI levaram a pequena localidade aos tribunais depois que o município local lhes negou os alvarás de construção. Os promotores ganharam nos tribunais simplesmente por dispor de maiores recursos financeiros. Os manifestantes precisam encontrar formas de levar a luta além dos municípios e dos tribunais, e levá-la às ruas para apresentar suas reivindicações e impedir a construção de centros de dados.
Nas reuniões municipais, aqueles que se opõem aos centros de dados enumeram motivos como os custos da eletricidade, a poluição, o consumo de água e a falta de empregos reais. Os estudos sobre a expansão dos centros de dados revelam que essas preocupações são fundamentadas. Em Utah, por exemplo, prevê-se que o projeto do centro de dados Stratos consuma 9 GW de energia. Esse número supera o consumo atual de todo o estado de Utah. Além disso, o centro de dados está sendo construído em uma área afetada pela seca e extrai água do Grande Lago Salgado, o que, ao ser drenado, ameaça liberar toxinas que se encontram no leito do lago. Outro caso é o do centro de dados xAI Colossus, nos arredores de Memphis (Tennessee), que violou as restrições de emissões da EPA ao adicionar 35 turbinas de gás de metano ilegais nas instalações para sua alimentação. Segundo as estimativas dos fabricantes, esses geradores podem produzir mais emissões do que o aeroporto de Memphis.
Os centros de dados e seu contexto
Além das preocupações imediatas sobre o meio ambiente e o custo de vida, a expansão dos centros de dados também representa um projeto político de maior envergadura por parte dos capitalistas tecnológicos para aumentar a capacidade das tecnologias de inteligência artificial destinadas à vigilância, à automação e às ferramentas de guerra, em grande parte em benefício de um pequeno grupo de capitalistas tecnológicos e contratantes de defesa. Cada novo centro de dados que é construído aumenta a capacidade computacional de um punhado de grandes empresas tecnológicas. Estas podem, por sua vez, utilizar essas ferramentas para automatizar postos de trabalho tanto nos setores de colarinho azul quanto de colarinho branco, e para aumentar a vigilância das comunidades por meio do uso de ferramentas de IA que processam a coleta massiva de dados, como as câmeras de segurança conectadas à Internet, o tráfego da Internet e das redes sociais, os registros governamentais, etc.
Esses sistemas de vigilância também se aplicam em zonas de guerra. Além disso, são utilizados em territórios ocupados, como ocorre com o contrato Nimbus que a Amazon e o Google têm com as Forças de Defesa de Israel (FDI) e o contrato Azure com a unidade cibernética 8200 das FDI, que coleta milhões de chamadas telefônicas de palestinos a cada dia.
O sucesso do movimento contra os centros de dados representaria uma gigantesca vitória frente ao controle da economia e da sociedade em geral por parte da direita. Cada centro de dados que não seja construído hoje representa dinheiro que, em seu lugar, poderia ser destinado a moradias, escolas ou à geração de energia verde.
Apoyamos o movimento contra os centros de dados porque representa as reivindicações democráticas sobre o uso da terra por parte dos grandes capitalistas tecnológicos que exercem controle sobre a economia americana e o Estado. No entanto, embora essas reivindicações para parar a construção de novos centros de dados sejam sem dúvida louváveis, o movimento deve ir além e pressionar para que se exija a expropriação dos centros de dados já existentes e que sejam colocados sob controle dos trabalhadores.
Inclusive, atualmente mesmo que se detivesse toda a construção de centros de dados, a capacidade de vigilância, coleta de dados e contaminação dos ambientes locais já teria aumentado enormemente devido ao que já foi construído. É necessário que os trabalhadores assumam o controle do que já existe em matéria de centros de dados e ferramentas de inteligência artificial; apenas através de seus próprios conhecimentos e do controle democrático dessas ferramentas poderá ser limitada sua capacidade de serem utilizadas contra os trabalhadores, tanto no país quanto em todo o mundo.




