14 de junho: Bolívia entra em seu 45º dia de luta em meio a disputas sobre o rumo do movimento
Neste domingo, 14 de junho, marcando 45 dias de conflito e 40 dias desde o primeiro bloqueio de estradas, a Bolívia vive um momento marcado por profundas contradições. Enquanto o governo e diversos veículos de comunicação insistem em retratar o debilitamento dos protestos, bloqueios de estradas, reuniões de organizações sociais e mobilizações exigindo a continuidade e até mesmo a intensificação das táticas de pressão continuam em diferentes regiões do país. Ao mesmo tempo, outros setores pressionam por negociações com o governo e buscam direcionar o conflito para acordos.
No centro dessa disputa está a Central Operária Boliviana (COB), onde as crescentes contradições também se expressam entre aqueles que defendem a continuidade e a intensificação das táticas de pressão e aqueles que defendem uma solução negociada para o conflito. Com o objetivo de discutir essa situação e definir uma posição em relação à crise, a COB havia convocado uma assembleia nacional para este domingo. No entanto, a reunião foi suspensa devido à falta de garantias de segurança. A decisão foi tomada após um ataque ao dirigente da COB, Octavio Urquizo, que foi agredido por membros de um grupo de choque civil, segundo relatos de dirigentes sindicais e organizações mobilizadas. O incidente agravou as tensões existentes e alimentou acusações sobre as ações de grupos civis incitados pelo governo no conflito político em curso no país.
Os bloqueios persistem apesar dos discursos oficiais de enfraquecimento
A narrativa oficial de um enfraquecimento progressivo dos protestos contrasta com uma realidade muito mais complexa. Dezenas de bloqueios permanecem ativos em várias regiões do país, e organizações de base estão realizando reuniões, assembleias setoriais e assembleias populares para discutir a continuidade das medidas. As informações mais recentes indicam entre 77 e mais de 80 bloqueios distribuídos por seis departamentos, com Cochabamba e La Paz apresentando a maior concentração, seguidos por Potosí, Oruro, Chuquisaca e Santa Cruz. Embora as autoridades governamentais e os meios de comunicação afins destaquem o levantamento de alguns bloqueios específicos para apresentar uma imagem de normalização, omitem o fato de que muitos bloqueios estão sendo realocados ou reorganizados para enfrentar a pressão repressiva, e que novas ações continuam a surgir em diferentes regiões.
A disputa sobre o rumo do movimento se intensifica
A principal contradição da situação atual não reside entre um movimento enfraquecido e um governo fortalecido, como as autoridades e a mídia pró-governo tentam retratar. A enorme marcha nacional realizada na última quarta-feira em La Paz, que reuniu dezenas de milhares de trabalhadores, camponeses, indígenas, moradores de El Alto, mineiros e jovens, demonstrou que o movimento mantém um poder de mobilização significativo e disposição para lutar. A resistência dos manifestantes à repressão policial e aos repetidos ataques com gás lacrimogêneo reforçou a ideia, entre amplos setores, de que era possível intensificar as táticas de pressão e estender os bloqueios a todo o país.
Contudo, após essa demonstração de força, começaram a surgir diferentes propostas sobre a direção que o movimento deveria tomar, com alguns dirigentes sindicais e sociais levantando a necessidade de abrir negociações com o governo e buscar mecanismos para pacificar o conflito.
Essa tensão atravessa atualmente a própria COB e diversas de suas organizações filiadas. Nos últimos dias, vários setores começaram a explorar soluções negociadas para o conflito. A Confederação Geral dos Trabalhadores Fabris da Bolívia (CGTFB) realizou reuniões com o governo e concordou em estabelecer uma agenda de trabalho sobre produção e emprego. Simultaneamente, o Poder Executivo promoveu negociações com as federações de transporte a respeito de medidas de “Auxílio Financeiro” e compromissos relacionados ao fornecimento de combustível. Soma-se a isso a posição assumida pela Central Departamental de Trabalhadores (COD) de Cochabamba, que aprovou uma resolução propondo que a COB declare um “recesso humanitário” para facilitar a abertura de um diálogo com o governo. Essas iniciativas foram amplamente divulgadas por veículos de comunicação alinhados ao Poder Executivo, que as apresentaram como sinais de um suposto enfraquecimento das mobilizações e de um iminente retorno à normalidade no país.
A pressão para negociar está aumentando, mas a base está respondendo com novas medidas de radicalização
No entanto, ao mesmo tempo que alguns dirigentes sindicais e setores sociais estão explorando soluções negociadas para o conflito, reuniões públicas, assembleias ampliadas e encontros de base continuam a ser realizados, reafirmando a os bloqueios continuam e exigem intensificar as táticas de pressão. Longe de uma posição unificada em favor da negociação, surgem em diferentes partes do país resoluções que refletem um clima combativo e uma crescente pressão da base sobre suas direções.
Um dos exemplos mais significativos foi a Assembleia Aberta da Província de Los Andes, realizada em Pucarani, onde organizações camponesas, indígenas e de base ratificaram a continuidade dos bloqueios e aprovaram uma série de resoluções com o objetivo de fortalecer as táticas de pressão. Entre elas, estavam chamados para reforçar o cerco à sede do governo e propostas para suspender o fornecimento de água e energia à cidade de La Paz, decisões que receberam ampla cobertura da mídia nacional e demonstraram o nível de radicalização alcançado pelos setores mobilizados do altiplano de La Paz.
A essa tendência se somaram também setores da mineração. Os trabalhadores de Huanuni reafirmaram seu estado de emergência e mobilização permanente, defendendo a necessidade de fortalecer a unidade entre trabalhadores, camponeses e povos indígenas para sustentar a luta. Da mesma forma, há relatos de que, em uma assembleia de mineiros realizada em Oruro, houve fortes críticas a dirigentes considerados conciliadores ou ausentes da mobilização, refletindo tensões internas e pressão de setores de base. Informações divulgadas por organizações camponesas e veículos de comunicação ligados às regiões mobilizadas também relatam assembleias e reuniões que continuam a aprovar novas táticas de pressão e a rejeitar acordos considerados insuficientes. Em vários casos, as resoluções insistem que qualquer negociação deve ser subordinada aos mandatos da base e não se tornar um mecanismo para desarmar a mobilização.
Essas posições expressam uma tendência cada vez mais visível dentro do conflito: enquanto alguns setores dirigentes propõem diálogos, tréguas ou processos de paz, segmentos significativos de trabalhadores, camponeses, mineiros e povos indígenas continuam a exigir um aprofundamento da luta e insistem que as decisões fundamentais sejam tomadas pela base mobilizada.
A crise política também impacta o governo
O contexto dos protestos coincide com novas dificuldades para o governo. A apreensão, no porto chileno de Arica, de um carregamento de madeira proveniente da Bolívia, supostamente ligado ao narcotráfico internacional, gerou uma nova crise política que afeta diversas instituições estatais.
A controvérsia também impactou o Ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, que assumiu o cargo recentemente em meio a agitação social e enfrenta críticas crescentes de setores da oposição e organizações mobilizadas.
Enquanto o governo tenta conter simultaneamente a crise política e o conflito social, setores mobilizados afirmam que esses eventos refletem uma crescente erosão do apoio ao governo de Rodrigo Paz.
Organizações de solidariedade estão coordenando ações em apoio ao povo boliviano
A luta protagonizada por trabalhadores, camponeses, povos indígenas e setores populares na Bolívia começa a repercutir além das fronteiras do país.
Neste fim de semana, foi realizado um encontro internacional de solidariedade, convocado pela Secretaria de Imprensa e Propaganda da COB (Central Operária Boliviana), com o apoio da CSP-Conlutas do Brasil, reunindo aproximadamente 100 participantes de cerca de dez países. O encontro facilitou a troca de informações sobre a situação na Bolívia e proporcionou uma oportunidade para discutir iniciativas de fortalecimento da solidariedade internacional com os setores mobilizados.
Os participantes se comprometeram a promover declarações públicas, campanhas de divulgação, atividades de denúncia e ações em frente às embaixadas e consulados bolivianos para denunciar a repressão e defender as liberdades democráticas e o direito de protesto.
Como continuidade desse esforço, uma nova reunião internacional foi convocada para a próxima quinta-feira, com o objetivo de ampliar a coordenação e fortalecer uma campanha internacional em apoio à luta do povo boliviano.
A luta que se desenrola atualmente na Bolívia faz parte dos movimentos de resistência que recorrem a América Latina contra as medidas de austeridade, a repressão e as políticas que impõem o ônus da crise às maiorias populares. Portanto, a solidariedade internacional emerge cada vez mais como um elemento crucial para apoiar e fortalecer as lutas que ocorrem no país.
Além disso, nesse contexto, a consigna “Todo o poder à COB, apoiada por organizações operárias, camponesas e indígenas” ganha relevância. Esta é uma proposta de independência de classe em relação ao governo, aos partidos patronais, aos empresários e a todos os setores que buscam canalizar a crise dentro dos limites do regime vigente. A saída favorável para a maioria não passa por negociações secretas ou acordos que desmobilizem o povo, mas sim no fortalecimento da organização independente daqueles que atualmente sustentam a luta. Trata-se da necessidade de construir uma alternativa independente de classe frente ao governo, aos partidos tradicionais e aos setores empresariais que buscam transferir a responsabilidade da crise para o povo pobre. Diante de uma situação em que as instituições do regime são cada vez mais questionadas e em que crescem as pressões para desmobilizar a luta, a perspectiva de que os próprios trabalhadores e o povo organizado decidam democraticamente os rumos do país surge como uma das principais discussões abertas pela atual crise boliviana.




