qua jul 17, 2024
quarta-feira, julho 17, 2024

A Fração Trotskista, o contraste entre Gaza e Ucrânia

Em um primeiro artigo de polêmica com a Fração Trotskista (FT) criticamos alguns aspectos relevantes de sua postura diante da guerra genocida de Gaza[1]. Neste segundo artigo, queremos por em evidência o contraste entre seu flagrante abstencionismo na guerra da Ucrânia e sua dura crítica às organizações francesas Lutte Ouvrière e NPA-C (Novo Partido Anticapitalista) pelo seu neutralismo em Gaza.

Por: Víctor Alay

No caso da Palestina, Matías Maiello[2] não duvida em escrever que:

“Contrariamente aos pacifistas, os marxistas revolucionários distinguem entre guerras justas e injustas. A guerra de um povo que se levanta contra a opressão colonial entra nitidamente na categoria de guerra justa. Por isso é que os revolucionários se colocam incondicionalmente do lado da resistência e da luta do povo palestino contra o Estado de Israel, quaisquer que sejam suas direções.

Do ponto de vista do marxismo revolucionário, podemos distinguir dois tipos de ‘abstencionismo’ frente a uma guerra justa. Um é o abstencionismo na própria guerra, por parte daqueles que pretendem permanecer neutros e rejeitam posicionar-se nitidamente do lado militar do povo oprimido. Isto equivale ao abandono do anti-imperialismo e, portanto, da revolução socialista. O outro é o abstencionismo daqueles que, no contexto da guerra, se negam a lutar no terreno do programa, da estratégia e dos métodos frente às direções burguesas ou pequeno burguesas que estão atualmente à frente do campo oprimido.”

São palavras muito solenes, que refletem o método e a estratégia com que nós marxistas revolucionários abordamos as guerras entre as potências imperialistas e os povos oprimidos. São raciocínios que deveriam poder ser aplicados também à guerra da Ucrânia. Mas, para a FT, na Ucrânia não há nenhuma “guerra justa” contra a invasão russa, mas uma “guerra reacionária” de ambos lados. Por isso, os revolucionários não devem se colocar no campo militar ucraniano frente à agressão imperialista russa, mas absterem-se: nem com a Rússia nem com a Ucrânia, mas “contra a guerra”.

Uma “guerra reacionária”

Emilio Albamonte[3], a figura mais proeminente da FT, nos diz: “a definição que fizemos sobre a guerra é a seguinte: se fosse pelo problema de autodeterminação nacional estaríamos com a Ucrânia; há um problema de autodeterminação nacional em que uma enorme potência invade um país semicolonial. Mas a Ucrânia não é um país dependente ou uma semicolônia qualquer, mas por votação, porque deram um golpe, etc.etc., propôs-se como um apêndice da União Europeia e se possível, da OTAN. Uma vez que isto é assim e está no pensamento do mainstream ucraniano, nas classes dominantes da Ucrânia, assim como no que uma maioria dos ucranianos querem, é muito difícil fazer o que dizem determinados grupos de esquerda, que colocam o eixo na entrega de armas à Ucrânia. A quem seriam entregues? A organizações que apoiam Zelensky? O problema é que tudo isto depende da existência de uma força política independente na Ucrânia, que não é o caso hoje”.

A primeira afirmação de Albamonte é que, efetivamente, “há um problema de autodeterminação nacional em que uma enorme potência invade um país semicolonial”. Isto deveria ser um ponto crucial para um marxista revolucionário se colocar no campo militar do país oprimido. No entanto, este critério não funciona, pois a Ucrânia, um país semicolonial invadido pela Rússia, “não é um país dependente ou uma semicolônia qualquer”, mas suas classes dominantes, assim como a maioria da população, ou seja, a classe trabalhadora e os oprimidos ucranianos, “por votação, porque deram um golpe, etc.etc., propôs-se como um apêndice da União Europeia e, se possível, da OTAN”.

Este amálgama que Albamonte faz entre as classes dominantes e a classe trabalhadora ucraniana, a maioria da população[4], é um erro grosseiro para um marxista quando estamos nos referindo a classes sociais antagônicas.

É verdade que podemos nos encontrar em um dado momento em que, frente à agressão militar da Rússia, que quer escravizar a Ucrânia e liquidá-la como nação independente, uma maioria da classe trabalhadora ucraniana, sentindo-se indefesa, possa tomar posição a favor da integração na UE e do próprio guarda-chuva da OTAN. Mas este sentimento do povo trabalhador ucraniano é completamente diferente do posicionamento do governo Zelensky e do setor dos oligarcas ao qual está associado, que aspiram converter-se – sobre a base da superexploração dos trabalhadores ucranianos – em sócios coloniais dos EUA e Alemanha e leais súditos da OTAN.

No caso da classe trabalhadora ucraniana, entretanto, essa falsa consciência está em profunda contradição com seus interesses de classe e se explica, em boa medida, pela ausência de partidos revolucionários arraigados tanto na Ucrânia como na UE. Porém a contradição entre seus interesses de classe e sua consciência só pode ser resolvida através da ação ou, o que é o mesmo, através da defesa militar do país contra a invasão russa e do desmascaramento progressivo, neste processo, do governo Zelensky.

Se Albamonte acompanhasse a realidade viva da guerra e tivesse relação com organizações operárias ucranianas independentes do governo Zelensky, poderia comprovar a evolução da consciência de amplos setores de trabalhadores, muitos deles na frente de batalha, que se chocam com Zelensky e com as medidas antioperárias de seu governo, no qual perderam sua confiança, e que manifestam, ao mesmo tempo, uma sentida desconfiança em relação à UE e à OTAN.

Não em vão, as potências imperialistas ocidentais estão mostrando, na prática, cada vez com maior nitidez (tanto no terreno da “ajuda” econômica – que endivida e compromete o país com vistas a uma futura semicolonização- como na sempre escassa e tardia ajuda militar) que a vida dos soldados e a sorte do povo ucraniano não importa, assim como a independência e a integridade territorial do país. Que não estão interessados na vitória ucraniana, mas no desgaste da Rússia, na posterior colonização do que restar da Ucrânia após as anexações russas; em utilizar a guerra para a promoção do militarismo e um rearmamento generalizado e, no caso dos EUA, em aproveitar o conflito para consolidar sua hegemonia frente às outras potências ocidentais e fortalecer-se frente à China.

Albamonte conclui sua argumentação dizendo que dado que toda Ucrânia (oligarcas, Zelensky e a classe trabalhadora) são a favor da UE e da OTAN, “é muito difícil fazer o que dizem determinados grupos de esquerda que colocam o eixo na entrega de armas à Ucrânia. A quem seriam entregues? Às organizações que apoiam Zelensky? O problema é que tudo isto depende da existência de uma força política independente na Ucrânia, o que hoje não é o caso”.

Aqui entramos em todo um clássico dos companheiros da FT pois, segundo eles, se não há uma “força política independente”, revolucionária ou puramente classista, na direção ou, pelo menos, desempenhando um papel relevante em um movimento popular, não se pode apoiar tal movimento nem se colocar em seu campo militar em caso de conflito armado. Este não é só o caso da Ucrânia. Foi também o caso do potente movimento democrático contra a ditadura de Bashar al-Assad na Síria, onde a FT manteve uma postura abstencionista e se negou a apoiar a rebelião popular, tanto durante as grandes mobilizações de massas contra o regime como durante todo o período inicial da guerra civil, antes que o movimento popular fosse sufocado pelas facções militares financiadas e dirigidas por regimes reacionários da região. No caso da Palestina, os companheiros da FT consideraram, em contrapartida, a necessidade de colocar-se incondicionalmente no campo da resistência contra o Estado de Israel “qualquer que seja sua direção”, embora, como vimos no primeiro artigo deste trabalho, seu apoio incondicional está cheio de reservas e incoerência.

Maiello replica a propaganda de Putin

Voltando à Ucrânia, como o raciocínio de Albamonte é muito “cru”, outros dirigentes entraram em detalhes para justificar a posição da FT. É o caso de Matías Maiello. No seu artigo que citamos[5], que é toda uma referência para a FT, Maiello se esforça, em primeiro lugar, em justificar porque rejeitam definir a guerra da Ucrânia pela sua independência nacional como uma “guerra justa”.

Escreve, citando Lenin e Clausewitz, que “para analisar uma guerra (e mais ainda se quisermos ter uma política independente), é necessário passar pelo crivo todas as políticas anteriores dos diferentes atores que agora são prosseguidas através da guerra”. E, então, nos diz que a política de Putin “prossegue” com a invasão é recriar um estatuto de potência militar para a Rússia, apoiando-se na opressão nacional dos povos vizinhos, sobre o modelo do czarismo e do estalinismo e em continuidade com intervenções militares anteriores na Rússia e na periferia russa. A OTAN, por sua vez, prossegue sua política de expansão para o Leste Europeu, para “cercar” a Rússia. Até aqui, com seus prós e contras, poderíamos chegar a um acordo com Maiello.

O problema vem quando Maiello se refere ao lado ucraniano, onde nos faz um relato dos últimos anos no qual nos fala do Euromaidan[6], da evolução política posterior da Ucrânia, dominada por “forças reacionárias e pró-ocidentais de extrema direita” e de uma “guerra civil de baixa intensidade marcada pela existência de uma minoria russófona de um terço da população, o ascenso de grupos de extrema direita, e Zelensky, um governo pró-imperialista até à medula”.

Maiello, já desatado, prossegue: “Trata-se de estar no ‘campo militar do povo ucraniano’, mas de qual lado deste ‘campo’, já dividido por uma guerra civil? Pedir ‘armas para o povo’ mas para quais milícias: para as milícias separatistas do Donbass, para as milícias de extrema direita como o batalhão Azov? Putin já fez o primeiro, a OTAN o segundo, ambos no quadro da continuidade de suas políticas”.

O problema deste relato de Maiello é que tem pouco a ver com a realidade e muito com o discurso de Putin. Enquanto o ditador russo, grande amigo da extrema direita internacional, utiliza os métodos da Wehrmacht hitleriana, sua propaganda pretendeu justificar sua agressão no “caráter nazista” do regime ucraniano, presidido, certamente, por um personagem judeu e russófono. Exibe, para demonstrá-lo, fotos do Batalhão Azov, força paramilitar integrada majoritariamente por militantes das organizações de extrema direita ucraniana como Pravy Sector e Svoboda.

Mas, é sabido por todos que as grandes mentiras, para que tenham credibilidade, devem ter ingredientes de verdade. Evidente que há organizações de extrema direita na Ucrânia, inclusive aquelas que se reivindicam nazistas e em não poucas ocasiões, mantém ou mantiveram vínculos com certos setores do Exército e determinados oligarcas. A Ucrânia não foi uma exceção na Europa e também aqui a extrema direita fez sua presença.

Mas um dirigente tão informado como Maiello não pode desconhecer que a influência social e o peso político da extrema direita ucraniana são ínfimos, muito inferiores ao de muitos países europeus ou americanos. A Coalisão Nacional da extrema direita que se apresentou às eleições gerais de 2019 obteve 2,15% dos votos e não conseguiu nenhuma cadeira; nas últimas eleições presidenciais o candidato de Svoboda, Koshulynskyi, ficou com 1,6%. Além disso, se aplicarmos esta regra de três, o Estado Espanhol, França, Itália ou Alemanha, Chile ou Argentina seriam supernazistas. A afirmação de Maiello de que o governo Zelensky “se apoia sobre grupos de extrema direita” é, de novo, um reflexo da propaganda de Putin. Uma coisa é que seja um governo puramente pró-imperialista associado a um setor dos oligarcas, outra é que sua base de apoio seja a extrema direita.

A identificação que Maiello faz entre a mobilização militar ucraniana, que teve como eixo as Forças Territoriais, compostas majoritariamente por trabalhadores, com o batalhão Azov é também própria da propaganda de Putin e inconcebível em um revolucionário trotskista.

Maiello comete outro grave erro ao identificar russófono com pró-russo, porque a evidente maioria de ucranianos russófonos que enfrentam a invasão, são contra o regime ditatorial de Putin e contra o regime à sua imagem e semelhança imposto pelas armas nas zonas ocupadas do Donbass. Descrever as milícias pró-russas de Donetsk e Lugansk como simples “milícias separatistas” é silenciar que foram organizadas pelo exército russo, que as controla e dirige, assim como dá-lhes legitimidade, como se fossem expressão de um movimento popular a favor da anexação à Rússia. Não é estranho que Maiello não diga uma palavra sobre a marcada presença da extrema direita e nazistas confessos em tais milícias, como o célebre Batalhão Vostok.

Maiello defende ao mesmo tempo o “direito à autodeterminação para Donetsk, Luhansk e a população russófona”. Já comentamos sobre o disparate de identificar população russófona com população pró-russa. E quanto à autodeterminação para Donetsk e Luhansk, trata-se de outro despropósito, algo assim como defender o direito de autodeterminação para o Ulster, o território irlandês ocupado pelo exército britânico e segregado do resto da Irlanda.

“Uma guerra subsidiária”?

Sem entrar nos termos escabrosos de Maiello, os artigos de Cinatti ou de Chingo, Alcoy e Reip[7], justificam o abstencionismo da FT na medida em que não estamos diante de uma “guerra justa”, mas em uma “guerra subsidiária” na qual a Ucrânia age como instrumento da OTAN em seu choque com a Rússia. Inclusive imprimem um novo conceito: “um tipo específico de guerra reacionária de opressão nacional, caracterizada por um alinhamento da maioria das potências imperialistas por trás da nação oprimida” [8].

Certamente, só um cego pode negar a intervenção, indireta, dos EUA e da UE na guerra, assim como o caráter profundamente pró-imperialista e antioperário do governo Zelensky. O problema é que isso não elimina o fato de que estamos diante de uma guerra de agressão nacional da segunda potência militar do mundo contra uma nação muito mais fraca à qual quer submeter através da violência, com métodos de extrema crueldade. Uma guerra cujo propósito é o controle militar, econômico e político de um país que é um enorme celeiro, tem uma localização geográfica fundamental para o trânsito energético e comercial e uma dimensão e recursos que o Klemlin estima como essenciais para seu projeto imperialista da Grande Rússia. Estamos diante de uma guerra justa de libertação nacional contra um Exército conquistador.

Não há dúvida de que a OTAN e a UE por um lado, e a Rússia por outro, querem colonizar a Ucrânia. Mas não se pode confundir os tempos. O que temos agora não é uma invasão da OTAN, mas da Rússia de Putin, diante da qual temos que apoiar o povo ucraniano.

Uma política marxista revolucionária ante a guerra da Ucrânia

Os revolucionários devem, portanto, estar incondicionalmente no campo militar da Ucrânia e lutar pela vitória militar da nação oprimida e invadida, sem que isto implique nenhum tipo de apoio político a Zelensky nem à OTAN. Pelo contrário, há que denunciar seus planos e manobras e trabalhar pela organização independente do proletariado ucraniano frente a Zelensky, a OTAN, a UE e o FMI.

Há que opor-se e denunciar, sem meios termos, a OTAN (e pedir sua dissolução) e o rearmamento imperialista, opor-se a todos os orçamentos militares de Biden, Macron, Sánchez, etc., e denunciar Zelensky abertamente como o homem de Biden e da UE na Ucrânia. Mas esse enfrentamento político com Zelensky deve ser feito sendo, a todo momento, “os melhores soldados contra Putin”. Da mesma forma que só podíamos denunciar o governo republicano de Madri, que desmantelava as conquistas revolucionárias do princípio da guerra civil espanhola de 1936-1939, sendo “os melhores soldados contra Franco”.

Não se pode desmascarar a OTAN nem Zelensky fora das trincheiras ucranianas ou com uma postura “nem, nem” na “terra de ninguém”, em meio ao fogo cruzado. O que a FT disse aos trabalhadores ucranianos, muitos dos quais estão na frente de batalha? Que não deveríamos estar a favor de nenhum campo militar porque os dois são reacionários e que só se poderá apoiar o lado ucraniano quando houver um governo anti-imperialista e socialista?

A FT denuncia a guerra da Ucrânia como uma guerra reacionária e aposta em um movimento pela paz, como se estivéssemos em uma guerra entre potências imperialistas pela divisão do mundo e não diante de uma guerra justa de libertação nacional[9]

Mas a FT foi muito longe nesta linha, pois foi beligerante contra a entrega de armas à Ucrânia pelas potências imperialistas. Em lugares como o Estado Espanhol ou Alemanha fizeram campanhas de agitação em defesa de “nem um tanque para a Ucrânia” [10] . O grupo alemão da FT exigiu inclusive dos sindicatos que convocassem uma greve geral, não para demandar mais apoio militar à Ucrânia, a nação agredida, mas para o “fim da guerra e de todas as ações hostis, como vendas de armas e sanções”. Putin deve ter ficado feliz.

Certamente, uma coisa é o envio de armas e outra o envio de tropas imperialistas sobre o terreno, que deve ser combatido frontalmente, pois só pode servir para converter a Ucrânia em uma semicolônia militar e despojá-la de toda soberania. Mas o mesmo não acontece com as armas e munições. Como, em meio à invasão, os ucranianos poderão defender sua soberania sem as armas adequadas? Trata-se, pelo contrário, de denunciar que as armas que as potências da OTAN entregam não são as que os ucranianos demandam, são insuficientes para que a Ucrânia possa se defender cabalmente e mais ainda para expulsar e derrotar Putin e, além disso, demoram, sem justificativa, repetidamente. É, certamente, um tipo de ajuda militar que não tem nada a ver com a que Israel recebe para seu genocídio em Gaza.

Tem que impulsionar e apoiar as ações de boicote à Rússia que os trabalhadores realizem através de suas organizações, na linha das “sanções operárias” que os trotskistas defenderam nos anos 30 do século passado diante da invasão italiana da Abissínia (atual Etiópia) e da segunda guerra sino-japonesa. Este foi o caso da refinaria Ellesmer, em Cheshire, Inglaterra, onde se recusaram a descarregar petróleo proveniente da Rússia, replicando os trabalhadores do terminal de gás de Kent e dos portos dos Países Baixos.

Ao mesmo tempo, temos que construir uma solidariedade material direta com os trabalhadores que resistem na Ucrânia (e com os refugiados ucranianos), como foram os comboios organizados pela Rede Sindical Internacional de Solidariedade com os mineiros e metalúrgicos do sindicato independente de Kryvyi Rih  (Krivoy Rog).

E não esquecer que o elemento mais chave para a vitória é avançar na organização independente da classe trabalhadora ucraniana e da resistência, tanto para fazer frente à máquina de guerra russa como aos planos de espólio e ajuste que Zelensky assinou com a UE e o FMI.

E estarmos cientes de que, no final, a Ucrânia, uma grande nação europeia imprensada entre o imperialismo regional russo e as potências imperialistas ocidentais, ambos muito mais fortes que ela e interessados em submetê-la e controlá-la, não conseguirá recuperar nem manter de forma duradoura sua integridade e sua soberania nacional, se não for como parte de uma futura união livre de povos livres da Europa ou, o que é o mesmo, de alguns Estados Unidos Socialistas da Europa levantados sobre os escombros da UE e do expansionismo imperialista russo.

O exemplo dos trotskistas nos anos 30 do século passado

Definir uma posição correta de um ponto de vista marxista revolucionário ante a guerra da Ucrânia não é, sem dúvida, um trabalho simples. Por isso, é importante aprender com o método e a estratégia com que os trotskistas abordaram no passado a guerra civil espanhola, a invasão italiana da Abissínia e a segunda guerra sino-japonesa.

Pensamos que a política da FT hoje na guerra da Ucrânia é muito similar à do Workers Party (WP) de Shachtman na segunda guerra sino-japonesa, iniciada em 1937, quando o Japão invadiu a China. No início da guerra, tanto o SWP de Cannon (a seção da Quarta Internacional nos EUA), como o WP de Shachtman (uma cisão do SWP) apoiaram a China contra o Japão. Porém, quando em 1941, após o bombardeio de Pearl Harbor, os EUA entraram em guerra contra o Japão e começaram a enviar ajuda militar à China, Shachtman mudou sua política e adotou uma posição de neutralidade, “nem, nem”, muito parecida com a da FT na Ucrânia.

Morrison[11], em nome do SWP, a rebateu dizendo:

 “A proposição geral de Shachtman é que não se pode apoiar a luta de uma nação colonial ou semicolonial contra uma nação imperialista que está envolvida em uma guerra com outra nação imperialista, sempre e quando a nação colonial esteja sob controle da classe capitalista”. Mas, “a essência da política colonial do marxismo revolucionário é apoiar a luta dos povos coloniais contra um opressor imperialista, mesmo que esteja dirigida pela burguesia e sem fazer nenhuma exceção durante um período em que esteja travando uma guerra imperialista”.

Esta posição é ainda mais evidente hoje, quando não existe um enfrentamento armado direto entre os exércitos da OTAN e os de Putin. Morrison prosseguia:

 “Assumiremos que a ajuda que chega à China vinda dos Estados Unidos é muito maior agora que antes de Pearl Harbor. A quantidade de material enviado à China pelos Estados Unidos muda o caráter do conflito chinês? (…) Inclusive antes da declaração oficial de guerra, os aviadores estadunidenses lutavam pela China. Suponhamos que agora haja muitos mais deles na China. Isso, com certeza, é um fator mais importante. Mas ninguém que seja um marxista realista sustentará que conseguir ajuda técnica ou inclusive ajuda militar através de oficiais especialmente treinados, muda o caráter do conflito chinês. O importante é: Quem, em última instância, tem o controle das forças armadas e, portanto, o controle do conflito? Até agora, ninguém em sã consciência pode dizer que não seja o governo chinês quem controla os exércitos chineses. Se a situação mudasse e se se enviasse um número suficiente de tropas estadunidenses à China e tomasse o controle da luta contra o Japão, então teríamos que mudar de atitude. Mas isto não ocorreu”.


[1] https://litci.org/es/la-fraccion-trotskista-y-su-postura-en-la-guerra-de-gaza/

[2] «Os meios e os fins: a propósito da posição dos revolucionários sobre a estratégia do Hamas”, publicado em 6 de novembro de 2023

[3] “Emilio Albamonte sobre a guerra da Ucrânia e o método para a análise da situação mundial” publicado em 26/6/2022.

[4]  E aqui não estamos falando de uma população colonial trazida do exterior para um país construído sobre o roubo das terras e da limpeza étnica do povo originário, como é o caso de Israel.

[5] “Debates sobre a guerra na Ucrânia: política anti-imperialista independente e ‘revolução democrática’” publicado em 20 de março de 2022

[6] A revolta de 2013-2014 contra o presidente Yanukovitch

[7] “Ucrânia: o desafío de uma política anti-imperialista independente”, publicado em 20 de março de 2022

[8]  Note-se que para a FT não há mais imperialismos além dos ocidentais, com os EUA à frente. A China não é uma potência imperialista emergente para a FT, em conflito com os EUA.  E, certamente, a Rússia, apesar de sua força militar, é um país dependente e não uma potência imperialista “regional”, associada à China (como a Rússia czarista o foi nas primeiras duas décadas do século XX, associada então às potências da Entente).

[9] https://litci.org/es/no-cabe-una-posicion-neutral-ante-la-guerra-de-agresion-contra-ucrania/

[10] https://litci.org/es/sobre-las-consignas-no-a-la-guerra-y-ni-un-tanque-para-ucrania/

[11] “Porque apoiamos a China” Parte 1 e 2, The Militant 18 e 25 Julho de 1942

Tradução: Lílian Enck

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