Debate com Gilbert Achcar sobre a Palestina

Pedras contra tanques e mísseis?
O processo que a Palestina está vivendo (as ações do Hamas contra a população civil israelense e a resposta genocida do governo de Netanyahu contra a população da Faixa de Gaza) continua gerando posicionamentos de diversos setores da esquerda mundial. É o caso de um recente artigo publicado por Gilbert Achcar[1]. No marco de uma posição básica comum (estamos do lado do povo palestino em sua luta contra Israel), queremos debater algumas definições que Achcar expõe e, fundamentalmente, com a proposta que, como conclusão, faz ao povo palestino para avançar em sua luta.
Por: Alejandro Iturbe
Gilbert Achcar é um professor universitário de origem libanesa radicado na França. É a principal referência do Birô Político da IV Internacional (nome atual da organização conhecida no passado como SU-Secretariado Unificado da IV Internacional).
Em sua declaração oficial, esta organização define: “Estamos com o povo palestino em sua contínua resistência contra o colonialismo israelense e sua luta pela autodeterminação”. Nesse marco, destaca: “Não compartilhamos a estratégia e as táticas do Hamas porque este caminho não pode colocar um fim à ocupação, que é a única forma de acabar com a violência”. O caminho para “O fim da ocupação só é possível mediante a resistência coletiva das massas palestinas, junto com os ativistas contra a guerra no Estado de Israel, e com o apoio de seus aliados internacionais”[2].
A LIT-QI também debateu em diversos artigos a estratégia do Hamas (a construção de um Estado islâmico burguês na Palestina recuperada). Frente a esta proposta, levantamos a consigna “Por uma Palestina Laica, Democrática e não Racista” (do “rio [Jordão] ao mar” [Mediterrâneo], como agora o povo palestino a expressa).
Era o eixo central do programa fundacional da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) em 1964, e que a OLP foi abandonando para “enterrá-la” definitivamente com os acordos de Oslo, em 1993. Esta consigna implica imprescindivelmente a destruição do Estado de Israel.
Ao mesmo tempo, além de ser o objetivo pelo qual o povo palestino luta, a LIT-QI e o morenismo sempre a consideraram uma consigna de transição para a revolução operária e socialista na Palestina e Oriente Médio[3].
O impacto das ações do Hamas sobre a sociedade israelense
O SU e Achcar não abordam a questão a partir da visão da “moral pacifista burguesa” como o fez o deputado do PSOL brasileiro Guilherme Boulos: as ações militares contra a população civil devem ser condenadas como “princípio” nesta luta, sejam elas feitas pelo opressor israelense ou pelo oprimido palestino[4]. Pelo contrário, em seu artigo, Achcar considera a ação do Hamas como “uma façanha espetacular” que “lembrou sua vulnerabilidade […] ao Estado e à população israelense…”.
Esse “lembrete” de “vulnerabilidade” é um golpe muito duro para a sociedade israelense que está acostumada a exercer impunemente sua opressão sobre o povo palestino. E impacta sobre essa sociedade israelense. Por um lado, imigrantes judeus de camadas mais recentes estão abandonando Israel e voltando aos seus países[5]. Por outro, agrava as contradições já existentes na sociedade israelense sobre a política em relação ao “problema palestino”: se o genocídio que o governo de Netanyahu sobre a Faixa de Gaza está levando adiante ou uma negociação em direção aos “dois Estados”[6].
Em uma entrevista muito interessante, Arlene Clemesha (professora de história árabe da Universidade de São Paulo, Brasil) se refere a ambos aspectos[7]: “O temor pelo futuro e pela própria vida que os israelenses sentem, é uma das novidades que os ataques realizados pelo Hamas trouxeram”. Neste sentido, destaca que “As colônias [israelenses] estão sendo evacuadas, dezenas de colonos estão saindo…Esta evacuação tem a ver com o medo dos colonos [imigrantes judeus de origem russa…]” .Isto se combina com o fato de que “Tomou Israel em um momento de fragilidade, relativa é evidente, da coalizão que governa o país”. A conclusão é que “Israel nunca esteve tão pressionado e encurralado” e que a situação “pode significar a derrota política definitiva de Netanyahu”.
Ao mesmo tempo, Clemesha considera que “a grande maioria da população (palestina) está a favor de soluções pacíficas, as pessoas não querem perder seus filhos e familiares. Entretanto, se você perguntar e caminhar hoje pelas ruas da Palestina ou em Jerusalém oriental, anexada e ocupada, o estado de espírito dos palestinos é de apoio ao que aconteceu”.
Uma “guinada”
Ou seja, inclusive considerando que a ação do Hamas foi usada como desculpa pelo governo de Netanyahu para lançar uma ação genocida sobre a Faixa de Gaza (na realidade um salto em uma política que já vinha implementando há anos), pode se avaliar que o resultado desta ação do Hamas foi politicamente positivo para os palestinos. Erodiu a sensação de impunidade da população israelense ocupante e agravou a crise política do governo de Netanyahu e do Estado de Israel em geral, bem como é apoiada pelo povo palestino e levanta seu ânimo para a luta contra Israel.
Apesar disso, Achcar termina tirando a conclusão de que o resultado final da ação do Hamas é negativo e, portanto, trata-se de um “método de luta” equivocado: é “muito duvidoso que ajude a fazer avançar a causa palestina…”, e haverá “um custo enormemente desproporcional para as e os palestinos” já que “o resultado da atual ofensiva de Israel contra gaza será, sem dúvida, devastador”.
Além disso, em contraposição à análise de Arlene Clemesha que citamos, Achcar considera que “a contraofensiva do Hamas, de outubro, já conseguiu reunificar uma sociedade e um sistema político israelense que antes estava profundamente dividido, e permitirá a Benjamin Netanyahu colocar em prática seus planos mais loucos…”.
Sua conclusão é que “a mera ideia de que uma operação assim, por mais espetacular que seja, possa obter a vitória só pode provir do pensamento ilusório do tipo religioso, característico de um movimento fundamentalista como o Hamas”. Mas Achcar não se limita a criticar esta ação militar do Hamas em particular. Sua crítica se estende a toda ação militar mais ofensiva do povo palestino ou de outros povos árabes contra Israel, devido aos seus inevitáveis resultados negativos.
Ele afirma que “se o Hezbolá do Líbano […] se unisse à guerra a um nível que realmente colocasse Israel em perigo, esta aposta seria muito arriscada. Porque…tal situação, se ocorresse, levaria inevitavelmente Israel a recorrer sem restrições ao seu enorme poder destrutivo (que inclui armas nucleares), provocando assim uma catástrofe de magnitude histórica”.
Sobre “a superioridade militar” de Israel
O marco de fundo do raciocínio de Achcar é que “nenhuma ilusão pode alterar a enorme superioridade militar de Israel”. Na realidade, Achcar considera que, no campo militar, Israel é “invencível” para os palestinos e outros povos árabes, apesar de que sua derrota na invasão do Líbano, em 2006, frente à resistência armada libanesa liderada pelo Hezbolá, tenha demonstrado o contrário. A partir desta “enorme superioridade militar”, conclui que toda ação militar contra Israel “lembra de fato o Levante do Gueto [judeu] de Varsóvia de 1943” que foi esmagado pelos nazistas.
Este raciocínio o leva a outra conclusão inevitável: os palestinos e outros povos árabes devem abandonar toda luta militar: “Frente a um opressor muito superior em meios militares, a única forma verdadeiramente eficaz de luta para o povo palestino é escolher o campo no qual possa evitar essa superioridade. O ponto culminante da eficácia da luta palestina foi alcançado em 1988, durante a Primeira Intifada, na qual as e os palestinos evitaram deliberadamente o uso de meios violentos”.
Em primeiro lugar, é uma falsificação completa dizer que a juventude palestina que protagonizou a Intifada “evitou deliberadamente o uso de meios violentos”. Com heroísmo, esses jovens atacavam os tanques e os soldados israelenses com o que tinham à mão (estilingues e pedras). Se tivessem armas, as teriam usado. As pedras e os estilingues não eram uma “escolha deliberada”, mas o resultado das duríssimas condições em que deviam lutar. Achcar “embeleza” esta situação para propor ao povo palestino que lute com uma “resistência pacífica” só que de uma forma um pouco mais agressiva: com pedras e estilingues contra tanques e armamento moderno.
Nessa visão de contrapor as ações militares contra Israel à mobilização das massas, Achcar acaba propondo ao povo palestino que realize apenas ações políticas “puras”: “a luta palestina deve basear-se principalmente na ação política de massas contra a opressão, a ocupação e a expansão colonial dos colonos israelenses”, obter cada vez mais “apoio regional” nos povos [árabes e muçulmanos] “que lutam contra os regimes opressores” [como o do Irã ou os que pactuaram com Israel]. “Aqui reside a verdadeira perspectiva potencial para a libertação palestina, que deve combinar-se com a emancipação da própria sociedade israelense da lógica do sionismo…”.
As duas primeiras propostas são corretas se partirmos, por um lado, de reconhecer que o povo palestino mostrou abundantemente sua disposição de se mobilizar e lutar com heroísmo contra o opressor israelense. Não é esse fator que está fraco. Por outro lado, que o apoio e a solidariedade regional dos povos árabes e muçulmanos voltou a se manifestar massivamente em vários países. Em todo caso, é necessário que estas mobilizações avancem na luta contra seus próprios regimes e governos. A terceira (“a emancipação da sociedade israelense da lógica sionista”) é uma tarefa impossível de alcançar, pelo menos no conjunto da sociedade israelense, devido ao caráter desta população, uma questão que analisaremos especificamente mais adiante.
Uma visão derrotista das guerras de libertação
Se aplicarmos a fundo o critério que Achcar usa para o conflito entre o povo palestino e Israel (o predomínio absoluto da “superioridade militar”), isto significa dizer que todas as guerras de libertação dos povos oprimidos e colonizados estão condenadas de antemão à derrota na arena militar porque sempre partem de uma grande desigualdade neste campo frente aos opressores e às potências imperialistas.
Entretanto, a história tem demonstrado muitos exemplos contrários. A um custo de duros sacrifícios e sofrimentos, temos visto grandes vitórias militares dos povos oprimidos e colonizados contra forças militares que a priori eram muito superiores. Basta nomear a do povo argelino em sua luta pela independência contra o imperialismo francês, a do povo vietnamita contra o imperialismo estadunidense (a principal potência militar do planeta) ou a vitória do povo libanês contra Israel. Atualmente, a resistência do povo ucraniano contra a agressão russa conseguiu frear a ofensiva do exército invasor (muito superior em armamento).
Nestas vitórias se combinaram fatores políticos e militares. Em primeiro lugar, a disposição das massas oprimidas e colonizadas para uma luta heroica. Em segundo lugar, essa luta foi escalando para uma guerra de libertação cada vez mais dura (na qual inevitavelmente se usavam também ações “cruéis”). Em terceiro lugar, foram rodeadas de solidariedade e apoio internacional, o que incluía também mobilizações nos próprios países imperialistas e opressores. Tudo isto, acabou provocando uma redução no moral e até uma quebra na combatividade do exército opressor/imperialista devido à comprovação de que não haveria impunidade nem “vitória fácil”.
É um grave erro conceitual contrapor a mobilização de massas (a sua disposição política para lutar) com as ações militares, porque ambas devem se complementar e fortalecer-se mutuamente. Se uma ação militar não expressa uma necessidade e uma disposição das massas, acaba sendo apenas uma “ação de aparato” isolada das massas, como o “foco guerrilheiro” que o guevarismo propunha. Ao mesmo tempo, se a mobilização das massas contra os opressores e colonizadores não se eleva para a luta militar, não pode ser levada a fundo. Fica limitada a lutar com “pedras e estilingues” contra tanques e armas modernas. Aí sim, está inevitavelmente condenada à derrota militar.
Inclusive as guerras de libertação ou revolucionárias precisam de organizações específicas (um aparato militar) para poderem ser levadas adiante com possibilidades de êxito. Este tipo de aparatos são necessários e o ponto central para os marxistas é que surjam das massas em luta e estejam ao seu serviço. Vale mencionar o exemplo do Exército Vermelho, que defendeu a Revolução Russa frente à invasão de numerosos exércitos imperialistas aliados aos contrarrevolucionários russos, ou as milícias operárias da COB-Central Operária Boliviano, na revolução boliviana de 1952.
O carácter da população israelense
Depois de propor ao povo palestino que não faça ações militares, Achcar propõe como um dos objetivos de sua “ação política” alcançar “a emancipação da própria sociedade israelense da lógica do sionismo…”. Algo semelhante ao que algumas correntes trotskistas propõem: uma aliança entre o povo palestino e a classe operária israelense para acabar com o Estado sionista.
Estas propostas estão equivocadas porque são objetivamente impossíveis de alcançar dado o caráter de Israel e de sua população. O ponto de partida destas propostas equivocadas é não entender que Israel não é um país opressor/imperialista “normal”. Israel é um enclave imperialista. Foi criado pelas potências imperialistas com o roubo e usurpação do território palestino e a expulsão violenta dos palestinos de suas terras. O sionismo foi a ferramenta que o imperialismo usou para criar esse enclave.
Nesse território roubado dos palestinos foi sendo instalado artificialmente, e continua sendo, uma população estrangeira (principalmente judeus de origem europeia, depois também de outros países) que foram construindo sua vida da forma que descrevemos sobre a criação de Israel. As casas em que vivem os operários israelenses, as escolas onde estudam seus filhos, as fábricas e campos onde trabalham, foram construídos nas terras que foram roubadas do povo palestino e da qual foram expulsos. Toda a sociedade israelense (incluída a grande maioria de sua classe operária) é consciente disso e não está disposta a devolver essas terras.
Por isso, é um grave erro propor ganhar a “sociedade israelense” (ou sua classe operária) para uma aliança contra a “lógica sionista” a partir da caracterização de que só o governo de Netanyahu e sua política criminosa contra os palestinos expressam esta lógica. O ponto de partida da lógica sionista é que “está muito bem” que criamos Israel expulsando o povo palestino e que nós judeus vivamos em “nosso país”. Essa lógica considera que os palestinos devem aceitar isto (seja “por bem” ou “por mal”). Netanyahu impulsiona uma política pela força. O setor da sociedade israelense que critica esta opção e se mobiliza contra ela, propõe que essa aceitação seja “por bem” (através de negociações e acordos que levem aos “dois Estados”). Mas ambos partem da “lógica sionista” de defesa da existência do Estado de Israel[8].
É muito bom que existam essas contradições na sociedade israelense porque, como analisa Arlene Clemesha, “fragilizam Israel” e seu regime político. O povo palestino deve aproveitar esta fragilidade para golpear ainda mais duramente este inimigo “fragilizado”. Mas é um erro conceitual muito grave (do qual deriva uma política equivocada), acreditar que essas contradições possam avançar e chegar a dar um salto qualitativo em setores de massa da população judia de Israel (ou de sua classe operária) que os leve a romper com a “lógica sionista”.
Por isso, não pode ser aplicada a Israel a mesma política que as lutas dos povos oprimidos e colonizados devem promover em seu combate contra países opressores/imperialistas “normais”. Ou seja, propor à sua classe operária (e as massas em geral) uma aliança contra o “inimigo comum” (a burguesia imperialista ou opressora desse país). Esta última política é correta e possível de ser alcançada porque esse inimigo comum efetivamente existe. Assim ocorreu, por exemplo, na guerra de independência argelina, na qual a classe operária francesa acabou apoiando essa independência. Pelo contrário, era absolutamente insensato que o povo argelino propusesse uma aliança contra o imperialismo francês aos colonos pied noirs.
Dado que Israel é um enclave de população instalada artificialmente, a “unidade nacional” em defesa do enclave sempre predomina sobre as contradições internas de classe. Para a classe operária israelense, a burguesia israelense não é um “inimigo comum” que ela tem com o povo palestino, mas sua aliada na defesa da “pátria judia de Israel”.
Algumas considerações finais
Estamos plenamente conscientes de que a superioridade militar israelense sobre a resistência palestina é imensa. Considerando isoladamente, não haveria possibilidade de vitória militar para o povo palestino. Mas, longe de propor que o povo palestino abandone a luta militar, é necessário propor que mantenha a resistência e a intensifique para que seja uma “faísca” que acione a luta revolucionária e militar dos povos árabes contra Israel[9]. Na realidade, é uma “faísca” capaz de detonar processos mundiais. Porque se Israel chegar a estar frente ao perigo de ser derrotado militarmente e cair, é muito provável que o imperialismo estadunidense intervenha para defender seu “aliado estratégico”. Não obstante, a história mostrou, nas guerras do Vietnã, Iraque e Afeganistão, que o imperialismo estadunidense pode ser derrotado também no campo militar.
[1] Primeras notas urgentes sobre la contraofensiva de Hamas – Viento Sur
[2] ¡Solidaridad con el pueblo palestino – fin a la ocupación! | Revista Movimento (movimentorevista.com.br)
[3] N. Moreno (1982): Polémica sobre Medio Oriente. (marxists.org)
[4] Ver: Sobre los atentados de Hamas contra civiles israelíes – Liga Internacional de los Trabajadores (litci.org)
[5] Llegaron al país los primeros argentinos repatriados de Israel (elancasti.com.ar)
[6] Sobre este tema ver Movilizaciones en Israel contra la reforma judicial de Netanyahu – Liga Internacional de los Trabajadores (litci.org)
[7] ‘Israel nunca esteve tão pressionado e encurralado’, | Internacional (brasildefato.com.br) Em português no original (traduções nossas)
[8] Ver: Movilizaciones en Israel contra la reforma judicial de Netanyahu – Liga Internacional de los Trabajadores (litci.org)
[9] La “cuestión palestina”: punto central de la revolución árabe – Liga Internacional de los Trabajadores (litci.org)
Tradução: Lílian Enck