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Stalinismo e trotskismo frente aos processos do Leste Europeu

Quando as massas derrubaram os regimes stalinistas, a burguesia fez um balanço grosseiro e simplista: “as massas derrotaram o socialismo, e o capitalismo mostrou a sua supremacia”. O stalinismo, porém, não pôde sequer fazer isso.

Por Martín Hernández. Publicado originalmente na Revista Correio Internacional nº 17, maio de 2017.

É que a pancada que as massas do Leste Europeu lhe deram foi tão grande que suas intenções de justificar a derrota pareciam com as de um boxeador nocauteado que, na lona, com os olhos virados, explica ao juiz, entre murmúrios, que foi somente um tropeço.

A queda do aparato stalinista significou o fim da maior farsa da história do movimento operário mundial. Os stalinistas apareciam como representantes da Revolução de Outubro, como os grandes lutadores contra o fascismo, como aqueles que expropriaram a burguesia, como os que enfrentavam o imperialismo e como os que defendiam incondicionalmente os Estados operários (o “socialismo real”). Na realidade, contudo, nasceram combatendo a Revolução de Outubro, capitulando ao fascismo, lutando contra a expropriação da burguesia, apoiando o imperialismo e, finalmente, restaurando o capitalismo nos ex-Estados operários.

O “socialismo em um só país”: a teoria do stalinismo para justificar suas traições

Para os bolcheviques, a Revolução Russa era apenas uma alavanca para o desenvolvimento e o impulso da revolução mundial como única forma de chegar ao socialismo em seu próprio país.

Para Stalin (depois de remover a classe operária do poder) e para a burocracia que ele liderava, a revolução mundial era algo muito arriscado que poderia questionar seus privilégios. Por isso, elaborou a teoria antimarxista do socialismo em um só país.

Essa teoria defendia a ideia utópica de que um país atrasado (a URSS), em um mundo controlado pelo imperialismo, poderia superar as potências imperialistas e, por essa via, chegar ao socialismo sem precisar de uma revolução internacional. Essa teoria utópica foi concretizada em uma política reacionária: a coexistência pacífica com o imperialismo.

Essa foi uma das justificativas para assassinar a maioria dos dirigentes da Revolução Russa, os quais, segundo Stalin, por estarem contra essa teoria, estariam contra a vitória do socialismo na URSS.

O stalinismo e sua suposta luta contra o fascismo

No começo da década de 1930, Stalin, em função de sua disputa com o aparato da socialdemocracia, negou-se a chamar a unidade da classe operária alemã para impedir, nas ruas, a vitória de Hitler. Por outro lado, impôs um regime similar ou pior que o fascismo na URSS e, finalmente, no ano de 1939, fez um pacto de não agressão e de divisão de áreas de influência com Hitler, que levou à invasão da Polônia por ambos os exércitos, pelas tropas de Hitler e de Stalin.

Esse pacto só acabou em 1941, quando Hitler o rompeu e invadiu a URSS, obrigando-a a entrar na Segunda Guerra Mundial, da qual saiu vitoriosa por causa do heroísmo das massas.

O stalinismo e sua suposta “luta” contra o imperialismo

Sempre armado pela teoria do socialismo num só país e pela coexistência pacífica com o imperialismo, Stalin assinou o pacto de Yalta e Potsdam com os chefes do imperialismo norte-americano e inglês ao final da Segunda Guerra Mundial. O objetivo desse pacto foi enfrentar o grande ascenso mundial que, depois da Segunda Guerra Mundial, colocou na ordem do dia a liquidação do imperialismo. O novo pacto consistiu na divisão do mundo em áreas de influência para, assim, controlar o ascenso revolucionário das massas.

Se, por um lado, esse pacto contrarrevolucionário não conseguiu impedir o grande ascenso do pós-guerra (não impediu, por exemplo, o triunfo das revoluções na Iugoslávia, na China e em Cuba), foi determinante para impedir a liquidação do imperialismo e a vitória do socialismo em escala mundial. Foi por causa desse pacto que na França, na Itália e na Grécia, o stalinismo entregou a revolução ao imperialismo e, dessa forma, a Europa central, semidestruída pela guerra, foi reconstruída sobre bases capitalistas.

Por outro lado, esse pacto impediu (à exceção da Iugoslávia) o triunfo da revolução no Leste Europeu. O Exército Vermelho, em acordo com o imperialismo, ocupou a maioria desses países com a intenção de construir governos com as burguesias, em sua maioria ex-colaboradoras do nazismo. Ao não conseguir, o Exército Vermelho viu-se obrigado a expropriá-las, dando origem a novos estados operários burocratizados.

Esse pacto contrarrevolucionário manteve-se até a queda da burocracia stalinista e teve uma importância decisiva, até seus últimos dias, para impedir a expropriação da burguesia em muitos países. Isso não aconteceu só no imediato pós-guerra. O mesmo aconteceu na França, durante o maio francês (1968), na Nicarágua, em El Salvador, nas ex-colônias portuguesas no continente africano e em vários outros países.

Como o stalinismo “defendia” os Estados operários

As economias dos Estados operários burocráticos, contraditórias com o capitalismo, continuaram sendo parte da economia mundial, controlada pelo imperialismo. Ao não estender a revolução às grandes potências capitalistas, as economias desses estados, que nos primeiros anos, como produto da expropriação da burguesia, tiveram um importante desenvolvimento, a posteriori, como produto do cerco imperialista e da condução burocrática, ficaram estancadas e em crise crescente.

Em meados dos anos 1950, nos estados do Leste Europeu, suas economias seguiram crescendo, porém em ritmo menor.

A utópica e reacionária ideia stalinista de construir o socialismo em um só país começava a cobrar seu preço. A saída para superar essa realidade não era econômica, mas política. Tratava-se de democratizar a condução da economia planificada de tal forma que se aproveitasse todo o potencial humano a serviço do desenvolvimento econômico e, fundamentalmente, de expandir a revolução social em direção às grandes potências capitalistas. Contudo, essas opções – democracia operária e revolução internacional – eram as únicas que as burocracias governantes não estavam dispostas a assumir.

Para defender seus interesses, a única opção para elas era estreitar as relações econômicas com as grandes potências. Primeiro, foi por meio de um grande desenvolvimento do comércio entre o Leste e o Ocidente, que aprofundou a crise nos estados operários como consequência do comércio desigual. A resposta da burocracia stalinista foi estreitar ainda mais suas relações com o imperialismo, agora por meio de empréstimos baratos.

Khrushchev e Kennedy se cumprimentando, 1961.

Assim, esses estados operários passaram a depender do imperialismo pelo mecanismo da dívida externa. No começo dos anos 1980, as economias estavam devastadas, e a burocracia da URSS ameaçada por uma possível explosão social.

Foi essa análise, da crise sem saída da economia, que levou a burocracia stalinista a pensar na necessidade da restauração. O projeto restauracionista surgiu na URSS da mesma forma que surgiu na Iugoslávia e na China: do coração da burocracia. O mesmo aconteceria, a posteriori, em Cuba e no Vietnã.

Cuba, China, Vietnã: como explicar o inexplicável

As correntes stalinistas responsabilizaram a ação das massas pela restauração do capitalismo no Leste. Porém, é mais difícil para eles explicar o que aconteceu na China, no Vietnã e em Cuba, onde o capitalismo foi restaurado sem que houvessem mobilizações contra os regimes ditos comunistas.

Frente a essa realidade, quebrando todos os recordes de mentiras, disseram que nesses países o capitalismo não havia sido restaurado.

O PC Chinês restaurou o capitalismo na China e se manteve no poder esmagando a oposição das massas, como no caso dos protestos da Praça Tiananmen, 1989

E como justificavam que nesses países já não existia uma economia planificada, mas sim uma economia de mercado? Dizendo que estavam fazendo o mesmo que foi feito na URSS, com a Nova Política Econômica (NEP). Dessa forma, a política dos bolcheviques, de fazer concessões ao capitalismo – preservando uma parte importante das empresas nacionalizadas, a economia centralmente planificada e o monopólio do comércio exterior – para fortalecer o Estado operário semidestruído pela guerra civil era igualada à política da burocracia de desmontar o Estado operário para restaurar o capitalismo.

Por mais que os stalinistas e filo-stalinistas neguem, o capitalismo foi restaurado pela burocracia em todos os ex-Estados operários. Isso merece uma reflexão: centenas de milhares de revolucionários foram perseguidos, caluniados, torturados e assassinados em nome do socialismo pelo stalinismo. Por quê? Pelo motivo que Trotsky previu. Para restaurar o capitalismo. Isso é o stalinismo. Esse é seu verdadeiro balanço que, logicamente, eles não podem fazer.

Leia tambén | O prognóstico de Trotsky sobre a restauração capitalista na URSS

Um balanço que só o trotskismo tem condições de fazer

Só o trotskismo tem condições de tirar todas as conclusões do que aconteceu no Leste Europeu sem a necessidade de falsificar a realidade e sem entrar em contradição com suas bases programáticas.

O trotskismo surgiu assinalando que o socialismo só poderia ocorrer em nível internacional e que as políticas da burocracia soviética do socialismo em um só país e de coexistência pacífica com o imperialismo eram o caminho para a restauração do capitalismo.

  • Que os privilégios da burocracia eram tais que seu nível de vida se parecia com o da burguesia: “… os estratos superiores da sociedade soviética vivem como a alta burguesia dos Estados Unidos e da Europa” [1].
  • Que, para defender e ampliar seus privilégios, a burocracia precisava restaurar o capitalismo: “A evolução das relações sociais não acaba. É evidente que não se pode pensar que a burocracia abdicará em favor da igualdade socialista. (…) no futuro, será inevitável que busque apoio nas relações de propriedade (…) Não basta ser diretor de um truste, precisa ser acionista” [2].
  • Que a burocracia, em defesa de seus interesses, impôs um regime similar ou pior ao do fascismo nos países capitalistas: “Como nos países fascistas, dos quais o aparato político de Stalin não difere, salvo por sua selvageria mais desenfreada…”[ 3].
  • Que a única forma de retomar o caminho em direção ao socialismo passava pela expulsão do poder da camarilha burocrática governante, por meio de uma revolução política que devolvesse o poder à classe operária e à direção revolucionária.
  • Que a restauração do capitalismo provocaria uma queda catastrófica na economia e na cultura da URSS. Por isso, a batalha pela revolução política incluía a defesa das empresas estatizadas, o monopólio do comercio exterior e a economia centralmente planificada.
  • Que a classe operária, excepcionalmente, poderia chegar a ter uma política de frente única com a burocracia para defender os pilares econômicos do Estado operário: “(…) embora não seja admissível negar antecipadamente a possibilidade, em casos perfeitamente delimitados, de uma frente única com o setor termidoriano da burocracia contra um ataque aberto da contrarrevolução capitalista, a tarefa política principal na URSS continua sendo a derrubada dessa mesma burocracia termidoriana” [4].
  • Que, se a classe operária não derrotasse a burocracia, a burocracia restauraria o capitalismo: “O prognóstico político tem um caráter alternativo. Ou a burocracia, convertendo-se cada vez mais no órgão da burguesia mundial no Estado operário, derrubará as novas formas de propriedade e voltará a afundar o país no capitalismo, ou a classe operária esmagará a burocracia e abrirá o caminho para o socialismo” [5].

A análise, o prognóstico e a política do trotskismo foram confirmados pelo que ocorreu nos ex-Estados operários. Tal como Trotsky previu, explodiram revoluções políticas em vários países, mas elas foram derrotadas. A burocracia manteve-se no poder e restaurou o capitalismo.

Finalmente, confirmando novamente o programa trotskista, a restauração do capitalismo significou um importante retrocesso da economia e da cultura nos ex-Estados operários. Não da magnitude que se previa na década de 1930 (catastrófica), porque as economias desses países já tinham sido devastadas pelo imperialismo e pela burocracia, mas o que ficou explícito foi que essas economias, ao invés de avançar com a restauração, continuaram retrocedendo, particularmente no que se refere à economia popular.

Os processos do Leste, ao confirmar categoricamente o programa trotskista, pela negativa e pela positiva, significaram o maior triunfo programático e político da história do trotskismo.

Pela negativa, porque a derrota imposta pelas mãos da burocracia, com a restauração do capitalismo não só confirmou o prognóstico trotskista, mas também mostrou que éramos a única corrente, em todo o mundo, que tinha uma política para evitá-la: a revolução política combinada com a revolução mundial.

Pela positiva, porque a destruição do aparto stalinista pelo movimento de massas, um triunfo colossal da revolução mundial, é, antes de tudo, um triunfo do trotskismo, a única corrente que compreendeu o verdadeiro caráter contrarrevolucionário do stalinismo e teve uma política consequente para derrotá-lo.

Sobre a crise da direção revolucionária do proletariado

Em 1938, Trotsky afirmou que a crise da humanidade se resume à crise da direção revolucionário do proletariado, no Programa de Transição [1938].

Partindo dessa ideia, Nahuel Moreno acrescentou que, a partir da Primeira Guerra Mundial… “(…) invertem-se as relações causais, transformando o mais subjetivo dos fatores – a direção revolucionária – na causa fundamental de todos os outros fenômenos, incluindo os econômicos” [ 6].

A pergunta central que devemos fazer é: os processos do Leste aprofundaram a crise de direção revolucionária ou, pelo contrário, deram passos no sentido de sua superação? É em torno à resposta a essa pergunta que podemos determinar se hoje existem maiores ou menores possibilidades para construir nossos partidos.

A crise de direção revolucionária, que Trotsky identificou com tanta clareza em 1938, deu um novo e grande salto no final da Segunda Guerra Mundial: “Desgraçadamente, esse grande ascenso revolucionário se dá junto com o agravamento da crise de direção revolucionária, ou seja, o fortalecimento dos aparatos contrarrevolucionários” [7].

Na verdade, o agravamento da crise de direção revolucionária a partir do fim da guerra é duplo, pois, por um lado, o stalinismo se fortalece qualitativamente, e, por outro, o trotskismo debilita-se também qualitativamente em função do assassinato de Trotsky em 1940.

Por isso, a crise de direção revolucionária, aberta no final da Segunda Guerra Mundial e vigente até a queda do aparato stalinista foi, sem dúvida, a maior da história.

Esse agravamento extremo possibilitou que uma grande vitória, como a derrota do nazismo (a maior da história, segundo Nahuel Moreno), originasse uma grande derrota: a conformação de um pacto contrarrevolucionário, o de Yalta e Potsdam entre a principal direção internacional do movimento operário e o imperialismo.

Então, atualizando a elaboração de Moreno, quando o aparato stalinista cai pela ação revolucionária das massas, a crise de direção revolucionária não se fortalece, mas dá um passo, muito importante, no sentido de sua superação.

Em nossas elaborações anteriores, não nos referimos com clareza a esta questão central, a mais importante para o balanço dos processos do Leste.

Na atualidade, existem muitos camaradas que sustentam a tese de que os processos do Leste aprofundaram a crise [de direção] revolucionária. Isso, evidentemente, tem a ver, em última instância, com uma incompreensão sobre o papel contrarrevolucionário que o stalinismo teve.

Ao afirmar que os processos do Leste deram um passo importante em direção à superação da crise de direção revolucionária não estamos afirmando que tal crise já foi superada ou que estamos próximos de superá-la. Estamos dizendo, simplesmente, que demos um passo adiante e não um passo (ou muitos passos) atrás, como dizem muitos camaradas.

Notas:

[1] TROTSKY, Leon. “En vísperas de la Segunda Guerra Mundial”, 23 de julio de 1939, Escritos, Editorial Pluma.

[2] TROTSKY, Leon. La revolución traicionada.

[3] TROTSKY, Leon. “El Programa de Transición”.

[4] TROTSKY, Leon. “El Programa de Transición”, Bolívia: Ediciones Crux, p. 72.

[5] Ibid, p. 70.

[6] MORENO, Nahuel. Actualización del Programa de Transición, Tese II.

[7] MORENO, Nahuel. Actualización del Programa de Transición, Tese VII.

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