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quinta-feira, maio 23, 2024

Gorbachev: a figura chave na restauração capitalista na ex-URSS

Mikhail Sergeevich Gorbachev, que foi presidente da antiga União Soviética no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, morreu ontem em Moscou aos 91 anos. A mídia ocidental presta homenagem a ele como “um dos homens mais importantes da história mundial no final do século 20. Na Rússia e no âmbito da ex-URSS, sua memória não é tão agradável.

Por: Alejandro Iturbe

Gorbachev nasceu dentro da Rússia. Ele entrou na Komsomol (juventude comunista) muito jovem, no quadro da dominação absoluta do país pelo aparato burocrático stalinista. Desenvolveu uma extensa e bem sucedida carreira no Partido Comunista (PCUS), que culminou em sua eleição como secretário-geral em 1985. Pouco depois, ele também seria eleito presidente da URSS.

A perspectiva histórica nos permite compreender que a ascensão de Gorbachev aos mais altos níveis de poder representou um projeto muito preciso: restaurar o capitalismo na ex-URSS. Ou seja, transformar uma economia centralizada e planificada a partir do Estado no que se chama eufemisticamente de “economia de mercado” (a serviço dos lucros do capitalismo). Este projeto recebeu o nome de Perestroika.

Gorbachev, Reagan e Bush, em Nova York, 1988

Assim, uma das alternativas propostas pelo revolucionário russo Leon Trotsky em seu livro A Revolução Traída na década de 1930 foi cumprida: ou a classe operária tira do poder a burocracia stalinista e retoma o caminho da construção do socialismo, ou essa burocracia acabaria restaurando o capitalismo.

O projeto de Gorbachev era seguir o modelo que vinha sendo aplicado na China desde 1979, sob a liderança de Deng Xiaoping: restaurar o capitalismo associando-se ao imperialismo, mas mantendo o controle do aparelho de Estado pelo Partido Comunista. No entanto, enquanto na China o modelo foi totalmente bem-sucedido, na ex-URSS tornou-se muito complicado.

Por um lado, surgiu uma disputa entre diferentes frações da burocracia tanto pelo andamento do processo de restauração quanto pelo usufruto de seus benefícios. Por outro lado, as massas da URSS saíram para enfrentar as consequências socioeconômicas das medidas restauracionistas e a perda de conquistas que essas medidas implicavam, e também para exigir maiores liberdades democráticas após décadas de stalinismo.

O resultado foi que o regime stalinista-restauracionista do PCUS entrou em colapso e em 1991 a URSS foi dissolvida. O processo já tinha tido expressões em outros países do chamado Bloco Oriental: por exemplo, a queda do Muro de Berlim em 1989 e a posterior reunificação da Alemanha sob o domínio imperialista.

A contenda entre as facções que disputavam o saque da restauração acentuou-se e tornou-se mais violenta. Uma situação que acabou com a predominância da facção de Vladimir Putin, após a guerra contrarrevolucionária na Chechênia. Nesse sentido, podemos dizer que Putin e seu regime ditatorial, a serviço de um grupo de oligarcas burgueses, é um dos herdeiros de Gorbachev.

Gorbachev e Putin

Nos referimos à perda de conquistas que a restauração capitalista significou para os trabalhadores e as massas em áreas como saúde pública e educação ou o direito ao trabalho. Em termos macroeconômicos, entre 1985 e 1991 o PIB caiu 11% e o valor do rublo em relação ao dólar caiu cem vezes. Para os trabalhadores e para as massas, esses números tinham um significado muito duro: queda abrupta da expectativa de vida, diminuição da população, aumento exponencial das mazelas sociais como o alcoolismo e a prostituição…

Enquanto isso, o imperialismo prestava homenagem a Gorbachev pelos “serviços prestados”: em 1990, concedeu-lhe o Prêmio Nobel da Paz; em 1995, Portugal condecorou-o com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade… Após a sua tentativa frustrada de regressar à política russa (em 1996 a sua candidatura presidencial recebeu apenas 1% dos votos), criou uma fundação com o seu nome e dedicou-se a dar palestras ao redor do mundo, recebendo dezenas de milhares de dólares por cada uma delas.

A figura de Gorbachev desapareceu e saiu das primeiras páginas da mídia. Só foi lembrado nos aniversários de eventos históricos como a queda do Muro de Berlim ou a dissolução da URSS. Hoje, a mídia imperialista presta homenagem a ele e derramam uma lágrima em seu nome. Repudiamos seu nefasto papel na história como representante de uma burocracia que acabou liquidando a experiência mais importante que, até agora, a história da humanidade produziu em sua tentativa de avançar para o socialismo. Não derramamos uma única lágrima por sua morte. Pelo contrário, como disse um poeta: “Estes não são os mortos que lamentamos”.

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