ter nov 29, 2022
terça-feira, novembro 29, 2022

China: Um regime capitalista, o “socialismo de nossos dias” ou um regime social “intermediário”?

A condução da pandemia pelo capitalismo provocou uma catástrofe sanitária, social e humana para a maioria da população mundial. Nessa catástrofe, paralela aos milhões de mortos, se eleva a lista de bilionários. Todo o organismo econômico mundial capitalista reagiu de acordo com a norma suprema do capital, a lei da acumulação. Cabe destacar, no entanto, a enorme velocidade da centralização do capital alimentada pela pandemia.

Por Ricardo Ayala e Felipe Alegría

Em março de 2021, a imprensa informava que “os super-ricos do mundo aumentaram sua fortuna em 412 bilhões de dólares – 8 bilhões por semana – atingindo um recorde total de 3,228 bilhões em suas fortunas. Elon Musk da Tesla agrega um recorde de $ 151 bilhões, para se tornar o homem mais rico do mundo, com $197.000.”[1]

Estamos, na verdade, diante de uma mostra brutal do desenvolvimento da “lei geral da acumulação capitalista” que Marx descreveu em O Capital:

Essa lei determina uma acumulação de miséria equivalente à acumulação de capital. Por isso, o que em um polo é acumulação de riqueza é no outro polo o contrário, isto é, na classe que cria seu próprio produto como capital, acumulação de miséria, martírios de trabalho, escravidão, despotismo, ignorância e degradação moral. [Refletindo como nunca] “o caráter antagônico da produção capitalista”.[2]  

Um dos termos da questão levantada no título, se a China é capitalista, poderia ser contestada basicamente compilando informações sobre o desenvolvimento das relações sociais chinesas durante a pandemia e, em que medida mantiveram as mesmas tendências do capitalismo imperialista.

Não obstante, contra todas as evidências que iremos detalhar mais adiante, o Partido Comunista Chinês (PCCh) e seus colaboradores internacionais afirmam que o que temos diante de nós é um “socialismo com características chinesas”, uma definição funcional para justificar e embelezar a restauração capitalista iniciada por Deng Xiaoping no final dos anos 1970 e a posição central do PCCh, o partido-estado da burocracia Mao-Stalinista, no coração do capitalismo chinês.

  1. Jabbour (PCdoB), o socialismo e a semiescravidão trabalhista

O Partido Comunista do Brasil (PCdoB), porta-voz de Xi Jinping e apologista do PCCh, e seu especialista sobre China, Elias Jabbour, vêm hasteando a bandeira do socialismo com características chinesas. Inclusive Jabbour coloca um bizarro toque pessoal acadêmico qualificando-a como “Nova Economia do Projetamento”[3] . Essa nova economia se tornaria, no “socialismo real” de nossos dias, um novo tipo de formação socioeconômica baseada em uma tecnocracia de estado totalitária.

Para nosso autor, aqueles que, como nós, se atrevem a afirmar o caráter capitalista das relações sociais chinesas, encontram-se presos (desculpem o tom bombástico da citação) a “uma hegemonia positivista, que não ultrapassa os limites da noção de separação em partes; pura abstração sem racionalidade dialética, aprisionada na representação abstrata.”[4]

Vejamos então qual é a “racionalidade dialética” da acumulação de miséria equivalente à acumulação de capital da qual falava Marx e que se dá na China.

Os bilionários chineses

Em outubro de 2020 os super-ricos da China possuíam uma fortuna estimada em 4 trilhões de dólares, mais que o PIB da Alemanha, a quarta maior economia do mundo. Na citada edição, a família de Jack Ma lidera a lista macabra cuja fortuna é do tamanho da economia da Rússia. Da mesma maneira que se multiplica a fortuna dos bilionários norte-americanos e de outros países imperialistas, “a riqueza da família de Ma cresce em 45% à medida que o boom do mercado de ações e os mega anúncios tecnológicos elevam a fortuna dos bilionários da China em 1,5 trilhões de dólares.” [5]

A pandemia valorizou as ações das farmacêuticas norte-americanas, alemãs e inglesas pelo simples motivo de manterem suas patentes em uma fortaleza sitiada, enquanto países como a África do Sul têm apenas 7% de sua população vacinada, no final de novembro. Pois bem, o novo rosto no cume do TOP 10 das fortunas chinesas é Zhong Shanshan, principal acionista da farmacêutica chinesa no negócio das vacinas, que com seus $85 bilhões é hoje o homem mais rico da Ásia.

Outras informações adicionais também nos ajudam a sair das “abstrações” de Jabbour[6]:

  • Pequim é a capital do “bilhão”, pelo sexto ano, com 145 bilionários. A China tem agora seis das 10 cidades com maior concentração de bilionários.
  • A pandemia do Covid19 disparou os lucros dos novos ramos: farmacêuticas, comércio eletrônico ou veículos elétricos (EIV). O Star Market, a bolsa de tecnologia chinesa equivalente à Nasdaq, “gerou” 13 novos bilionários. Entre eles, o fundador e maior acionista da Tiktok, Zhoang Yiming, que agrega $40 milhões a sua fortuna e entra no TOP 30 com $60 bilhões. Também Huang Zheng, fundador da plataforma de comércio eletrônico Pinduoduo, que totaliza $51 bilhões e entra no TOP 20 com $ 69 bilhões.[7]

Esta quantidade de bilionários da “nova economia do projetamento” também abre caminho para seus amigos ocidentais. Assim, os grandes fundos de investimento imperialistas como Blackrock, Vanguard ou State Street detêm em conjunto participações em torno de 10% das ações das grandes corporações privadas e também em muitas estatais chinesas. Por sua vez, magnatas como Bernard Arnault, dono da multinacional francesa LVMH (Moët Hennessy Louis Vuitton), que controla grandes marcas de luxo, em maio de 2021 se tornou a segunda pessoa mais rica do mundo, atrás de Jeff Bezos, graças a seus amigos chineses:

As receitas na Europa ainda estavam em números vermelhos… Mas a demanda dos consumidores chineses se reativou, e as vendas de LVMH na Ásia, excluído o Japão, aumentaram 86% no primeiro trimestre em comparação com o ano anterior. De modo geral, a receita da LVMH aumentou 32% em relação ao mesmo período em 2020 e 8% a mais do que em 2019.[8]   

A concentração de riqueza e propriedade no capitalismo chinês nada tem que ver com a proclamação oficial da “prosperidade comum” de Xi Jinping. Segundo Thomas Piketty (Capital and Ideology, 2019), a proporção de riqueza em mãos dos 10% mais rico da população estava entre 40% e 50% no início da década de 1990, vinte anos após a restauração capitalista. Em 2018 essa percentagem tinha crescido para quase 70%.[9]

O lado que “acumula miséria, martírios de trabalho, escravidão e degradação moral”

A acumulação de riqueza não existe sem seu oposto, uma vez que o capital se acumula empobrecendo os trabalhadores. A propaganda sobre o aumento médio dos salários na China esconde o verdadeiro inferno a que estão submetidos os trabalhadores:

  • Em 3 de janeiro de 2021, um funcionário de 22 anos do portal chinês Pinduoduo morreu devido ao excesso de trabalho por horas extras, o que enfureceu ao público ao deixar em evidência o sistema conhecido como “9-9-6” [trabalhar desde as 9h às 21h, seis dias por semana]. Em 9 de janeiro de 2021, outro trabalhador da mesma empresa, de apelido Tan, se suicidou em Changsha[10].

É o mesmo caminho que os trabalhadores/as da Foxconn percorreram em 2010, quando houve uma série de suicídios causados por jornadas de trabalho insuportáveis. A maioria eram de trabalhadores migrantes do campo, proibidos pela ditadura do PCCh de se organizarem para lutar por melhores condições de trabalho. Até 2003, esses trabalhadores eram proibidos inclusive de afiliar-se aos sindicatos oficiais, que são organizações completamente ligadas aos patrões e à burocracia do PCCh.

Tudo isso nos remete ao grande “segredo” do impetuoso desenvolvimento do capitalismo chinês após a restauração: a brutal superexploração dos trabalhadores/as, especialmente dos trabalhadores rurais migrantes:

  • A força de trabalho chinesa é formada por mais de 800 milhões de pessoas, das quais, – segundo declarou no ano passado o primeiro-ministro Li Keqiang – existem 600 milhões que vivem com uma renda mensal de 1.000 yuans [$156,83[11]] ou menos. Ou seja, mais de 40% dos 1,4 bilhões de habitantes do país vivem com menos de 5 dólares por dia.
  • O vice-diretor do oficialista Instituto Nacional de Pesquisas Econômicas, Wang Xiaolu afirma que “a metade dos 400 milhões de trabalhadores urbanos da China são trabalhadores migrantes. A maioria deles está excluída do sistema urbano de previdência social. Eles não recebem serviços públicos. Menos de 30% deles estão cobertos pelo programa público de aposentadorias”.[12]
  • Ou seja, esses 200 milhões de trabalhadores rurais migrantes – o que equivale a toda a população brasileira – sofrem condições desumanas: não recebem serviços públicos; 70% estão excluídos do sistema urbano de previdência social. Assim que um trabalhador deixa sua aldeia, ele é vinculado ao sistema hukou, um registro baseado no local de nascimento dos pais. Isso significa que, sem a residência urbana oficial, eles não têm acesso aos serviços públicos, desde aposentadoria até a educação.
  • Segundo dados oficiais, para se aposentarem devem continuar a contribuir para o sistema de previdência rural no povoado onde estão registrados. Se pagarem uma contribuição anual de pelo menos 100 yuans, podem receber uma pensão mensal mínima de 55 yuans (US $ 8,63) quando completarem 60 anos. Em comparação, os aposentados urbanos receberam uma média de 2.362 yuans (US $370,43) em pensões mensais em todo o país em 2016.

As relações sociais chinesas não são determinadas pelo papel dos monopólios estatais remanescestes, mas pela exploração da classe operária e a acumulação do capital, tanto nas empresas controladas pelo estado como nas empresas privadas.

Algumas conclusões

Agora, antes de continuar com as especificidades do capitalismo na China e ver como o capital estatal e o privado formam uma totalidade indissociável, consideremos algumas conclusões políticas das teses de Jabbour e de outros admiradores do capitalismo chinês.

Jabbour se esquece de mencionar a intensidade da exploração dos trabalhadores chineses e que tal superexploração só é concebível sob um regime ditatorial de partido único, como na China. Para ele, assim como para os castro-chavistas e o grosso dos partidos comunistas e de seus sucessores, o velho “marxismo soviético” que outrora defendiam durou até o colapso do aparelho stalinista na ex-URSS e no Leste europeu. Depois da queda, eles tiveram que procurar “novos modelos”, sendo seu novo modelo o “socialismo de mercado com características chinesas” a lá Xi Jinping, um modelo tão legítimo quanto a ditadura estalinista soviética era antes. Para todos eles, não só o projeto de socialismo de Marx e Lênin foi superado pela história, mas também sua parteira, a revolução socialista.

Para Jabbour e seus congêneres, o capitalismo chinês é uma potência benfeitora da humanidade com o qual é necessário tecer uma “aliança anti-imperialista” contra os EUA. Uma aliança onde tenham lugar desde a ditadura de Putin até o governo talibã, o regime militar paquistanês, a junta golpista de Mianmar, a ditadura cubana e a de Ortega na Nicarágua e o regime de Maduro. Uma aliança na qual reservam vagas para os governos progressistas da América Latina.

A confiança cega de Jabbour no capitalismo chinês faz dele e de seus investimentos o grande aliado natural do desenvolvimento (capitalista) brasileiro, como se o capitalismo chinês não se regesse pelos seus próprios interesses. Na verdade, a alternativa do PCdoB para o desenvolvimento do Brasil apenas se encaixa no contexto da nova localização do país na divisão mundial do trabalho, agora com sua desindustrialização relativa e sua subordinação à importação de mercadorias industrializadas da China em troca da exportação dos recursos naturais. Parece que Jabbour não levou muito em conta, para elaborar suas propostas, a política predatória e de superexploração do trabalho do benfeitor capitalismo chinês na Ásia e na África.

  1. Um regime “híbrido” entre socialismo e capitalismo?

Para além da corrente castro-chavista e dos PCs sobreviventes, há intelectuais de esquerda que, com formas mais apuradas, coincidem com Jabbour em alguns aspectos fundamentais. Para esses intelectuais, o regime chinês, se não é o socialismo de nosso tempo, é bem parecido. Um expoente deste setor da intelectualidade é o argentino Claudio Katz.

Claudio Katz nega categoricamente que na China tenha ocorrido a restauração capitalista, embora reconheça que foram introduzidos importantes elementos do capitalismo. Esta introdução seria, no entanto, “parcial e reversível”. Ao contrário de Jabbour, Katz considera excessivo que se possa falar de socialismo na China e defende que estamos diante de um regime “híbrido” entre socialismo e capitalismo, um regime que ainda não optou por uma direção ou outra.

Porém, para Katz este regime “intermediário” pode durar “décadas”, de modo que não estaríamos diante de um impasse histórico provisório, mas de uma nova formação social que, como ele diz, “envolve o projeto geral do socialismo”. Para que nos entendamos, estaríamos diante de um regime social historicamente necessário na transição do capitalismo para o socialismo. Claro que, visto assim, as diferenças entre Jabbour e Katz ficam realmente diluídas.

Katz é forçado a reconhecer que “a pequena e média propriedade privada na agricultura deu lugar às grandes empresas industriais pertencentes à nova burguesia. A fixação de preços pelas normas competitivas foi estendida para a maior parte dos valores, as modalidades de exploração foram ampliadas e a acumulação de lucros enriqueceu a uma minoria influente. Além disso, os velhos gargalos gerados pela subprodução foram substituídos por tensões de superinvestimento. (…) Dessa cesta de elementos, o mais significativo é o surgimento de uma classe proprietária dos meios de produção que busca transmitir privilégios a seus herdeiros.”

Mas isso, segundo Katz, não define a vigência do capitalismo na China. Chega inclusive a afirmar que “a resposta provavelmente seria afirmativa em outras circunstâncias históricas”. Mas como a China entrou no capitalismo em um cenário global de “neoliberalismo e financeirização” sem adotar essas duas características, isso tornou a restauração do capitalismo “muito incompleta desde o início”. Ou seja, se o capitalismo chinês não reproduz as características do capitalismo norte-americano, europeu, japonês ou, digamos, brasileiro, não se pode falar de capitalismo.

Mas o imperialismo desenvolveu ao extremo a socialização do trabalho em escala mundial, incorporando os países às cadeias de produção de seus oligopólios. No entanto, isso não implica de forma alguma que todas as formações capitalistas sejam homogêneas entre si. Pelo contrário, assumem expressões bastante diferentes, dependendo das circunstâncias históricas e de seu lugar na cadeia imperialista. Por outro lado, o que estamos discutindo aqui são as relações sociais básicas que regem o país. E não há como contornar, para onde quer que olhemos que estamos perante um regime de exploração (“com características chinesas”) a serviço da acumulação capitalista.

Mas, na verdade, o principal motivo que faz Claudio Katz duvidar sobre a natureza social do regime chinês, é o papel desempenhado pela burocracia Mao-Stalinista. O PCCh é, para Katz, o grande pilar da parte socialista do híbrido chinês, o que impede a restauração do capitalismo. Insiste nisso indefinidamente. Vale a seguinte citação: “O velho sistema político estruturado em torno do Partido Comunista persistiu e afiançou seu domínio na gestão econômica. Os contrastes com o que aconteceu no Leste Europeu são tão categóricos, que o autor da comparação [isto é, ele mesmo] questiona seriamente a vigência atual do capitalismo na China”. Em outras palavras, enquanto o controle do poder estatal permanecer em mãos do PCCh, não haverá capitalismo na China. Diante disso, para Katz os enormes sofrimentos e custos sociais, políticos e ambientais provocados pela restauração capitalista passam a ser secundários.

De fato, é surpreendente defender que a China não é capitalista porque o PCCh domina o Estado, justamente quando o protagonista da restauração não é outro senão o PCCh, o partido único da burocracia Mao-Stalinista. Tão surpreendente quanto negar a natureza capitalista do regime chinês porque este “não adotou o neoliberalismo e a financeirização” à maneira ocidental. O fato é que, dado o enorme atraso na arrancada da China, sua abertura sem barreiras ao capital financeiro ocidental significaria singelamente o suicídio da burocracia Mao-Stalinista e a conversão do país em uma mera semicolônia norte-americana.

Fazendo um truque de mágico, Katz trata à burocracia e à burguesia chinesas como entidades estranhas entre si, “paralelas” uma à outra. Assim, escreve: “Em vez de sepultar a estrutura política do Partido Comunista, decidiram consolidá-la e em vez de fundir a nova classe capitalista com o poder político, eles apenas aceitaram sua existência como uma força paralela a sua própria direção”. Katz esquece que o PCCh não é apenas quem promoveu e dirigiu a restauração do capitalismo desde o topo do Estado, mas também é seu principal beneficiário e peça fundamental. O capital estatal e o capital privado, como depois veremos, formam um conglomerado inseparável na configuração do capitalismo chinês.

A nós, que defendemos que o capitalismo foi restaurado na China, Katz acusa de não esclarecer “quando o sepultamento aconteceu. A caracterização dessa virada é chave para definir o significado atribuído ao conceito de capitalismo ou socialismo”. Em sua obra “A revolução Traída” (1936), Trotsky escreveu que no caso de, nem o partido revolucionário nem o contrarrevolucionário tomassem o poder na URSS, não se poderia pensar que a burocracia stalinista abdicasse em favor da igualdade socialista e que “no futuro, será inevitável que busque apoio nas relações de propriedade”. Foi o que aconteceu com a Reforma e Abertura de Deng, em 1978 (bem como com a Perestroika de Gorbachev, em 1986)[13].  Ambos eram planos conscientes para a restauração do capitalismo mediante a utilização dos recursos do Estado. O Estado, a partir daquele momento, como instrumento da restauração em curso, passou a ter uma natureza capitalista. Como assinalou Trotsky na obra citada: “o caráter de classe de um Estado é dado pelas formas de propriedade e as relações de produção que protege e defende”.

O desenvolvimento desigual e combinado na restauração

Entre aqueles que negam a natureza capitalista da China, está também Michael Roberts, o economista marxista britânico. Roberts defende sua tese de uma maneira mais sofisticada que Katz e tem uma abordagem mais crítica em relação à burocracia chinesa.

O problema de Roberts é que, tomando elementos da realidade (o papel do estado e do PCCh na economia ou as transferências de valor da China para as grandes corporações multinacionais e países imperialistas), ele os separa do processo de conjunto, os transforma em uma totalidade e os congela em uma foto estática, desconsiderando completamente a origem histórica da restauração e seu próprio movimento.

Roberts não considera a lógica interna da burocracia Mao-Stalinista, seu curso histórico e seu projeto restauracionista, que se torna consciente e explícito com a “Reforma e Abertura” de Deng Xiaoping em 1978: um projeto sustentado na integração da economia chinesa na Globalização imperialista, após a reconciliação com o imperialismo norte-americano em 1972.[14]

A burocracia estalinista chinesa empreendeu a restauração capitalista através dos recursos do estado totalitário; apoiando-se nas possibilidades oferecidas pela integração nas cadeias de valor dos novos ramos vinculados às tecnologias da informação e comunicação (TICs), fragmentadas internacionalmente na nova divisão mundial do trabalho (Globalização) e assentadas no Leste asiático. Aproveitou a desigualdade interna, com um país marcado por uma esmagadora maioria da população no campo e pela enorme explosão urbana, que abriam um imenso potencial para seu mercado interno. A burocracia se aproveitou do histórico atraso econômico do país e utilizou a fundo permanência das tradições coloniais de Hong Kong, Taiwan e Macau. Tudo, baseado na exploração mais brutal da classe trabalhadora.

É ilustrativo desse processo a trajetória de uma emblemática empresa, a taiwanesa Foxconn (Hon Hai) conhecida mundialmente por montar, entre outros, os aparelhos iPhone, Kindle e PlayStation. A empresa de Terry Gou nasceu como parte da nova divisão mundial do trabalho (DMT). Filho de imigrantes após a derrota do Kuomintang na guerra civil em 1949, Gou criou sua empresa em 1974 na periferia de Taipei montando interruptores para televisores preto e branco; em poucos anos ele monta o console Atari (vídeo games, ndt) e no início dos anos 1980 a IBM figura em seu portfólio. Mas para continuar se expandindo, esbarrou em um limite na disponibilidade de mão de obra e nos salários, que aumentavam tanto em Taiwan quanto nos outros três “pequenos tigres asiáticos” (Hong Kong, Cingapura e Coréia do Sul).[15]

Gou encontrou sua resposta na China continental. Em 1988, abriu sua primeira fábrica na Zona Econômica Especial (ZEE) de Shenzhen. Ao integrar verticalmente o processo de montagem, aumentou a escala incorporando mais de um milhão de operários/as na semiescravidão de suas fábricas-quartel. Agora não só monta produtos para os oligopólios norte-americanos, mas também consta como seus principais clientes, grandes empresas multinacionais chinesas como Huawei, Xiaomi ou Lenovo.

Nas ZEEs, constituídas em 1981, o investimento estrangeiro gozava de grandes privilégios em impostos, infraestruturas ou repatriação de lucros, além de dispor de uma farta mão de obra em condições de semiescravidão. Em sua primeira fase as ZEEs abrigaram fundamentalmente investimentos do Japão, Coréia, Hong Kong e Cingapura e o motivo foi o preço da mão de obra para a expansão das cadeias produtivas regionais. Depois, os privilégios das ZEEs foram estendidos a grande parte das cidades costeiras. Mais tarde, a partir de 2000, com a entrada na Organização Mundial de Comércio (OMC), a China viveu um boom de investimento dos EUA e da União Europeia (UE).

Paralelo a esses processos, existe outro fenômeno, que se apoia no desenvolvimento desigual que caracteriza a expansão capitalista na China. Vejamos um exemplo notável. Em 1987, um alto oficial do Exército, Ren Zhengfei, criou a Huawei, não por mera coincidência também em Shenzen. Em poucos anos, a empresa tornou-se líder mundial no fornecimento de equipamentos para a quinta geração de Internet (5G), a marca de Smartphones mais vendida na China e a segunda no mundo, pisando nos calcanhares dos oligopólios imperialistas.

No final da década de 1980, os smartphones e a Internet eram uma peça de ficção científica, a maioria dos habitantes do país vivia no campo e nem sequer tinham telefone fixo. Assim, em um país que não possuía equipamentos analógicos para expandir a rede de telefonia fixa, Huawei entrou na era digital ocupando o campo da telefonia rural, que não interessava aos grandes monopólios estrangeiros. A tecnologia das centrais telefônicas[16] (telephone switch) foi desenvolvida pelo Instituto de Engenharia das Forças Armadas e posteriormente se tornou em um elemento de acumulação de capital nas linhas de produção da Huawei. Desde o primeiro equipamento (HJD-04), uma central telefônica digital para linhas fixas, até aos equipamentos para os telefones celulares integrados a Internet, há uma velocidade vertiginosa[17]. O controle do mercado interno veio com a mudança para 3G,[18] desenvolvido integralmente na China em 2006 para ser adotado pelo Ministério de Comunicações e depois a escala mundial.

Roberts, como Katz, não vê as características concretas da burguesia chinesa e defende uma distinção, tão contundente quanto artificial, entre a burocracia estatal e a burguesia privada. Mas o vínculo entre eles é íntimo, carnal, uma verdadeira fusão.

A alta burocracia não só dirige os bancos e as grandes empresas de propriedade do Estado (SOEs), mas também lucra diretamente com seus negócios por meio de sua participação direta e indireta na rede de subsidiárias privadas que estas criaram em lugares como Hong Kong. Ao mesmo tempo em que, dependendo de seu papel na direção do Estado, participa diretamente nos lucros capitalistas, zelando assim pelos interesses da burguesia e do Estado capitalista como um todo.

As grandes corporações privadas são financiadas e têm participação do Estado, do mesmo modo que as grandes empresas estatais, incluídos os bancos, têm participação do capital privado, enquanto se formam grandes consórcios que incluem ambas. As empresas estatais (SOEs) “pequenas e médias” foram privatizadas e entregues à burocracia das províncias na década de 1990.[19]

O escândalo da Evergrande revelou que a maioria dos bancos locais (134) e rurais (1400) – representando um terço do setor bancário comercial chinês – é controlada por magnatas privados. Acrescentem-se os negócios privados, construídos sobre a corrupção estrutural, compartilhados entre os novos burgueses privados e as burocracias locais e, provinciais, de cujas decisões estes dependem, bem como a rede de negócios privados, gerenciados por “cronies” (comparsas), que parasitam os diferentes aparelhos e serviços do estado. Estamos perante uma única classe capitalista, entrelaçada, composta por diferentes frações com interesses específicos, presidida e disciplinada pela alta burocracia capitalista estatal.

A Huawei, surgida das entranhas das Forças Armadas, converteu-se em um oligopólio que explora 194.000 trabalhadores e tem negócios em 170 países.[20] Seu ponto de apoio para a conquista de mercado externo foi a “economia de escala” a partir das compras feitas pelo estado, que durante a pandemia expandiu a rede 5G para todas as grandes cidades chinesas. Os contratos de Huawei no exterior são feitos com a participação do governo chinês e são financiados com empréstimos dos bancos estatais chineses. A compra da Volvo pela Geely foi financiada pelos bancos provinciais de Xangai…

A grande burguesia chinesa não é um setor homogêneo e sim, pela origem de seus monopólios, uma classe dominante complexa que, para além dos interesses de classe que a unifica de conjunto, abriga também diferentes frações com interesses conflitantes.

Assim, os oligopólios que surgiram nos anos 90, no bojo do desenvolvimento das cadeias produtivas de equipamentos para Internet, em sua maioria vinculado ao comércio online, se apropriaram de uma enorme massa de lucros, se transformando em holdings que se dirigem para o investimento produtivo e para o mercado financeiro, ameaçando o monopólio dos bancos estatais na criação de dinheiro.

Um destes magnatas vinculados ao e-commerce (comércio eletrônico) é Ma Huateng, que emigrou de Shantou, uma vila de pescadores ao Leste de Shenzhen, para criar em 1998 a empresa Tencent, atualmente o maior provedor de videogames do mundo. Seu principal produto é o aplicativo de mensagens “Tudo em Um”, WeChat, um aplicativo que combina WhatsApp, Facebook, Venmo, Tinder, Spotify, Amazon, bem como um sistema de pagamentos e transferências on-line, em uma única combinação. Possui cerca de um bilhão de usuários, a grande maioria na China.

Em janeiro de 2021, sua valorização no mercado de ações estava perto de um bilhão de dólares. A Tencent tem participações em mais de 600 empresas, fundos de capital de risco e começou a se concentrar em empresas emergentes de tecnologia na Ásia, com especial interesse em inteligência artificial. Quando começou a adquirir empresas no exterior, como a Riot Games dos Estados Unidos ou a Supercell da Finlândia, foi bloqueada pela UE e pelo governo norte-americano.[21]

Colin Huang ou Huang Zheng é o fundador da empresa de comércio eletrônico Pinduoduo, que se converteu na maior plataforma agrícola da China. Fundada em 2015, a publicidade representava cerca de 90% da receita, mas seu negócio é financeiro, ao equipar os agricultores e empresários das comunidades rurais com um sistema inédito de compras coletivas, apagando a fronteira entre o comércio varejista e ao atacado. Em abril de 2020, a Pinduoduo fez seu primeiro investimento estratégico ao subscrever $200 milhões em títulos conversíveis emitidos pela Gome Retail Holding, uma importante varejista de eletrodomésticos e produtos eletrônicos na China.[22]

Os lucros procedentes do setor improdutivo (comércio eletrônico) e os dos monopólios industriais (Huawei…), estão entrelaçados no mercado de capitais – bolsa de valores e mercados de títulos – e são direcionados para os ramos cuja acumulação de capital é superior à média.

Este emaranhado move o gigante do comércio eletrônico Alibaba, dirigido por Jack Ma, principal acionista da fintech Ant Group, na corrida pela produção de chips. Da mesma forma, o terceiro maior fornecedor de smartphones do mundo, Xiaomi, anuncia sua incursão na indústria de veículos elétricos na China, unindo-se a outras empresas tecnológicas como Huawei Technologies Co e Baidu [operadora de comércio eletrônico] em uma grande aposta pelo maior mercado automotivo do mundo. Até a superendividada Evergrande, especializada na especulação imobiliária, colocou os pés no negócio dos carros elétricos.

Em vez de captar este processo vivo, Michael Roberts traça um relato unilateral, abstrato e sem vida em torno da lei do valor, entendida como uma categoria abstrata, supra-histórica. Tal lei escreve Roberts, aparece “destorcida, limitada e bloqueada” pela “interferência burocrática do estado e da estrutura do partido”. Portanto, conclui Roberts, a China não seria capitalista.

A lei do valor e o papel dos estados

Roberts fornece como argumentos irrefutáveis, para fundamentar sua conclusão, dados do FMI que comparam a China com os EUA, Alemanha ou França, como se todos eles tivessem uma origem e um desenvolvimento histórico comparáveis e como uma simples analogia formal bastasse para resolver o problema. O mais “irrefutável” de suas provas (a que descreve como a “cifra assassina”) é um cálculo do FMI segundo o qual o estoque de ativos produtivos estatais na China é três vezes maior que os do setor privado, enquanto nos EUA e Reino Unido são apenas 50% e no Japão e na Índia 75%.[23] Mas esses dados, além de refletirem um determinado momento da evolução do capitalismo chinês, demonstram apenas duas coisas: 1/ que sua origem reside na restauração capitalista de um estado operário burocratizado e 2/ que sem um poderoso estado totalitário jogando um papel central, o capitalismo chinês não teria condições de competir com o imperialismo na arena capitalista mundial.

Roberts “esquece” que a lei do valor se expressa de forma “distorcida”, principalmente na era imperialista, marcada pelo domínio dos grandes monopólios, do capital financeiro e dos grandes estados imperialistas que os representam. Para Roberts, a lei do valor só funcionaria numa era distante do capitalismo de livre concorrência. Mas para compreender o papel decisivo do estado capitalista na economia não é necessário remontar a primeira e segunda guerras mundiais, aos períodos que as precederam e à reconstrução posterior, à gestação do imperialismo japonês ou ao surgimento dos Tigres asiáticos.

Uma amostra bem atual dessa “distorção” é a bilionária ($250 bilhões) Lei de Inovação e Concorrência aprovada pelo Senado norte-americano em junho de 2021 para enfrentar o capitalismo chinês. Uma lei que, como aponta o New York Times, lembra o programa Made in China 2025 de Xi Jinping, seis anos atrás. A história contemporânea mostra o papel decisivo desempenhado pelo estado capitalista na economia, distorcendo o “livre mercado”. Mostra como a lei do valor se impõe de forma “distorcida” e indireta. A falência da gigantesca imobiliária chinesa Evergrande é uma boa demonstração disso.

Capital financeiro e a regulação das BigTech 

Roberts não considera o papel da burocracia como motor e centro da restauração capitalista; não vê seu entrelaçamento com o capital privado formando um único conglomerado em torno do estado. Tal qual criticávamos a Katz, Roberts não entende que se a burocracia chinesa abrisse mão do sistema bancário e não controlasse a conta de capital, colocando limites à entrada de capital financeiro imperialista e a determinados mecanismos de “livre mercado”, ela ficaria violentamente deslocada, a independência política do país teria sido diretamente ameaçada e a China condenada a se tornar mais uma vez uma semicolônia. Mas o PCCh aprendeu as lições do que aconteceu na ex-URSS e no Leste europeu, e não estava disposto a repetir.

No entanto, apesar das restrições à entrada dos bancos imperialistas e os limites impostos aos fundos de investimento estrangeiros na compra e venda de ações na bolsa, o mercado de capitais chinês existe e é vigoroso. Nesse contexto, o novo marco regulatório das BigTech chinesas foi criticado pela revista britânica The Economist como uma investida de Xi Jinping contra a livre iniciativa. Ao contrário, os “coroinhas” internacionais de Xi, como Jabbour ou os castro-chavistas, o defendem como exemplo do “socialismo com características chinesas”.

O rápido crescimento da economia digital se concentrou nas mãos de Alipay (Ant Group), WeChat Pay (Tencent) e seus amigos $5,4 trilhões em transações comerciais em 2020, 9,6 % a mais do que em 2019, o que coloca a China no segundo maior mercado de e-commerce (comércio eletrônico) depois dos EUA. Ambas as empresas dominam mais de 90% do mercado de pagamentos móveis.

O dinheiro que funciona como meio de circulação (medida do valor e meio de pagamento) não se distingue de sua função como capital, apenas por suas diversas formas nos momentos do ciclo econômico. Sua forma digital aparece como mero signo, medida de valor, e atua como dinheiro imaginário diante da velocidade alcançada pelas transações (de bens e capitais). Sua forma fetichista é o reflexo do fetiche da própria mercadoria, para continuar a ocultar o caráter social do trabalho privado.[24]

A centralização crescente dos oligopólios tecnológicos chineses dos meios de pagamento em mãos de holdings que controlam centenas de outras empresas – expressão genuína do capital financeiro – amplia de forma exponencial sua capacidade investidora e ameaça o controle do sistema de crédito estatal e o próprio mercado de divisas, que move bilhões de dólares ao dia.[25]

As medidas do novo marco regulatório das Big Tech instituídas por Xi reduzem o investimento em ramos produtivos marcados pela superacumulação (habitação, infraestruturas e seus fornecedores como o aço, cimento, etc.), ampliam sua presença na BRI, Iniciativa do Cinturão e a Rota da Seda, e orientam os investimentos das holdings tecnológicas para os gargalos das cadeias produtivas das TIC, a fim de fazer frente à guerra tecnológica empreendida por Biden, com o objetivo de alcançar a autossuficiência na produção de chips. Esse é o papel do Estado em qualquer país capitalista e, é claro, de forma alguma não anula a lei do valor, como aponta Roberts.

Roberts não vê que o processo de restauração capitalista chinês (cujo gradualismo respondeu às lições que a burocracia Mao-Stalinista extraiu da derrocada dos partidos estalinistas na URSS e no Leste europeu) está marcado pela extrema preocupação da burocracia para preservar seu poder. A restauração capitalista na China andou de mãos dadas com a manutenção e fortalecimento do regime ditatorial de partido único. Sem este regime totalitário teria sido impossível garantir a superexploração e arbitrariedade sobre os trabalhadores e camponeses chineses e não poderia preservar o privilégio das camadas superiores do PCCh, nem os interesses do conjunto da burocracia restauracionista e da nova burguesia privada. Sem essa mão de ferro, o investimento estrangeiro nunca teria chegado nem convertido a China em seu maior destino.

Roberts, como os demais admiradores do “milagre econômico” chinês, identifica o “progresso” com a “capacidade de compra”[26] e é incapaz de explicar que sob a dominação capitalista-imperialista, todo avanço na capacidade produtiva, como a ocasionada pela restauração capitalista na China, desencadeia ao mesmo tempo enormes forças destrutivas que se traduzem em altíssimos e irreparáveis custos humanos e ambientais: 1/ Deslocalizações industriais em massa no Ocidente, junto com um declínio brutal dos salários e padrões de trabalho da classe trabalhadora em escala mundial, 2/ na China, um regime de trabalho semiescravo na forma de fábricas-quartéis para 200 milhões de trabalhadores rurais migrantes, além do retrocesso geral das condições de trabalho da classe operária urbana, bem como as condições lamentáveis de milhões de camponeses deslocados à força para áreas suburbanas e urbanas por funcionários públicos locais ávidos por liberar terras agrícolas para vender seu direito de uso a incorporadores imobiliários 3/ uma brutal desigualdade social, que está entre as maiores do mundo; 4/ uma gravíssima ruptura do metabolismo com a natureza, deixando o país afetado pelo maior desastre ambiental do mundo, com seu correspondente impacto planetário no aquecimento global e no esgotamento dos recursos minerais e energéticos, 5/ uma sufocante ditadura policial sobre o povo chinês e 6/ uma política expansionista de esgotamento dos recursos naturais, superexploradora da mão de obra local e sustentáculo de regimes ditatoriais na Ásia e na África.

Uma visão embelezadora da burocracia restauracionista

Por fim, Roberts simplifica e reduz as relações básicas entre China e os Estados Unidos à “transferência de valor” entre os dois países, sem sequer considerar os conflitos entre os monopólios de ambos os países pela supremacia e os superlucros tecnológicos. Não desenvolveremos neste texto o lugar que, em nossa opinião, a China ocupa na atual divisão mundial do trabalho e no sistema de Estados.

Mas, em qualquer caso, a relação entre China e o imperialismo dominante, os EUA, não pode ser reduzida a uma “transferência de valor” e a uma comparação da produtividade global do trabalho em ambos os países, como se nada tivesse mudado ou mudando nestes 40 anos, como se a realidade estivesse congelada. Como se não tivesse existido e não existisse uma via dupla, combinada, de acumulação capitalista na China: a dos grandes oligopólios ocidentais e a acumulação autônoma do capitalismo chinês, ambas sustentadas na superexploração dos trabalhadores chineses.

Como se a relação entre estas duas vias de acumulação capitalista não tivesse evoluído profundamente, com um enorme desenvolvimento da acumulação capitalista autônoma, tanto privada como estatal. Como se os oligopólios chineses não tivessem entrado em competição aberta com os oligopólios norte-americanos e ocidentais pelo domínio tecnológico e os superlucros associados. Como se a batalha pela hegemonia na Ásia não estivesse em pleno andamento. Para além da teatralidade, são esclarecedoras as palavras do líder da maioria democrata no Senado norte-americano, Chuck Schumer, pouco antes de votar a Lei de Inovação e Concorrência: “Se não fizermos nada, nossos dias como superpotência dominante podem estar se acabando”.

Curiosamente, é interessante mencionar como a combinação de seu método unilateral e reducionista, juntamente com os dados que extrai do FMI, leva Roberts a conclusões absurdas. É o caso quando escreve que, “dos 101 países de ‘renda média’ em 1960, apenas 13 conseguiram separar-se do grupo para se tornarem economias avançadas em 2008”. Só que, entre estas “economias avançadas”, tirando o Japão, encontramos Hong Kong, Cingapura, Taiwan, Coréia, Espanha, Portugal, Grécia, Irlanda, Israel, Mauricio, Porto Rico e Guiné Equatorial. Não parece necessário acrescentar comentários.

Na mesma linha, Roberts acrescenta: “Não é por acaso que apenas duas grandes economias em desenvolvimento tenham conseguido fazer parte do clube capitalista rico nos últimos 50 anos (Taiwan e Coréia), medidos em PIB per capita”. Mas qualificar um protetorado dos EUA como Taiwan, como um país imperialista pela renda per capita não parece muito razoável, nem mesmo com a Coréia do Sul, com 28.500 soldados norte-americanos instalados em seu território.

Parece inegável a voracidade dos conglomerados chineses em direção ao exterior. Porém, segundo Roberts, os investimentos na BRI “não têm como objetivo o lucro. Tudo é para expandir a influência econômica da China globalmente e extrair recursos naturais e tecnológicos para a economia doméstica” (sic). Como se os investimentos estrangeiros chineses, onde, além disso, o capital privado acompanha e está associado ao estatal, não fossem uma parte central dos planos globais da China!

Roberts afirma também que os investimentos exteriores chineses não se devem à necessidade de absorver o excesso de capital ou à queda da taxa de lucro no interior da China. No entanto, o superinvestimento e superprodução que seguiram à gigantesca onda de investimentos após a crise mundial de 2008-2009 estão mais do que demonstradas pela esmagadora maioria dos estudiosos e o próprio Roberts, por outro lado, aponta em vários de seus trabalhos a queda da taxa de lucro interno chinês em consequência do grande investimento realizado.

Em um de seus últimos artigos, de maio de 2018, “Xi assume o controle total do futuro da China”, Roberts escreve que, sob Xi, a maioria da cúpula do PCCh continuará com o modelo econômico atual, dominado por grandes corporações do estado e o aparato do partido único, porque “inclusive a elite percebe que se trilhar o caminho capitalista e a lei do valor se tornar dominante, isso irá expor o povo chinês à instabilidade econômica crônica, insegurança de emprego e renda, e maiores desigualdades”.

Embora depois afirme que esta burocracia “está unida em sua oposição à democracia socialista” e quer “preservar sua poder autocrático e os privilégios que dele decorrem”, não deixa de transmitir uma visão embelezadora de uma burocracia restauracionista à qual implicitamente atribui um papel progressivo. Em um de seus escritos mais recentes, “A China na década da pós-pandemia” (maio de 2020), Roberts se mostra mais crítico com a burocracia chinesa e introduz qualificações que se afastam da complacência de Katz.

Ele nos fala de um “governo comunista autocrático de partido único, muitas vezes ineficiente, que impôs medidas draconianas durante a pandemia, reprimiu impiedosamente os dissidentes e a Revolução Cultural foi uma paródia impactante, reprime as minorias, mantém campos de reeducação em Xinjiang, ninguém pode falar contra o regime sem consequências, em Hong Kong impôs um governo militar…”. No entanto, não há menção no ponto central: a necessidade de derrubar a ditadura (capitalista) do PCCh para instaurar um governo dos trabalhadores apoiado em uma democracia socialista que vá dando passos na construção do socialismo e expanda a revolução mundial.

Algumas conclusões estratégicas das teses de Katz e Roberts

Claudio Katz resiste pudicamente a explicitar as conclusões de suas teses e Michael Roberts, absorvido pela “razão econômica”, não as desenvolve. Mas se suas teses fossem verdadeiras, equivaleriam a sentenciar para toda uma época histórica a impotência do proletariado para retomar a luta pelo poder e retomar a construção do socialismo. Significaria reconhecer nessa burocracia estatal um novo sujeito histórico alternativo,[27] nem capitalista nem socialista, todo-poderoso e ditatorial, que representaria, apesar de todos seus defeitos, um campo progressivo em relação ao capitalismo e ao imperialismo.

O papel da classe operária se limitaria a pressionar essa burocracia por algumas reformas e, óbvio, seria proibido como algo reacionário fazer uma revolução para derrubá-la. A disputa entre os EUA e a China seria entre o capitalismo imperialista e uma nova formação social progressiva, apesar de seus defeitos, em cujo campo teria que permanecer, ainda que “criticamente”.

Na verdade, sua unilateralidade e sua concepção formal e abstrata do marxismo levam Michael Roberts[28] ao extremo de afirmar que quem defende que a China é capitalista estaria negando o marxismo, pois, se com seu “sucesso fenomenal no crescimento econômico”, a China continuasse sendo capitalista, “seria a refutação da teoria marxista da crise e uma justificativa do capitalismo”. Evidente, uma vez que ele não pode defender que a China se pareça em nada ao socialismo, então a caracteriza como uma “besta estranha” (weird beast), nem capitalista nem socialista. Só nos resta dizer que introduzir uma nova categoria como esta no corpus teórico do marxismo exigiria uma justificativa teórica mais profunda que algumas cifras econômicas congeladas e isoladas do contexto geral e histórico e uma argumentação rebuscada.

Notas:

[1] https://www.hurun.net/en-US/Info/Detail?num=LWAS8B997XUPhttps://www.hurun.net/en-US/Info/Detail?num=LWAS8B997XUP

[2] KM. O Capital, t.1, sétima seção. XXIII. A Lei Geral da acumulação capitalista. Pág. 547. Fundo de Cultura Econômica.

[3] Elias Jabbour, China e as novas possibilidades do socialismo científico. Margem Esquerda, pág.35. Revista da Boitempo. Nº 37, 2° Semestre, 2021.

[4] Idem. Pág. 33

[5] Dados da última lista dos Ricos do relatório Hurun, divulgada por uma empresa privada chinesa semelhante à Forbes, dedicada ao ranking dos magnatas chineses. https://www.scmp.com/business/money/wealth/article/3106202/jack-ma-leads-pack-chinese-billionaires-2020-fortunes-grow

[6] Dados de março de 2021. https://www.hurun.net/en-US/Info/Detail?num=LWAS8B997XUP

[7] https://www.scmp.com/business/money/wealth/article/3106202/jack-ma-leads-pack-chinese-billionaires-2020-fortunes-grow

 

[8] https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/05/24/bernard-arnault-se-torna-a-pessoa-mais-rico-do-mundo.htm

[9] Comparando os números de Piketty com o índice de Gini (que mede a desigualdade social: 0 é a igualdade absoluta na distribuição de renda e 1 é a desigualdade máxima, onde uma pessoa se apropriaria de toda a renda do país), este último era de 0,16 em 1978, quando começou a restauração capitalista, mas em 2017 já chegava a 0,467. Desde então, continuou a aumentar, a ponto de o governo chinês não o tornar público. Ele é estimado em 0,470, muito superior à média dos países da OCDE, de 0,300. Da mesma forma, no final de 2020, o 1% mais rico do país detinha 30,6% da riqueza nacional, contra 20,9% há duas décadas. Por sua vez, o relatório de 2014 do Centro de Pesquisa em Ciências Sociais da Universidade de Pequim calculou que o 1% mais rico ultrapassava 30% da riqueza nacional, enquanto os 25% mais pobres possuíam apenas 1%.

[10] https://www.scmp.com/tech/big-tech/article/3116385/death-22-year-old-pinduoduo-employee-renews-controversy-over-chinas

[11] A receita em yuan foi convertida em dólares em 04/12/2021.

[12] https://www.scmp.com/news/china/article/3153466/chinas-army-migrant-workers-waits-xi-jinpings-common-prosperity-touch

[13] Martín Hernández. O Veredicto da História, Rússia, China, Cuba… Da revolução socialista à restauração capitalista. Edições Sundermann / Edições Marxismo Vivo, 2009.

[14] [Deng] “queria convencer Washington de que não poderia haver aliado mais leal na Guerra Fria do que a República Popular da China sob seu comando. Mao via seu acordo com Nixon como outro Pacto Hitler-Stalin, na formulação de um de seus generais, com Kissinger agindo como um Ribbentrop: um acordo tático com um inimigo para evitar os perigos de outro. Deng, no entanto, estava procurando mais do que isso. Seu objetivo era a aceitação estratégica no sistema imperial dos EUA, para obter acesso à tecnologia e o capital necessário para seu esforço de modernizar a economia chinesa. Esse foi o motivo real e oculto de seu ataque ao Vietnã. Os Estados Unidos ainda sofriam sua derrota na Indochina. Qual a melhor maneira de ganhar sua confiança do que oferecer-lhes vingança pelo poder? A guerra falhou, mas comprou a Deng algo mais valioso do que o custo de 60.000 vidas: uma passagem para a China entrar na ordem capitalista mundial, na qual floresceria.” F. Voguel. Deng Xiaoping e a Transformação da China. The Belkap press of Harvad University Press, 2011. Revisão de Perry Anderson. Sinomania, London Review of Books. http://www.lrb.co.uk/v34/n03/perry-anderson/sino-americana

[15] https://www.scmp.com/author/karen-chiu

[16] Desenvolvido pelo CIT (Centro de Tecnologia da Informação), vinculado ao Instituto de Engenharia das Forças Armadas, e cuja produção de insumos ficou a cargo da LTEF (Luoyang Telephone Equipment), empresa vinculada ao MPT (Ministério dos Correios e Telecomunicações). X Shen, O Caminho Chinês para a Alta Tecnologia: Tecnologia de Comutação de Telecomunicações na Transição Econômica. p.105. Springer, 1999.

[17] “Ao abrir o mercado doméstico para empresas estrangeiras, as empresas nacionais tiveram que se concentrar no mercado de baixa renda na década de 1980 e início de 1990. O governo chinês ofereceu apoio para ajudar as empresas nacionais a capturarem parte do mercado, após estas desenvolverem seus próprios Comutadores digitais de linha fixa. Por exemplo, o Ministério organizou duas reuniões de coordenação para encorajar o uso de comutadores produzidos internamente em 1996 e 1999 e essas duas reuniões foram os pontos de virada para as empresas chinesas substituírem as empresas multinacionais. “Qing Mu e Keun Lee. Difusão de conhecimento, segmentação de mercado e atualização tecnológica: o caso da indústria de telecomunicações na China. Journal Research Policy, 2005. Volume 34 / 759-783.

[18] padrão TD-SCDMA Time Division Synchronous Code Division Multiple Access.

[19] O setor estatal diminuiu constantemente nos anos posteriores a adesão da China à OMC. Em 2001, 40% de todos os empregos na China estavam no setor estatal. Esse número caiu para 20% em 2008, mas esse declínio parou nos anos após 2008 e mostrou pouca mudança até o final da administração Hu-Wen, em 2012. Entre 2008 e 2012, os ativos gerenciados pelas empresas estatais aumentaram de mais de 12 trilhões de yuans para mais de 25 trilhões de yuans. Yeling Tan. Como a OMC mudou a China. Negócios Estrangeiros. Mar / Abr2021, Vol. 100 Edição 2, páginas 90-102. 13P.

[20]    https://www.huawei.com/en/about-huawei/corporate-information (consulta em janeiro de 2020)

[21] https://www.scmp.com/abacus/who-what/who/article/3028219/pony-ma-tycoon-behind-chinas-social-media-and-gaming-giant / https://www.scmp.com/tech/big-tech/article/2182193/tencent-plugs-holes-and-boosts-profits-163-new-investments

[22] https://www.caixinglobal.com/2020-04-20/pinduoduo-buys-into-home-appliance-retailer-to-sell-their-branded-goods-101544707.html

[23]Xi takes full control of China’s future“, mayo 2018

[24] Karl Marx. op.cit.  t.1, pags. 103, 53, 55.

[25] Desde 2018, a Tencent Holdings foi repreendida pelas autoridades regulatórias por “realizar operações de câmbio além do escopo de seu registro comercial”, culminando em uma multa de 2,8 milhões de yuans ($ 438,000) a Tenpay.

[26] Vale a pena lembrar aqui, no entanto, as declarações do primeiro-ministro Li Keqiang nas sessões anuais do Congresso Nacional do Povo em maio de 2020, segundo as quais 600 milhões de chineses, 40% da população, vivem com apenas 1.000 yuans por mês. ($ 140). Dessas pessoas, 75,66% o fazem na zona rural. Por outro lado, cerca de 200 milhões de pessoas (mais de um quarto da força de trabalho) têm empregos flexíveis ou precários. Também deve ser observado que o critério oficial para “pessoa pobre” é alguém com uma renda anual inferior a 4.000 yuans (US $ 674). Mas para se enquadrar no padrão internacional de 60% da renda média, deveria ser de 8.600 yuans ($ 1.326), mais do que o dobro do limite utilizado (o que questiona as declarações triunfantes de Xi Jinping. Xulio Ríos, “A prosperidade comum de Xi Jinping”, outubro de 2021).

[27]Tese semelhante à desenvolvida por Bruno Rizzi em 1939. A Burocratização do Mundo. Edições Península, 1980.

[28] “IIPPE 2021: Imperialism, China and finance”, Michael Roberts Blog, 30/09/2021

 

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