seg jan 30, 2023
segunda-feira, janeiro 30, 2023

George Floyd foi a gota d’água

Precisamos acabar com a violência policial racista já e lutar por justiça, empregos, moradia e saúde para TODOS

Por: Editores da Rede Socialista Revolucionária (RSN)  Declarações
Desde o assassinato racista de George Floyd pela polícia de Minneapolis em 25 de maio de 2020, uma nova onda de protestos nacionais contra os assassinatos racistas e a injustiça social varreu os Estados Unidos. Pelos últimos dez dias, quase 600 cidades tiveram protestos. Essa rebelião, liderada pela juventude negra, mobilização uma verdadeira coalizão multirracial da juventude trabalhadora – com o apoio de outros setores da população que não podem lutar por causa do alto risco de contágio em meio à pandemia.
Em resposta, mais de 76.000 soldados da Guarda Nacional foram mobilizados em 33 estados, e mais de 80 cidades (incluindo Washington D.C.) declararam toques de recolher. A escala dessas mobilizações ecoa os levantes de massas nos anos 60, que começaram em Watts em 1965 e atingiram seu ápice na onda de protestos após o assassinato de Martin Luther King em 1968, assim como o Levante de Los Angeles por justiça para Rodney King em 1992 que se espalhou por todo o país e além das fronteiras. Até agora os protestos arrancaram algumas vitórias parciais e preliminares – o indiciamento dos quatro policiais envolvidos com o assassinato de Floyd, e a retirada de parte das medidas de toque de recolher – mas a luta está longe de terminar.
O assassinato racista de George Floyd foi a faísca
Esse levante está ocorrendo em meio a uma pandemia e uma crise social e econômica histórica, comparável aos anos 30. Como muitos manifestantes disseram, esse assassinato foi a gota d’água de duas formas: primeiro, o assassinato de Floyd foi o terceiro assassinato racista por parte de policiais que chegou à mídia a nível nacional desde o início da pandemia; segundo, a violência policial racista é um elemento a mais nos efeitos devastadores de uma pandemia que continua fora de controle, com mais 100.000 vítimas, e uma crise econômica crescente. Além dos 40 milhões de desempregados, há uma crescente insegurança alimentar em todo o país, e estima-se que 54 milhões de norte-americanos irão passar fome se o governo não intervir.
O assassinato de George Floyd acendeu uma revolta de negros e de setores mais amplos da classe trabalhadora que dizem chega. Muitos jovens manifestantes brancos, latinos e asiáticos estão se juntando aos protestos, assim como muitos sindicalistas.
A pandemia e a crise mostraram que o capitalismo só tem um único objetivo – o aumento do lucro – e que as grandes corporações e o governo estão dispostos a sacrificar as vidas dos trabalhadores por ele. Mas esse sistema que mata trabalhadores é racializado: o racismo é endêmico no sistema capitalista, que atribui um valor menor aos corpos de negros e não-brancos e a seu trabalho.
Como mostram os dados, a pandemia tem uma taxa de vítimas maiores entre latinos e especialmente negros, que morrem a ritmo quase três vezes maior que pessoas brancas:

  • 1 em cada 1,850 negros veio a óbito (ou 54.6 mortes por 100,000)
  • 1 em cada 4,000 latinos veio a óbito (ou 24.9 mortes por 100,000)
  • 1 em cada 4,200 asiáticos veio a óbito (ou 24.3 mortes por 100,000)
  • 1 em cada 4,400 brancos veio a óbito (ou 22.7 mortes por 100,000)

“Mais de 20.000 afro-americanos – cerca de uma a cada 2000 pessoas de toda a população negra nos Estados Unidos – morreram da doença.” “Coletivamente, afro-americanos representam 13% da população nas áreas dos EUA que divulgam dados de mortalidade por Covid-19, mas sofreram 25% das mortes.”  A polícia está usando o distanciamento social para cada vez mais atacar comunidades de pessoas não-brancas, ao mesmo tempo em que diminui o policiamento de pessoas brancas:  “Em Nova York, os negros são assustadores 93% das prisões relacionadas ao coronavírus. Há disparidades raciais semelhantes em Chicago.”
Mais recentemente, governos municipais tem imposto toques de recolher, em gritante contraste com a proteção policial e liberdade de movimento para as gangues armadas da extrema-direita branca que exigiam reabrir a economia no início de maio – que inclusive chegaram a invadir o legislativo do estado de Michigan e forçar o adiamento de várias atividades governamentais.
Trump e os governadores estão aumentando a repressão aos protestos
A resposta das autoridades estaduais a estes protestos tem sido extremamente militarizada e brutal desde o primeiro momento. Os governos rapidamente enviaram a Guarda Nacional e recorreram a gás lacrimogêneo, espancamentos selvagens, e tiros de balas de borracha contra manifestantes pacíficos, às vezes jogando carros de polícia contra multidões. Além disso, o Pentágono, por ordens de Trump, se ofereceu para enviar as Forças Armadas, e algumas tropas já foram enviadas. Em sua fala de 1 de junho, Trump ameaçou usar a Lei de Insurreição para enviar os militares para massacrar os protestos. Enquanto ele falava, a polícia e a Guarda Nacional eram escutadas usando gás e cassetetes para abrir caminho para que ele fosse até uma igreja próxima tirar fotos publicitárias.
Minneapolis é uma cidade governada pelos Democratas, assim como o estado de Minnesota. Até agora não há nenhuma diferença entre Democratas e Republicanos na resposta aos protestos; existe um consenso bipartidário nítido de que essas manifestações precisam ser suprimidas. Trump quer usar a força para “dominar” e derrotar militarmente os protestos por qualquer meio necessário. Os Democratas querem reprimir o movimento e ao mesmo tempo procuram uma alternativa para cooptar eleitoralmente a fúria do povo negro. Por exemplo, polícias em várias cidades ficaram de joelhos para se dizer solidários às lutas contra o assassinato de George Floyd. Representantes dos governos fazem questão de verbalmente se opor ao racismo no aparato policial. Dizem se opor à brutalidade policial ao mesmo tempo em que reprimem manifestantes. O fato de que estão se sentindo forçados a fazer esses acenos, pela primeira vez na história dos EUA, mostra a profundidade, amplitude, força e ira esse movimento.
Mas os Democratas não conseguem fazer ambos, e ao contrário do que conseguiram fazer com o movimento Black Lives Matter (que agora se tornou o “Movimento Por Vidas Negras”, com um amplo programa reformista e eleitoreiro), esses protestos mostram o enorme abismo entre as necessidades e aspirações das pessoas negras e o Partido Democrata.
Nós exigimos a imediata retirada de toda a Guarda Nacional de todas as cidades e também das unidades da Polícia Militar Norte-Americana de Minneapolis, assim como o fim de todos os toques de recolher. Nós defendemos os direitos políticos da classe trabalhadora à Liberdade de expressão, de reunião e de protesto, pois precisamos poder nos organizar contra aqueles que estão tentando nos matar direta e indiretamente – ao negar saúde, emprego, moradia e alimentação.
Quem são os saqueadores?
Nós opomos também à criminalização dos protestos, seja sob o pretexto de que há saques e vandalismo ou por causa do “antifa” e outras qualificações. Reconhecemos esses nomes como tentativas por parte da classe capitalista e de seus políticos de deslegitimar o levante, de demonizar e dividir seus participantes. A maioria dos protestos são pacíficos, mas defendemos nosso direito a nos defender quando somos atacados. Apoiamos essa rebelião de massas apesar dos estragos que causa, e para os que estão preocupados primeiro ou apenas com a destruição de propriedade privada, dizemos: é a classe trabalhadora que gera toda riqueza. Podemos destruir tudo e depois construir novamente.
Como Tamika Mallory pontuou, “os Estados Unidos da América saquearam os negros. Os EUA saquearam os povos nativos da América quando vieram para cá. Nós aprendemos o que é violência com vocês.” E ela está obviamente correta, seja essa violência do trabalho expropriado dos negros sob o sistema da escravidão, a exploração do trabalho de presidiários, ou os recursos pilhados pelo imperialismo estadunidense na América Latina ou no Oriente Médio. De fato, a própria terra em que esse país foi construído foi saqueado dos povos nativos durante dois séculos de expansão violenta. Os EUA são um país construído usando saques, e continuam a sobreviver usando saques. Esta realidade está se tornando cada vez mais evidente para a classe trabalhadora hoje.
Os atuais protestos estão acontecendo num contexto de desemprego massivo e sem precedentes: 40 milhões de norte-americanos, e incontáveis outros não-norte-americanos, perderam seus empregos; muitos estão devendo meses de aluguéis ou hipotecas. Há uma sensação de profundo desespero social em nosso país, e o estímulo de $1,200 dólares é um escárnio, insuficiente mesmo para necessidades básicas. Esse escárnio se torna mais ofensivo ainda com os bilhões de dólares luxuosamente dados para os ricos na forma de isenções de impostos e resgastes de empresas.
Precisamos organizar uma ampla solidariedade e mobilizações conjuntas com sindicatos e comunidades da classe trabalhadora
Os choques da crise econômica, da Covid-19 e agora o escandaloso assassinato de George Floyd tem o potencial de balançar as coisas, e o setor organizado da classe trabalhadora dos EUA tem a chave para avançarmos na luta de classes. Desta vez estamos vendo a reação dos movimentos operários e das organizações dos trabalhadores que vai para além de apoio retórico: a recusa de motoristas de ônibus municipais de transportar manifestantes presos ou policiais para a repressão, levou várias seções da União Amálgama do Transporte (ATU, o sindicato nacional de trabalhadores de transportes) a se posicionarem contra trabalhar com a polícia. Precisamos aprofundar esse movimento para romper os elos entre nossos sindicatos e as instituições de repressão e policiamento, e quebrar quaisquer laços formais que existam com essas instituições. Estamos comprometidos a organizar a base para mobilizar seus sindicatos e seus colegas para se juntar aos protestos, e também a conectar os protestos atuais às lutas contra a austeridade, as demissões e os cortes salariais.
Como socialistas, precisamos participar ativamente nessa rebelião das massas agitando entre todos os setores da nossa classe – inclusive sindicatos, mas também organizações comunitárias, grupos de jovens, a enorme maioria de trabalhadores que está desorganizada, e os desempregados – para apoiar esses protestos e unir-se às lutas contra o racismo e a violência policial. Precisamos nos juntar e ajudar a organizar as ações de desobediência civil das massas de maneira democrática e independente, com segurança organizada por nós mesmos e com uma plataforma política clara que unifique nossas lutas para arrancarmos mudanças reais.
-Vidas Negras Importam!
-Abolição da polícia!
-Prisão de TODOS os policiais assassinos! Justiça para George Floyd, Ahmaud Arbery, e Breonna Taylor!
-Retirada imediata da Guarda Nacional e todos efetivos militares!
-Fim imediato de todos os toques de recolher e detenções em massa! Retirada de todas as acusações!
-Empregos, renda, saúde, moradia e justiça para todos!
-Trump precisa sair!
— Rede Socialista Revolucionária (RSN)
Membros da RSNRSN Affiliates:
Socialistas Revolucionários de Ohio Central
Comunistas de Denver
Socialistas Revolucionários de Seattle
Workers’ Voice / La Voz de los Trabajadores
Resurgência Socialista
 
6 de Junho de  2020

Confira nossos outros conteúdos

Artigos mais populares