Sobre a cúpula Trump-Xi Jinping
A visita de Trump a China e suas reuniões com Xi Jinping em 14-15 de maio centralizaram a atenção da mídia mundial.
Trump anunciou possibilidades de grandes negócios e acordos, levou consigo os principais dirigentes das maiores empresas norte americanas.
Os grandes temas da reunião incluíam a guerra comercial, a competição na Inteligência Artificial, a guerra do Irã e Taiwan.
O primeiro fato a ser destacado é que a reunião expressa o que uma parte da esquerda mundial nega: a cúpula Trump- Xi Jinping é a reunião das duas principais potências imperialistas do mundo. E isso, com muito maior expressividade do que a última visita de Trump, em seu primeiro mandato, em 2017. O peso do imperialismo chinês, hoje onipresente em quase todo o mundo, não pode ser ignorado nem subestimado, sob pena de não se entender a realidade mundial.
Existe uma parte da esquerda que não só ignora o caráter imperialista da China, como a apoia, em nome do “multilateralismo”, do “Sul global”. Apoiam, na verdade, uma ditadura burguesa que superexplora o proletariado chines para vender seus produtos mais baratos no mundo.
Existe outra parte da esquerda que não apoia a China, mas nega seu caráter imperialista. Ou então, diz que a China é “quase imperialista”. Esse tipo de abordagem simplesmente não consegue explicar o mundo atual, marcado por essa disputa inter imperialista. Além disso, se é “quase imperialista”, então não é ainda imperialista. Nesse caso deveríamos apoiar a China contra o imperialismo norte americano. Isso, a nosso ver rompe a necessária independência de classe.
Alguns, não sabendo o que falar sobre o tema, dizem que o fato de existir a reunião provaria que a rivalidade não existe, ou é pequena. Esse é um tipo de negação da realidade que beira ao terra planismo. A reunião ocorre em função das enormes disputas existentes.
O segundo fato é que a forte crise da ordem mundial imperialista, aprofundada pelo segundo mandato de Trump, colocou em quase completa secundarização as instituições nas quais antes se apoiava essa ordem, como a ONU, FMI, Banco Mundial, OTAN. Agora, o que vale é o peso e as ações dos principais governos imperialistas, que decidem com ações como a invasão da Venezuela e a agressão do Irã, pelos EUA, assim como a invasão da Ucrania pela Rússia, como se define a realidade mundial. Nesse sentido, o valor de reuniões como essa entre Trump e Xi Jinping deveria assumir outra qualidade.
Afinal, os líderes das duas maiores potências imperialistas do mundo, em competição aberta, se reuniram. Os resultados da reunião Trump-XiJinping, no entanto, não apontaram progressos em nenhum dos pontos fundamentais das divergências. Elementos menores, como a compra pela China de 200 aviões da Boeing (se esperavam 500) foram anunciados. As ações da própria Boeing caíram como resultado do encontro.
Como sinalização dos reflexos dessa frustração, os preços do petróleo voltaram a subir e as ações na Bolsa de NY caíram.
Na verdade, existiam poucas possibilidades de que essa reunião pudesse mudar realmente alguma coisa. Algumas das disputas inter imperialistas em curso, como a batalha ao redor da IA e a armamentista, não possibilitam, nesse momento, ser resolvidas por uma reunião.
Em outras delas, Trump não podia impor nada. Ele chegou nessa reunião enfraquecido pelo fracasso de sua “guerra tarifária” contra a China, freada com o acordo de outubro passado, depois do bloqueio das exportações de terra raras pela China. E, sobre a situação da guerra no Irã, apesar de não ter sido concluída, Trump pode sofrer nova e mais importante derrota.
Essa realidade não permitiu a Trump apontar nenhuma vitória real nas negociações com Xi Jinping. A China, por outro lado, mantém suas posições ascendentes econômicas, seguindo o enfrentamento no terreno que lhe é mais favorável. Assistiu a guerra do Irã, da mesma forma como a invasão da Venezuela, sem defender efetivamente seus aliados, por não ter condições hoje de enfrentar militarmente os Estados Unidos. Aparentemente, apenas ajudou com sua rede de satélites aos ataques iranianos. Mas a China capitaliza o desgaste de Trump na guerra do Irã.
Apesar das declarações diplomáticas dos dois lados, a cúpula não avançou em nenhum ponto importante.
2- O avanço do imperialismo chinês
O imperialismo norte americano continua sendo hegemônico em termos econômicos, financeiros, tecnológicos e militares a nível mundial. Mas enfrenta uma decadência pronunciada.
A China assumiu um caráter imperialista em pleno século XXI. Mas apresenta um dinamismo maior, superando os demais países imperialistas e se aproximando do patamar norte americano. Se aproveitando de sua dimensão continental, da ditadura que pode impor salários rebaixados e uma repressão constante sobre o proletariado chinês, e de uma taxa de investimento bem superior ao dos outros países imperialistas, a China disputa cada vez mais com os Estados Unidos.
Desde 2010, o imperialismo chinês ultrapassou os Estados Unidos em produção industrial. Durante o primeiro semestre de 2025, o investimento estrangeiro direto da China superou o dos EUA, representando cerca de 10% do total mundial. A Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI) mobiliza mais de 1 trilhão de dólares em financiamento, assumindo a construção e o controle de portos, ferrovias, minas e redes logísticas em dezenas de países.
A competição inter imperialista, no atual estágio do imperialismo, se explicita na luta pelo controle das cadeias internacionais de valor. Essas cadeias caracterizam-se pela divisão internacional da produção, com a centralização do controle tecnológico e financeiro nas matrizes das multinacionais imperialistas, e a produção em vários países com mão de obra barata e fornecimento de matérias-primas.
A China está avançando seriamente nessa disputa das cadeias internacionais de valor. Por exemplo, não só está na vanguarda da produção de carros elétricos no mundo, como também controla a maior parte da produção de baterias de lítio e entre 60% e 70% do refino mundial de lítio. Controla entre 80% e 90% % da produção e refino das terras raras. Domina mais de 60% do mercado mundial de painéis solares, controla entre 35% e 40% das patentes essenciais de 5G.
No pós segunda guerra mundial e, em particular, durante a globalização, o imperialismo norte americano impôs o chamado “livre comércio”. Ou seja, a liberdade para que suas empresas ocupassem e dominassem os mercados de todo o mundo. Agora, o imperialismo chinês, mais dinâmico, se utiliza do “livre comercio” para vender seus produtos mais baratos e avançar a nível mundial.
3- A reação do imperialismo norte americano
O segundo mandato de Trump avançou e explicitou de maneira categórica o que já se esboçava tanto em seu primeiro governo, como no seguinte de Biden.
Em 2022, a Heritage Foundation, um instituto da ultradireita, elaborou o Projeto 2025 para o governo de Trump. Em novembro de 2025, o governo de Trump publicou o documento «Estratégia de Segurança Nacional», no qual explicita uma estratégia que muda a política anterior do imperialismo norte americano.
Em essência, reconhece a decadência e se dá uma política para recompor a hegemonia norte americana nos patamares de décadas anteriores. Poderíamos chamar de uma tentativa de contraofensiva do imperialismo norte-americano diante da ascensão do imperialismo chinês.
No terreno econômico, se apontam alguns centros. A disputa pela hegemonia com a China em Inteligência Artificial, a batalha pelas cadeias de valor (que se explicitaria de pois em particular no petróleo e terras raras), a reindustrialização dos Estados Unidos, o controle marítimo do Oceano Pacífico e a guerra tarifária.
No terreno político- ideológico toda a batalha pela divisão do proletariado, com a ideologia anti imigrantes e anti setores oprimidos por um lado e contra o “narcoterrorismo” por outro. Buscam assim atrair o proletariado branco nativo e dividi-lo dos operários imigrantes. Separar uma parte proletariado dos países semicoloniais dos mais pobres e negros, que seriam “bandidos”.
Junto com isso vem a pressão direta (“recrutamento”) por governos títeres de ultra direita como Milei (Argentina), Kast (Chile), Bukele (El Salvador), Paz (Bolivia) e outros.
No aspecto militar,a aplicaçao da versao Trump da doutrina Monroe apelidada de donroe, com a imposição de governos títeres na América Latina. É isso que justifica a invasão da Venezuela e sequestro de Maduro para a usurpação do petróleo venezuelano. No Oriente Médio, a associação com Netanyahu para a guerra do Iran. E agora o bloqueio a Cuba.
Em essência, o imperialismo norte americano, para enfrentar o ascenso do imperialismo chinês, decide impor sua superioridade militar. A agressividade de Trump é uma expressão brutal da decadência do imperialismo norte-americano em sua luta para recompor sua hegemonia aos níveis anteriores, agora com outros métodos, diretamente bonapartistas.
Vejamos como está essa batalha inter imperialista EUA X China, em alguns de seus pontos fundamentais.
A batalha pela Inteligência Artificial
Os Estados Unidos seguem hegemônicos em termos tecnológicos, a partir das empresas chamadas 7 Magnificas e de todo o gigantesco investimento em Inteligência Artificial. O investimentos em datas centers e no desenvolvimento da inteligência artificial mantém o boom de investimentos na economia norte americana até os dias de hoje, sendo parte decisiva da disputa inter imperialista em todos os terrenos, em particular a nível econômico e militar.
Mas é um fato de que o imperialismo chinês tem investido fortemente para superar o atraso, inclusive na fabricação de chips e litografia avançada. Ela conta com características distintivas, como modelos de IA muito avançados (Deepseek) com custos de desenvolvimento e operação inferiores aos de seus rivais americanos e uma gigantesca aplicação da IA na vida cotidiana dos chineses, ampliando sua base de dados.
Recentemente, os chineses apresentaram dois avanços importantes. A Deepseek apresentou uma nova versão, agora com chips da Huawey, apostando na superação de sua dependência dos chips avançados de NVIDIA norte americana. E um outro fato, mais espetacular, aparentemente no final de 2025, conseguiram avançar na construção de uma maquina ultravioleta extrema o que abre a possibilidade de que a China consiga avançar de forma auto suficiente para a produção de chips avançados de 2-3 nanômetros.
Por outro lado, nos EUA, a Anthropic (uma das grandes empresas de IA), apresentou o Mythos que representa um salto capaz de analisar e apresentar falhas de sistemas operacionais em todo o mundo, de uma maneira até agora desconhecida. Trata-se de uma possibilidade gravíssima de abalar sistemas financeiros, governamentais e militares. Pode chegar a possibilitar ataques cibernéticos e paralisar sistemas de defesas estrangeiros.
Evidentemente essa guerra tecnológica aberta, com enormes implicações econômicas, políticas e militares, não pode ser resolvida em uma reunião de cúpula.
Nem sequer se resolveu sobre a possibilidade da NVIDIA exportar seus chips mais desenvolvidos para a China. Vale lembrar que antes Trump tinha proibido essa exportação. Afinal foi convencido a autorizar, em função da ameaça, alertada pela própria NVIDIA, de que a manutenção da proibição só alentaria a China a avançar na sua autonomia na produção de chips avançados. No entanto, mesmo depois de autorizada a exportação, nada se concretizou por limites impostos pela própria China. Jensen Huang, CEO da NVIDIA, fez parte da comitiva de Trump na visita a China. Mas voltou sem que nada fosse resolvido.
O conflito das tarifas
A guerra tarifária, aberta em abril do ano passado, por Trump, tinha como objetivo central reverter seu déficit comercial e, em especial, com a China. Houve aumentos de tarifas para a maior parte dos países, mas em particular para a China, que chegaram a 145%. No entanto, é um fato que não conseguiu o resultado esperado.
A balança comercial dos Estados Unidos teve um déficit menor, de 700,485 bilhões de dólares (35,6% ) nos doze meses posteriores a deflagração da guerra (abril 2025). O déficit com a China recuou também, para 202 bilhões de dólares, cerca de 30% a menos que 2025.
No entanto, isso não significou uma alteração qualitativa no objetivo de reindustrialização dos Estados Unidos. Tampouco abalou as exportações chinesas, que buscaram outros mercados e ultrapassaram um recorde histórico em 2025, de um trilhão (mil bilhões) de dólares.
Afinal, por enfrentar uma postura dura de retaliação chinesa, com tarifas semelhantes impostas as exportações norte-americanas e, em particular, um bloqueio na exportação de terras raras (na qual tem um controle hegemônico), Trump recuou. Um acordo temporário foi fechado no encontro de outubro passado entre ele e Xi Jinping na Coreia, de suspensão da guerra tarifária. Esse acordo vai até outubro desse ano, e se esperava que fosse renovado nessa cúpula atual. Nem isso foi definido.
Sobre a guerra no Iran
Depois de mais de um mês do cessar fogo na guerra do Irã, não existe ainda uma perspectiva definida para um acordo. As propostas em debate, do imperialismo norte americano e do Irã seguem bem distintas, e as escaramuças no estreito de Ormuz se e mantém. Assim, todas as possibilidades estão colocadas para o futuro na região.
No entanto, como afirmamos em outro artigo sobre o tema :
“A principal conclusão é que o plano estadunidense-israelense de uma vitória avassaladora e rápida à moda da Venezuela fracassou. A estratégia iraniana de guerra assimétrica, com ataques com mísseis e drones contra países com bases estadunidenses e Israel, e acima de tudo, o bloqueio seletivo do estreito de Ormuz se revelou bem sucedida ao provocar um impasse devido à maior crise energética internacional com reflexos econômicos e políticos importantes em todo o mundo e dentro dos Estados Unidos também.”
Isso está mantendo uma crise econômica e política mundial, com reflexos importantes dentro dos Estados Unidos. A guerra já foi deflagrada, sem apoio majoritária dentro do país. A continuidade do bloqueio do estreito de Ormuz se reflete no aumento de mais de 50% dos preços da gasolina nos EUA e ampliam a crise política. Aumenta a divisão da burguesia norte americana, com uma parte lucrando ainda mais com a guerra (setor de tecnologia e petróleo) e outra acumulando prejuízos. E se amplia o desgaste de Trump e do Partido Republicano, o que e uma ameaça importante para as eleições de meio de mandato de fim de ano.
Como nem o regime iraniano foi derrubado, nem seu programa nuclear foi bloqueado nem o estreito de Ormuz foi reaberto, aumentam os sinais de que poderia haver uma derrota de Trump na guerra.
As expectativas de que a cúpula Trump- Xi Jinping avançassem na resolução do conflito não se confirmaram. Trump alardeou acordos sobre o tema, dizendo que Xi Jinping queria a reabertura de Ormuz e está contra que o Irã tenha armas nucleares, posições já conhecidas do imperialismo chinês. Mas nada de concreto foi definido para a solução do conflito. Na realidade, Xi Jinping disse que “essa guerra nunca deveria ter começado”, porque continua capitalizando o desgaste de Trump no tema.
Sobre Taiwan
Não queremos desenvolver esse tema aqui, mas só anotar seu desdobramento na cúpula.
O imperialismo chinês considera Taiwan parte de seu território e ameaça constantemente invadir e conquistar o território. Trata-se de uma postura diretamente imperialista, apoiada equivocadamente por boa parte da esquerda mundial.
O imperialismo norte americano apoia o governo burguês reacionário de Taiwan e ameaça reagir militarmente caso haja uma invasão chinesa, embora não apoiem formalmente uma declaração de independência da ilha, para não se enfrentar diretamente com a China agora.
Xi Jinping, explicitamente, falou para Trump que “ a questão de Taiwan é a mais importante nas relações. Se for bem administrada, as relações entre os dois países poderão continuar globalmente estáveis. Se for mal administrada, os dois países colidirão, ou até mesmo entrarão em conflito”.
Tampouco houve mudanças reais nas posições de China e EUA sobre o tema na Cúpula atual. Mas Trump, explicitou publicamente, depois de voltar aos Estados Unidos, que se opõe a uma declaração de independência de Taiwan. “Não tenho vontade de que alguém declare a independência, sabem, supondo que temos de percorrer 15.000 quilômetros para ir para a guerra”. E tampouco autorizou o envio de 14 bilhões de dólares em armamentos dos Estados Unidos para Taiwan, que segue pendente.
Alguns elementos de conclusão
Evidentemente, os reflexos dessa cúpula dos dirigentes das maiores potências imperialistas ainda vão ser explicitados no próximo período.
Além disso, como tem relações com processos convulsivos e abertos como a crise da ordem mundial em curso, a conclusão da guerra do Irã, a disputa econômica e tecnológica, nenhuma conclusão definitiva pode ser tirada.
No entanto, como se pode concluir pelos pontos elencados acima, pode-se dizer como conclusões preliminares que:
– essa cúpula só demonstra a importância do conflito inter imperialista EUA- China
– na atual conjuntura mundial, nada de fundamental foi resolvido nessa reunião
– um dos motivos fundamentais para isso é o enfraquecimento conjuntural de Trump, pelo fracasso da guerra tarifária e por seu fracasso parcial no Irã com consequências críticas.
– a disputa inter imperialista segue aberta e cada vez mais intensa, apesar das declarações diplomáticas dos governos dos EUA e China.
– a forte crise da ordem mundial, produto dessa disputa, a cada dia se aprofunda.




