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sexta-feira, julho 19, 2024

O povo de Hong Kong não se “intimida” frente à ameaça militar de Beijing

Frente à ameaça implícita que representa a movimentação de tropas e armamento enviados pelo regime de Beijing para perto da fronteira de Hong Kong, a juventude, os trabalhadores e o povo deste território redobraram sua luta democrática.

Por: Alejandro Iturbe

A resposta às veladas ameaças de uma intervenção militar [1] tem sido mobilizações nas quais participaram um milhão e meio de pessoas. Isto é, um em cada cinco habitantes da cidade-território [2]. No marco dessas gigantescas mobilizações de massas, uma numerosa vanguarda enfrentou a repressão da Polícia de Hong Kong e, em vários casos, obrigou-a a retroceder [3].

Em vários artigos anteriores abordamos as profundas razões desta luta democrática e a profunda contradição política que ela representava para o regime ditatorial de Beijing [4]:

Por sua tradição histórica e as características de sua sociedade, Hong Kong representa uma grande contradição para o regime chinês. Esta contradição não se dá entre o capitalismo e o “socialismo chinês” (que há décadas não existe). Neste aspecto, o território se complementa perfeitamente e é muito útil para o capitalismo, a burguesia e o regime da China. A contradição principal se apresenta entre o regime político chinês (uma ditadura) e as aspirações democráticas da população de Hong Kong (trabalhadores, setores médios e a baixa burguesia). O poder de Beijing necessita “domesticar” Hong Kong, mas não consegue, e isso gera uma situação de crise do governo local, e um desafio para o regime chinês em seu conjunto.” […] Por isso, analisávamos que “este enfrentamento não é só contra as autoridades locais de Hong Kong e sim, fundamentalmente, contra o regime ditatorial de Beijing, seu verdadeiro apoio.  […]“À medida que as lutas democráticas no território continuam e se aprofundam, esta situação pode atuar como um ‘pavio’ que acenda outros incêndios na China, através dos muitos vasos comunicantes, especialmente com a região sul mais próxima do território” […]

O regime de Beijing tentou “domesticar” este processo de luta, ou dominá-lo com a repressão “medida” da Polícia local. Mas não conseguiu. Ante isso, analisamos:

 “Por isso, ante a impossibilidade de “domesticar” o processo, não podemos descartar que a ditadura de Beijing defina intervir com o exército para elevar o nível de repressão ao utilizado na Praça Tiananmen, em 1989. Uma necessidade que, contraditoriamente, se acentua quanto mais forte  e radicalizada é a luta em Hong Kong e que pode chegar a um “limite intolerável” para o regime chinês se a governadora Carrie Lam for derrubada pela luta e Beijing perder o controle do território”.

Esta definição de tomar diretamente em suas mãos a repressão da luta não é nada fácil, pelas razões que analisamos em nosso artigo anterior [4]. Tentou então fazer uma “jogada de intimidação” com a mobilização de tropas e armas na cidade de Shenzhen. Mas tal como vimos, longe de conseguir esta “intimidação”, a juventude, os trabalhadores e o conjunto do povo de Hong Kong responderam com mobilizações massivas e cada vez mais combativas. Isto é, a contradição política analisada se agudiza cada vez mais.

A elas se somam, além disso, consequências econômicas para o regime chinês: as cotações da bolsa de Hong Kong (onde estão basicamente as empresas imperialistas que investiram na China e as dos próprios burgueses) estão caindo e começam a arrastar em sua baixa, a principal bolsa da China continental (Shangai). Algo que se combina com a guerra comercial-tecnológica entre os EUA e a China. As empresas imperialistas começam a perguntar-se se, por uma combinação de razões que incluem a situação de Hong Kong, não chegou a hora de diminuir seus investimentos na China. Assim mostra uma reportagem muito interessante publicada pelo jornal estadunidense Wall Street Journal [5].

Com todas as dúvidas que isso gera ao regime de Beijing, ambos os processos (o avanço da luta democrática em Hong Kong e suas consequências no terreno econômico local e no da China continental) podem atuar como uma “pinça” que se fecha e levá-lo a definir uma repressão direta. Dado seu caráter ditatorial e repressivo, a entrada das tropas chinesas é uma possibilidade real e presente.

A juventude, os trabalhadores e o conjunto da população de Hong Kong mostraram sua disposição de luta e sua combatividade e, portanto, sua disposição em exercer uma forte resistência neste caso. Mas existe o risco que se repita (em um nível corrigido e aumentado) um massacre como o que esse regime realizou na Praça Tiananmen em 1989.

Acreditamos ser imprescindível preparar-se para essa possibilidade. Neste sentido, no marco do nosso pleno apoio à sua luta, queremos reiterar duas considerações. A primeira: “É uma falsa ilusão pensar que os países imperialistas e seus governos serão aliados nesta luta. Eles já começaram a criticar “a violência” dos manifestantes e, como vimos, só estão preocupados pela marcha de seus negócios. A realidade é que, para além de suas declarações “democráticas”, foram e são aliados da ditadura chinesa”. Tampouco na burguesia de Hong Kong:     Li Ka-shing, o empresário mais rico do território, chamou a “finalizar os protestos porque os lucros começam a cair” [6].

A única e verdadeira solidariedade virá dos “trabalhadores e dos povos do mundo. Que todas as centrais sindicais, organizações sociais e populares, e organismos de direitos humanos repudiem esta ameaça do regime de Beijing e, se ela se concretizar, na medida de suas possibilidades, realizem ações reais contra esse regime e as exijam de seus governos. Um exemplo dessa solidariedade foi a resolução aprovada pela CSP-Conlutas do Brasil”. Também o fez a central francesa Solidaires e a Red Sindical de Solidaridad y Luchas na qual ambas participam.

A segunda é que “a extensão de sua luta ao conjunto da China e dos trabalhadores do continente passou a ser uma tarefa de primeira ordem no desenvolvimento do heroico combate que vem levando adiante o povo de Hong Kong. A tarefa que unifica é derrubar o regime ditatorial de Beijing”.

Tal como já dissemos: “De nossa parte, a LIT-QI reitera nosso apoio à luta dos jovens, trabalhadores e todo o povo de Hong Kong, repudiamos as ameaças militares do regime de Beijing, e chamamos a realizar uma grande campanha internacional de solidariedade e apoio a essa luta”. Voltamos a reiterar esse compromisso.

[1] https://litci.org/es/menu/mundo/asia/hong-kong/ejercito-chino-despliega-tropas-la-frontera-hong-kong/

[2] Ver: https://elpais.com/internacional/2019/08/18/actualidad/1566119299_236474.html

[3] https://youtu.be/tuE99U_VppA y https://www.facebook.com/nicolas.rio.37/videos/3410531768960820/

[4] Ver artigo de Nota [1]

[4] https://litci.org/es/menu/mundo/asia/hong-kong/hong-kong-proceso-movilizacion-democratica-no-se-detiene/

[5] https://www.wsj.com/video/how-turmoil-in-hong-kong-could-hurt-china/

[6] https://thenewdaily.com.au/news/world/2019/08/20/hong-kong-protests-billionaires/

Tradução: Lilian Enck

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