Não há dúvidas de que a direita e a Concertación[1] estão em uma profunda crise, e que nesta crise o regime democrático burguês também está profundamente questionado. Hoje a burguesía não tem um candidato para as eleições… e sim cinco, e simplemente não sabe muito bem o que fazer.



Primeiro concorriam Allamand e Golborne pela direita (mais dura). Rapidamente, o empresariado mais reacionário, ligado à UDI, se deu conta que seu candidato, que era o exemplo do empreendedor, não conseguia se posicionar, não subia nas pesquisas, e pelo contrário, era ultrapassado pelo apático e sem carisma Allamand. A UDI então inventou uma saída, se utilizando dos problemas com os cartões “Jumbo más”[2], e o tirou da disputa. Golborne, fantoche da burguesía, sem piscar, obedeceu. A UDI então lançou o filho pródigo de Jaime Guzmán, Longueira, que evidentemente deve seguir recebendo mensagens do além de seu “pai político”. Em seu discurso ao assumir a candidatura, disse alto e claro: ”… o país está se esquerdizando e isso não vamos tolerar”, se fazendo o porta-voz do setor burguês mais reacionário, o setor mais pinochetista. Allamand o recebeu com os braços abertos, chamando-o a competir nas primárias, pelo bem de Chile e da centro-direita.



Na direita liberal (leia-se Concertación e companhia), não é muito diferente; aqui concorrem Orrego pela DC (Democracia Cristã), Velasco (independentes), Bachelet pelo PPDPS e o MEO, apoiada também pelos descontentes da Concertación. Programas Diferentes? Não, nada de novo debaixo do sol. Todos propondo maquiar este sistema capitalista apodrecido, todos pensando em reformas, mas sem questionar a fundo os lucros dos patrões. Alguns mais ou menos cuidadosos com suas palavras, mais ou menos populistas, dizendo que “…agora sim vamos nos preocupar com os pobres, com a equidade e com a educação gratuita, mas não para todos” e acrescentam muito bla-bla-blá. Mas se vêem incapazes de se por de acordo em como levar a cabo o próximo governo. Todos querem aparecer como os salvadores do sistema e do modelo neoliberal. As rupturas são evidentes, e atravessam todo o conglomerado. É patético ver Escalona acusando de fraude a seus próprios “companheiros de partido”: o corrupto acusando de corrupção. E Bachelet, por sua vez, clamando à ordem.



Por sua vez, o Partido Comunista se faz de ala esquerda de toda esta situação. Liderando a CUT, tinha o governo e policiais cuidando da marcha do Primero de Maio, para que os ativistas descontentes com a CUT e o PC não atrapalhassem seu ato de conciliação de classes. E a CUT novamente recebeu entre seus convidados os “honoráveis” da Concertación. Pior ainda em algumas regiões, convidou as autoridades… “do governo de Piñera”. Simplemente uma canalhice contra os trabalhadores.



Mas o que está por trás de toda esta crise política? Nós somos categóricos: é a crise econômica mundial. A burguesia e seus representantes estão preocupados com o que está ocorrendo e com o que pode acontecer. Nesta crise, que já completa 6 anos, a economia norte-americana leva a dianteira: simplemente não cresce, aumenta o desemprego e os estímulos fiscais não conseguem aumentar a demanda interna; pior ainda, há fuga de capitais em direção aos países “emergentes” (capitais andorinha), que seguem provocando bolhas financeiras. A Europa está no fundo da crise: com planos de austeridade, e os trabalhadores resistindo, com mobilizações na Espanha, Portugal, Grécia e Italia. A China segue desacelerando sua economia, numa situação que se tornaria estrutural, diminuindo suas exportações para EUA, Europa e Japão e demandando cada vez menos matérias primas, como por exemplo o cobre. E aqui chegamos ao Chile.



Um estudo do Instituto “Liberdade e Desenvolvimento” (LeD), ligado à direita, anuncia que os preços do cobre estão caindo. Não seguirão nos patamares atuais, próximo aos US$ 3,5 a libra; deverão se aproximar dos US$ 3, com tendência de queda. LeD coloca dois cenários de preços, um com US$ 2,8 e o segundo com US$ 2,5. No primero as perdas seriam cerca de 5 bilhões de dólares e no segundo uma redução de 8 bilhões de dólares. Portanto, em ambos cenários o Chile terá menos dinheiro.



Que nos propõem LeD? Austeridade, ajustes, menos verbas para a saúde e educação, baixar os salários e controlar a inflação. É dizer novamente aos trabalhadores que devem apertar o cinto. Mais ainda, as análises da economia nacional indicam que a demanda interna, que tem sido um dos pilares do nosso crescimento, vem diminuindo, tanto nos bens manufaturados como nos chamados bens duráveis.



Claramente neste cenário, o que se prevê são mais e maiores mobilizações. O próximo governo assumirá neste contexto, e o mais provável é que seja de continuidade ao que temos tido até agora. Os discursos populistas serão a tônica dos candidatos; dirão também que o sistema binominal elegerá um Parlamento que impedirá a votação de reformas, mas nada dizem de acabar com o mesmo.



Assim, a crise política que atravessam a Direita e a Concertación, parece tender a se aprofundar, e não amenizar; mais ainda quando as pesquisas são nítidas: a Concertación só alcança 26 % de aprovação e a Direita só 24 %.


[1] coalizão eleitoral de partidos políticos chilenos de centro-esquerda (social-democratas e democratas-cristãos) que governou o Chile após a queda da ditadura Pinochet, de 1990 a 2010. É formada por quatro partidos políticos principais: Partido Demócrata Cristiano (PDC); Partido por la Democracia (PPD); Partido Radical Social Demócrata (PRSD) e Partido Socialista (PS).
[2] golpe financeiro que prejudicou muitos consumidores, quando a empresa Cencosud (que tinha na época Golborne como gerente) aumentou unilateralmente as taxas dos de seus cartões. A empresa acabou sendo condenada a pagar fortes multas.