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O Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), um dos membros da Frente de Esquerda dos Trabalhadores (FIT), publica uma nota intitulada “A crise do Movimento ao Socialismo (MAS), lições para o presente” em sua revista Ideas de Izquierda Nro. 45

Por: Ricardo García

Trata-se da enésima ocasião que esta corrente, surgida de uma ruptura com o MAS e a LIT em 1988, tenta explicar a explosão do partido em 1992  que, como eles mesmos expõem, chegou a ter quase dez mil militantes e forte inserção na classe operária argentina.

A direção do PTS constrói um relato, incorporando alguns elementos corretos. Mas a serviço de sustentar um conceito global falso: que o MAS desapareceu “varrido pelos acontecimentos”, pelas elaborações teóricas e as hipóteses nacionais e internacionais equivocadas de Moreno e as políticas que geraram.

As coisas não foram bem assim. O MAS desapareceu, mas por motivos diferentes. Vamos aos fatos, suas conclusões e nossa opinião sobre qual é o motivo pelo qual o PTS precisa “apertar os parafusos” em seu balanço do MAS.

O MAS era parte de uma construção internacional, a LIT-QI

O PTS oculta que o MAS, que explodiu, era parte da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional, que não explodiu, e sim, após uma crise, foi capaz de manter-se como a principal corrente trotskista da América Latina e uma das principais do mundo.

O PTS analisa o MAS desligado da LIT. Não leva em conta a concepção de Nahuel Moreno (que era a mesma de Trotsky) sobre a construção de partidos nacionais como parte indissolúvel da construção de uma internacional.

Essa forma de ver as coisas é produto de seu nacional trotskismo e sua concepção de “partido mãe”, a partir da qual tentam construir uma corrente internacional “exportando” o modelo do PTS argentino, com “embaixadores” que viajam pelo mundo. Uma educação péssima para sua militância.

Esta análise nacionalista, exige ocultar que a LIT levou adiante, com muitas dificuldades, um combate contra os desvios da direção que dirigiu o MAS a partir da morte de Moreno. E que depois enfrentou a luta fracional entre duas alas dessa direção – ambas opostas ao projeto histórico da LIT e do morenismo – quando elas se enredaram em uma disputa fracional pelo controle do partido que foi, definitivamente, o verdadeiro motivo da explosão do MAS.

O MAS

O MAS nasceu em 1982, com cerca de 600 militantes, por intermédio da fundação da LIT – QI. Em poucos anos conseguiu uma influencia muito grande nas fábricas e estruturas operárias.

Após a grande greve geral de 1986, com a consigna de “Moratória do pagamento da dívida externa”, Alfonsín acusava o MAS: “A democracia não interessa a esses setores trotskista, desejam acelerar as contradições com o propósito de continuar buscando carne de canhão que sirva a seus interesses espúrios de tomar o poder” 1.

O MAS tinha um peso eleitoral ultraminoritário. O jornal Clarín no seu editorial: “O MAS não produz pânico pelo número de votos que arrasta, e sim pelas estruturas sindicais que conseguiu controlar,…” Âmbito financeiro, em um diálogo com um grande empresário: “…2.000 estabelecimentos de mais de 150 trabalhadores cada um na Capital, a Grande Buenos Aires, Santa Fé e Córdoba tem hoje sindicalistas – não todos, mas tem – do MAS…”2. Os jornais se alarmavam pelo avanço de uma direção revolucionária sobre as fábricas e estabelecimentos, que era justamente a orientação do MAS.

O Balanço do II Congresso do MAS de 1988 dizia: “Estamos em 66 das 122 empresas industriais e da construção com mais de 500 operários de todo o país(…).” E “Estamos nas 10 maiores fábricas da Grande Buenos Aires, com 17.200 trabalhadores (…)somos codireção nas 10, dominando seções e entre 20% e 40% do Corpo de Delegados”.

Durante esses anos houve erros – os veremos – mas foram erros no marco de uma construção operária, socialista, revolucionária e internacionalista.

Crise

Moreno faleceu em janeiro de 1987. O Congresso de 1988, o primeiro depois da morte de Moreno, representou uma mudança de rumo, o início de um desvio acelerado de adaptação à democracia burguesa, que culminou na crise dos anos 90.

Aí se inicia a segunda etapa do MAS, a de seu desvio. A partir desse momento, domina a adaptação à democracia burguesa e o eleitoralismo, e se abre um curso que ameaçou o caráter revolucionário do partido.

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A direção que sucedeu a Moreno, e que assumiu a direção da LIT, fracassou. Respondeu mal à queda do governo de Alfonsín e aos acontecimentos internacionais que levaram à explosão da ex URSS. E se afastou conscientemente da classe operária industrial como centro de construção.

A nova direção do MAS errou, e isso levou a uma crise. Mas isso não condenava o MAS à explosão e desaparecimento. Em 1990 abriu-se na LIT e no MAS um debate sobre esses erros, que foram reconhecidos. Houve uma mudança na direção da LIT. A partir de seus organismos houve uma luta contra esse curso errado.

A explosão

Mas a direção que sucedeu Moreno “Ao invés de iniciar um processo de profundo estudo e reflexão sobre os erros e desvios cometidos, iniciou, no marco de uma grande confusão política, uma luta infernal, fracional, de disputa pela direção, com métodos alheios à nossa tradição, em torno a balanço e responsabilidades, assim como sobre as correções que era necessário fazer, e essa disputa fracional se estendeu ao conjunto da LIT.

Este processo, em sua dinâmica, levou à explosão do MAS, que se expressou em várias rupturas, de diferentes tamanhos, tanto a nível do MAS como da maioria dos partidos da LIT.

É importante destacar que a metodologia usada pela maioria dos dirigentes para dirimir as diferenças políticas e disputar a direção do partido (o que inclui as frações secretas, calúnias e até agressões físicas) apesar de não serem a causa da crise do partido, foram determinantes para sua destruição” 3.

Ambas as frações em que se dividiu a direção argentina, tiveram um curso de ruptura com o morenismo, que se expressou em sua ruptura com a LIT e seu projeto. Uma delas, que deu origem ao MST, e seu desprendimento posterior IS, rompeu com a LIT em 1992, desviando-se do morenismo. A outra, que continuou no MAS, logo se dividiu no que é hoje o Nuevo MAS e outras correntes que fazem parte, por exemplo, da Frente Darío Santillán, renegaram o morenismo, e saíram da LIT em 1997. Um setor dela, saiu em 1994 e depois se reintegrou à LIT4.

Ambas capitularam ao chavismo. E fazem parte de partidos amplos “anticapitalistas”, como o PSOL brasileiro (ao qual curiosamente o PTS também reivindica). Isto é, romperam com a concepção do trostkismo ortodoxo do qual o morenismo sempre se reivindicou, de enfrentamento às correntes nacionalistas burguesas e ao reformismo.

A LIT teve as reservas para enfrentar seus erros e desvios do MAS. Após uma longa crise conseguiu iniciar sua reconstrução. A direção do MAS que sobreviveu a Moreno não, e por isso o MAS desapareceu.

Havia erros em Moreno?

Isto não significa negar que houve erros na armação de nossa corrente na vida de Moreno, assim como em sua política. Uma corrente revolucionária se constrói aprendendo de seus erros, corrigindo-os.

Todos os partidos revolucionários sofrem pressões dos “acontecimentos históricos”. E às vezes respondem de maneira equivocada. A capacidade de um partido e sua direção não reside em sua infalibilidade, e sim na forma em que avalia esses erros, em como reconhece e modifica. Esse era um dos grandes méritos de Moreno, que sempre zombou dos dirigentes que se acreditavam “infalíveis” e contou a história de nossa corrente a partir de seus desvios e erros, assim como das correções.

A LIT vem retomando uma profunda elaboração programática, e alguns deles são evidentes5. Por exemplo, a formação da Frente del Pueblo em 1985, com o PC, foi um erro. Pelo seu programa e porque alianças eleitorais com o reformismo são somente excepcionais e sua generalização é alheia ao leninismo.

Sobretudo em momentos em que o PC da União Soviética iniciava a restauração capitalista (coisa que em 1985 ninguém viu, mas que agora é conhecida).

Por seu lado, a utilização da consigna da Assembleia Constituinte como central para enfrentar o regime político, tal como figura no texto “1982, começa a revolução”, foi um erro. Enfrenta-se o regime impulsionando a construção de organismos de auto-organização operária e popular para substituí-lo6 . Esse erro teve sua incidência na resposta à crise e queda de Alfonsín em 1989. A LIT, a partir das revoluções de 2001 na Argentina e 2003 na Bolívia, revalorizou essa consigna e sua utilização ante processos revolucionários, criticando a utilização que fazem dela, por exemplo o PO, o PTS e o Nuevo MAS na Argentina, que a utilizaram em 2001 como consigna de poder, quando se trata de uma consigna de caráter democrático. É sintomático que o PTS não localize esse erro em sua crítica, porque junto com todo o centrismo, continuam reivindicando-o.

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Por outro lado, é fato que Moreno e a LIT não conseguiram identificar a restauração do capitalismo na China a partir de 1978 e na ex URSS a partir de 1985. É verdade que a informação era quase nula, mas o erro teve consequências políticas importantes. As sucessivas rupturas da LIT negaram-se a reconhecer a restauração e elaborar a respeito7. Ou, como no caso de alguns dirigentes8, tiraram a conclusão de que o trotskismo havia fracassado. A LIT desenvolveu há anos uma análise sobre os acontecimentos do Leste, e isso lhe permitiu uma compreensão global desses processos, sua sequencia, significado e consequências.

A direção do MAS que substituiu Moreno revisou o trotskismo ortodoxo, isto é o morenismo, justamente apoiando-se em alguns de seus erros. Por exemplo, construindo Izquierda Unida em 1989 junto com o PC, ou na forma que utilizou a consigna da Assembleia Constituinte em 1989 diante da crise do governo de Alfonsín.

Entretanto, repetimos, essa foi a razão da crise, mas não da explosão. O MAS desapareceu pela forma como a direção reagiu aos erros, fracionou-se pelo controle do partido, rompeu com o projeto de Moreno e da LIT, e rompeu com a própria LIT.

Os falsos “motivos” da explosão para o PTS

O PTS nos diz que a explosão aconteceu devido à “Teoria da Revolução Democrática” e sobre as revoluções do século XX, a hipóteses erradas sobre a vanguarda, à ruptura com o peronismo e o desenvolvimento da situação revolucionária, e ao eleitoralismo do MAS.

Sobre as questões teóricas já polemizamos muito, e continuaremos fazendo9. Em nossa opinião, a visão do PTS é a negação do programa de transição e seu método.

Em relação às hipóteses abertas a partir da queda da ditadura, em nossa opinião se constataram no central. 2001 é prova disso. Faremos esta polêmica em um material à parte.

Quanto ao eleitoralismo, é verdade que houve erros no MAS na vida de Moreno, e que após sua morte o MAS teve um desvio eleitoralista. Isso foi combatido pela LIT, e continuamos elaborando sobre o tema. Mas isso não foi a causa da explosão e desaparecimento do MAS.

Os motivos dos balanços recorrentes

Qual é o motivo dessa obsessão por explicar várias vezes a explosão de uma corrente com a qual romperam há mais de 30 anos? Opinamos que há três motivos.

Em primeiro lugar, denigrem o MAS para evitar a explicação de um fato: o PTS e o PO, que são hoje os maiores partidos de esquerda, com mais de um milhão de votos e muitos deputados, não conseguiram nem a décima parte da implantação na classe operária que tinha o velho MAS. E isso, levando em conta que os acontecimentos de 2001 abriram uma nova realidade, que deu mais condições para construir partidos revolucionários.

Em segundo lugar, continuam lutando contra o “morenismo”, porque têm que lutar contra a Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional e suas seções.

O PSTU do Brasil é o principal partido trotskista do país, e com maior implantação na classe operária do mundo. Dirige a CSP-Conlutas, uma central sindical com extensão nacional e cerca de três milhões de trabalhadores na base, que por sua vez construíram a Rede Sindical Internacional de Solidariedade e Lutas, a principal tentativa de coordenação sindical revolucionária mundial. O pequeno grupo do PTS no Brasil, o MTR, é uma das dezenas de correntes internas minoritárias dessa Central.

Na Argentina, nosso pequeno partido, o PSTU-A, posicionou-se à esquerda do conjunto das organizações de esquerda do país. Levantamos a consigna de Fora Macri, quando o PTS e demais correntes se negavam. E tivemos uma forte identificação com as principais ações diretas independentes de nossa classe, em 14 e 18 de dezembro de 2017, razão pela qual temos um dirigente partidário petroleiro preso há meses; e outro dirigente de nosso partido e da GM de Rosário perseguido pela justiça há um ano.

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Polemiza falsificando a história do velho MAS, porque está polemizando com uma corrente trotskista, a LIT-QI, que é crítica pela esquerda, a partir de um ponto de vista revolucionário e internacionalista, da política e da ação que desenvolvem as vertentes nacional-trotskistas e centristas que fazem parte da FIT.

Por último, há mais uma razão, talvez a mais importante.

O PTS assinala erros de adaptação à democracia burguesa e nas participações eleitorais do velho MAS. Concordamos em parte com essa crítica.

No entanto, a adaptação à democracia burguesa do velho MAS após a morte de Nahuel Moreno, quando o que eram erros inevitáveis dentro de uma construção revolucionária se constituíram no centro da ação do partido, não chegou nem aos pés da atual adaptação da FIT.

Nunca se apresentaram leis em comum com os principais partidos burgueses, como ocorreu com a Lei de Jardins de Infância em CABA (ver bem), o 2×1 ou o projeto sobre o aborto, nem se posou em fotos fraternas com deputadas mulheres em nome da “sororidade” – isto é, da conciliação de classes -, deputadas que dias antes e dias depois votaram as piores leis contra nossa classe trabalhadora.

Nunca, a participação nas lutas e nos processos de organização estiveram a serviço de uma estratégia eleitoral na medida em que  faz a FIT agora. O “lute e vote”, que o PTS confere ao MAS e que como vimos é falso até a morte de Moreno, é a marca distintiva dos partidos da FIT.

Nunca se esteve tão longe do tipo de candidatos operários que eram a norma no leninismo10, apresentando companheiros muito respeitáveis, mas com um perfil bastante distante da classe operária.

Sobretudo quando o PTS tem dirigentes operários para apresentar como seus principais candidatos. Nunca entendemos porque, depois de anos de candidatos como Montes, Godoy, Hermosilla, os Del Caño, Bregman, Castillo, passaram a ser suas figuras estelares.

O PTS polemiza com o MAS para desviar a crítica que o melhor da vanguarda operária, juvenil e popular faz contra a FIT e seus partidos: seu brutal eleitoralismo e adaptação à democracia burguesa.

É provável que o PTS não tenha uma crise por isto. Não tem uma verdadeira internacional, com critérios leninistas – isto é, uma internacional que não exista ao redor de um “partido mãe” -, que possa enfrentar esse afastamento do trotskismo por parte do PTS. Nem até agora surgiram (que nós saibamos) setores em seu seio com reservas trotskistas que iniciem um combate contra esses desvios. Se for assim, seu curso será irreversível.

Notas

1 Diario La Nación – 18/1/86.

2 Ver artigo “O MAS na mira” – Correio Internacional março 1986 – Arquivo León Trotsky.

3 Ver Balanço de Atividades do XIII Congresso da LIT, julho de 2018, publicado em Edições Marxismo Vivo, São Paulo, 2018.

4 O PST colombiano, e setores dos partidos argentino, espanhol, etc. que formaram o CITO (Centro Internacional de Trotskismo ortodoxo) se mantiveram nos marcos do trotskismo ortodoxo, e se reintegraram à LIT em 2006.

5 Idem nota 3.

6 Essa formulação foi contraria às próprias elaborações de Moreno. Tanto em Revolución y contrarrevolución en Portugal (1975), como em Actualización del programa de Transición (1982), insiste em que o desenvolvimento desses organismos é o centro da política em situações revolucionarias, como a que vivia a Argentina.

7 Igual ao PO e o PTS, que continuam falando de um “processo”, como se não fossem ainda estados capitalistas.

8 Ver “Después del Stalinismo”, Andrés Romero.

9 Ver última nota em http://www.pstu.com.ar/polemica-con-el-pts-la-crisis-del-mas-de-los-80-parte-1/.

10 Ver El Partido Comunista y el Parlamentarismo (Resolução do segundo congresso da  III Internacional em 1920).

Tradução: Lilian Enck