Por que a religião, qualquer que seja, laica ou crente, cumpre um papel tão importante na sociedade? O “poder de dar e tirar a vida” reside em deus, nos diz uma das instituições que expressa uma religião, a igreja católica. Este é o primeiro elemento que indica de onde vêm os tiros, o termo “poder”: o poder está fora do alcance do comum dos mortais, nos dizem.

Por: Roberto Laxe

A religião é a máxima expressão da alienação do ser humano, que “transfere” sua impotência para mudar o presente a alguns seres que só existem em sua cabeça. Mas como toda ideologia, para que tenha força real, tem que expressar-se em organizações: as igrejas são as cristalizações das ideias que borbulham na cabeça dos seres humanos. Essa alienação surge da impotência diante da natureza, força incontrolável para os seres humanos, ou sob o capitalismo, a economia, a “mão obscura do mercado”, que atua ante os seres humanos como qualquer força da natureza, fora do controle da vontade humana.

No capitalismo, a alienação se complica com a coisificação das relações sociais, desumanizando-as até o extremo. O mercado é o lugar (“paraíso”?) no qual os seres humanos se relacionam, comprando e vendendo suas mercadorias e onde está aprisionada a vontade individual. O extremo a que esta alienação conduz é a coisificação, a atribuição de qualidades humanas às coisas, e especialmente a uma, o dinheiro. “Poderoso cavalheiro é o SenhorDinheiro”, dizia o poeta.

É sobre este tripé que se assenta o poder da religião, atualmente no capitalismo, alcançando uma profundidade tal, que só assim se pode explicar que uma sociedade que é capaz de chegar à lua, de resolver a maioria das doenças que foram o flagelo da humanidade durante séculos. Uma sociedade que há menos de cem anos tinha uma esperança de vida de não mais que 45 anos, e hoje chega aos 80. Uma sociedade que pode converter o trabalho humano, a exploração, em um pesadelo do passado. Pois bem, uma sociedade que tem esse alto nível de racionalidade em seu desenvolvimento não foi capaz de abolir, de banir a superstição, a irracionalidade e a religião de suas vidas.

É óbvio que esta impossibilidade vem da própria estrutura dessa sociedade, de onde surge a necessidade da religião, já que adicionou ao caráter incontrolável da natureza, a falta de controle total da economia: as crises se produzem, queiram ou não os capitalistas; está em sua essência viver a base de crise das que desconhecem sua origem. A partir desta origem “natural” da religião, enraizada na própria impotência humana frente à natureza desatada e a economia incontrolável, as instituições nas quais se cristalizam convertem em aliados naturais dos que controlam a economia; a insistência na “debilidade” humana ante poderes – surge a palavra “poder” – que estão acima dele, defendem as classes dominantes.

A inferioridade imposta pela realidade da sociedade dividida em classes sobrepõe-se à “inferioridade” inferida de sua debilidade frente à natureza, criando um coquetel nas consciências humanas difícil de superar de maneira mecânica. Somente quando o ser humano enfrenta suas necessidades como grupo social pode estabelecer as bases para a superação dessa inferioridade, e começar a tomar consciência de que pode haver outras alternativas, outras formas de fazer as coisas.

O protestantismo, ao romper com a ligação “poder-cura-confissão”, e converter a religião em um assunto meramente individual, deu um passo adiante neste caminho de superar a suposta debilidade humana ante poderes superiores, posto que estes poderes deixavam de ter, parafraseando Santo Agostinho, sua “cidade terrena” (a igreja e o sacerdote), para apegar-se à “cidade espiritual” (deus).

Mas o protestantismo não deixava de ser uma religião, que tendia ao laicismo, mas não era. Continuava dizendo à população que há forças que o ser humano não pode controlar, e que tem um nome, deus (seja quem for e de que religião for). Havia aberto a porta à racionalidade burguesa, individualista, pessoal, mas continuava tendo os mesmos limites que qualquer religião; a alienação do ser humano em seres superiores.

Isto nos transfere diretamente ao sujeito do “poder”. Acreditar em um deus onipotente, ou transferir o poder de mudar as coisas a indivíduos que pelo motivo que for saíram da pobreza cotidiana, santificando-os (essência das religiões laicas atuais, das quais o esporte é sua máxima expressão), é a demonstração da impotência da sociedade para modificar as condições de exploração e opressão.

Dizem-nos, “deus é o único que pode dar e tirar a vida”, e com isso nos dizem que nós não somos mais que criaturas inferiores, incapazes de fazer nada importante que não seja adorar ao deus em exercício, ou ao santo laico, sonhando com a vida que esse deus nos promete ou que esses santos têm. Mas os “sonhos, são sonhos”, e enquanto esperamos essa vida ou sonhamos vivê-la, a exploração se mantém.

Marx dizia que a religião é o “suspiro do pobre”, e é verdade. É o sonho de outra vida que não seja o cinzento e pálido cotidiano. Mas também dizia outra coisa, “é o ópio do povo”…não no sentido vulgar que o stalinismo lhe deu, como se fosse algo que simplesmente entorpece as pessoas. É mais complexo, por isso é tão difícil lutar contra a religião, incluída a laica e da qual o stalinismo é uma de suas variantes: é o “ópio do povo” porque é o “suspiro do pobre”. O pobre suspira/sonha, através da religião, com outro mundo, e desta maneira deixa de lutar por mudar este mundo, que o explora e oprime.

O “poder” da religião, e suas instituições, tem este duplo componente nas mentes da população construído a partir das próprias relações sociais de produção. E seu “poder” concreto como instituição ligada, como não podia ser de outra maneira, ao aparato do estado, que dá “terrenalidade” ao que aparentemente está nas mentes dos seres humanos. Tudo se reduz à palavra “poder”, e isto é único; é o poder das classes dominantes de manter sua dominação, da que extraem a riqueza que lhes define como classe dominante.

Somente rompendo com o “suspiro” e o “ópio” do povo, este verá que o poder pode estar em suas mãos; o pensamento religioso é para um marxista o principal obstáculo no caminho para ganhar a classe trabalhadora para a revolução.

Tradução: Lilian Enck