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Na semana passada houve uma queda nas bolsas de todo o mundo e o PIB da Alemanha, a principal economia da Europa, já apresenta números negativos. A maioria dos analistas econômicos se pergunta se já não estamos no início de uma nova recessão da economia mundial.

Alejandro Iturbe

A bolsa de Wall Street sofreu uma de suas piores quedas em muitos anos, com picos negativos nas empresas dos setores energético (-4,12%) e financeiro (-3,57%) [1]. Um dado técnico é que a rentabilidade dos bônus do Tesouro a dez anos caiu abaixo da dos títulos a dois anos (o que se chama de “inversão da curva de rendimentos”), algo que não ocorria desde 2017 e que é considerado como indicativo de uma dinâmica recessiva [2].

Na Europa, os principais índices fecharam no vermelho: o da bolsa de Londres perdeu 1,13%, o de Frankfurt retrocedeu 0,7, o de Paris terminou com um negativo de 0,27 [3]. Na Ásia, a bolsa de Tóquio fechou com uma forte baixa de 1,21%, e Singapura encolheu 1,2%, enquanto que em Sidney (Austrália) o mercado caiu 2%.

Os dados estruturais também mostram uma dinâmica cada vez mais lenta. “O governo chinês divulgou que sua produção industrial se expandiu 4,8% interanual em julho, o crescimento mais lento deste indicador desde fevereiro de 2002, o que evidencia a debilidade de sua demanda doméstica em plena disputa comercial com os EUA” [4].

Por sua vez “O PIB da eurozona (países da Europa que tem o euro como moeda) cresceu 0,2 % no segundo trimestre, a metade dos três meses anteriores” [5]. Nesse marco, a produção industrial está em queda (-1,6 %) e, tal como assinalamos, o PIB da Alemanha, apresenta números negativos: -0,1%.

A economia estadunidense está um pouco melhor que a europeia, mas, como nos últimos anos, não consegue “acelerar na subida”: está condicionada por fatores estruturais e também pelos conjunturais (o fim do efeito da redução impositiva às empresas), assim como pela indefinição política se Trump será reeleito. O próprio Trump tuitou contra a política de taxas da Reserva Federal de seu país (a “inversão da curva de rendimentos”) porque conspirava contra a dinâmica da economia [6].

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Os fatores detonantes

Quase todos os organismos econômicos e financeiros da burguesia no mundo acreditam que essa dinâmica recessiva é praticamente inevitável. Basta ver, por exemplo, os informes e prognósticos, ao longo deste ano, nas páginas do FMI, do Banco Mundial da OCDE e do departamento financeiro da ONU.

Todos eles consideram uma série de fatores e processos que contribuem nessa perspectiva. Em primeiro lugar, a guerra comercial-tecnológica entre Estados Unidos e China. Em segundo lugar, as consequências negativas do Brexit cada vez mais “traumático” (a saída do Reino Unido da União Europeia). Em terceiro lugar, agora se agregou o desmoronamento aberto da economia e da moeda argentina, após a contundente derrota eleitoral do governo de Mauricio Macri.

Cada um destes processos tem, sem dúvida, um impacto negativo sobre a dinâmica da economia mundial: a guerra comercial-tecnológica entre Estados Unidos e China dificulta ao extremo o clima do comércio mundial; o Brexit acabará prejudicando as economias de ambas as partes e a situação argentina começa a influir sobre a América Latina, em especial sobre o Brasil, a principal economia da região.

Uma grande tempestade de fundo

Entretanto, com toda sua importância no momento atual, estes processos devem ser considerados como expressões de problemas muito mais estruturais da economia mundial e, neste sentido, como possíveis detonantes de uma queda muito mais profunda que uma recessão cíclica.

A crise econômica mundial que estourou em 2007/2008 é considerada a pior desde o crack de 1929 e tinha uma dinâmica devastadora para o capitalismo imperialista, no marco de um processo de acumulação cada vez voltado para a especulação e o parasitismo. Por isso, a consideramos como o início do que Trotsky denominava uma série ou curva descendente de ciclos [7]. Esta curva descendente, para nós, se mantém até hoje.

Esta crise ameaçou derrubar o sistema bancário financeiro-mundial, hoje no centro da dinâmica dessa acumulação. Os governos imperialistas e dos países não imperialistas mais fortes injetaram quantidades absurdas de dinheiro para salvar esse sistema (as famosas “injeções de liquidez”).

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Conseguiram evitar assim a quebra e deter a dinâmica de “plano inclinado” da produção e do comercio mundial. Mas o fizeram a um custo dobrado. Por um lado, os bancos e instituições financeiras tomaram esse dinheiro para cobrir suas perdas e recapitalizar-se, enquanto seu efeito sobre a produção real foi muitíssimo menor que os volumes de dinheiro injetado. Por outro lado, foi se armando o que se chama de “bolha das dívidas”: os Estados, as empresas e as famílias têm dívidas que triplicam a base produtiva real.

A curva descendente a que temos nos referido e este caminho eleito pelo capitalismo imperialista como saída para os piores momentos posteriores a 2007-2008 são os que explicam que, desde então, se houve alguns ciclos de recuperação, estes foram muito fracos. Explica também os temores dos economistas burgueses que estes fatos (guerra comercial-tecnológica, Brexit, desmoronamento argentino) abram não só uma recessão cíclica como também uma depressão (queda muito mais profunda e prolongada que uma recessão) igual e inclusive superior à anterior.

Podemos diagramar a situação dizendo que o capitalismo imperialista é como um motor semifundido. A burguesia não é capaz de trocar o motor e tem profundas dificuldades para fazer uma retificação completa do atual, tanto por sua própria conformação estrutural como pela luta de classes que deve enfrentar. Então, apelou para colocar muitos litros de “óleo pesado” e o motor andou um pouco mais. Mas agora está em piores condições que antes e já gastou quase todo o óleo pesado. Cada um dos processos analisados são expressões desse motor que rateia, expele fumaça de óleo queimado e ameaça parar.

Haverá ataques ainda mais duros aos trabalhadores e às massas

Esta situação da economia mundial tem importantes efeitos no terreno político. Por um lado, agrava a luta entre os diferentes setores burgueses a nível internacional e nacional pela disputa dos mercados, a apropriação da mais valia, e pelo controle do Estado e dos governos. Estas fendas e fraturas interburguesas são positivas para os trabalhadores porque, como dizia Lenin, abrem fissuras que favorecem a possibilidade de lutas e seu desenvolvimento.

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Entretanto, no marco de sua feroz disputa, há algo no qual todos os setores burgueses tem acordo: atacar ainda mais os trabalhadores e as massas para descarregar sobre suas costas o custo da crise e, mais profundamente, tentar “retificar o motor” da economia capitalista levando a um nível superior de superexploração.

Por isso, aumentam aceleradamente as demissões e o desemprego; atacam ou diretamente eliminam conquistas como a ampliação limitada da jornada de trabalho, os descansos semanais, as férias e a aposentadoria; reduzem ao mínimo os serviços sociais dos Estados, e recrudesce a repressão às lutas dos trabalhadores e das massas. Todos os governos burgueses, sejam de direita ou falsamente “populares”, não têm outra alternativa do que serem ponta de lança desses ataques. Por sua vez, para os trabalhadores e as massas não fica outra alternativa do que lutar ferozmente contra esses ataques, em uma batalha que tem muito de sobrevivência. Caso contrario, a perspectiva será de muitíssimo sofrimento.

A realidade atual volta a apresentar a absoluta impossibilidade de “humanizar” o capitalismo a partir de dentro, como argumenta grande parte da esquerda mundial, e de sua consequência lógica “radicalizar a democracia [burguesa]”. Algo que os setores burgueses populistas também nos propõem.

O caminho da luta surge, como vimos, de uma necessidade de sobrevivência para os trabalhadores e as massas. Um caminho que cada vez mais apresenta como tarefa, ao mesmo tempo urgente e estratégica, a revolução operária e socialista para derrotar o capitalismo imperialista e mudar a partir da raiz este sistema podre e inimigo da humanidade.

[1] https://www.nytimes.com/2019/08/14/business/stock-market-today-bond-market.html?te=1&nl=boletin&emc=edit_bn_20190815?campaign_id=42&instance_id=11650&segment_id=16182&user_id=00d43cf2b74587eee8cd749aa535ec7f&regi_id=7524510220190815

[2] https://www.cronica.com.ar/mundo/Se-desplomaron-las-principales-bolsas-del-mundo-por-temores-de-una-recesion-global-20190814-0053.html

[3] https://www.infobae.com/america/mundo/2019/08/15/los-mercados-europeos-abrieron-en-rojo-tras-la-jornada-de-fuertes-perdidas-en-wall-street/?fbclid=IwAR1BlE8cctTeflCZrPM3btPiG1rnddN-JKdLtdyv3sg5aLavvgbQ7znuxdg

[4] Idem.

[5] https://www.elimparcial.es/noticia/203996/economia/el-temor-a-una-nueva-recesion-hace-caer-las-bolsas-de-todo-el-mundo.html

[6] Idem.

[7] Ver o artigo “La curva del desarrollo capitalista” (1923) em:

https://www.marxists.org/espanol/trotsky/1923/junio/21.htm

Tradução: Lilian Enck