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Em meio a um processo revolucionário no Iraque e no Líbano, o fortalecimento tanto do imperialismo americano como do regime iraniano provocado pelo assassinato de Qassem Suleimani teve vida curta[i].

Por: Hassan al-Barazili

Num primeiro momento o presidente Trump saiu fortalecido ao demonstrar força ao assassinar covardemente o principal comandante militar iraniano e Abu Mahdi al-Muhandis, líder de uma das principais milícias xiitas iraquianas alinhadas com o Irã além de seis outros integrantes em uma ação que causou perplexidade entre seus aliados imperialistas europeus e entre os círculos da própria burguesia americana.

Em seguida ameaçou bombardear 52 alvos iranianos em caso de retaliação. Por fim a primeira retaliação iraniana foi limitada: o bombardeio de duas bases aéreas compartilhadas pelas forças americanas e iraquianas não causou nenhuma baixa devido ao aviso dado pelo regime iraniano ao primeiro-ministro iraquiano com mais de 2 horas de antecedência, viabilizando a evacuação das mesmas[ii].
O regime iraniano também saiu fortalecido ao evitar uma guerra com o imperialismo e utilizar o assassinato de Suleimani para ganhar legitimidade para suas políticas tanto dentro como fora do Irã. Dentro do país organizou manifestações multitudinárias contra a agressão americana que eclipsaram o recente massacre que o regime promoveu por quatro dias em meados de novembro quando cerca de 1500 manifestantes foram assassinados e mais de sete mil foram presos por lutar contra o aumento dos combustíveis, por melhores condições de vida e pelo fim da ditadura[iii]. No Iraque, o regime sectário (vide nota xxii) de ocupação imposto pelos americanos em 2003 e compartilhado pelos setores burgueses pró-imperialistas e pró-iranianos se inclinou a favor do Irã ao votar no dia 5 de janeiro uma moção no parlamento pedindo a saída das forças militares imperialistas do país. Além disso as milícias xiitas pró-iranianas atacaram as manifestações que ocorrem desde 1 de outubro exigindo o fim do regime sectário e melhores condições de vida, enfraquecendo-as[iv]. Por fim este conflito animou estalinistas e castro-chavistas em todo o mundo a defenderem a ditadura iraniana acriticamente omitindo deliberadamente as lutas e revoluções democráticas na região.

Fortalecimento tem vida curta

No entanto esse fortalecimento teve vida curta para Trump.
A Câmara de Deputados liderada pela oposição democrata votou por limitar os poderes presidenciais em efetivar qualquer futura ação militar contra o Irã sem consulta ao Parlamento e agora o Senado dividido vai se posicionar.
A imprensa americana divulgou que Trump também autorizou uma operação militar para assassinar outro dirigente iraniano no Iêmen que fracassou[v].
Seu secretário de defesa Mark Esper deu uma entrevista pública afirmando desconhecer qualquer plano de Suleimani em atacar embaixadas americanas, principal motivo alegado por Trump para autorizar o assassinato[vi].

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O jornal britânico The Independent publicou artigo apontando negócios entre as empresas de Trump e iranianos que serviam de fachada para os negócios da Guarda Revolucionária Iraniana chefiada então pelo próprio Qassem Suleimani[vii].
Por fim sua ação teve pouco apoio entre o imperialismo europeu, ainda que tenha recebido o apoio entusiasmado do Estado de Israel e de seus aliados sauditas. Até mesmo um importante general da reserva brasileiro criticou a ação de Trump exemplificando que seria equivalente aos EUA bombardearem o Brasil alegando atacar o PCC, a principal organização narcotraficante do país[viii].

Avião abatido coloca em crise o regime iraniano

O fortalecimento do regime iraniano também teve vida curta. Ao derrubar com dois mísseis um avião de carreira ucraniano com 176 pessoas a bordo entre os quais uma maioria de iranianos no dia 7, e negar qualquer responsabilidade por três dias, acabou por levar manifestantes novamente às ruas contra o regime[ix]. Já são 4 dias de mobilizações lideradas pelo movimento estudantil com reflexos em outros setores.

Jornalistas que trabalham em órgãos de imprensa do regime pediram demissão[x]. Artistas lançaram um manifesto anunciando um boicote ao festival Fajr, uma premiação organizada pelo regime equivalente ao Oscar de Hollywood[xi]. A principal atleta iraniana anunciou sua saída da país e criticou duramente o regime pelo tratamento dado às mulheres e ao povo[xii]. Um líder da oposição burguesa pediu a renúncia do líder supremo, o Ayatollah Khamenei. O próprio presidente Hassan Rouhani afirmou se tratar de um erro inadmissível e pediu a formação de um tribunal[xiii] para julgar todos os envolvidos, com o objetivo de atingir setores do regime ligados ao Ayatollah Khamenei chamados de principistas, já que estes lideram a Guarda Revolucionária, que é a responsável pelo disparo dos mísseis.

Para completar seu inferno astral, esta semana a revolução iraquiana retomou sua força ao realizar uma grande manifestação em Bagdá exigindo o fim do regime burguês sectário e que os Estados Unidos e o Irã não transformem o Iraque em campo de batalha, exigindo o fim da influência de ambos nos negócios do país. E a revolução libanesa (que também enfrenta o regime burguês sectário cujo principal defensor neste momento é o Hezbollah, partido libanês aliado ao regime iraniano) realiza a semana de fúria com ações radicalizadas (ataques ao Banco Central, bloqueio das vias públicas, ocupação de edifícios públicos) ainda que contando com uma participação menor de manifestantes[xiv].

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A luta por hegemonia na região continua

Em que pese dificuldades e reveses, nenhuma das três forças políticas abandonaram o campo de batalha.

Trump arrancou o apoio do imperialismo europeu para impor um novo acordo nuclear com o Irã e para evitar a saída das tropas americanas do Iraque o que colocaria virtualmente o país sob hegemonia iraniana. Também foi ajudado pela posição dos países que tinham cidadãos no voo da Ukrainian Airlines abatido pelos mísseis iranianos de ampliar a pressão sobre o regime iraniano. Na esfera regional Trump conta com o apoio militar israelense que bombardeia regularmente as milícias ligadas ao regime iraniano em solo sírio e eventualmente em território iraquiano com o aval do regime russo[xv]. Também conta com o apoio da burguesia curda para manter sua influência sobre o Iraque.

Já o regime iraniano vetou cerca de 90 deputados de concorrer às eleições de 21 de fevereiro. São candidatos “reformistas”, ligados ao regime, mas críticos de Khamenei. Isso esvaziará ainda mais a legitimidade das eleições ao permitir apenas as candidaturas de aliados à Khamenei. Além disso, promoveu uma reunião das principais milícias xiitas iraquianas na cidade sagrada de Qom para unificar esforços pelo fim da influência americana no Iraque e para pôr fim à revolução iraquiana.

A reunião contou com presença entusiasmada do líder xiita Moktada al-Sadr, vencedor das últimas eleições e líder do exército de Mahdi (a nova nomenclatura das milícias Soraya Salam – Companhias da Paz). Ele propôs realizar uma marcha de um milhão de homens contra a presença americana na Praça Tahrir, principal local das manifestações contra o regime para, sob o pretexto de luta contra os americanos, agredir os manifestantes antirregime[xvi].

Já os manifestantes antirregime no Irã, Iraque e Líbano retomam as mobilizações sem qualquer alinhamento com o imperialismo americano. Um exemplo é o manifesto dos estudantes iranianos[xvii] contra tanto o Xá (que simboliza um regime pró-americano) como o líder supremo (que simboliza o atual regime do Velayat e-Faqih)[xviii]. O mesmo caminho é seguido pelos manifestantes no Iraque[xix] e no Líbano.

Nossa posição

Rechaçamos a agressão americana e exigimos a saída das tropas americanas de todo o Oriente Médio[xx]. Fazemos um chamado a todas as forças operárias, anti-imperialistas e democráticas a impulsionarmos mobilizações em todos os países contra a agressão americana, pela saída de todas as tropas, pelo fechamento de todas as bases militares ianques no Oriente Médio e pelo fim das criminosas sanções econômicas contra o Irã, principalmente dentro dos Estados Unidos.

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Ao mesmo tempo apoiamos a revolução iraquiana[xxi] que exige o fim do regime sectário[xxii] e o fim da influência americana e iraniana no país. Também apoiamos os manifestantes iranianos que lutam pelo fim do regime do Velayat e-Faqih[xxiii]. Apoiamos ainda a revolução libanesa contra o regime sectário. Chamamos todas as forças operárias e progressistas a construir a solidariedade internacional a esses processos revolucionários.

O caminho para a vitória das revoluções passa pela manutenção e pela radicalização da mobilização, pela organização de conselhos operários e populares, pela incorporação da classe trabalhadora e suas formas de luta, e pela divisão do exército e das forças policiais, trazendo os soldados para o lado da revolução.

Também passa pela formação de organizações políticas revolucionárias[xxiv] que auxiliem essas revoluções a vencer e não se limitar ao questionamento dos regimes sectários, teocráticos e ditatoriais, mas avançar essas lutas democráticas numa perspectiva anticapitalista e socialista.

 

[i]       https://litci.org/pt/mundo/oriente-medio-mundo/ira/a-crise-continua-aberta-no-oriente-medio/

[ii]      https://www.alaraby.co.uk/english/news/2020/1/8/iraq-finland-received-advance-warning-of-iran-missile-attack

[iii]     https://litci.org/pt/mundo/oriente-medio-mundo/ira/mais-uma-vez-morte-ao-ditador/   e   https://litci.org/pt/mundo/oriente-medio-mundo/ira/ira-os-protestos-de-massa-vao-parar/

[iv]    https://www.aljazeera.com/indepth/opinion/iraq-revolution-soleimani-assassination-200114094615099.html

[v]     https://www.nytimes.com/2020/01/10/world/middleeast/trump-iran-yemen.html

[vi]    https://www.nytimes.com/aponline/2020/01/12/us/politics/ap-us-united-states-iran.html?searchResultPosition=2

[vii]   https://www.independent.co.uk/news/world/americas/us-politics/trump-soleimani-iran-business-irgc-tower-baku-ivanka-organization-a9279136.html?fbclid=IwAR3fBHCjKBbyFCxI-po3RGu4227bpEBMJKfcd2QW5VEsdmO48_ESkWI10Q4

[viii]  https://noticias.uol.com.br/colunas/tales-faria/2020/01/04/e-se-trump-atacar-uma-instalacao-do-pcc-por-aqui-pergunta-etchegoyen.htm

[ix]    https://litci.org/pt/mundo/oriente-medio-mundo/ira/manifestantes-sobem-o-tom-contra-os-aiatolas-no-ira/

[x]     https://www.theguardian.com/world/2020/jan/13/journalists-quit-iranian-state-broadcaster-over-crash-cover-up

[xi]    https://www.nytimes.com/2020/01/13/world/middleeast/iran-plane-crash-missile.html

[xii]   https://news.yahoo.com/irans-sole-female-olympic-medallist-defects-210905911.html

[xiii]  https://www.nytimes.com/2020/01/14/world/middleeast/iran-plane-crash-missile.html

[xiv]  https://litci.org/pt/mundo/oriente-medio-mundo/libano/bancos-entram-na-mira-das-manifestacoes-no-libano/

[xv]   https://www.aljazeera.com/indepth/opinion/soleimani-killing-strengthens-putin-hand-syria-iraq-200115080353213.html

[xvi]  https://www.aljazeera.com/news/2020/01/sadr-calls-million-man-march-presence-iraq-200114180201883.html

[xvii] https://fjahanpour181258126.wordpress.com/2020/01/12/the-statement-issued-by-the-students-demonstrating-in-amir-kabir-university-in-iran/?fbclid=IwAR1DPrh07rBNHLPsTp9KI74acC0CucyfrT8W7-BemKQLLIM9Sd6tHU3Tnuw

[xviii]        https://www.middleeasteye.net/opinion/how-trump-and-pompeo-manipulated-protests-iraq-and-iran

[xix]  https://www.aljazeera.com/news/2020/01/qassem-soleimani-killing-sparks-concerns-deepens-divide-iraq-200110094506821.html

[xx]   https://litci.org/pt/mundo/oriente-medio-mundo/ira/repudiamos-o-ataque-dos-eeuu-e-o-assassinato-do-general-iraniano/

[xxi]  https://litci.org/pt/sem-categoria/todo-o-apoio-ao-levante-popular-no-iraque/

[xxii] Regime sectário ou confessional são os regimes que definem a relação de poder entre os setores burgueses a partir da religião a qual pertencem. Foi imposto no Líbano em 1923 pelo imperialismo francês, e no Iraque em 2003 pelo imperialismo ianque.

[xxiii]        Velayat e-Faqih significa o governo do jurisprudente, no caso o Imã ou líder supremo. Implantado no Irã após a vitória dos setores burgueses-clericais liderados pelo Ayatollah  Khomeini sobre os setores de esquerda e liberais na revolução de 1979, concede poderes ditatoriais ao Imã.

[xxiv]        https://litci.org/pt/especiais/polemica/os-marxistas-e-a-revolucao-libanesa/