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Os protestos populares que começaram em 15 de novembro contra o aumento dos preços dos combustíveis já são os maiores desde a revolução iraniana de 1979.

Por: Hassan al-Barazili

As próprias autoridades iranianas reconhecem a extensão dos danos:

O ministro do Interior Abdolreza Rahmani Fazli estimou que cerca de 200.000 pessoas participaram das manifestações, número bem acima de informações anteriores. Ele disse que os manifestantes danificaram mais de 50 delegacias de polícia, além de 34 ambulâncias, 731 agências bancárias e 70 postos de gasolina no país”.[1]

O que eles não reconhecem é o número de manifestantes mortos, feridos ou presos, nem os massacres em pelo menos duas cidades: Mahshahr, na província do Cuzistão, e Shahriar, perto de Teerã.

A pior violência documentada até agora aconteceu na cidade de Mahshahr e seus subúrbios, com uma população de 120.000 pessoas na província do Cuzistão, no sudoeste do Irã – uma região com maioria étnica árabe que tem uma longa história de descontentamento e oposição ao governo central. Mahshahr fica ao lado do maior complexo petroquímico industrial do país e serve como porta de entrada para o Bandar Imam, um dos principais portos.

Em muitos lugares, as forças de segurança reagiram abrindo fogo contra manifestantes desarmados, jovens em grande parte desempregados ou de baixa renda entre 19 e 26 anos, segundo relatos de testemunhas e vídeos. Somente na cidade de Mahshahr, no sudoeste, testemunhas e equipes médicas disseram que membros da Guarda Revolucionária Islâmica cercaram, mataram a tiros de 40 a 100 manifestantes – a maioria jovens desarmados – em um pântano onde haviam buscado refúgio.

Por três dias, de acordo com esses moradores, os manifestantes conseguiram controlar a maior parte de Mahshahr e seus subúrbios, bloqueando a estrada principal para a cidade e o complexo petroquímico industrial adjacente. O ministro do Interior do Irã confirmou que os manifestantes tomaram controle sobre Mahshahr e suas estradas em uma entrevista na televisão na semana passada, mas o governo iraniano não respondeu a perguntas específicas nos últimos dias sobre os assassinatos em massa na cidade”.[2]

A Anistia Internacional relatou sobre o massacre em Shahriar:

O número de pessoas que se acredita terem sido mortas durante as manifestações no Irã que ocorreram desde 15 de novembro aumentou para pelo menos 208, disse a Anistia Internacional, com base em relatórios confiáveis ​​recebidos pela organização. O número real provavelmente será maior. Dezenas de mortes foram registradas na cidade de Shahriar, na província de Teerã – uma das cidades com maior número de mortos”.[3]

A ativista iraniana Frieda Afary postou em sua página do Facebook em 3 de dezembro que:

De acordo com ativistas locais, mais de 800 pessoas foram mortas pelo regime em todo o país durante os protestos de massas que começaram em 15 de novembro“.

De acordo com a Associated Press:

Um legislador iraniano afirmou avaliar que mais de 7.000 pessoas haviam sido presas“.[4]

A grande extensão dos protestos, a composição social operária e popular, e a repressão brutal remetem à revolução iraniana de 1979.

A revolução viu milhões nas ruas, algo que não se viu nesses protestos recentes. No entanto, essas manifestações se tornaram violentas no período de um dia, mostrando o perigo que o governo do Irã tem pela frente, uma vez que provavelmente enfrentará mais escolhas difíceis, já que as sanções provavelmente não serão levantadas pois começaram a romper os limites de centrífugas, enriquecimento e estoques impostos pelo acordo nuclear.

“Esses tumultos não são os últimos e definitivamente acontecerão no futuro”, alertou o comandante interino da Guarda Revolucionária, general Ali Fadavi.”[5]

O dissidente Mir Hossein Mousavi também lembrou a revolução de 1979:

“” Isso mostra a frustração das pessoas com a situação do país. Tem uma semelhança completa com o assassinato brutal de pessoas no dia sangrento de 8 de setembro de 1978”, disse Mousavi, de acordo com o comunicado publicado pelo site Kaleme há muito tempo associado a ele. “Os assassinos do ano de 1978 eram representantes de um regime laico, mas os agentes e atiradores em novembro de 2019 eram representantes de um governo religioso“.[6]

Ao contrário do que aconteceu na revolução de 1979 e na “revolução verde” de 2009, o número da mortos concentraram-se em poucos dias.

Durante a onda de protestos de 2009 apelidada de “Revolução Verde”, 72 manifestantes foram mortos ao longo de dez meses.

A revolução de 1979 viu 2.781 mortos em 15 meses:

A Fundação dos Mártires mais tarde contratou – mas não publicou – um estudo sobre os mortos no decorrer de todo o movimento revolucionário, começando em junho de 1963. Segundo esses números, 2.781 manifestantes foram mortos nos quatorze meses de outubro de 1977 a fevereiro de 1979. A maioria das vítimas estava na capital – especialmente nos distritos operários do sul de Teerã[7]

Para onde vai o Irã?

Definitivamente, é difícil prever se os protestos em massa se transformarão em uma revolução em larga escala que poderá derrubar o regime do Velayat e-Faqih[8] e abrir o caminho para o poder dos trabalhadores e um Irã socialista baseado em conselhos democráticos de trabalhadores.

Alguns dos obstáculos para o regime permanecer no poder são fortes: a recessão mundial iminente, as brutais sanções econômicas dos EUA e as revoluções em andamento em todo o mundo, principalmente no Iraque e no Líbano, onde está em jogo o prestígio do regime iraniano.

Por outro lado, o regime se beneficia da ausência de organizações nacionais de trabalhadores e do povo, como centrais sindicais ou conselhos operários e populares. Essas organizações podem unir os protestos nas ruas às greves dos trabalhadores e trabalhadoras, como na revolução de 1979, construir autodefesa para combater a repressão brutal, tornando-se centros democráticos para os explorados e oprimidos.

Outra ausência crítica é o partido revolucionário. Há ativistas dentro e fora do Irã que têm o potencial de construir uma organização que é fundamental em todos os momento da luta, seja para divulgar as condições das classes trabalhadoras e para organizar a solidariedade com protestos e presos políticos, seja para momentos de crise revolucionária quando é necessário impedir que a revolução seja sequestrada ou traída.

De qualquer forma, o que chama a atenção é que a repressão repentina e implacável mostra que o regime sabe que o período de “paz” acabou e que os protestos operários e populares vieram para ficar.

[1] https://www.aljazeera.com/news/2019/11/iran-cia-links-arrested-inciting-deadly-protests-191127170333511.html

[2] https://www.nytimes.com/2019/12/01/world/middleeast/iran-protests-deaths.html

[3] https://www.amnesty.org/en/latest/news/2019/12/iran-death-toll-from-bloody-crackdown-on-protests-rises-to-208/

[4]  https://apnews.com/7a4dec6db2ab451bbb6c6cab4b524a79

[5] https://apnews.com/7a4dec6db2ab451bbb6c6cab4b524a79

[6] https://apnews.com/38c1c25858e34cd6b38c2e093158f88f

[7] Abrahamian, Ervand, The History of Modern Iran, 2nd edition, 2018, Cambridge University Press, pages 165-166

[8] Supremacia do Jurista Islâmico. Regime na qual o Imã (líder religioso) governa com poderes similares aos do antigo ditador Xá Reza Pahlevi