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Irã

Incerteza sobre negociações mantém o estreito de Hormuz bloqueado

Fábio Bosco

maio 11, 2026

Após dez semanas desde o início da agressão militar estadunidense-israelense contra o Irã, ainda não há um cenário totalmente definido. Há um frágil cessar-fogo em curso que completa um mês, com três cenários possíveis.

A principal conclusão é que o plano estadunidense-israelense de uma vitória avassaladora e rápida à moda da Venezuela fracassou. A estratégia iraniana de guerra assimétrica, com ataques com mísseis e drones contra países com bases estadunidenses e Israel, e acima de tudo, o bloqueio seletivo do estreito de Ormuz se revelou bem sucedida ao provocar um impasse devido à maior crise energética internacional com reflexos econômicos e políticos importantes em todo o mundo e dentro dos Estados Unidos também.

Frente a esta situação, despontam três cenários possíveis: acordo de médio ou longo prazo, a retomada das ações militares ou um tipo de “guerra fria” prolongada intercalando ações militares e sanções com negociações.

A retomada das ações militares tal qual nos primeiros 38 dias da agressão não é a hipótese mais provável. Sob pressão da maioria das grandes corporações que querem evitar uma recessão mundial, e da impopularidade da guerra expressa nas pesquisas e nas mobilizações de No Kings Day e Primeiro de Maio, Trump busca uma saída na qual ele possa se apresentar como vencedor.

No início da guerra, isso significava uma queda do regime iraniano ou destruição de toda a infraestrutura do país. Hoje, Trump se limita a exigir o fim do programa nuclear centrado na construção de bombas atômicas, e a reabertura irrestrita de Ormuz como pontos centrais na negociação.

Seu objetivo se limita a conseguir, pela via da pressão diplomática, um acordo nuclear melhor que o firmado pelo presidente Obama em 2015. Por isso apresentou a proposta de congelamento do enriquecimento de urânio por doze anos e a entrega parcial das reservas iranianas de urânio (o Irã possui cerca de 11 toneladas de urânio, das quais cerca de 400 quilos enriquecidos a 60% que Trump quer retirar do país).

Outro ponto: a abertura do mercado de energia do país às petrolíferas estadunidenses, é de interesse mútuo. Trump ganharia “leverage” sobre seu principal concorrente, o imperialismo chinês que é o principal destinatário do petróleo iraniano. E o Irã poderia modernizar sua indústria e vender seu petróleo a preços internacionais, sem o desconto imposto pela China. Este ponto aparece na discussão sobre o fim das sanções ao Irã.

O regime iraniano também não quer a retomada da agressão devido à toda destruição que provoca no país, e busca objetivos estratégicos tanto econômicos (fim das pesadas sanções, descongelamento dos fundos iranianos no exterior, reparações de guerra, cobrança de pedágio em Ormuz) como geopolíticos (o controle sobre Ormuz, a manutenção do programa nuclear para fins civis, e o fim permanente da guerra em todos os frontes – incluindo o Líbano mas não a Palestina), que expressem seu sucesso em sobreviver à agressão conjunta da maior potência mundial e da maior potência regional.

Em sua proposta de negociações, o regime iraniano propôs um acordo de paz em três fases. Na primeira haveria um cessar-fogo em todos os frontes (incluindo Líbano) e a reabertura do estreito de Ormuz, pondo fim ao bloqueio marítimo contra o país. Na segunda, uma troca entre o programa nuclear para fins militares por medidas econômicas para a reconstrução do país, principalmente o fim das sanções econômicas e o descongelamento dos fundos iranianos no exterior. Na terceira, um novo Oriente Médio preservando o papel do Irã como importante potência regional com seus aliados, e eliminando o plano israelense de um Oriente Médio totalmente sob sua hegemonia.

O impasse nas negociações está levando a economia internacional a uma recessão. A reabertura do estreito de Ormuz passou a ser chave para Trump e para o Irã, e pode se dar sem um acordo geral, de forma a dar espaço a um tipo de “guerra fria” entre os dois países.

O único interessado em retomar a guerra é o Estado de Israel. Sua frágil estabilidade interna depende das guerras para impôr novas conquistas territoriais e sua completa hegemonia regional (uns chamam esse projeto de Grande Israel, outros de novo Oriente Médio). Mas Israel sequer participa das negociações.

Israel perdeu a batalha por “corações e mentes” em todo o mundo devido ao genocídio em Gaza, e depende totalmente do imperialismo estadunidense para continuar qualquer guerra, tanto em termos econômicos, políticos e militares. Mas o imperialismo estadunidense passa por um momento de declínio, ainda que mantenha sua condição hegemônica, e a popularidade de Israel sofreu um abalo sísmico no país, em particular entre a juventude, entre os quais a maioria simpatiza mais com os palestinos que com Israel, incluindo os jovens judeus.

Na Palestina o genocídio continua!

Esse enfraquecimento de Israel não se reflete no genocídio em curso contra os palestinos de Gaza, nem na agressiva limpeza étnica na Cisjordânia, nem no regime de apartheid imposto sobre os palestinos de 48 (que vivem nos territórios palestinos conquistados em 1948).

Israel conserva apoio e cumplicidade internacional para seguir o genocídio em Gaza, sitiada por terra, mar e ar com o aval do “Conselho de Paz” liderado por Trump que se limita a repetir a exigência israelense de desarmamento incondicional da resistência palestina, enquanto as forças israelenses avançam sobre o território palestino e impedem o ingresso suficiente de ajuda humanitária.

Por outro lado, o enfraquecimento de Israel, a continuidade do genocídio e a interceptação da flotilha estão por trás de um fortalecimento das mobilizações de solidariedade à Palestina, em particular na Europa, alguns países da America Latina, e na Síria sem atingir, no entanto, o patamar que havia antes do cessar-fogo. É só com a solidariedade internacional que os palestinos podem contar para seguir a luta contra o Estado genocida.

No Líbano, Trump trabalha para impor a normalização das relações com Israel. Mas Israel exige o desarmamento do Hezbollah manu militari, o controle de uma faixa fronteiriça no sul do Líbano (da qual nunca mais pretende sair) bem como o direito de atacar militarmente qualquer alvo em todo o país. Esse tipo de acordo é uma total capitulação e o governo libanês se apoia na oposição da Arabia Saudita para buscar um acordo melhor. Enquanto isso, Israel não cumpre o cessar-fogo acordado e promove uma guerra total no sul, e ontem atacou a capital, Beirute. De outro lado, o Hezbollah segue ativo e incorporou em seu arsenal drones orientados a cabo, que são baratos e difíceis de interceptar, com os quais dificulta os avanços israelenses no sul.

O impacto da guerra dentro dos Estados Unidos

Ao contrário da agressão à Venezuela, Trump não está fortalecido após 10 semanas de agressão ao Irã.

Dentro dos Estados Unidos, ele enfrenta baixa popularidade, com questionamento dentro do próprio movimento MAGA (Make America Great Again). A guerra e seus efeitos deletérios sobre a economia americana se somam a outros desgastes como a atuação do ICE e sua relação com o milionário Epstein.

A maioria das grandes corporações perdem com a desaceleração da economia nacional e internacional. As que lucram com a agressão militar, como o complexo industrial-militar e as “Big Techs” já não dependem da continuidade da guerra para manter seus lucros que estão garantidos pela corrida armamentista e pelos investimentos públicos. Por outro lado, a indústria petrolífera, grande beneficiária do fechamento do estreito de Ormuz, pode se beneficiar de eventual acesso às reservas iranianas em caso de suspensão das sanções.

A classe trabalhadora estadunidense paga o preço da agressão, seja através da inflação motivada pelo aumento do preço do petróleo, seja através dos cortes no orçamento público de educação, saúde e assistência social para fortalecer o orçamento militar. O secretário de defesa Pete Hegseth afirmou que foram gastos USD 25 bilhões com a agressão ao Irã. Mas especialistas apontam que estes gastos estão entre USD 28 e USD 35 bilhões, quase um bilhão de dólares por dia.

No Irã, o fortalecimento do regime e da repressão

O sucesso da estratégia militar iraniana levou ao fortalecimento da guarda revolucionária internamente ao regime, bem como uma moralização de sua base social que estava fragilizada pelos massacres de 8 e 9 de janeiro contra as mobilizações operárias e populares.

Os monarquistas e o MEK apoiaram a agressão imperialista e hoje enfrentam um desprestígio geral, tal qual o MEK sofreu quando apoiou a invasão do Irã pelo regime iraquiano liderado por Saddam Hussein.

A maioria dos setores oposicionistas se opôs à agressão imperialista, seja pela experiência histórica que aponta que nenhuma invasão estrangeira beneficiou o país, seja pela destruição e morte de mais de três mil iranianos, a imensa maioria civis.

Apesar dos pesados ataques imperialistas, o regime iraniano encontrou os meios para executar, desde o dia 17 de março, pelo menos 10 manifestantes presos em janeiro em segredo, sem comunicação prévia à família ou advogado, sob acusações arrancadas sob tortura.

Além disso, o corte de acesso à internet e à telefonia impede a comunicação entre as famílias e amigos, bem como inviabiliza diversas atividades econômicas, afetando, pelo menos, um milhão de trabalhadores.

Essas medidas repressivas em nada ajudam o esforço de guerra contra a agressão imperialista. Ao contrário, divide a população e aliena dissidentes. Essa repressão brutal tem como objetivo impedir a eclosão de novas mobilizações contra a carestia e a falta de liberdades democráticas.

Medidas necessárias para a defesa do país contra a agressão imperialista como o armamento geral da população, particularmente frente à ameaça de invasão terrestre, não foram tomadas.

A saída dos Emirados Árabes da OPEP

A agressão imperialista acelerou a cisão entre os Emirados Árabes e a Arábia Saudita. Esta cisão reflete interesses econômicos e políticas regionais distintas. De um lado os Emirados Árabes se desligaram da OPEP para se desobrigar de cumprir os tetos de exportação de petróleo e gás, e aceitam a hegemonia israelense para atuar em outros países em disputa com a Árabia Saudita como no Iêmen e no Sudão. Durante a agressão imperialista, Israel forneceu-lhe baterias antiaéreas que, evidentemente, não conseguiram derrubar os mísseis e drones iranianos. Agora contam com o apoio israelense para fazer frente ao poderio iraniano.

Por outro lado, a Arabia Saudita não aceita o “novo Oriente Médio” sob hegemonia israelense. Nem aceita uma hegemonia iraniana. Ao contrário, aspira fortalecer sua influência regional. Para isso, está construindo uma aliança com o Paquistão, o Egito e a Turquia e deve diversificar as relações com os países imperialistas.

A cizânia interimperialista entre Estados Unidos e Europa

A agressão contra o Irã acelerou a crise entre os Estados Unidos e a Europa. Seus antecedentes remetem ao apoio ao imperialismo russo em detrimento do imperialismo europeu na Ucrânia, na disputa sobre a Groenlândia e no apoio dado à extrema-direita europeia, particularmente à AfD alemã e a Viktor Orban, apesar da impopularidade recorde de Trump entre a população europeia.

A estes casos se soma a cobrança de apoio à agressão ao Irã, após a estratégia de Trump de vitória rápida não se verificar. Na semana passada, Trump anunciou a retirada de cinco mil soldados de uma base militar da OTAN na Alemanha. Trump não pretende explodir a OTAN, apenas submeter de forma mais profunda o imperialismo europeu a seus ditames.

China e Rússia, beneficiárias da guerra

No curto prazo, o imperialismo russo se beneficiou da renda petroleira fruto do levantamento das sanções estadunidenses que se encerram em 16 de maio. No entanto, esse benefício foi limitado pelos ataques iranianos contra alvos da indústria petrolífera russa e seus portos. Esses ataques reduziram a produção e exportação de petróleo em, pelo menos, 20%.

Apesar da arrecadação extra, o esforço de guerra consome uma parte crescente do orçamento público além de mais de mil baixas por dia, das quais 25% são mortes. Calcula-se que a Rússia já perdeu mais de 1,2 milhões de soldados, um quarto deles mortos. Esta situação aponta que a Rússia está chegando em uma situação limite, e depende cada vez mais de Trump e Xi Jinping para conseguir arrancar uma parte do território ucraniano.

Já o imperialismo chinês se beneficia, no médio e longo prazo, da perda de credibilidade política e militar internacional dos Estados Unidos devido ao impasse na agressão ao Irã, ao que se soma outras medidas como o tarifaço. Além disso, a China esteve por trás dos esforços do Paquistão pelo cessar-fogo. Nos últimos dias, o regime chinês pediu a reabertura incondicional do estreito de Ormuz influenciando a posição iraniana no mesmo sentido.

Pela vitória militar do Irã contra a agressão imperialista

A guerra ainda não terminou mas seu impacto na economia internacional e no desmonte da ordem mundial nascida ao final da segunda-guerra mundial já é visível.

A derrota do imperialismo estadunidense e de Israel é de interesse não apenas da classe trabalhadora iraniana, libanesa e palestina, mas de todos os povos oprimidos que lutam por autodeterminação ou liberdade. Caso se confirme uma derrota do imperialismo estadunidense nesta guerra, mesmo que Trump não o admita, isso terá um impacto muito importante no mundo, enfraquecendo o govrrno imperialista de ultra-direita.

Infelizmente o regime iraniano não libertou os presos políticos nem armou a população, medidas necessárias para a defesa do país. Denunciamos as limitações que o regime impõe à própria defesa do país: é necessário que o regime entregue as armas para a população para a defesa do país.

Defendemos a vitória militar iraniana – já que isto se constituiria um passo para sua libertação – sem que isso implique em qualquer apoio político ao regime. Apoiamos as iniciativas de auto-organização da classe trabalhadora, da juventude, das mulheres e das nacionalidades oprimidas para que, participando na defesa do Irã, hoje dirigida por um regime reacionário, possa construir a direção revolucionária que hoje falta e as condições para retomar o caminho da grande revolução operária de 1979 que foi interrompido pelos aiatolás.

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