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Muitos negros e negras que residem em Portugal sabem que o racismo, nas suas várias manifestações, é uma dura realidade nas suas vidas: causa injustiças, humilhações e atos de violência física que podem levar à morte.

Por: Em Luta – Portugal

Estão cansados da impunidade que absolve os crimes racistas, uma impunidade patrocinada por organismos do Estado, que se recusam a investigar as denúncias que lhes chegam às mãos. Muitas das negras e negros que aqui nasceram ou escolheram Portugal para viver estão fartos de ouvir dizer, a cada instante, que o racismo não existe, ao mesmo tempo em que são injuriados, humilhados e agredidos nas ruas, nos locais de trabalho, nas repartições públicas e durante os seus momentos de lazer.

As notícias em torno da violenta agressão e posterior morte de Luís Giovani, em Bragança, no final do ano passado, e do ato de brutalidade policial que foi infligido a Cláudia Simões, na Amadora, fizeram soar o alerta. A comunidade negra ocupou as ruas num grito de revolta por mais justiça e pelo fim da impunidade dos crimes racistas. Estas manifestações são demonstrativas de um estado de vigilância e de um ânimo para a luta que não esmorece perante o profundo descontentamento face à ausência de melhorias de fundo, apesar de algumas melhorias registadas fruto dessas mesmas mobilizações.

Muitos de nós, negros e afrodescendentes que residem em Portugal, o país que ocupou e saqueou a terra dos nossos pais, estão cientes da urgência do combate ao racismo. Mas será que estamos de acordo quanto aos caminhos que devem ser trilhados?

Será o empoderamento negro a solução?

Foi saudada como um marco na história política de Portugal a eleição, em outubro passado, de três mulheres negras para o Parlamento, a saber: Beatriz Gomes pelo BE, Joacine Katar Moreira pelo LIVRE e Romualda Fernandes pelo PS. Este momento representou um pequenino e simbólico passo numa longa luta contra a invisibilidade na sociedade portuguesa, que está muito longe de ser ganha. Negras e negros aspiram a aceder a lugares de decisão política e económica, à efetiva relevância no panorama cultural, enfim, à visibilidade no conjunto da sociedade. Nós no Em Luta consideramos estas aspirações porque elas expressam uma natural vontade de afirmação da dignidade da mulher e do homem negros em sociedades profundamente racistas. Mas estas demandas, que correspondem a um desejo de empoderamento, não respondem às causas do racismo estrutural.

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Tomemos como exemplo o caso de Isabel dos Santos, a multimilionária angolana entretanto caída em desgraça: esta filha de José Eduardo dos Santos e do regime corrupto que o ex-presidente angolano ajudou a perpetuar, teve, até há pouco tempo, uma participação na empresa de telecomunicações NOS. Tal significa que a empresária negra tirou dividendos de uma companhia  altamente lucrativa, mas que explora trabalhadores precários, alguns deles negros.

Quer Isabel dos Santos, quer os trabalhadores negros precários da NOS sofrem de racismo quotidiano. Mas Isabel dos Santos beneficia diretamente da exploração que é infligida a todos os trabalhadores da NOS, efetivos e precários, brancos e negros, homens e mulheres. E o racismo, ao explicar uma pretensa inferioridade das pessoas negras face às pessoas brancas, ajuda a justificar os salários mais baixos e as piores condições de vida de negros e negras.

Ao colocar trabalhadores brancos contra trabalhadores negros, o racismo semeia a desunião e facilita a exploração de todos eles. Isabel dos Santos, embora sofra de racismo, tira proveito do racismo que afeta os seus trabalhadores negros da NOS. Daqui se conclui que há diferenças – e grandes – entre Isabel dos Santos e os trabalhadores negros da NOS. Não estamos do mesmo lado.

Um caminho para derrotar o racismo

Acabar com o racismo é um combate de todos os dias, necessário para construir uma sociedade mais justa, onde fortunas obscenas como a de Isabel dos Santos e de outros capitalistas deixem de existir.

O racismo divide os trabalhadores, justificando assim inferiorizar e explorar mais uma parte deles. Mas com isso rebaixa as condições do conjunto dos trabalhadores: “se tu não aceitares estas condições, haverá quem queira”. Por isso, não é possível acabar com o racismo dentro da sociedade capitalista, pois este sistema utiliza o racismo para explorar ainda mais o conjunto da classe trabalhadora.

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Por outro lado, o capitalismo utiliza também o racismo para impedir que os trabalhadores se unam para lutar contra os patrões e o sistema de exploração. Dando-lhe uma falsa ilusão de pertença ao grupo privilegiado, faz o trabalhador branco pensar que tem mais unidade com o patrão branco do que com o trabalhador negro, que seria o ser “competidor e inimigo”. Assim, o racismo é não só um mecanismo de opressão e dominação sobre os negros, mas também um mecanismo de alienação do trabalhador branco, que o impede de ganhar consciência de classe e unir-se ao trabalhador negro para junto derrotarem os seus exploradores e o sistema capitalista.

O Em Luta considera que o combate ao racismo interessa aos trabalhadores e deve envolver o conjunto da classe. Os que trabalham devem mobilizar-se pela conquista do direito à saúde, à habitação, pelo fim da precariedade, por melhores salários, pelo fim da brutalidade policial racista e por uma política de reparações que compense a população negra e afrodescendente que carrega consigo as sequelas do colonialismo. Na sociedade socialista que queremos construir, a classe trabalhadora – negra e branca – tomará o poder para que a riqueza por si produzida seja colocada à sua disposição e usada em seu benefício.