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Um movimento inspirado no protesto espanhol e a expressar a mesma vontade de mudança e de repúdio ao regime da Geração à Rasca
 
Em 20 de Maio, convocado via facebook, e-mails e SMS, inicia-se em frente ao consulado de Espanha em Lisboa o movimento “Democracia Verdadeira Já!”, em solidariedade com o protesto iniciado em 15 de Maio (15-M) no Estado Espanhol. No dia seguinte, decidiu-se montar um acampamento na Praça do Rossio, que, juntamente com as assembleias populares, passou a marcar os finais de tarde daquela praça lisboeta durante muitos dias consecutivos.
 
Influenciados pelas mobilizações árabes, por uma Grécia que se mantém em luta, pelas manifestações que não têm dado descanso em várias capitais européias (Londres, Berlim, Bruxelas…), e em sintonia com as acampadas que se multiplicaram no Estado Espanhol, os participantes das assembleias populares do Rossio recusaram-se a aceitar o apelo de limitar a luta ao voto e quiseram manter vivo o espírito de 12 de Março, da Geração à Rasca.
 
Em contracorrente
 
No contexto nacional, a ocupação do Rossio, assim como de outras praças em Coimbra e no Porto, surge em contracorrente: em pleno processo de trégua eleitoral, com a troika/FMI [1] nos nossos calcanhares e com a diluição do movimento Geração à Rasca, que, no dia 12 de Março, levou mais de 200 mil pessoas às ruas das principais cidades do país.
 
Este movimento foi vitorioso na medida em que provocou a derrota do PEC4 e a queda do governo PS. No entanto, ao não ter tido continuidade com mais mobilizações e protestos (na tradicional ausência de lutas pré-eleitorais decretada pelas direções sindicais), não deu resposta política à vinda do FMI/Troika e deixou espaço para que a massiva campanha mediática da “necessidade” da “ajuda” externa para pagar a dívida surtisse efeito.
 
Ausência de democracia
 
Todos os dias ao final da tarde começava a assembleia em que se discutiam e votavam as propostas trazidas pelos diferentes grupos de debate/discussão. Por estas assembleias passaram principalmente jovens, mas não só. Muitos deles fazem parte de um enorme setor social que não se sente representado por nenhum partido político ou sindicato, são trabalhadores precários e estão revoltados com a situação do país, de desemprego e falta de perspectivas. Mais do que um apartidarismo generalizado, o que existe é uma profunda rejeição aos partidos do regime (PS, PSD e CDS) e uma grande desconfiança dos partidos de esquerda e do sindicalismo existente, que acabam por não lhes dar voz ou incorporar as suas inquietações e se acomodam à democracia formal.
 
Contra o FMI e a troika
 
Alguns dos pontos centrais dos debates foram novas formas de democracia e o memorando de entendimento entre FMI/troika e PS, PSD e CDS. Dessas discussões surgiu um manifesto que repudiava as medidas de austeridade que colocam nas costas dos jovens e dos trabalhadores os custos de uma crise e de uma dívida que não são suas. Para, além disso, foi consensual a exigência de um referendo que, à semelhança da Islândia, perguntasse ao povo se queria ou não pagar esta dívida.
 
A consequência direta das assembleias populares foi a manifestação de 28 de Maio, convocada pelo “Democracia Verdadeira Já!” e que contou com cerca de 700 pessoas, sendo sua principal palavra de ordem “Fora daqui, a fome, a miséria e o FMI”.
 
Ao final de duas semanas o acampamento na Praça do Rossio foi desmontado, mas o movimento continua, com assembleias populares todas as semanas na mesma praça, grupos de trabalho a funcionar e mobilizações convocadas, como a realizada em 19 de Junho, que reuniu cerca de 500 pessoas.
 
Unir aos trabalhadores
 
A principal, e involuntária, fraqueza do “Democracia Verdadeira Já!” está na sua praticamente inexistente ligação com o movimento dos trabalhadores. Contra essa ligação atuam o clima de expectativa pós-eleitoral instalado na sociedade e a falta de interesse até agora demonstrada pelos aparatos sindicais. Pelo contrário, a manutenção e o fortalecimento desse movimento só serão assegurados se esta ligação for, de alguma forma, estabelecida.
 
No Estado espanhol, esta ligação poderá ter começado em 19 de Junho, data para a qual o movimento “Democracia Real Ya!” convocou manifestações em várias cidades do país. Assembleias realizadas em bairros de Madrid também convocaram, para esse mesmo dia, marchas até o Parlamento para protestar contra o desemprego, a precariedade trabalhista e as péssimas condições de vida da população.
 
Organizações sindicais, sociais e políticas que se opõem ao Pacto Social feito pelas principais centrais sindicais com o governo Zapatero estão a apoiar as marchas e a convocar jovens e trabalhadores a somarem-se ao movimento para transformar o dia 19 de Junho numa grande jornada de luta (ver artigo abaixo).
 
 
Protesto em Espanha pede nova greve geral
 
Mais de 200 mil pessoas manifestam-se contra o Pacto do Euro, os cortes sociais e a corrupção nas principais cidades do país, com destaque para Madrid, Barcelona e Valência.
 
O dia mal amanhecera quando milhares de moradores de Madrid e cidades vizinhas tomaram as ruas em direção à Praça Neptuno, no centro da cidade, onde fica o Parlamento. Estávamos em 19 de Junho, data apontada pelo 15-M, movimento surgido nas gigantescas mobilizações de 15 de Maio e cujo lema é “Democracia Real Ya”, para uma nova manifestação de protesto.
Nas seis marchas que confluíram para a Praça Neptuno os manifestantes, de todas as idades, levavam cartazes, feitos por eles mesmos, contra o desemprego, a precariedade laboral, os políticos e banqueiros. Entre as palavras de ordem gritadas ouvia-se: “Que no, que no, que no nos representan”, “Vuestra crisis, no la pagamos”, “Lo llaman democracia y no lo es”, “El pueblo unido, jamás será vencido”. O ambiente era festivo e organizado, em contraste com o grande dispositivo policial montado em torno da praça.
 
Pacto do Euro
 
Em Madrid e Barcelona, os manifestantes pediram a convocação de uma greve geral e, na capital catalã, exigiram ainda a demissão do conselheiro do Interior Felip Puig. O conselheiro foi quem ordenou o desmantelamento do acampamento de manifestantes na Praça da Catalunha, em finais de Maio, causando 120 feridos. Os catalães reivindicaram também a suspensão do processo movido contra vários manifestantes que se encontram presos desde 15 de Junho, acusados de, nesta data, terem agredido deputados que iriam discutir novos cortes orçamentais a áreas sociais.
 
Um dos alvos dos manifestantes foi o Pacto do Euro, um acordo impulsionado por Alemanha e França e aprovado em Março pelos governos europeus, que prevê cortes profundos nos direitos sociais. Os eixos do pacto são: aumento da idade da aposentadoria, vinculação dos salários à produtividade, flexibilização do mercado de trabalho, reforma do sistema de pensões e de proteção social. 
 
“Sobram razões para sair às ruas”, comenta Corriente Roja, partido de esquerda do estado espanhol. “Os governos e poderes públicos, longe de solucionarem o drama do desemprego, dos salários de miséria, dos despejos das casas, da falta de futuro para os jovens, continuam com as demissões em massa”.  
 
Origem do 15-M
 
O 15-M teve origem numa jornada de protestos a 15 de Maio que levou dezenas de milhares de espanhóis às ruas. A partir de uma convocação difundida pelas redes sociais da Internet, um grupo de jovens acampou na Praça Puerta del Sol, centro de Madrid, e, em poucos dias, foi seguido por outros milhares de jovens, trabalhadores e desempregados. O 15-M, além de repudiar os ataques do governo espanhol aos direitos sociais, rechaça os partidos tradicionais do país, os sindicatos e as centrais atrelados ao Estado, como a CCOO e a UGT.
 
Os trabalhadores e jovens não dão trégua ao governo e aos patrões. As manifestações sucedem-se a 15 de Maio, 15 de Junho e 19 de Junho. A próxima tarefa é preparar a greve geral nos locais de trabalho e nos bairros, contra um governo tão desgastado que perdeu 1,5 milhões de votos nas eleições municipais de 15 de Maio.
 
Nota:
[1] Troika – FMI, Comissão Europeia (CE) e Banco Central Europeu (BCE)
 
Fonte: Jornal Ruptura no. 117, julho/2011