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Após o artigo dedicado à análise das posições do Partido Comunista de Marco Rizzo (1), que foi lido em nosso site e no Facebook por milhares de pessoas já no primeiro dia de publicação, continuamos nossa viagem pelos “partidos comunistas” examinando as posições da Esquerda, Classe e Revolução (em italiano, SCR – Sinistra Classe Rivoluzione).

Por: Francesco Ricci

O objetivo desta série de artigos é tentar explicar por que, em nossa opinião, a atual divisão em tantos “partidos comunistas” é motivada por diferenças estratégicas reais sobre “o que fazer?”. Ou seja, a pergunta se refere a que partido é necessário construir nas lutas de massas que estão incendiando todos os continentes. Fazemos isso rigorosamente com um método: comparar programas e posições, evitando contraposições estéreis baseadas em caricaturas e insultos. Sempre respeitamos o compromisso e os sacrifícios de camaradas que militam em organizações que não a nossa, sempre estamos prontos para o confronto, mas também, certamente, para a unidade na luta.

Não é possível, pelo menos, unir os “trotskistas”?

Se é mais simples perceber as diferenças entre o nosso projeto e o do PC de Rizzo, que é abertamente stalinista, pode ser menos simples entender à primeira vista as diferenças que temos entre várias organizações que têm referência no e provenientes do trotskismo.

“Por que pelo menos vocês trotskistas não se juntam?”, perguntam-nos frequentemente. De fato, o método marxista também é válido neste caso: não se ater às definições que alguém dá a si mesmo, mas verificar a correspondência entre o nome e a coisa, entre aparência e substância. Para fazer isso, não se pode deixar de examinar os programas e as ações concretas de cada organização. A questão não é proclamar-se “mais revolucionário” que os outros, mas entender quais são as diferenças fundamentais, estimular o confronto, permitir a cada militante uma escolha bem fundamentada.

Tudo isso na constatação de que o partido revolucionário com influência de massa, que é uma necessidade urgente (ainda mais nessa fase de convulsão social), ainda não existe. Tampouco temos a pretensão, como PdAC e LIT-Quarta International, de sê-lo, embora estejamos convencidos de que somos um instrumento fundamental, e em grande parte único, para levar ao êxito essa empreitada que deve necessariamente passar por processos de fusão entre diferentes organizações, divisões e confrontos programáticos. Afinal, esse é o caminho que seguiu o partido que continua sendo um modelo para nós: o Partido Bolchevique que levou a classe operária à vitória em outubro de 1917.

Existem quatro organizações que têm origem no ou reivindicam o trotskismo na Itália (excluindo os grupos que só atuam em blog): além do PdAC, Sinistra Anticapitalista, PCL e SCR. É deste último que vamos tratar neste artigo.

Dois pontos de consonância com a SCR

Das organizações citadas, a SCR é a única, além de nós, que tem uma concepção de partido militante e é a única que faz parte, com o Alternativa Comunista, de uma organização internacional real, presente em diferentes países, centralizada em torno de um programa comum, com congressos mundiais reais. Essas não são questões comuns ou secundárias: tanto que não caracterizam as outras organizações que citamos.

Mais um motivo para esclarecer, do nosso ponto de vista, as principais diferenças programáticas entre nós e a SCR. Insistimos: não nos referimos a essa ou aquela diferença de análise, ou a questões secundárias,  que não explicariam a existência de diferentes organizações. Nos referimos às diferenças de tipo programáticas e estratégicas, tentando usar como critério de comparação não a nós mesmos, mas as concepções programáticas desse trotskismo que, de alguma forma, tanto nós quanto a SCR reivindicamos.

O caminho para construir o partido: Lênin ou Alan Woods?

Atualmente, a SCR é uma organização de partido independente: mas essa condição é um fato relativamente novo, datado dos últimos anos, após sua saída de Refundação (em 2016). De fato, desde quando nasceu em 1986, há 33 anos, a SCR (ou Falcemartello, o nome que tinha antes) teve uma vida por fora de outro partido apenas nos últimos três anos (2).

Também, durante anos o PdAC fez “entrismo”, ou seja, ganhou força dentro de outro partido (Refundação), antes de se tornar uma organização independente. Mas o que para nós foi uma tática (Trotsky a elaborou nos anos 30), para a SCR é uma estratégia. Ou seja, a atual vida “externa” é para o SCR uma exceção, enquanto a norma é construir-se dentro de outras organizações.

E a exceção atual não se deve a uma eleição, mas a uma necessidade: neste momento, após a crise vertical da Refundação, a SCR ainda não encontrou nenhuma organização na qual possa fazer entrismo. No entanto, que a regra para eles seja a do entrismo é confirmada pelo fato de que uma grande maioria das organizações que fazem parte da IMT (International Marxist Tendency, cuja organização SCR é a seção italiana) atua como tendências dentro dos partidos reformistas, assim como a SCR fez por grande parte de sua vida.

O que pode parecer uma questão de tática na construção do partido, tem na realidade motivações programáticas para a IMT. Foi Ted Grant, o fundador dessa corrente internacional (que faleceu em 2006), quem definiu o entrismo como uma estratégia para a construção do partido revolucionário em um texto de 1959: “Problemas do entrismo” [3] que continua a inspirar a IMT até hoje.

O raciocínio de Grant, grosso modo, era o seguinte: tanto nos momentos de ausência das lutas quanto nos estágios iniciais do ressurgimento das lutas, as massas estão ou se dirigem em direção aos partidos reformistas porque antes de entenderem a necessidade da revolução, devem “fazer a experiência” com o reformismo. A tarefa dos revolucionários é, portanto, estar nesses partidos reformistas, ser a oposição à esquerda desses partidos e esperar que as massas acordem. Somente nesse momento nascerão os partidos revolucionários: como uma evolução dos velhos partidos reformistas, que serão induzidos pela dinâmica objetiva de romper com a direita, ou como uma divisão dos marxistas desses partidos.

O erro desse raciocínio, em nossa opinião, está no fato de partir de três premissas equivocadas: primeiro, que os partidos reformistas são os partidos “naturais” da classe; segundo, que o reformismo é um estágio inevitável que a classe trabalhadora deve viver e superar; terceiro, que as massas são um bloco homogêneo que amadurece a própria experiência ao mesmo tempo. É uma concepção contrária à usada por Lênin na construção do Partido Bolchevique. Vejamos as três premissas citadas, confrontando-as com o método de Lênin.

Para Lênin, os partidos reformistas eram partidos operários-burgueses, isto é, partidos com uma base operária, uma tradição e uma simbologia ligada ao movimento operário, mas uma direção pequeno-burguesa e um programa burguês. Por esse motivo, Lênin, ao contrário da IMT e da SCR, identificou o papel dos partidos reformistas como o de “agentes da burguesia no movimento operário”, ou seja, instrumentos conscientes nas mãos das burocracias, que vendem a força das lutas da classe (são uma força que engana e desvia para o campo morto da colaboração de classes, garantindo que nunca se ultrapasse o limiar da propriedade privada dos meios de produção) em troca de privilégios, pequenos e grandes, para sua casta.

A partir dessa caracterização, Lênin não considerava esses partidos como expressões “naturais” da classe e não nutria nenhuma ilusão sobre uma “reforma” deles ou a possibilidade de evolução dentro de uma corrente progressista liderada por um setor da burocracia. Portanto, o objetivo dos revolucionários era para Lênin o de destruir politicamente esses partidos para ganhar a base que, diferentemente das burocracias, não têm interesses de classe diferentes daqueles dos revolucionários.

James Cannon, que foi o principal dirigente da Quarta Internacional na época de Trotsky, acrescentava, em resposta a concepções semelhantes às da IMT e SCR (já divulgadas em sua época) que a tarefa dos trotskistas não é acompanhar as massas na experiência reformista. E explicava o conceito com esta piada: “Se um homem ingere um veneno, não há necessidade de acompanhá-lo na experiência. É melhor dizer a ele: não é bom. E não se oferecer para experimentá-lo pessoalmente” (4).

Cannon (no mesmo texto) respondia às concepções do tipo das da IMT desta maneira: “Há quem acredite que o reformismo seja um estágio inevitável do desenvolvimento de classe. Mas a concepção marxista é outra. Sustentamos a construção do partido revolucionário, formulando seu programa com base em sua tarefa histórica. Estamos com as massas quando lutam, mas quando não lutam e seguem o reformismo, nos separamos e dizemos: estão se equivocando.”

Finalmente, a ideia de que as massas são um bloco que simultaneamente faz a mesma experiência na luta de classes é a inversão exata da concepção na qual Lênin – e, antes dele, Marx – baseou sua ideia de construir um partido de vanguarda. Para Marx e Engels, e depois para Lênin e Trotsky, não existem “as massas”, mas setores diferentes que, em momentos diferentes, entram em luta. Para usar uma metáfora usada por Trotsky, “círculos concêntricos de número crescente e consciência decrescente”. O círculo menor é a vanguarda que o partido procura organizar, a fim de arrastar no processo os círculos maiores e inferiores na consciência. Tudo isso em um processo não estático, mas dialético, e é precisamente o processo da luta de classes, com seus fluxos e refluxos. Ao eliminar a dialética do processo de construção do partido revolucionário, resta a concepção de Ted Grant, Alan Woods (atual dirigente principal da IMT) e da SCR: um processo de construção por etapas, evolutivo. Algo que, além de estar muito longe da concepção leninista, acima de tudo, nunca aconteceu na história.

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Para encontrar uma justificativa, por assim dizer “teórica” ​​dessa concepção estranha ao leninismo, a IMT e Alan Woods (especialmente em seus livros sobre a história do bolchevismo, agora também traduzidos para o italiano pela SCR) apresentam uma reconstrução que não corresponde a fatos históricos. Como o crescimento do bolchevismo, como uma organização de fato independente, separada e oposta ao menchevismo desde o final de 1903, está objetivamente em contradição com a teoria do partido da IMT, Woods argumenta que, “contra uma concepção sectária”, Lênin e o bolchevismo efetivamente se separam dos mencheviques apenas em 1912.

Na realidade, quem quiser estudar fontes primárias da história do bolchevismo comprovará que essa afirmação é falsa. O primeiro a negar foi o próprio Lênin em um livro famoso (Esquerdismo, doença infantil do comunismo), quando afirmou: “O bolchevismo, como corrente de pensamento político e como partido político, existe desde 1903” (itálico nosso).

De fato, é verdade que houve momentos de unificações parciais e que o nascimento formal do Partido Bolchevique foi apenas em 1912, mas já no período em que os bolcheviques ainda eram formalmente uma “fração” do mesmo partido (o POSDR) com os mencheviques, as duas frações funcionavam como partidos distintos, com organismos próprios (que se reuniam efetivamente, diferentemente dos organismos comuns), uma estrutura própria, finanças separadas, imprensas separadas. A conexão entre  bolcheviques e mencheviques era essencialmente em função da comum associação à mesma Internacional (a Segunda).

A questão do Estado e do poder: um divisor de águas

Requer menos palavras e é mais fácil explicar a outra grande questão que nos separa do SCR. Não porque seja secundária: na verdade, é exatamente a questão central, que desde os tempos de Marx define um divisor de águas entre as posições dos revolucionários consequentes e as dos reformistas, e, para usar uma expressão de Lênin que Trotsky mais tarde assumiu, de os “centristas”, isto é, daqueles que oscilam entre reformas e revolução, afirmando concepções revolucionárias, mas depois caindo em uma prática reformista.

A concepção da IMT e SCR de Estado é oposta à do marxismo, resumida por Lênin em O Estado e a Revolução e praticada pelos bolcheviques em 1917. Vejamos.

Para Lênin, os comunistas não podem apoiar de nenhuma maneira, nem mesmo criticamente, os governos nacionais ou locais, no capitalismo. Foi graças a essa posição de princípio (que Marx apontou como a principal lição da Comuna de Paris de 1871) que os bolcheviques conquistaram a maioria no soviete em 1917 pela necessidade de derrubar o governo “de esquerda”. Este foi o ponto crucial de toda a batalha de Lênin em suas “Cartas de longe” (escritas para o grupo dirigente do partido na Suíça) e, depois de seu retorno à Rússia, com as “Teses de Abril”: “nenhum apoio ao governo provisório”, porque é um governo burguês disfarçado. E é útil lembrar que inclusive esse governo estava (diferentemente dos exemplos mais recentes) composto por partidos de esquerda que fizeram uma revolução (de fevereiro) e tinham o apoio da maioria dos sovietes.

Idêntico à posição de Lênin foi o que foi mantido (com vida) na revolução subsequente de 1918-1919 na Alemanha, por Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Uma posição que Rosa condensou em um ensinamento fundamental: os comunistas só podem participar do governo sobre as ruínas do sistema capitalista, ou seja, depois de “quebrar” a velha máquina estatal por meio da revolução e tê-la substituído por um tipo completamente diferente: a ditadura do proletariado.

Essa mesma posição programática foi então codificada pela Terceira Internacional nas teses de seus primeiros congressos, antes da chegada de Stálin, que em troca devolveu ao movimento operário a colaboração de clases com os governos no capitalismo, sob o título de “governos de frentes populares”, política que causou tantas derrotas na história, da Espanha dos anos trinta ao Chile de Allende e assim por diante.

A SCR e a IMT adotam a velha concepção “centrista”: a de “governos em disputa”, que podem ser condicionados pelas massas. Ou seja, em oposição aos governos burgueses “comuns”, eles argumentam que, sob a pressão das massas, os governos burgueses “de esquerda” podem evoluir em uma direção progressista. Veremos no próximo capítulo alguns exemplos concretos.

As consequências práticas de concepções teóricas equivocadas

Como dissemos até agora, qualquer leitor pode pensar que essas são questões importantes, mas particulares, de consequências imediatas. Infelizmente, não é isso. Como Lênin lembrou, “um erro de um centímetro na teoria é transformado em um erro de metros na prática”. Vejamos como isso é verdade quando nos referimos às duas questões estratégicas que examinamos até agora: a questão do partido e a atitude dos revolucionários em relação ao Estado burguês e seus governos.

Comecemos com o partido. A concepção da construção do partido por meio do entrismo permanente (com exceções, como na situação atual, anômala para a IMT, da SCR) e a concepção dos partidos reformistas como partidos “naturais” da classe se traduziram no passado e se traduzem hoje em políticas desastrosas.

Para nos limitarmos a um único caso, tomaremos o exemplo da política seguida pela IMT na Grã-Bretanha. Este é um caso de particular importância se considerarmos que essa é a seção dirigida por Alan Woods, o principal teórico da IMT.

Na Inglaterra, a corrente de onde a IMT vem (CWI) começou há muitas décadas, sob a direção de Ted Grant, o entrismo no Partido Trabalhista (Labour Party). Com base na teoria de Grant da qual já falamos, era um entrismo de longo prazo, aguardando uma evolução com as rupturas daquele partido. Mas a ruptura foi, em 1992, do CWI: porque uma ala na época mais à esquerda (dirigida por Peter Taaffe) propôs, após décadas, deixar o Partido Trabalhista e voltar à superfície. Diante dessa posição, uma minoria dirigida por Ted Grant e Alan Woods rompe, dando vida à IMT (com a qual o grupo italiano, atual SCR, se alinha). A organização inglesa da IMT permaneceu, assim, no Partido Trabalhista. Chama-se Socialist Appeal.

Até agora estamos falando sobre o que poderia ser uma questão de tática de construção de partido. Mas, em total harmonia com os fundamentos desse entrismo permanente, ou seja, de acordo com a visão não leninista do papel e da natureza dos partidos social-democratas ou de origem social-democratas, a IMT, dirigida por Alan Woods, apoia no Partido Trabalhista o atual líder do partido, Jeremy Corbyn, e até mesmo a perspectiva de seu governo.

Como pode ser lido em dezenas de artigos do Socialist Appeal e SCR, de acordo com a IMT, o papel dos revolucionários na Inglaterra é permanecer no Partido Trabalhista para apoiar Corbyn contra a ala direita do partido. Estamos falando – para quem não conhece – de um partido que, entre outras coisas, de “trabalhista” agora tem apenas o nome e é a contraparte do PD italiano. Ou seja, é um dos dois partidos em que a burguesia inglesa se baseia para governar de acordo com a lógica da alternância ou dos “dois fornos”. Certamente, com a liderança de Corbyn, o Partido Trabalhista se repintou à esquerda, o que o ajudou a sair da profunda crise em que se encontrava. Mas, precisamente, se trata apenas de uma maquiagem.

O manifesto de Corbyn (“For the many, not the few” – “Para muitos, não para poucos”) promete uma série de reformas e até algumas nacionalizações, com indenização. Tudo financiado com um imposto sobre os “mais ricos”, que, no entanto, não contesta a propriedade privada das grandes indústrias ou bancos; que não contesta o regime burguês ou suas instituições (nem a OTAN). Em outras palavras: um programa com tintas neokeynesianas, preparado pelos conselheiros econômicos de Corbyn, como Ann Pettifor ou Martin Wolf, apoiadores de um ressurgimento das teorias antimarxistas do Lord Keynes.

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Um programa que, parafraseando e retomando Marx, não propõe “expropriar os expropriadores”, mas apenas lhes impor um pouco mais de impostos, em nome de um impossível  “capitalismo com rosto humano”, em um dos principais países imperialistas do mundo… Mas a consequência dessa posição da IMT (o famoso medidor, na prática, advindo do “centímetro do erro” na teoria) é ainda mais grave e nos leva à segunda questão estratégica: a do poder.

A seção inglesa da IMT, dirigida por Woods, está lutando por um governo do Partido Trabalhista de Corbyn “sob um programa socialista” (5). O seguinte foi escrito, nesta semana, pelos companheiros ingleses da SCR: Um governo de Corbyn deve mobilizar a classe trabalhadora em resposta à sabotagem de grandes empresas, para poder avançar na transformação socialista da sociedade. Esta é a única resposta possível à crise do capitalismo. Somente assim, o Partido Trabalhista poderá realizar seu programa e transformar radicalmente a vida da maioria das pessoas na Grã-Bretanha. É por isso que devemos lutar (6). E o título de outro artigo desta semana quebra o tradicional eufemismo britânico e até proclama: “É a luta da nossa vida: vamos nos mobilizar para a vitória de Corbyn!” (7).

Essas posições são patrimônio da IMT e são plenamente compartilhadas pela SCR. A SCR, por outro lado, aplicou essas posições em nível nacional na Itália, por exemplo, sustentando (na época em que se chamava Falcemartello) que em Nápoles o conselho do prefeito De Magistris poderia ter sido impulsionado “pela dinâmica” para colidir com os poderes fortes. Por esse motivo, sugeriram à Refundação (da qual faziam parte nesse momento) “travar uma batalha hegemônica até da posição no governo local”, explorando “uma posição de vantagem objetiva, como o único partido de esquerda no interior da aliança de De Magistris” (8). Tudo isso enquanto De Magistris, por trás de uma retórica “de esquerda”, impunha em Nápoles uma política de austeridade, com cortes nos serviços públicos.

Mesmo depois da saída da Refundação, a SCR perseverou na linha de “apoio crítico” ao conselho municipal burguês de De Magistris: Apoiamos a De Magistris em sua luta contra a hipótese especulativa e de pilhagem da cidade, em sua descontinuidade em relação à lógica do poder reproduzido pelo PD, em todas as suas disposições em favor das classes menos favorecidas. Mas não retiramos nossas críticas dentro dos limites de sua experiência administrativa (9).

 

Talvez seja útil lembrar que, além do absurdo (para os marxistas) de pensar que uma das maiores cidades da Itália pode “escapar” furtivamente e por uma “dinâmica objetiva” à grande burguesia, ou pior, que isso pode ser feito por um dos principais países imperialistas da Europa, como a Grã-Bretanha, infelizmente é necessário salientar que essa teoria sobre governos ou estados “neutros”, condicionada pela dinâmica da luta de classes (é o que a SCR sustenta com a IMT, de fato, admitindo que “é claro que Corbyn não é marxista”), não é particularmente nova e constitui a quintessência do reformismo de cada época. Inclusive apoiando essa teoria, segundo Lênin, Kautsky procurou transformar Marx “em um liberal vulgar”, merecendo, por esse motivo, o apelido dado por Lênin de “renegado do marxismo”.

Certamente, não é necessário lembrar aos dirigentes da SCR como em 1917 o governo Kerensky se apresentava ao centrismo da época como “condicionável”. Era (repito), diferentemente de um possível governo de Corbyn, um governo nascido em um processo revolucionário e apoiado pelos sovietes… No entanto, Lênin e Trotsky o consideravam um governo burguês e nem sequer pensavam em apoiá-lo mais ou menos criticamente ou “condicioná-lo”, mas desenvolver uma oposição intransigente até quando puderam derrubá-lo para substituí-lo por um governo dos trabalhadores.

Os companheiros interessados ​​em se aprofundar nessa história – ou seja, a verdadeira história do bolchevismo – poderiam até se limitar a ler as famosas “Teses de Abril”, com as quais Lênin armou programaticamente o Partido Bolchevique em 1917, preparando-o para Outubro. A tese número 3 não deixa espaço para mal-entendidos: “Não apoiar o governo provisório de forma alguma; demonstrar a completa falsidade de todas as suas promessas, sobretudo a da renúncia às anexações. Desmascarar este governo, em vez de “reivindicar” – o que é inadmissível e semeia ilusões – que o governo capitalista deixe de ser imperialista” (10).

Mesmo diante da tentativa de golpe do general Kornilov, Lênin não mudou de posição e, ao contrário do que alguns pretendem afirmar, ele não ofereceu nenhum apoio ao governo. Inclusive essa não é uma interpretação nossa: é precisamente, como Lênin especifica com sua habitual nitidez (evitando futuras interpretações de certos “leninistas”) em uma famosa carta de 30 de agosto de 1917, endereçada ao Comitê Central de seu partido: E nem mesmo agora devemos apoiar o governo Kerensky. Seria falta de princípios. Perguntarão: será que não deveremos lutar contra Kornílov? Certamente que sim! Mas isto não é uma e a mesma coisa; aqui há um limite (…). Nós combateremos, e combatemos contra Kornílov, tal como as tropas de Kerensky, mas nós não apoiamos Kerensky, ao contrário, desmascaramos a sua fraqueza. E esta é a diferença. Esta diferença é bastante sutil, mas arquiessencial e não deve ser esquecida.

Uma diferença “essencial”, Lênin explica e define (preventivamente) a posição da IMT como uma ruptura “inadmissível” com os princípios básicos do marxismo. E para quem não entendeu, Lênin explica mais ainda: Há que lutar implacavelmente contra as frases (…) sobre a frente única da democracia revolucionária, sobre o apoio ao Governo Provisório, etc., etc. (…)  (11). “Implacavelmente”: isto é Lênin, esta é a verdadeira história do bolchevismo.

Para o bolchevismo (para o marxismo), no capitalismo só pode haver governos burgueses; os governos neutros ou “condicionáveis” pela dinâmica ou pelas massas são pura fantasia. Daí o “princípio” da oposição a qualquer governo (nacional ou local) no capitalismo: não é um princípio abstrato (não há nenhum no leninismo), mas a condição indispensável para não “semear ilusões” entre as massas e poder ganhar os trabalhadores para a luta por um governo operário, que só pode ser construído depois de derrubar o capitalismo por meios revolucionários, isto é, somente após a “ruptura” da máquina estatal burguesa.

Embaixadores do “socialismo bolivariano”

Outro exemplo das graves consequências que podem levar à eliminação da concepção do partido de vanguarda do tipo bolchevique e da concepção marxista de Estado é a posição da SCR e IMT sobre a Venezuela. A IMT foi durante todos os anos do governo Chávez uma das principais organizações de apoio do regime ditatorial de Chávez e de seu chamado “socialismo do século XXI”. Alan Woods orgulhosamente se apresentou por anos como consultor de Chávez. Quando Chávez, em 2004, fundou o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), o grupo simpatizante da IMT participou e se juntou ao partido único do regime. A lógica é essa explicação de Alan Woods em um texto também disponível em tradução italiana no site da SCR: “Teses sobre a revolução e a contrarrevolução na Venezuela” (12).

Não temos como nos deter aqui no que era o regime de Chávez e o que a Venezuela ainda segue sendo sob o calcanhar de seu herdeiro Maduro. Tanto com Chávez, como hoje com Maduro, na Venezuela nunca houve uma ruptura do Estado burguês ou uma expropriação, sob o controle operário, de empresas e multinacionais, nem uma ruptura real com o imperialismo (houve apenas atritos). Mesmo na época de Chávez, nos sindicatos controlados pelo regime não era possível ter eleições internas. O regime desse “socialismo bolivariano” não previa, mesmo na época de Chávez, a organização dos trabalhadores em estruturas do tipo conselhos (sovietes). Nada a se estranhar, dado que a “revolução” de Chávez nunca “rompeu” (“quebrou”, como Marx teria dito) o Estado burguês. Com Chávez e Maduro, a Venezuela continuou a ser estrangulada pelo pagamento da dívida externa, que ambos sempre pagaram pontualmente (com o sangue dos trabalhadores).

Hoje com Maduro e ontem com Chávez, a Venezuela é um Estado e um regime que reprime e esmaga as massas proletárias. A fome e a miséria das quais as massas fogem são o resultado de vinte anos de “chavismo”, o outro lado da moeda de uma burguesia (a chamada “Boliburguesia” ou burguesia “bolivariana”) que, entretanto, se enriqueceu pela exploração das reservas de petróleo do país, sócia menor da burguesia imperialista. Tudo isso não tem nada a ver com socialismo. É precisamente contra esse regime (entre os mais ferozes da América Latina) que as massas se mobilizaram mesmo nos últimos meses. Infelizmente, quando isso aconteceu, a IMT condenou essas mobilizações, como fizeram os stalinistas ao redor do mundo, dizendo que eram apenas manobras da oposição burguesa e do imperialismo.

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Hoje, a IMT e SCR, depois de apoiar durante anos o “socialismo bolivariano”, tornando-se propagandistas dele no mundo, são críticos ao regime de Maduro. Mas isso é apenas porque em sua opinião… de alguma forma, ele teria traído seu antecessor Chávez, de quem defenderam e difundiram por anos a imagem totalmente fantasiosa de um “lutador pelo socialismo”. De qualquer forma, a “crítica” não chega longe o suficiente para exigir a destruição do regime pelas massas para substituí-lo por um verdadeiro governo operário.

Entre as centenas de textos publicados pela SCR (que na época se chamava Falcemartello) e pela IMT para sustentar essa caricatura do socialismo, basta lembrar o vergonhoso texto escrito na morte do ditador, em 2013, com o título “Hugo Chávez está morto: a luta pelo socialismo está viva!”. Trazemos algumas passagens eloquentes: Choramos por Hugo Chávez, mas não devemos deixar que as lágrimas nos ceguem (…) Quando a dor terminar, a luta terá que continuar. Chávez não esperaria nada menos (…) Estamos comprometidos em continuar e intensificar a luta para defender a revolução bolivariana. (…) Hugo Chávez morreu antes de concluir o grande projeto que havia proposto a si: o cumprimento da revolução socialista na Venezuela. (13)

Como se isso não bastasse, a IMT também gastou muito no projeto ilusório de uma … Quinta Internacional (não é um erro de digitação: eles falam da Quinta, não da Quarta de Trotsky). Lemos no mesmo texto: Em junho de 2010, durante o congresso do PSUV, Chávez proclamou a necessidade urgente de uma Quinta Internacional. (…) Ele dedicou uma parte importante de seus discursos ao assunto, porque o considerava essencial. E tinha razão. Ele morreu antes que pudesse colocar essa ideia em prática … A IMT está empenhada em continuar a luta para construir essa Internacional revolucionária dos trabalhadores.

Em outras palavras: a IMT e SCR se propõem a ser fiéis executores testamentários de Chávez, se esforçam para “concluir” seu “grande projeto” de uma “revolução socialista” na Venezuela, bem como seu desejo de construir uma “Quinta Internacional” e desejam fazê-lo de acordo com os ensinamentos desse ex-coronel que, no poder acumulou, com sua família e seus amigos do partido, uma imensa fortuna.

Mas a SCR é trotskista?

Nas últimas semanas, Alan Woods esteve na Itália para uma série de conferências organizadas pela SCR, apresentando a tradução de seu livro sobre a história do bolchevismo. Woods é certamente um bom orador e um bom conhecedor da história do movimento operário (embora ele às vezes a adapte, por assim dizer, às necessidades de sua política).

Também pensamos que a história do bolchevismo deve ser estudada por todos os revolucionários para extrair lições valiosas para resolver, como os bolcheviques puderam fazer, por exemplo com o problema histórico de construir uma nova direção para o movimento operário, uma alternativa aos reformistas. Mas nos perguntamos: o exemplo dado por Lênin e Trotsky pode ser conciliado com as posições que descrevemos neste artigo?

Como podemos conciliar, perguntamos, as demandas do bolchevismo com a concepção que Woods, a IMT e SCR têm sobre a construção do partido? Com sua concepção de reformismo e as possíveis evoluções de um setor da burocracia? Com acomodação ao reformismo de esquerda em vez de uma batalha até a morte contra todas as correntes burocráticas? Com sua espera de décadas para que uma “esquerda” surja no Partido Trabalhista e rompa com a “direita” (ambas as frações de um partido agora completamente burguês)? Como se concilia o Marx da ditadura do proletariado e o Lênin do Estado e a revolução com a teoria sobre a suposta possibilidade de condicionar governos no capitalismo?

Ou com a invocação de um governo de Corbyn para a Grã-Bretanha? Ou, finalmente, com o apoio, primeiro completo, hoje crítico, do brutal regime nacionalista, populista e antioperário da Venezuela? E o que a Quinta Internacional anunciada por Chávez tem a ver com a Quarta Internacional de Trotsky? E, vamos entender, não é um problema de “números”, mas, como Trotsky explicou, de programa: o programa da “revolução bolivariana” de Chávez, o que tem a ver com o programa do marxismo revolucionário? E o programa da SCR e IMT, comprometidos com a implementação do projeto Chávez, como ele se relaciona com o programa trotskista da revolução permanente?

Em outras palavras, como dissemos no início, é louvável que a SCR e IMT desejem construir um partido de militantes e uma internacional centralizada, lógico. Mas para fazer o quê? Com qual programa? Com todo o respeito que devemos, especialmente aos jovens comprometidos com o sacrifício da militância nesse caminho, perguntamos: tudo isso realmente pode ser chamado de “trotskismo”?

Notas

(1) O artigo de Fabiana Stefanoni sobre o PC de Rizzo pode ser lido neste link: www.alternativacomunista.it/politica/viaggio-tra-i-%E2%80%9Cpartiti-comunisti%E2%80%9D-/-1-puntata-quando-stalinismo-fa-rima-con-opportunismo

(2) De acordo com o que o autor de um livro sobre trotskismo escreve, na realidade o grupo Falcemartello (agora SCR) teria nascido após uma breve experiência de entrada no PSI de Bettino Craxi no início dos anos 80 (um partido que de socialista mantinha apenas o nome, sendo na realidade um partido burguês liberal). O núcleo que mais tarde deu vida ao Falcemartello teria se formado em Ferrara como uma “corrente marxista dos Psi”, liderada por um dirigente que mais tarde se mudou para a Grã-Bretanha. Não encontramos outras fontes para confirmar esta notícia, mas certamente o fato, se confirmado, não estaria em contradição com a lógica geral que motiva o entrismo permanente da IMT e que explicamos no artigo. O texto em questão pode ser lido neste link: http://nuovointernazionalismo.blogspot.com/2016/01/falcemartello-abbandona-trentanni-di.html

(3) O texto de Ted Grant, “Problemas do entrismo”, que funda a estratégia entrista seguida por décadas sucessivas em sua corrente, pode ser lido neste link: www.tedgrant.org/archive/grant/1959/03/entrism.htm

A mesma estratégia de criação do partido é explicada neste outro texto da IMT: “Uma breve história da IMT” que pode ser lida no link: https://web.archive.org/web/20120617224628/http://www.marxist.com/history-marxist-tendency.htm

(4) O texto em que James Cannon responde a concepções de reformismo semelhantes às desenvolvidas posteriormente pela IMT pode ser lido neste link:

www.marxists.org/history/etol/document/swp-us/idb/swp-1946-59/v10n02-1948-ib.pdf

(5) A reivindicação de um governo Corbyn está contida em dezenas de artigos e textos. Ver, por exemplo, “What we are fighting for”, disponível em: www.socialist.net/socialist-appeal-stands-for.htm

(6) Um dos artigos mais recentes da seção inglesa da IMT sobre esse assunto, intitulado “Grã-Bretanha, cresce a maré de Corbyn: podemos vencer”, pode ser lido neste link : https://www.socialist.net/the-corbyn-surge-begins-we-can-win.htm ou mesmo, na tradução em italiano, no site da SCR neste link: www.rivoluzione.red/gran-bretagna-cresce-la-marea-corbyn-possiamo-vincere/

(7) O artigo está disponível neste site: www.socialist.net/we-face-the-fight-of-our-lives-mobilise-for-a-corbyn-victory.htm

(8) Esta posição está expressa no documento “Pelo partido de classe”, apresentado pelo Falcemartello (hoje SCR) ao VIII Congresso da Refundação Comunista. O documento pode ser lido no site:

http://web.rifondazione.it/viii/wp-content/uploads/2011/10/2011documento2.pdf

(9) Veja o artigo original “La candidatura di De Magistris a Napoli: la nostra posizione”, 13/05/2016, no link: www.rivoluzione.red/la-candidatura-di-de-magistris-a-napoli-la-nostra-posizione/

(10) LENIN, V. I. “Teses de Abril” (1917), em Opere complete, Editori Riuniti, 1967, v. 24, p. 10-. Em português: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/04/04_teses.htm

(11) LENIN, V. I. “Ao Comitê Central do POSDR” (30 de agosto de 1917), em Opere complete, Editori Riuniti, 1967, v. 25, p. 273-. Em português: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/08/30.htm

(12) A tradução italiana da “Teses sobre revolução e contrarrevolução na Venezuela” está disponível no site da Scr: www.marxismo.net/index.php/autori/ted-grant-2/215-tesi-sulla-rivoluzione-e-la-controrivoluzione-in-venezuela-2

No texto se reconhece que a Venezuela de Chávez é “ainda um Estado burguês”, mas para precisar em seguida que “é um Estado burguês com características peculiares. A mais peculiar é que a burguesia perdeu – ao menos temporariamente – o controle de seu próprio Estado”. (sic)

(13) A declaração da IMT na morte de Hugo Chávez (2013) pode ser lida, na tradução ao italiano, no site da SCR:

https://old.marxismo.net/venezuela/america-latina/venezuela/la-dichiarazione-della-tendenza-marxista-internazionale-sulla-morte-di-hugo-chavez

* Tendência Marxista Internacional – em inglês, International Marxist Tendency (IMT)

* Esquerda, Classe e Revolução – em italiano, Sinistra Classe Rivoluzione (SCR)

Tradução: Nea Vieira