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Um dos principais ramos de negócios no qual se baseou o plano de investimentos do governo chinês para evitar o aprofundamento da crise de 2007/2008 e permitir a manutenção do ritmo de crescimento foi o imobiliário.
 
Em 2008/2009, foram jogados na economia US$ 586 bilhões pelo governo, além de US$ US$ 1,5 trilhão através de empréstimos pelos bancos estatais. O objetivo mais imediato era manter a economia aquecida e evitar que cerca de 30 milhões de trabalhadores fossem demitidos definitivamente, causando o risco de rebeliões operárias em todo o país. O objetivo de longo prazo era “descolar” da crise dos principais países imperialistas e permitir que a China passasse incólume por uma crise que se dizia ser exclusivamente financeira e que o pior iria passar em alguns anos. O modelo era a crise dos “Tigres Asiáticos” do início dos anos 1990, cuja política de investimentos permitiu à China mudar de patamar em seu crescimento e se transformar na “fábrica do mundo” de produtos baratos de exportação.
 
Para isso, a partir de 2008, o Estado investiu pesadamente em obras de infraestrutura, como estradas e ferrovias, apontando para um desenvolvimento rumo ao interior do país, extremamente pobre. Por outro lado, os bancos passaram a emprestar dinheiro a juros baixíssimos para empresas imobiliárias, governos locais e consumidores.
 
Os primeiros jogaram-se na construção de empreendimentos imobiliários de luxo para a classe média, os governos – em associação com as empresas – dedicaram-se à desapropriação de áreas rurais na periferia das grandes cidades e os consumidores hipotecaram seus bens e seus futuros imóveis para financiar a casa própria.
 
O negócio, devido ao crédito fácil, prosperou e criou uma enorme bolha especulativa no ramo imobiliário. Os preços subiam sem parar. Em 2010, acampamentos eram formados em frente às corretoras para não perder as oportunidades de comprar apartamentos ainda na planta e assim garantir um preço mais baixo.
 
Em Sania, uma cidade tropical e paraíso turístico ao sul da China, os preços aumentaram mais de dez vezes entre 2004 e 2010, com o preço do metro quadrado chegando a US$ 3.000! Num país em que o salário dos trabalhadores é de US$ 200. Em Xangai, os preços dos imóveis cresceram 150% entre 2003 e 2010. Na média nacional, os preços triplicaram entre 2005 e 2009.
 
A alta dos preços teve, como consequência inevitável, uma corrida de capital ao setor, causando uma superprodução de imóveis sem precedentes. As modernas cidades fantasmas na China – recém-construídas e sem compradores – já são conhecidas e uma série enorme de vídeos na Internet ilustra esta realidade. Estima-se em 64 milhões o número de apartamentos vagos, sem contar empreendimentos comerciais como shopping centers. Em Tianjin, por exemplo, existe mais espaço para escritórios do que pode ser absorvido em 25 anos, à taxa atual de ocupação.
 
Existem vários indicadores que demonstram o inchaço desta “bolha”, isto é, a superprodução no setor. Um dos mais utilizados é o índice Price-to-Income ratio, a relação entre o preço médio dos imóveis e a receita anual média obtida com o aluguel dos imóveis numa região. Segundo o Banco Mundial, este índice mostra o grau em que os preços são suportáveis para a população e a existência de distorções no “mercado”. Admite-se que um índice acima de 3 é considerado insuportável para a compra e aluguel de imóveis pela população. No entanto, este índice é de 27 para a China, e se for considerada a renda de um casal!
 
Os investimentos no mercado imobiliário chinês atraíram não só o capital imobiliário tradicional. Empresas siderúrgicas, químicas, têxteis e de calçados abriram departamentos para construção e financiamento de imóveis, com expectativa de retorno maior que seus negócios principais. A participação do ramo imobiliário no PIB do país passou de 2% em 2000 para 6% em 2011, similar ao investimento nos EUA quando estourou a bolha imobiliária.
 
A superprodução ameaça o início de uma recessão no setor
 
Depois do boom da construção, os negócios sofreram um congelamento proporcional no segundo semestre deste ano. Segundo o índice China Real Estate Index System, o número de negócios caiu mais de 50% em 6 das 35 cidades pesquisadas na primeira semana de novembro, e em 28 delas o índice foi inferior em relação ao ano anterior. A média de 100 pessoas por dia nas imobiliárias caiu para 3 a 4. “E nenhuma vem para comprar”, desabafa David Zhang, o diretor de vendas da companhia de investimentos Honor-Link.
 
A descrição do jornal New York Times dá uma boa imagem do ocorrido: “() faixas de 6 m nos balcões [das imobiliárias] com os telefones de especuladores desesperados para vender. Anúncios na Internet oferecendo apartamentos em prédios inacabados com descontos de até 28% em relação ao preço de poucos meses atrás () os negócios diminuíram tanto que nas duas últimas semanas [i.e., início de novembro] as corretoras demitiram milhares de empregados e fecharam centenas de escritórios”.
 
Uma empresa de Beijing – a Geland Real Estate Company –, por exemplo, fechou 20% de seus 250 escritórios, e a Centaline Property Agency, com sede em Hong Kong, fechou 60 de seus 385 escritórios na cidade de Shenzhen e demitiu mil de seus 8 mil empregados.
 
Quem paga, como sempre, é a população. Os compradores mais antigos estão vendo o valor de seus imóveis desabar, em alguns casos sem ainda estarem terminados, enquanto pagam o financiamento baseado nos preços inflados. Para agravar ainda mais, o governo aumentou os juros, refletindo-se no aumento das parcelas.  
 
As manifestações contra a desvalorização dos imóveis têm sido cada vez mais comuns. Os manifestantes ocupam as imobiliárias e destroem as maquetes dos edifícios à venda com preços reduzidos. Através de telefonemas, os órgãos de repressão do PC chinês já começam a ameaçar os manifestantes, exigindo o fim dos protestos.
 
Explosão ou esvaziamento?
 
Para evitar uma explosão do setor ao estilo norte-americano, a ditadura chinesa tomou uma série de medidas. Em primeiro lugar, aumentou a taxa de juros três vezes neste ano, tornando os empréstimos mais difíceis e aumentando a carga tributária daqueles que fizeram empréstimos. Novos impostos de propriedade foram instituídos, descontos para compradores de sua primeira casa própria foram eliminados e foram tomadas medidas para impedir o financiamento para moradores de cidades diferentes daquelas onde o imóvel está localizado e para a compra do segundo imóvel. Além disso, aumentou o sinal das hipotecas em até 40% para proteger o sistema bancário de perdas por falta de pagamento.
 
O governo afirma que quer impedir o avanço da especulação. Segundo o primeiro-ministro Wen Jiabao, o governo deixa claro que “não há possibilidade de afrouxar as políticas do mercado imobiliário. Nosso alvo é forçar a queda dos preços a níveis razoáveis”.
 
O governo tenta dar uma demonstração de força e controle da situação, mas, na verdade, está tentando implantar medidas após a queda dos negócios no setor para evitar a quebra de bancos de financiamento da casa própria. Isto é, para evitar a quebra do sistema bancário estatal, que é a fonte dos empréstimos no setor. Já foi divulgado que 20% dos empréstimos feitos são irrecuperáveis, uma quebra nada insignificante.
 
No entanto, há indícios de que este é só o começo de uma recessão setorial. Como disse David Zhang, “nós estamos no pico do inverno, e não sabemos quem vai sobreviver e quem não vai”.