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Entre trocas de palavras elogiosas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o da Coreia do Norte, Kim Jong-un, assinaram um acordo evasivo baseado em promessas de ambos os lados. Sobre a desnuclearização, o acordo diz que a Coreia do Norte “reafirma seu compromisso firme e sem hesitação de completar a desnuclearização da península coreana”. Os Estados Unidos, por sua vez, assumiriam o “compromisso de fornecer garantias de segurança” à Coreia do Norte. Ao ser perguntado sobre o bloqueio econômico ao país, Trump respondeu que ele continuaria até que a Coreia do Norte mostrasse algo mais.

Por: Marcos Margarido

O acordo também diz que os dois países “unirão esforços para construir um regime de paz estável e duradouro” na península dividida, o que significa a possibilidade da assinatura de um acordo de paz entre as duas Coreias. Formalmente, a Coreia do Sul e a do Norte estão em guerra desde 1950, após a invasão norte-americana realizada para impedir que a revolução socialista que fundou um estado operário burocratizado no Norte, em 1948, pudesse atingir toda a península. Desde então, ela está dividida no chamado “paralelo 38” – uma fronteira militarizada – entre a República da Coreia ao sul e a República Popular Democrática da Coreia ao norte.

A única afirmação concreta, mas não colocada no acordo, partiu de Trump em uma coletiva de imprensa. Ele disse que suspenderá os exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul – os “jogos de guerra” – porém sem deixar de dizer que são muito caros e – uma concessão a Kim – muito provocadores. Esses exercícios são realizados regularmente e são simulações de uma possível invasão da Coreia do Norte pelos dois países.

Quando perguntado sobre a questão dos chamados “direitos humanos” no país, isto é, sobre a política sanguinária do ditador Kim Jong-un contra seu próprio povo, Trump afirmou que discutiram o assunto brevemente e terminou por defendê-lo: “Bem, ele é muito talentoso. Para qualquer um que assume essa situação como ele fez com 26 anos e consegue administrar isso, e administrou com rigor. Eu acho que há uma situação difícil lá. E faremos algo sobre isso. É difícil. Mas é difícil em muitos lugares também”.

No entanto, apesar de resultados nulos expressos pela declaração conjunta, a imprensa mundial qualifica o encontro de histórico. O Ministro do Exterior chinês, Wang Yi, afirmou que só o fato de terem sentado para conversar já está “criando uma nova história”. O jornal The Time, da Inglaterra, qualificou a conversa de “encontro do século”. Qual é o motivo?

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De estado operário burocratizado a semicolônia capitalista

É interessante notar que a imprensa, mesmo a norte-americana, evitou cuidadosamente chamar Kim de um ditador comunista. Essa era a regra quando o regime norte-coreano ameaçava desatar uma guerra nuclear.

Na verdade, a Coreia do Norte hoje está longe de ser um país “comunista”. Sua história pode ser dividida em duas fases. A primeira vai da libertação do jugo colonial exercido pelo Japão, após a segunda guerra mundial, e da fundação da República Popular Democrática da Coreia em 1948 (à qual se seguiu a invasão norte-americana e a divisão da península) até a restauração capitalista, na década de 90. A segunda, a partir da restauração até os dias de hoje.

Na primeira fase, a burguesia japonesa, que detinha as principais fábricas e terras no norte industrializado e comandava as finanças do país, foi expropriada. Uma intensa mobilização operária ocupou as fábricas, fundou sindicatos e criou comitês populares após a derrota do Japão na segunda guerra mundial. A coletivização dos meios de produção e das terras fez o país crescer 15% por dez anos consecutivos depois do fim da guerra da Coreia, em 1953.

Porém, o estado operário que surgiu tinha na sua direção um partido controlado pela ex-União Soviética, que estava completamente stalinizada. Por isso, já nasceu burocratizado. Esta direção, o Partido dos Trabalhadores, acabou com a democracia existente no início do processo revolucionário e comandou o país com mão de ferro, instituindo uma dinastia hereditária. O atual presidente é neto do fundador da Coreia do Norte, Kim Il-sung[1].

Uma das políticas adotadas, coerente com a herança stalinista do socialismo em um só país, foi o Juche, ou autossuficiência, em 1955. Esta política levou a Coreia do Norte ao isolamento, tendo como único aliado, num primeiro momento, a ex-URSS e, depois, a China. Este isolamento levou o país a uma dependência completa de seus aliados maiores, pois era impossível construir um estado operário em um território pequeno, com poucos recursos naturais e apenas 18% de terras agricultáveis, com uma indústria incipiente e uma maioria camponesa da população de 25 milhões.

A segunda fase, de um estado capitalista, iniciou-se na década de 90, após a restauração capitalista ocorrida na China (fim da década de 70) e da União Soviética em 1986. Todos os subsídios daqueles países à Coreia do Norte foram cortados e o comércio baseado em troca de produtos, sempre vantajoso ao pequeno país, acabou. A isso se somava o bloqueio comercial capitaneado pelos Estados Unidos, que preferia despejar dinheiro e armas na Coreia do Sul, sob o comando de uma ditadura ainda mais violenta.

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Houve uma abertura da economia, com a criação de zonas liberadas para a exploração capitalista, buscando atrair capital principalmente da Coreia do Sul. Mas o capital entrou com o único objetivo de explorar a força de trabalho mais barata do norte, em fábricas situadas na fronteira. O país vive uma crise econômica crônica, agravada pelo montante do orçamento militar, que consome a maior parte de suas receitas. Atualmente, a exploração capitalista do país está totalmente liberada, com um desenvolvimento importante da construção civil, feito por empresas privadas cujos donos são membros do partido “comunista”, que estão formando uma nova burguesia. Estima-se que 40% da população esteja envolvida, como patrões ou empregados, em negócios privados.

Entre essas duas fases existe um fio de continuidade: a manutenção da ditadura da família Kim, que nunca hesitou em atacar seu próprio povo para se manter no poder, jogando milhares em campos de concentração, obrigando os camponeses a trabalhos forçados e cuja política econômica baseada no Juche foi responsável pela morte de cerca de 500 mil coreanos devido à fome causada por más colheitas nos anos 90, que deixa marcas na população até hoje.

Por isso, se a imprensa burguesa estava errada ao identificar Kim Jong-un como um comunista, continua errada ao deixar de qualificá-lo um ditador implacável, na esperança de que, com o esperado acordo, os Estados Unidos terminem de colonizar o país.

Perspectivas

Em primeiro lugar, deve-se reconhecer que existiu um acordo político nessas conversas. O fato de Trump nunca ter feito qualquer crítica ao regime de Kim Jong-un, de chamá-lo de talentoso e de que entendia sua situação “difícil” no comando do país legitima-o perante a população e lhe dá mais condições de aumentar a exploração sobre os trabalhadores norte-coreanos. Também dá o aval para a continuidade da formação de uma nova burguesia norte-coreana que poderá, no futuro, ser a sócia menor da burguesia sul-coreana em sua relação de semicolônia com os próprios EUA. Este é o sentido, também, de um provável acordo de paz entre as Coreias e uma futura unificação sob o patrocínio norte-americano.

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No entanto, o reforço de autoridade que Trump concedeu a Kim deu-se com base em sua total capitulação às pressões militares do imperialismo norte-americano e diplomáticas da China. Antes do encontro, Kim viajou duas vezes à China para conversas com Xi Jinping, o presidente chinês. Nelas, Kim foi aconselhado a fazer um acordo com os Estados Unidos pela denuclearização da península. Com isso, Xi empurra a Coreia do Norte, que tem na China seu principal parceiro comercial, na direção de se tornar uma semicolônia dos Estados Unidos e de perder a independência política conquistada pela revolução, talvez o último resquício daquele grande evento.

Com o acordo, Kim Jung-un deixa as portas abertas para a entrada do capital norte-americano no país, embora não de maneira imediata. Como disse Trump, a Coreia do Norte precisa mostrar algo mais… Um sintoma dessa possibilidade é um vídeo criado por uma produtora norte-americana a pedido de Trump, mostrando as duas opções que o país tinha pela frente: voltar ao passado de fome, atraso e guerra ou ir a um futuro brilhante, com fábricas ultramodernas, cidades cheias de arranha-céus e supermercados abastecidos.

Estas são, portanto, as opções de Kim Jung-un: manter um país independente do imperialismo ou tornar-se uma colônia de uma semicolônia. O problema é que a primeira opção só seria possível se ele recorresse aos trabalhadores e camponeses norte-coreanos para uma mobilização nacional contra a exploração capitalista e o avanço do domínio imperialista, convocando a classe operária do Sul para uma luta conjunta pela unificação da península coreana sobre as bases de uma nova revolução e um estado operário de toda a península. Porém, uma classe social não comete suicídio e Kim sabe a qual classe pertence.

[1] Para maiores informações: https://litci.org/pt/mundo/asia-mundo/coreia-do-norte/morte-de-kim-jong-il-leva-incerteza-a-coreia-do-norte/