Exatos 16 quilômetros separam duas histórias que servem como retratos da profundidade do abismo racial existente na sociedade norte-americana, da violência que assombra e destroi as vidas negras; mas, também, da força da mobilização social e da rebelião dos “de baixo” na luta contra a opressão.

Por: Wilson Honório da Silva

Hoje, 20 de abril, todos aqueles e aquelas que lutam contra a opressão estão em festa, tomando ruas e praças, para comemorar a condenação do policial Derek Chauvin, que estrangulou, em 25 de maio do ano passado, George Floyd até a morte, de forma covarde, brutal e dolorosa. Uma celebração mais do que justa, até mesmo porque o resultado do julgamento está longe de ser a regra na chamada “maior democracia do planeta”.

O tribunal que selou o destino de Chauvin fica em Minneapolis (no estado de Minnesota, no Centro-Norte do país) e, desde o dia 11 passado, a multidão de jornalistas deslocados para cobrir o julgamento teve que desviar suas câmeras para a vizinha cidade de Brooklyn Center, onde Duante Wright, jovem negro, com apenas 20 anos, foi assassinado por outra policial, Kim Potter, que alegou ter confundido sua pistola automática com uma arma de eletrochoque.

E, no meio dos dois episódios, há muito mais que alguns poucos quilômetros. Há séculos de racismo e impunidade, um número incontável de mortos pelas mãos, armas, pauladas e brutalidade ilimitada de policiais e supremacistas brancos e, acima de tudo, milhares de quilômetros de ruas e avenidas que, há muito, mas particularmente nos últimos anos, foram percorridos, em marchas e protestos, por milhões de negros, negras, latinos, povos indígenas e seus aliados, com importantes manifestações de solidariedade e protestos ao redor do mundo.

Uma vitória, mas também uma exceção histórica

No julgamento, a defesa de Chauvin tentou defender a tese de que George Floyd era o verdadeiro culpado por sua morte, que teria sido causada por problemas cardíacos e respiratórios provocados por drogas. Por mais estapafúrdia que fosse, não eram poucos os que acreditavam que a tese iria vingar, a começar, inclusive, pelas autoridades políticas do país, que se prepararam para uma verdadeira guerra, deixando as forças policiais (a cargo dos governadores) e a Guarda Nacional (sob o comando do presidente Joe Biden) em alerta máximo.

Uma cautela baseada na própria História. Um artigo publicado, em 14 de abril, no portal “Ill Will”, intitulado “Notas sobre o julgamento de Derek Chauvin”, apresentou dados bastante significativos: em 14 anos, entre 2005 e 2019, apenas 104 policiais foram acusados de homicídio ou homicídio involuntário, enquanto em serviço; apesar de que, neste mesmo período, foram registrados 14 mil assassinatos (um número bastante subnotificado), sendo que apenas 35 foram considerados culpados e apenas quatro foram condenados.

Nas mãos da polícia, vidas negras não valem nada

A impunidade dos policiais é inversamente proporcional à ferocidade dirigida contra a população negra. Como noticiado no portal da UOL, em um artigo intitulado “Quatro fatos que ajudam a explicar tensão entre negros americanos e polícia”, lá, onde negros correspondem a cerca de 13% da população (contra 60% de brancos), mas, os afrodescendentes  são presos em uma taxa cinco vezes maior que a dos brancos e o dobro da dos norte-americanos de origem hispânica (18% da população). Além disso, homens negros têm cerca de três vezes mais probabilidade de serem mortos pela polícia do que brancos e mulheres negras são assassinadas numa proporção 1,4 vezes maior que as brancas.

Números que representam vidas cujos nomes estão fortemente gravados na memória recente do país. Afinal, as raízes do movimento Black Lives Matter (BLM, “Vidas Negras Importam”) podem ser encontradas no tribunal que inocentou o segurança George Zimmerman, sob a alegação de legítima defesa, do assassinato de Trayvor Martin, de 17 anos, na Flórida, em 2012.

Raízes que se fortificaram com o sangue, a dor e a impunidade que cercaram as mortes de Michael Brown, de 18 anos, morto por um policial em Fergusson (Missouri), em 2014; Eric Garner (44), que também morreu gritando “eu não posso respirar”, nas mãos de um policial de Nova York, em 2014; Freddie Gray (26), morto  por um policial de Baltimore (Maryland), em 2015, e Breonna Taylor (26), fuzilada por policiais que invadiram seu apartamento, em Louisville (Kentucky), em 2020.

Em todos os casos, os policiais foram completamente inocentados, com exceção de um dos três executores de Breonna, que recebeu acusações de “conduta arbitrária”, sendo solto logo depois sob fiança.

Duante Wright: a evidência da violência racista

Como mencionado acima, o jovem de 20 anos, pai de um recém nascido, foi morto a quilômetros de distância de onde o tribunal estava rolando. Duante foi parado numa blitz, no domingo, 11 de abril, por ter desodorizadores de ar pendurados no retrovisor, algo proibido por lei, mas que dificilmente provocaria a detenção de um carro dirigido por brancos, já que um estudo feito pela Universidade de Stanford, em 2020, constatou que motoristas negros têm cerca de 20% mais chances de serem parados do que os brancos.

O crime levantou imediatamente a população da pequena cidade de Broklyn Center, com apenas 30 mil habitantes e uma maioria não-branca: 29%, de negros; 16,3%, de asiáticos e 13,5%, hispânicos; contra 38% de brancos(as). Desde então, protestos têm ocorrido todas as noites, apesar do toque de recolher imposto tanto pela prefeitura quanto pelo governo estadual e do envio, pelo governo federal, da temida Guarda Nacional.

E o assassinato de Duante não foi um fato isolado. Como destacado pela edição de 17 de abril do jornal “The New York Times”, desde que as testemunhas começaram a depor no caso Chauvin, em 29 de março, nada menos que “64 pessoas morreram nas mãos das forças da lei em todo o país, sendo que negros e latinos eram mais de metade dos que foram assassinados”.

O primeiro deles, assassinado no mesmo dia em que as audiências começaram, é terrivelmente exemplar da sanha assassina da polícia. Adam Toledo, um garoto de origem hispânica, com apenas 13 anos, foi perseguido, encurralado e morto por um policial, no exato momento em que levantava as mãos, para demonstrar que não representava perigo algum.

Sob o capitalismo, não há paz, não há justiça!

A cena praticamente inédita de Chauvin saindo algemado do tribunal, sob a ameaça de encarar algumas décadas na cadeia, não é um reflexo da chegada de Joe Biden ao poder. Aliás, basta lembrar que foi sob o governo Obama, o primeiro presidente negro do país (2009 – 2017), que a maioria dos casos relatados acima ocorreram.

O que impulsionou a decisão foram os protestos que, desde 2013 e 2014, cresceram sem parar. Marchas, manifestações, paralisações de estradas e avenidas e, também, greves localizadas que se transformaram no maior processo de luta no país, inclusive quando comparadas aos importantíssimos protestos que, nos anos 1950 e 1960, derrubaram as leis de segregação racial.

De lá pra cá, leis foram derrubadas, direitos conquistados, um negro ocupou a Casa Branca e números recordes de negros, latinos e representantes indígenas assumiram postos de “poder” em governos, parlamentos e demais instituições do Estado.

Contudo, o essencial não mudou. Além da continuidade e aumento do encarceramento e dos assassinatos racistas, a taxa de desemprego entre negros, em 2020, chegou a 11,4%, enquanto a média nacional foi de 8,1%, assim como a fome e falta de acesso a serviços atingem a população de forma completamente desigual.

Situações todas elas agravadas pela pandemia, que, segundo uma pesquisa da APM Labs. Enquanto a maioria de brancos registra 150,2 mortes para cada 100 mil habitantes; entre os 13% de negros, a taxa é 179,8 pra cada 100 mil e entre os povos originários (3% do total) é ainda maior, com 256 mortes para cada 100 mil.

Números que demonstram que a condenação de Chauvin é, inegavelmente, uma importante vitória das lutas recentes. E, por isso mesmo, não podemos discordar da mensagem postada na página do twitter do Black Lives Matter, hoje.

O texto lembra que foram necessários “330 dias para confirmar o que já sabíamos. 330 dias para reviver o trauma do assassinato de George, temendo que o sistema nos decepcionasse novamente, e lamentando tantos mais que perdemos. Por um assassinato testemunhado por milhões de pessoas”. E que isto “não é prova de que o sistema funciona. É a prova de como ele está quebrado (…). Enquanto não tivermos um mundo onde as nossas comunidades possam prosperar livres do medo, não haverá justiça.”

Mas, o problema não está no sistema judiciário, assim como a solução não está na prosperidade da comunidade negra. Biden declarou que a condenação é um “passo à frente contra o racismo sistêmico que mancha a alma do país (…) que pode ser um passo gigante na marcha em direção à justiça na América”. Os Democratas e seus aliados (dentre os quais, inclusive, encontra-se a direção majoritária do BLM) certamente irão utilizar a condenação de Chauvin para alimentar esta ilusão.

Contudo, vidas negras não sobrevivem de ilusões. A dura realidade da exploração capitalista é que nos coloca, aqui ou em qualquer lugar do mundo, na mira da violência racista. Os assassinatos continuarão e outros tantos policiais assassinos sairão impunes no mesmo ritmo em que a crise do sistema avança. Por isso, a condenação de Chauvin não é uma mudança de rumo. Foi uma exceção conquistada pela aliança que negros e negras conseguiram construir, nos últimos anos, com setores mais amplos da classe trabalhadora, da juventude, dos latinos, imigrantes e povos originários.

E somente a unidade destes mesmos setores, na luta pelo pela conquista do poder, numa sociedade socialista, poderá realmente garantir que não precisemos lembrar, dia após dia, que “vidas negras importam”.