Pressionar ao Ocidente: parar todos os empréstimos à ditadura de Lukashenko

Por: Ivan Razin

Em 23 de agosto, o FMI deu quase um bilhão de dólares para a ditadura de Lukashenko. Apoiando em palavras a luta dos bielorrussos contra a ditadura, os estados ocidentais continuam a emprestar-lhe dinheiro. Isso acontece por meio de empréstimos de bancos comerciais, o FMI e o BERD, por meio de investimentos de capital estrangeiro. As sanções adotadas em resposta ao sequestro do avião para a prisão do opositor Protasevich não afetam os acordos existentes e entram em vigor apenas no próximo ano, dando aos capitalistas ocidentais a oportunidade de encontrar soluções alternativas e à ditadura para se adaptar.

O fato é que os governos ocidentais estão mais preocupados não com os problemas dos bielorrussos, mas com os lucros que o capital ocidental recebe na Belarus. Inclusive governos ocidentais e capitalistas estão interessados em que a ditadura tenha meios para continuar pagando de forma estável a dívida externa que acumulou. Os governos ocidentais também não querem arriscar seus negócios com Putin mais uma vez por causa da Belarus. O acordo Merkel-Biden-Putin sobre o gasoduto Nord Stream-2 em detrimento da Ucrânia e contra a posição da Polônia e da Lituânia expressa bem essa abordagem cínica. Interromper o financiamento e a cooperação com a ditadura exige grande pressão sobre os governos ocidentais.

Por outro lado, as sanções podem ser apenas uma ferramenta auxiliar. A queda imediata da ditadura não se pode esperar deles. Reduzir a receita do regime não enfraquecerá o aparato repressivo: a ditadura continuará a financiá-lo, cortando outros itens. É pouco provável que a elite econômica bielorrussa, intimamente associada ao regime, vá abandoná-lo, especialmente porque as principais empresas são estatais e dirigidas pelos administradores de Lukashenko, ou estão sob o controle do regime de Putin, que apoia diretamente à ditadura. Além disso, a chave do sucesso da luta contra a ditadura não é a dimensão da crise econômica, agravada por sanções (as pessoas podem, ao contrário, se dispersar para sobreviver nas parcelas, plantando batata), mas em última instância a organização da luta.

Em geral, a palavra decisiva será a luta dos próprios bielorrussos e sua organização dentro do país. No entanto, isso de forma alguma justifica a continuidade do financiamento da ditadura pelo Ocidente. É preciso lutar por sua extinção total. Além disso, esse financiamento não só apoia a ditadura, mas também submerge a Belarus na dependência das finanças dos principais poderes. Apelamos às organizações sindicais e democráticas para que exijam que os governos dos seus países deixem de conceder empréstimos e financiamentos à ditadura de Lukashenko. E também chamamos a participação nas ações organizadas pelos bielorrussos nesses países contra a ditadura.

Sanções contra as fábricas: a opinião dos operários é decisiva

Não há dúvida sobre a necessidade de sanções para interromper o financiamento da ditadura de Lukashenko. A questão das sanções contra as empresas bielorrussas, principalmente fábricas estatais, é outra questão. Se a proibição de concessão de empréstimos à ditadura visa diretamente ao seu bolso, as sanções contra as empresas, em especial a proibição da compra de seus produtos e do fornecimento de componentes, afetarão antes de tudo as linhas de produção. Em efeito, as sanções contra as fábricas implicam a cessação obrigada do trabalho dos trabalhadores, tendo apenas como consequência a perda pelo regime da mais-valia por eles produzida. Antes de golpear o bolso da ditadura, essas sanções passam por fábricas e seus operários. E isso faz uma diferença significativa.

A propósito de tais sanções, a decisão deve ser tomada pelos trabalhadores dessas fábricas, sem os quais, como os acontecimentos do ano passado demonstraram, dificilmente poderão vencer a greve geral e a revolução. Na revolução bielorrussa, foram formados sindicatos independentes, de fato novos, refletindo o humor dos trabalhadores. É a maior organização que saiu da revolução. Essas organizações operarias NÃO apoiam atualmente sanções contra suas fábricas. E esse é o principal argumento na discussão sobre a necessidade de tais sanções.

Se os trabalhadores de hoje estivessem em um estado de pré-greve e estivessem procurando maneiras de interromper a produção eles próprios, tais sanções poderiam ajudar de alguma forma. Mas por enquanto, apesar do aumento do número dos conflitos nos locais de trabalho, a situação nas fábricas não é assim. Se tais sanções ainda mais se tornarem permanentes, principalmente continuando com empréstimos à ditadura, antes de tudo elas destruirão não a ditadura, mas as fábricas.

É importante que sejam os próprios trabalhadores que parem as fábricas com sua própria greve, e não alguém em seu lugar, e mais ainda contra eles. A organização operária que se formou na revolução é um importante pré-requisito para o sucesso da greve e uma grande conquista de importância estratégica. Precisa ajudá-la de todas as maneiras possíveis.

Golpeando ao Leste: o regime de Putin é a verdadeira retaguarda da ditadura de Lukashenko

As discussões sobre o isolamento da ditadura de Lukashenko são frequentemente limitadas à questão das sanções ocidentais. Mas com isso falta o mais importante. O principal suporte econômico e político, até a promessa da intervenção militar, a ditadura de Lukashenko recebe do regime de Putin. Os empréstimos serão reduzidos? – Putin vai dar um. Cortarão mais alguma coisa do oeste? – Putin compensará do leste. Ainda mais quando Putin também recebe dinheiro ocidental, em particular em 23 de agosto ele recebeu US $ 18 bilhões do FMI, dos quais pode conceder empréstimos a Lukashenko. As sanções ocidentais são desagradáveis para Lukashenko, as alternativas vão custar-lhe mais caro, mas enquanto Putin estiver lá, tudo isso não será fatal para ele. Ao mesmo tempo, a “integração com a Rússia”, ou seja, a absorção da Belarus pelos oligarcas russos, será aprofundada.

É preciso exigir que os governos ocidentais parem de financiar a ditadura. Mas isso requer a luta ainda mais implacável contra o apoio de Putin à ditadura. E essa é uma luta de outra natureza. Isso não é uma “pressão”. É impossível pressionar a ditadura de Putin, esperando encorajá-la a “pressionar” Lukashenko a democratizar a Belarus. Putin apoia diretamente a ditadura de Lukashenko, sim, “pressiona” ele, exigindo uma rendição ainda maior da soberania da Belarus em troca do apoio à ditadura, e ao mesmo tempo expande os métodos repressivos de Lukashenko na Rússia.

A luta para romper o cordão umbilical entre Putin e Lukashenko exige um confronto político direto com o regime de Putin, este supressor dos povos e amigo das ditaduras. E nisso os bielorrussos têm o mais importante do seu lado: as aspirações profundas e a luta dos povos oprimidos e reprimidos pelo regime de Putin. Incluindo a luta dos ucranianos pela independência e contra a ocupação da Crimeia e Donbass; a luta dos tártaros da Crimeia que foram devolvidos à força ao “mundo russo” de Putin; repulsa e resistência entre numerosos povos da Rússia, que Putin até mesmo priva de sua língua; imigrantes de diferentes nações em grandes cidades russas. Esta é uma luta nas mesmas linhas de frente da revolução bielorrussa. Tudo isso junto é um enorme calcanhar de Aquiles do regime de Putin. As revoluções ucraniana e bielorrussa já o tornaram muito mais vulnerável. O descontentamento também está aumentando entre os trabalhadores russos. É necessário fazer um apelo aos povos oprimidos e trabalhadores da Rússia e da sua área de influência para que se levantem contra a opressão do Kremlin, do FSB e dos oligarcas. Este é o caminho para a queda do regime de Putin, o caminho para a liberdade e a independência dos povos.

Pressionar ao oeste, golpear ao leste, organizar-se de dentro, derrubar a ditadura de Lukashenko.