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Nesta semana, o diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) advertiu que a pandemia causada pelo Covid 19 (coronavirus) “está acelerando[1].

Por: Alejandro Iturbe

Em uma entrevista coletiva, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor geral da OMS, informou que havia “um milhão de casos registrados em apenas oito dias”. No domingo passado foi o dia com o maior número de novos contágios detectados, com 183.020 casos. Desde seu início, contabilizaram-se quase 9.000.000 de contágios e 460.000 mortos.

O Brasil é o país em que essa aceleração é mais evidente: 54.771 novos registros no mesmo domingo, seguido pelos Estados Unidos (36.617) e a Índia (15.400). Mas expressou-se em muitos países: Alemanha, Portugal, Peru, Colômbia, México, etc. Na China, país que não registrava novos contágios por várias semanas, havia 137 novos casos, a maioria deles relacionados com um mercado de distribuição de frutas e verduras em Pequim [2].

Os sistemas de saúde de alguns países, como a Bolívia, estão colapsando e se somam a outros nos quais as pessoas começam a morrer nas ruas, aguardando uma vaga nos hospitais para se internar [3].

O diretor da OMS alertou que a pandemia “vai matar milhões de pessoas porque não estamos preparados”.  Sua conclusão foi: “Sabemos que a pandemia é bem mais que uma crise sanitária, é uma crise econômica, social e, em muitos países, política. Seus efeitos serão sentidos por décadas” [4].

Por que a pandemia está acelerando?

As pandemias se produzem em ondas: durante todo o primeiro período da doença, a pessoa infectada transmite o vírus do coronavirus a outras pessoas, mesmo que estejam assintomáticas ou com sintomas leves e, portanto, não foram registradas nem tomadas as precauções de isolamento necessário. Segundo um estudo do Departamento de Epidemiologia da Universidade de Columbia, Estados Unidos, para cada caso registrado, existem entre 7 e 10 não registrados com potencial de contágio e assim o círculo está vai se expandindo. [5].

A verdade é que o combate empreendido pelos diferentes governos burgueses até agora se mostrou ineficaz por uma razão central: nele, a defesa dos interesses e lucros da burguesia sempre esteve acima da defesa profunda da saúde da população.

A pandemia do coronavirus e as medidas restritivas que foram tomadas (mesmo que parcialmente) fizeram a recessão já prevista desde o ano passado dar um salto. Em um artigo sobre esse tema, analisamos as perspectivas gerais e dos principais países, onde se analisava os seguintes dados sobre as quedas do PIB no primeiro trimestre: EUA, 1,2% (4,8 ao ano); China, 6,8; na Europa, as autoridades alemãs divulgaram uma previsão de recessão anual de 6,3%; França, Itália e Espanha (em ordem decrescente de tamanho do PIB) divulgaram números oficiais com contrações de 5,8%, 4,7% e 5,2%, respectivamente [6]. No Brasil, a queda foi de 1,5% no primeiro trimestre e uma previsão de 5,9 no ano [7].

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Agora, preocupados com esses lucros burgueses e sua queda diante das medidas restritivas, os governos começaram a suspender essas medidas sem ter derrotado a pandemia. Esta é a razão de fundo da aceleração da pandemia: a ganância pelos lucros da burguesia, mesmo que seja à custa da vida de milhares de trabalhadores.

De modo explícito (Estado Unidos, Brasil) ou disfarçado (Argentina) os governos burgueses aplicaram a premissa expressa por um empresário brasileiro: “o país não pode parar por alguns milhares de mortos”.

Não é um raio em céu sereno

Mas essa aceleração da pandemia não parte do zero, mas de um atraso no combate contra ela, nos meses anteriores. Não vamos falar sobre os países cujos governos subestimaram a pandemia (“é uma gripezinha”, disse Jair Bolsonaro), não a combateram e inclusive boicotaram o combate, como os Estados Unidos e Brasil que, naturalmente, registram as piores cifras do mundo. Isso também ocorreu em países que adotaram um plano de ação, como a Argentina.

É aqui que entra o que o diretor da OMS chama “não estar preparados”. Porque a pandemia ocorreu em um momento em que, devido às políticas dos governos burgueses, os sistemas de saúde pública vêm sendo subfinanciados, deteriorados e enfraquecidos em todo mundo em benefício da atividade privada e em meio a um processo mais estrutural de utilização da saúde como negócio.

Parte disso é que, mesmo em países com quarentena intensa, não se investiu o necessário em testes em massa, sem os quais a quarentena perde uma parte significativa de sua eficácia. Na Argentina, com um plano do governo de combate à pandemia foram realizados apenas a metade dos testes necessários para detectar os casos que, segundo a estimativa do estudo já citado, teriam ocorrido no país [8]. Não vamos falar do Brasil, considerado um dos países que menos realiza testes no mundo por milhão de habitantes [9].

Abriu-se um grande negócio para as clínicas e laboratórios privados. Mas na Argentina, um teste assim realizado custava entre 50 e 120 dólares; no Brasil, entre 30 e 70; no México chegou-se a cobrar 600 e, nos Estados Unidos dispararam os preços entre 1.000 e 4.000 dólares. Preços inacessíveis para a maioria das famílias trabalhadoras num cenário em que os planos de saúde não cobrem esse custo.

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A classe trabalhadora é a que mais sofre

Não é por acaso que sejam a classe trabalhadora e os setores populares os que mais sofrem com essa aceleração da pandemia. Vimos o caso dos trabalhadores do setor de carne na Alemanha. Na Alemanha, o caso mais notório dessa aceleração da pandemia foi o de uma fábrica de processamento de carne onde 650 de seus mil trabalhadores foram infectados [10]. Outro exemplo foi na Costa Rica, onde o número de casos dobrou no último mês. O Ministro de Saúde costarriquense, Daniel Salga, reconheceu: “Atualmente, estamos na segunda onda da pandemia (…). Possui características diferentes da primeira. Estamos tendo um foco importante nos trabalhadores do setor agrícola, empresas de embalagem e com risco no setor da construção” [11].

As burguesias e seus governos tentaram enfrentar a pandemia com sistemas de saúde deteriorados e sem fazer o investimento que a gravidade requeria. Junto com isso, colocaram à classe operária na linha de frente do risco ao permitir que muitas empresas “essenciais” trabalhassem sem garantir as condições básicas de salubridade e os equipamentos de proteção necessários e, fizeram vista grossa para muitas empresas “não essenciais” que obrigavam muitos de seus operários a trabalhar. Por fim, deixaram correr livre, endossaram e inclusive incentivaram as demissões, suspensões, cortes salariais e eliminação de conquistas históricas [12]. Muitos governos aproveitaram, além disso, para avançar em medidas bonapartistas, aumento do controle policial da população e repressão a manifestações, com a justificativa do combate à pandemia.

Nesse contexto, surgem crises políticas decorrentes da situação resultante da pandemia. Isso é muito evidente no governo de Jair Bolsonaro no Brasil ou no enfraquecimento do governo Trump. Mas também ocorre, de modo mais atenuado, na Argentina, como mostra o conflito entre o governo da província de Buenos Aires (kirchnerista) e o da Cidade de Buenos Aires sobre a possibilidade de retornar ou não à fase 1 (a mais restritiva) da quarentena.

Como enfrentar essa realidade?

Como afirmou Martín Hernández em um artigo publicado nesta página e na entrevista realizada pelo canal da LIT-QI [13], a gravidade da situação exigiria o desenvolvimento de uma verdadeira guerra contra a pandemia que, como em toda situação de guerra, os governos colocassem todos os recursos econômicos de um país a serviço desse combate. Foi o que fez o governo soviético, encabeçado por Lenin e Trotsky, diante da pandemia da gripe espanhola de 1918, apesar dos escassos recursos do país. Esse é o sentido da luta pelo direito à quarentena para os trabalhadores como declarado no artigo “As duas pestes do capitalismo” [14].

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O problema é que não é isso o que estão fazendo as burguesias e seus governos. Além de uma “guerra” certamente limitada em seu financiamento, eles atacam os trabalhadores, deixam sem ajuda os bairros que não têm as condições mínimas de aplicar uma quarentena saudável, largam a sua própria sorte muitos trabalhadores independentes informais e também os pequenos proprietários que começam a quebrar, reprimem as reivindicações, etc. Agora, começaram a “reabertura” e, com isso, geraram a aceleração da pandemia.

Por esse motivo, os trabalhadores e os setores populares começam a sair às ruas, reabrem alguns processos revolucionários que existiam antes da pandemia ou abrem outros novos. Hong Kong, Líbano e, principalmente, os Estados Unidos são uma amostra disso [15]. Em vários países, a luta pelo assassinato de George Floyd teve repercussões em importantes manifestações contra o racismo e a repressão.

É imprescindível incentivar e participar dessas lutas, porque elas marcam o caminho que devemos encarar para enfrentar as duas pestes às quais o capitalismo-imperialista nos condena: a constante deterioração das condições de vida e seu agravamento com a pandemia.

Como aponta o artigo “As duas pestes…” a alternativa de Socialismo ou Barbárie [capitalista] se torna cada vez mais atual. Portanto, para nós, são lutas que devem ser desenvolvidas na perspectiva da revolução operária e socialista, o único caminho real para aplicar uma quarentena eficaz e planejada, como parte de uma verdadeira guerra à catástrofe que representa a pandemia.

Notas:

[1] https://www.pagina12.com.ar/273849-coronavirus-se-registro-el-mayor-aumento-de-casos-diarios-en

[2] https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-53063730

[3] https://www.cronista.com/internacionales/Colapsa-el-sistema-de-salud-en-Bolivia-20200616-0040.html

[4] Ver nota [1]

[5] https://www.washingtonpost.com/es/post-opinion/2020/03/22/cuantos-casos-de-coronavirus-hay-realmente-en-mexico/

[6] https://litci.org/pt/especiais/economia/a-recessao-ja-chegou-e-depois/

[7] https://agenciabrasil.ebc.com.br/es/economia/noticia/2020-05/el-mercado-financiero-pronostica-caida-del-589-en-el-pib-brasil-2020

[8] https://www.impulsonegocios.com/argentina-cuantos-test-de-coronavirus-se-realizaron-hasta-el-momento/

[9] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52383539

[10] https://www.dw.com/es/rebrote-en-alemania-m%C3%A1s-de-650-infectados-de-coronavirus-en-una-f%C3%A1brica-de-carne/a-53848869

[11] https://www.elpais.cr/2020/06/15/el-rebrote-del-coronavirus-en-varios-paises-pone-en-alerta-al-mundo/

[12] Sobre este punto, ver https://litci.org/es/menu/economia/un-presente-muy-duro-y-un-futuro-aun-peor-para-los-trabajadores/

[13] Ver https://litci.org/pt/mundo/covid-19-capitalismo-guerras-revolucao/ e https://litci.org/pt/especiais/coronavirus/22-de-maio-conversa-ao-vivo-com-matin-hernandez-sobre-coronavirus-guerras-e-revolucoes/

[15] Ver https://litci.org/pt/mundo/asia-mundo/china/a-luta-em-hong-kong-e-retomada/; https://litci.org/pt/mundo/oriente-medio-mundo/libano/a-volta-da-revolucao-libanesa/https://litci.org/pt/lit-qi-e-partidos/um-processo-revolucionario-sacode-os-eua/