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O chamado pulmão do mundo, a Amazônia, arde para beneficiar os capitalistas, principalmente ianques, ainda que não devemos esquecer o projeto da China de atravessá-la com vias de comunicação. O outro pulmão do mundo, a Sibéria, está ardendo há semanas, enquanto são registradas temperaturas recordes na Groenlândia e Alasca e a Rússia se converte no primeiro produtor de petróleo no Ártico (colocou uma central nuclear ambulante em um barco).

Por: Roberto Laxe

O fogo está sendo utilizado como substitutivo da guerra para a destruição de forças produtivas, a natureza, a serviço de que o capitalismo saia da crise seja como for, e à custa do que for. Nada de novo sob o sol, o capitalismo “nasceu a sangue e fogo” disse Marx, e caminha para morrer da mesma maneira…Só que arrastando a humanidade atrás de si: colocando à frente dos estados imperialistas como os EUA ou Itália e em semicolônias como o Brasil,  verdadeiros descerebrados. Porque somente descerebrados podem dizer o que esses senhores dizem para justificar-se.

As contradições interimperialistas: o “capitalismo verde” europeu

A luta pelo controle do mercado mundial entre potências imperialistas já conduziu o mundo à barbárie, na II Guerra Mundial. Aquela dos campos de extermínio, bombas atômicas e bombardeios massivos sobre a população civil, que provocou a morte de mais de 50 milhões de seres humanos. Agora enfrentamos uma versão corrigida e aumentada do que foi a II Guerra, só que sem guerra declarada, com “formas” democráticas.  Deixam-nos votar a cada quatro anos nos descerebrados que vão arrematar a tarefa de destruir o mundo. Mas são como Groucho Marx e o “mais madeira, é a guerra”(NT no filme “Go west”), que quando quis dar conta não lhe restava trem para queimar.

O imperialismo europeu quer aproveitar esta crise para relocalizar-se no concerto de potências. A guerra comercial chino- estadunidense o colocou à margem da resolução da crise do capitalismo. Assim, Macron, como bom francês, toma a iniciativa política, enfrenta Bolsonaro chamando-o de mentiroso e quer que o G7 discuta a situação brasileira. Por seu lado Merkel, como boa alemã, já anuncia sanções econômicas ao Brasil. Mas não nos confundamos, o “capitalismo verde” europeu não é a solução de nada, só buscam uma Europa limpa, enquanto enchem a África de resíduos tóxicos, de “guerras sob bandeira alheia”, pelos recursos minerais, o que está provocando a outra grande crise social deste começo do século XXI, a dos refugiados, convertendo o Mediterrâneo em uma grande fossa comum.

O “capitalismo verde” europeu se baseia, primeiro em “limpar” o Velho Continente da indústria poluente, para deslocá-la para países semicoloniais, como está fazendo a Alcoa com o fechamento e venda de fábricas, enquanto abre suas seções mais poluentes em países onde o controle é inexistente, como a Arábia Saudita. A outra grande pata do “capitalismo verde” europeu é, em seu nome, a destruição das conquistas operárias e sociais dos anos pós-guerra, através de reformas trabalhistas e privatizações da aposentadoria, saúde, educação e demais serviços sociais; substituindo o papel do estado pela iniciativa privada progressista, canalizada através das ONGs, o chamado “ativismo social” ou a economia colaborativa.

O “capitalismo verde” europeu só é outra versão, decorada, da velha exploração da classe operária e saque das riquezas do mundo. Por acaso o imperialismo e o colonialismo capitalista não são uma invenção europeia? Não foram a Grã-Bretanha e França que repartiram o mundo no século XIX, como antes fizeram Castilla e Portugal? Não foram as ânsias de expansão da Alemanha as que provocaram a I e a II Guerras mundiais? Por isso, não podemos esperar nada dos Macron, Merkel, Sanchez ou Salvini, que não seja outra maneira, mais “europeia” do próprio imperialismo capitalista que está no fundo do desastre da Amazônia.

O centro da resposta: a juventude

Eles dizem que já pagaram os pecados que os levaram a essas políticas. Mas isso é falso, a realidade da política ante os refugiados demonstra que continuam sendo os “lobos” colonialistas do passado mas com “pele de cordeiro”. E, com isso, querem confundir os setores da população, sobretudo a juventude, que está se levantando contra “a crônica de um desastre anunciado” que é a mudança climática.

Alguns setores que não conheceram outra sociedade que a capitalista neoliberal, a que surgiu após a dissolução da URSS, a restauração do capitalismo nos estados do chamado “socialismo real” e o descobrimento de que atrás do Muro de Berlim não havia socialismo, nem “real” nem “irreal”. E em uma pirueta da história (Marx a chamaria de “farsa”), estes setores sociais, incluídos muitos pertencentes à classe operária mais precarizada (a jovem) tem que romper “outra vez” com as amarras da burguesia.

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No século XIX o movimento operário se desgarrou dos setores “liberais” da burguesia, dos partidos liberais, republicanos, etc., da pequena burguesia democrática herdeiros da luta contra o feudalismo, surgiram os movimentos operários que constituíam sua ala esquerda. Hoje a direção política da classe operária em quase todo o mundo é, de novo e após o desastre do stalinismo associado ao “socialismo”, a pequena burguesia democrática, agora disfarçada com as roupagens dos movimentos sociais (ecologismo, feminismo, independentismo, …).

Recolhendo a profunda preocupação social, e a resposta que está sendo dada ante os desastres do capitalismo em suas mais variadas formas, incêndios, feminicídios, saques de riquezas, êxodos massivos de população, etc, estas organizações da pequena burguesia não saem dos marcos do capitalismo. E para isso colocam um sobrenome. Nunca falam do capitalismo imperialista como causa central, e sim de “capitalismo selvagem”, como se fosse possível um capitalismo sem “selvageria”, capitalismo “neoliberal”, como se um capitalismo não “neoliberal” fosse respeitoso com os direitos sociais e políticos da população.

Se estes setores da juventude que rechaçam o desastre que se avizinha, não romperem abertamente com estas direções, sua luta será reabsorvida pelo sistema capitalista, e tudo acabará em “um sonho de uma noite de verão”.  Não é a primeira nem a última vez que isto acontece; toda luta social democrática que não se insere na luta contra o capitalismo e pelo socialismo, termina alimentando o “discurso politicamente correto” do sistema, de reação democrática; integrando-o através das ONGs, Observatórios contra…, e instituições diversas, que desativam todo seu potencial revolucionário.

Estamos chegando ao limite do capitalismo?

O que acontece no Brasil não responde só a uma causa, não é somente a agropecuária a que está por trás dos incêndios, está a megamineração, está a política florestal, está a construção de infraestruturas como a prevista pela China. Estão enfim, as contradições intercapitalistas entre as grandes potências, onde os EUA querem retomar a hegemonia absoluta (“America First” América Primeiro) que teve durante décadas, e está perdendo ante seus competidores, a China e a UE, fundamentalmente.

Por trás do que acontece no Brasil, como na selva Indonésia, como na Sibéria ou os incêndios que recorrentemente são produzidos na Galícia, está o capitalismo como modo de produção esgotado. Em 1936 Trotsky afirmou que as forças produtivas já não se desenvolviam mais; o capitalismo precisou de uma devastação massiva, a II Guerra, para liberá-las das amarras do passado. Assim, durante 30 ou 40 anos, após essa destruição massiva das forças produtivas (60 milhões de mortos), as liberaram para conhecer uma nova “época de desenvolvimento”, foram os anos do Estado do Bem Estar.

Esta época chegou ao fim nos anos 70 do século XX, quando começou a desmontagem de tudo que foi conquistado nos anos 40/50/60. Hoje estamos vivendo o prólogo desse período; já não há mais que desmontar – só restos do Estado do Bem Estar na Europa-, e o capitalismo chegou a um limite difícil de resolver.

Parafraseando Trotsky, as Forças Produtivas que geravam mais riqueza social não somente deixaram de desenvolver-se, como se transformaram no que Marx chamou de Forças Destrutivas, aquelas que com seu uso não incrementam a riqueza social, e sim a destroem. Os desenvolvimentos tecnológicos que no passado geravam um salto social adiante, apesar da propriedade privada dos meios de produção e distribuição, hoje esses mesmos desenvolvimentos se convertem em inimigos da sociedade: a ânsia de enriquecimento dos proprietários dos meios de produção, distribuição e financeiros, os leva a desatar uma verdadeira guerra social contra tudo e todos. Os “bolsonaros”, sua estupidez, ignorância e brutalidade, são o veículo perfeito para levar adiante esta guerra social.

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O socialismo como única alternativa

Nesta situação, a disjuntiva “socialismo ou barbárie capitalista” está deixando de ser uma frase feita, para converter-se em um fato da realidade. Mas não o “socialismo” burocrático stalinista, que não era tal (socialismo e burocracia é um paradoxo), somente era um regime transitório que sob o domínio dos interesses e das necessidades da burocracia significava uma volta ao capitalismo, como aconteceu; e sim o socialismo revolucionário que começou a se construir em Outubro de 1917.

Tampouco é uma volta atrás das situações sociais que nos trouxeram a esta situação, como vendem setores da esquerda que renunciaram de fato à luta pelo socialismo, ainda que se adornem como queiram. Não é uma volta aos “mercados de proximidade”, porque isso foi o que deu origem ao capitalismo; as feiras e mercados medievais dos burgos/cidades, que eram os “mercados de proximidade”, foram os lugares onde comerciantes e agricultores começaram a formar-se como classe social, como classe burguesa.

O problema não é individual, nem de “proximidade” nem “distância”, e sim o modo social de produzir e distribuir as riquezas geradas pela sociedade, das quais se apropria uma minoria que determina o que se produz e o que não, e a quais necessidades correspondem e quais não; tudo sob o critério do benefício capitalista. Olhar para o passado como alternativa, um passado também baseado na propriedade privada e que só deu fomes e peste, é uma declaração de princípios de derrota e impotência para mudar a sociedade.

Daqueles barros estes lodos; não repitamos a história,  é preciso superá-la. O mercado, por definição, é injusto, porque para que alguém ganhe, outro tem que perder, em dinheiro, qualidade ou o que for, o que não significa nem um milímetro de avanço social. De alguma maneira, é a versão de esquerdas, progressista, desse revivência medievalista na cultura; os “mercados de proximidade”, “km 0”, são os novos mercados medievais dos “jogos de tronos” atuais. É a pequena burguesia intelectual, a qual o Muro de Berlim caiu na cabeça, a que mais agita este “regresso ao passado”, à “proximidade”, à pequena produção,…Como se o mercado mundial atual, origem do problema climático, não houvesse surgido dos pequenos mercados de proximidade da Idade Média.

Superar o passado significa lutar por um socialismo que se baseie nas necessidades sociais, não nos de uma classe depredadora como a burguesia, ou uma casta parasitária como a burocracia, e portanto, na planificação democrática da economia em um caminho de dupla circulação; se planifica em função do conjunto da sociedade, que se baseia nas decisões adotadas a partir da base.

Atrasar os ponteiros do relógio além de reacionário é impossível. O tempo passa, as formas de produzir e distribuir a riqueza gerada por uma sociedade do passado pode ser um exemplo do que aprender, mas não para repeti-lo, e sim para superá-lo. O capitalismo deu grandes coisas ao desenvolvimento humano: só um exemplo, a expectativa de vida nos modos de produção prévios não passava dos 45 anos, hoje está em 75/80; isto, goste ou não, é um sintoma de um grande avanço social.

Mas o capitalismo, como tudo, é histórico; isto é, tem um começo, crescimento, desenvolvimento, decadência e fim. Hoje estamos na decadência a caminho do fim, os incêndios do Brasil ou Sibéria, os feminicídios, o aumento da exploração da classe operária a níveis do século XIX, o êxodo de populações inteiras, são os sintomas de seu esgotamento. É hora de abrir as portas e janelas, que entre ar fresco, renovar a sociedade de cima a baixo. Expulsar os que com sua ignorância e brutalidade estão levando ao limite o que é óbvio para todos que é uma necessidade histórica; mas não fiquemos aí.

Da mesma forma que não serve de nada olhar para os “mercados medievais de proximidade”, não serve de nada olhar para aqueles capitalistas “verdes”, “democráticos”, que se enfeitem com a plumas que queiram, mas que no fundo defendem as condições que dão origem ao que está acontecendo no Brasil, as relações sociais de produção capitalistas.

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O inimigo de meu inimigo não é meu amigo

Macron, Merkel, Sanchez, …poderão parecer que enfrentam os Bolsonaros, Trump ou Salvinis, mas é pura fachada. A crise do Open Arms demonstrou como a política de Sanchez é prima irmã da de Salvini, com uma só diferença formal: Salvini disse o que faz ou vai fazer; Sanchez não diz o que faz, faz e ponto final.

Macron e Merkel podem aparentar que repudiam Bolsonaro, mas, se fosse assim já estariam promovendo ataques aéreos contra o Brasil por crimes de lesa humanidade (queimar o pulmão do qual a humanidade depende é deixar em estado embrionário o genocídio nazi); estariam promovendo sua deposição, bloqueando o país, posto que têm capacidade para fazê-lo. Mas não, a única coisa que fazem é agitar um pouco a árvore para ver se cede, e dois, para canalizar o mal estar social que está sendo gerado, sobre a máxima do “inimigo de meu inimigo é meu amigo”. Estão atuando para conservar o bosque capitalista,  para isso são representantes de burguesias especializadas em enfrentar guerras e revoluções.

Por tudo isso, para a classe operária e todos os setores sociais que se levantam contra estes descerebrados, os vários “ inimigos” dos Bolsonaros não são seus “amigos” nem ocasionalmente. Ao mesmo tempo em que Macron chama Bolsonaro de “mentiroso”, não deixam de destruir as raízes das conquistas sociais na Europa, mantém suas políticas em relação à África e os refugiados,…é, como digo, uma atuação para desativar o conflito social.

A classe operária é a primeira interessada em que os desastres ecológicos como os incêndios no Brasil, se resolvam em um sentido progressivo. Da mesma maneira que em uma fábrica altamente poluente os primeiros prejudicados são os próprios trabalhadores da fábrica, posto que estão em contato diário com a produção, na sociedade são os bairros operários e populares os que sofrem o dia a dia da contaminação e das consequências econômicas que possam ter. Os bairros ricos costumam ter normas urbanísticas que os habitantes dos bairros operários dessas mesmas cidades nem de longe sonham.

Por isso a classe operária não tem nenhum interesse real em manter estas relações de produção que os prejudica, primeiro como assalariados/as para um patrão que os explora, e segundo, em que esse mesmo patrão os contamina como cidadãos.

Subjetivamente, um trabalhador pode sentir-se unido ao empresário que o explora, porque em sua cabeça e fruto da educação social (a qual colaboram os economistas progressistas) aparece o capitalista/a empresa como os que geram riqueza. Nada mais falso que isto; a riqueza não sai das contabilidades das empresas como o dinheiro não é dado pelos operadores de caixa. A riqueza, como o dinheiro, sai do trabalho produtivo humano, e são os trabalhadores/as assalariados os que com sua força a geram.

Quando a classe operária toma consciência deste fato, rompe sua “aliança” com o capital e se converte no sujeito social fundamental – não único – para enfrentar as relações sociais de produção que estão atrás dos incêndios no Brasil, o capitalismo, e seus representantes políticos, os Bolsonaros, os Trump, também os “inimigos de seus inimigos”. Isto os coloca ante uma necessidade: construir uma alternativa social ao capitalismo, seja sua forma “depredadora” seja sua forma “verde”, que não pode ser outra que a defesa do comum, implicando nesta luta ao “comum” da sociedade oprimida e explorada.

E qual é o substantivo que define “a defesa do comum”, senão comunista? Este é o único programa que pode enfrentar a “barbárie” a qual o capitalismo em sua decadência nos conduz.

Tradução: Lilian Enck