O verão passado, na Belarus, trouxe mudanças dramáticas não só na vida social do país, mas também na vida pessoal dos bielorrussos que lutam contra a ditadura. Conversamos com estudantes dа Universidade de Medicina (Katya e Lena) e da Universidade de Informática e Radioeletrônica (Ana e Vassiliy.) sobre onde e como encontraram a revolução e como se tornaram parte dela. Esperamos que a entrevista ajude o leitor não só a se aprofundar mais nos acontecimentos dos últimos meses de nosso país, mas também a refletir e tirar conclusões.

Do jornal Revolução-Liberdade-Independência

RLI: Como isso começou para vocês?
Ana – Inicialmente, vi uma postagem no Instagram de que precisavam de voluntários para distribuir pulseiras brancas [símbolo da campanha da oposição] antes das eleições. Eu achei que, em princípio, poderia desta forma dar minha contribuição (risos). Me inscrevi, peguei essas pulseiras e comecei a distribuir. Então Vassiliy me escreveu que também gostaria de pegar algumas. E começamos a distribuir com ele na área.
Vassiliy. – Fizemos um piquete, uma espécie de ponto de onde distribuíamos pulseiras. As pessoas vinham até nós, pegavam as pulseiras, ficavam satisfeitas e iam embora.
Ana. – Mas não durou muito.
Vassiliy. – Estávamos a menos de meia hora nessa quando a polícia chegou. E fomos levados para o posto da polícia do bairro. Um processo administrativo foi aberto contra nós. Em geral, o interesse pela política começou a partir do momento em que no canal Nexta [canal de Telegram que se tornou organizador virtual das manifestações] saiu um vídeo sobre Lukashenko. E quando você vê os fatos, o que há de errado em nosso país, você começa a ler mais, a pensar mais. Achava que já estava em uma idade em que precisava pensar não só em mim, mas no país como um todo. E seis meses depois, essa ideia de distribuir pulseiras deu muito certo.

RLI: E o que aconteceu depois das “eleições”?
Vassiliy. – Durante as eleições eu estava preso no posto de polícia do bairro. Nós distribuímos pulseiras em três e me fizeram uma pergunta bem direta: ou eles levavam todos nós, ou a mim sozinho. Fui julgado e me deram 7 dias de prisão. Passei três dias na minha região e, os restantes, fui transferido para Zhodino [cidade onde fica a prisão para onde foi enviada a maioria dos presos políticos] onde estavam os outros presos. Mas fiquei lá preso menos de um dia, porque a partir de 13 de agosto, devido às grandes manifestações exigindo liberdade dos presos políticos, começaram a liberar todo mundo massivamente. Eu não sabia o que estava acontecendo, as informações na prisão eram zero. Nós só sabíamos de algo quando chegavam mais presos.
Ana. – Nesses dias eu estava preocupada com Vassiliy, ficava em casa, não ia a lugar nenhum. Eu sou de uma cidade pequena, onde não havia nada, e no centro houve pequenos protestos, mas eles foram dispersados muito rapidamente e as pessoas foram mandadas para o mesmo lugar onde Vassiliy estava.
Katya. – Parece-me que para todos tudo começou no dia 9 de agosto, depois das “eleições”. A Internet foi desligada. Fui ver televisão, mostravam os resultados preliminares: 80% para o nosso agora já ilegítimo presidente. E todo mundo viu o que se passou. E então percebi que algo estava errado. Era 8 de agosto, quando os números oficiais foram anunciados. Então, eles anunciaram oficialmente que nosso atual, digamos, presidente, havia vencido. As pessoas saíram para a rua para mostrar que não concordavam com o resultado, para mostrar que os votos tinham sido roubados, e eu vi o quanto eles foram espancados, vi essa violência. E quando eles ligaram a Internet, eu vi como as cédulas eram jogadas pelas janelas, como o pessoal da limpeza jogava fora essas cédulas com os nossos votos, e a tropa de choque OMON os protegiam… Esses “votos errados” estão em algum lugar agora.
Lena. – Nós também estávamos perto da escola, esperando pelos resultados, quando a tropa de choque OMON expulsou todos os professores da comissão eleitoral. Eles foram colocados em um ônibus. Mas as pessoas bloquearam a estrada, bloquearam completamente por uma hora e eles não puderam sair. E por uma hora as pessoas exigiram, gritaram “entreguem o protocolo [com o resultado da votação]!” Ao final, jogaram contra nós bombas de efeito moral.
Katya. – E percebi que havia que fazer algo. Mas sair à noite era muito assustador. Porque eu, por exemplo, não corro muito rápido e sei que não consigo fugir da tropa de choque OMON. Minha primeira ação foi em 12 ou 11 de agosto, quando começaram os cordões de solidariedade das mulheres ao longo das estradas. Eu estava então na minha cidade. Permanecemos no primeiro cordão de solidariedade de mulheres por cinco horas. Quase todos os cordões de solidariedade de mulheres duravam cinco horas. Eu vi conhecidos lá. E conheci muitas pessoas, ainda me comunico com elas. Agosto passou. Quando chegamos à universidade em setembro, fiquei com muito medo de que pudessem nos obrigar a participar de algum comício pró-governo. Mas não houve nada parecido. As pessoas saíram para os cordões de solidariedade no dia 1º de setembro. Em 3 de setembro, eu também fui ao cordão de solidariedade. E naquele dia conhecemos Lena e outras garotas também.
Lena. – Nós estudamos na mesma universidade, em faculdades diferentes. Mas estávamos lá, no mesmo cordão de solidariedade e acidentalmente nos cruzamos perto dos alojamentos. Conversamos sobre tudo. Encontramos companhia no alojamento. É muito mais agradável do que participar sozinho. É melhor quando há companhia. Eu confio em Lena, e sei que ela não vai me abandonar. Se fugirmos, fugimos juntas. Fomos de mãos dadas para o camburão!
Katya. – E saímos de mãos dadas da Okrestina [prisão de detenção provisória em Minsk, para onde foram enviados todos os presos e que ficou conhecida pelas torturas e violências efetuadas dentro pela polícia no princípio de agosto]. Passamos por tudo isso juntas. Houve também um cordão de solidariedade em frente à universidade. A tropa de choque OMON veio do lado onde fica o metrô.
Lena. – Eles nos cercaram e disseram: “Entrem no camburão.”
Katya. – Havia muito mais OMON. Não sei o que poderíamos fazer. Disseram-nos que podíamos ir por bem ou por mal. Decidimos que não valia a pena resistir ali. Fomos para o camburão, sentamos, procuramos saber para onde nos levariam, para contar aos nossos parentes onde nos procurar, pelo menos. Naturalmente, nada nos foi dito. Consegui escrever aos meus vizinhos e à minha mãe “Estou no camburão”. Nada mais. E então Lena conseguiu escrever para o canal dos estudantes no Telegram que estávamos sendo detidas. Graças a isso, ficaram sabendo de nós. Em geral, ninguém sabia se voltaríamos à universidade ou se seríamos expulsas e o que aconteceria conosco em geral. Fomos levadas primeiramente para o posto de polícia do bairro, onde ficamos detidas por três horas. Todos nos disseram para não nos preocuparmos, que liberariam a gente, pois era a nossa primeira vez. Mas não, eles não nos soltaram, eles nos levaram para a Okrestina, passamos um dia lá. O julgamento foi realizado online. Não foi um julgamento, mas uma espécie de chacota: não importa o que disséssemos, a decisão estava tomada, provavelmente ainda quando tínhamos sido detidas. Podíamos não dizer nada. Depois fomos liberadas – e voltamos às aulas.
Lena. – No geral, comigo foi mais pesado. Comecei mais ou menos em maio, quando houve correntes para coletar assinaturas. Eu era voluntária na sede de Tsepkalo [um candidato de oposição que foi impedido de participar das eleições e fugiu do país]. Fui a todos os atos quando as assinaturas de Babariko [outro candidato de oposição que foi impedido de participar das eleições e foi preso] não foram reconhecidas. Então eles detiveram meu amigo, nós o encontramos na Okrestina. Em 9 de agosto, fui à minha cidade, especialmente para votar, e voltei para Minsk o mais rápido possível. Disse a minha mãe que não ficaria em casa. Primeiro, fomos com meus amigos esperar os resultados na escola onde eles haviam votado. Esperamos por volta de quatro horas o protocolo. Então a OMON chegou, todos foram retirados da seção e disseram que Lukashenko tinha recebido 93% dos votos. Não havia internet. Pegamos o carro e fomos até à Stella [grande praça com um monumento da Segunda Guerra Mundial, lugar dos maiores enfrentamentos deste dia]. Já era cerca de meia-noite, tinha muita gente, eu diria cinquenta mil. Recebemos uma chuva de bombas de efeito moral. O cara que estava ao meu lado, jogaram uma granada a seus pés. Eu fugi, mas quando me virei, vi que seus pés estavam em pedaços. Eu não sabia o que fazer. Alguém gritou, vamos ajudar. Corri e comecei a cuidar de seus pés de alguma forma. Alguém trouxe bandagens, começamos a tratar o que havia sobrado de seus pés. E outra granada foi lançada contra nós, bem onde estávamos sentados. Ao final, conseguiram tirar o rapaz de lá. Todos nós nos dispersamos. Então vieram os canhões de água, começaram a disparar. Isso foi simplesmente horrível. Isso durou até cerca de duas da manhã. Alguém de algum lugar atirou, lançaram bombas de efeito moral. Houve gás lacrimogêneo. Eu simplesmente não conseguia ficar em pé. Voltamos para casa na ponta dos pés, porque a OMON estava vasculhando as ruas. No dia seguinte, acordamos – havia silêncio e apenas às vezes os camburões da polícia passavam perto. Em 10 de agosto, fomos para a rua Pushkinskaya [outro local de enfrentamentos] – naquele dia, um homem foi morto lá. Em 11 de agosto, fui à Praça Bangalore – eles estavam jogando bombas de efeito moral lá. Nós fugimos da OMON, nos escondemos na portaria de um prédio, éramos umas 50 pessoas. Fechamos a porta, mas era de grades. Ficamos parados como sardinhas em lata, e eles jogaram gás lacrimogêneo em nós. A tropa de choque OMON toda protegida do gás e nós, 50 pessoas, sem proteção e presos ali. O gás começou a se espalhar e não conseguíamos respirar. Abrimos a porta – e eles começaram a nos levar, um por um. Graças a Deus, de alguma forma eu consegui escapar. Alguém me jogou uns trapos molhados de uma sacada e gritou para que respirássemos por eles. Depois disso, vieram os cordões de solidariedade, as marchas e a Okrestina.

RLI: Então vocês foram asfixiados com gás?
Lena. – Sim. Era um espaço de uns 15 por 15 metros e 50 pessoas dentro. Eles nos viram e deliberadamente jogaram essa coisa lá. Foi simplesmente terrível.
Katya. – Sobre as brutalidades da OMON se pode contar muitas coisas. Quando estávamos no posto da polícia, tinha uma garota com um corte de cabelo curto conosco, e ela estava indignada. E então um policial se aproximou dela e deu um forte tapa na têmpora, na orelha dela. Quando começamos a gritar que se tratava de uma garota, o que você está fazendo, ele disse: “Oh, desculpe.” Ele riu, dizendo: “Isso é uma garota?” e foi chutar um rapaz.
Lena. – Apanhei de cacetete da OMON numa passeata. Tinha acabado de descer do ônibus, queria me encontrar com amigos, mas eles me pegaram pelos braços e me levaram para o camburão.

RLI: Eles alegaram o quê?
Lena. – Havia apenas uma concentração de pessoas. Eles simplesmente chegaram e o ônibus parou atrás deles. Eles agarraram todo mundo – e aí fui no bolo. E eu tinha um bottom branco-vermelho-branco [cores nacionais bielorrussas e símbolo da revolução] na minha pasta. Como resultado, eles me levaram para o camburão. Esta foi a segunda vez. Achei que na segunda vez seria definitivamente expulsa da universidade.
Katya. – Fomos avisados que se nos pegassem uma segunda vez, seria um adeus.
Lena. – Bem, agora eu já estou conformada quanto à possibilidade de expulsão. Mas então me colocaram no camburão, já tinha uma multidão de gente, e eu tive um ataque de pânico, comecei a ficar sem ar, não tinha ar suficiente, comecei a chorar. Os OMON gritaram comigo, para eu calar a boca. Como resultado, no caminho, eles simplesmente me jogaram para fora do camburão e seguiram em frente.
Кatya. – Você disse que bateram em você?
Lena. – Sim, bateram-me, bateram-me um pouco nas pernas, mas isso já é detalhe.
Кatya. – Como que detalhe? Isso não é detalhe.

RLI: O que mais revolta você e o pessoal da sua universidade?
Katya. – Primeiro, que nossos votos foram roubados. E depois a violência das autoridades: atiraram granadas, espancaram-nos, dispararam contra as pessoas. No dia 9 de agosto foram às ruas pessoas que queriam defender o seu voto. E no dia 10 foram às ruas pessoas que viram o que tinha acontecido no dia 9, que se revoltaram com a violência.
Ana. – Violência nas ruas. Isso é um absurdo, quando a lei atua com rigidez só para um lado e para o outro não. As pessoas são julgadas por artigos incompreensíveis, sem motivo algum.
Vassiliy. – Revolta ver como as pessoas são tratadas como gado. Tendo estado em centros de detenção, posso afirmar isso com certeza. A abordagem em relação a você, das pessoas que estão do lado de fora das grades e das que estão presas junto com você, é muito diferente. Percebe-se, sentado atrás das grades, que as pessoas que estão do outro lado das grades tratam você com desprezo, como traidor. E nós, que estávamos atrás das grades (éramos uns vinte), nos sentíamos muito unidos. Revolta a atitude em relação às pessoas, como gado, a violência nas ruas. E isso não para. De 9 a 11 de agosto foram dias absolutamente terríveis, mas até agora vemos como você pode simplesmente sair para jogar fora o lixo e ir parar num camburão, ir preso e seus parentes não o encontrarão nos próximos 30 dias. Também não gosto da posição da direção da universidade. Mas é claro que os reitores e decanos estão sob pressão de cima.
Lena. – Acho que, em primeiro lugar, as pessoas ficaram indignadas com a atitude tosca(1) em relação ao Covid, que agora se repete em dobro. Em seguida, roubaram os votos. E a maioria das pessoas se manifestou contra a violência.
Katya. – O Covid, na minha opinião, foi a razão pela qual não se votou em Lukashenko.

(continua)

(1) Lukashenko negou desde o início a pandemia, disse que o vírus não existia. Se recusou a tomar medidas de restrição e isolamento, afirmou que vodca e sauna eram suficientes contra o Coronavírus