Os últimos dias começam a gerar preocupações generalizadas entre os dirigentes dos principais países imperialistas devido ao agravamento da epidemia do coronavírus. O número de mortes deve aumentar a uma taxa crescente, pois a contagem de novas infecções já ultrapassa 2000 por dia.

Por: Marcos Margarido, com informações do jornal New York Times

O número de mortos na China é de 425, com mais de 20000 casos confirmados (em 4 de fevereiro). A taxa de mortalidade mantém-se baixa, em 2,1%. Porém, se a atual epidemia transformar-se em pandemia e atingir, por exemplo, uma população de 1 bilhão, dentro e fora da China, significará a morte de 21 milhões de pessoas. Esta possibilidade não está fora de perspectiva. A própria OMS alertou que “ainda” não há uma pandemia.

Os primeiros sinais dessa possibilidade começam a vir à tona. A agência de notícias AFP anunciou que os ministros do exterior da Alemanha e da França estão considerando a possibilidade de que a Europa imponha uma proibição de entrada de estrangeiros que estiveram recentemente na China. Os Estados Unidos já tomaram esta decisão. O governo inglês, em suas primeiras decisões fora da União Europeia, disse aos ingleses residentes na China que deixem o país, se puderem. E recebeu uma enxurrada de críticas, pois não explicou como eles poderiam fazer isso.

Na China, as grandes cidades estão praticamente vazias, inclusive a capital Beijing, que está longe do centro da epidemia, Wuhan (cidade de 11 milhões de habitantes no estado de Hubei). Os locais públicos estão fechados, há uma série de restrições quanto à movimentação de pessoas e os moradores são incentivados a denunciar às autoridades vizinhos que tenham vindo de Wuhan recentemente. É o estilo ditadura de combater a epidemia…

Porém, a maior preocupação destes ministros e presidentes não é com a morte de seus cidadãos, mas com a economia de seus países.

Se, em 2002 e 2003, quando o vírus SARS surgiu no estado de Guangdong, com uma taxa de mortalidade ainda maior, matou quase 800 pessoas em pelo menos 17 países. Mas a economia mundial não chegou a ser fortemente abalada pois a China tinha acabado de entrar na OMC e suas fábricas produziam principalmente produtos de baixo custo, como camisetas, brinquedos e tênis para clientes de todo o mundo.

Dezessete anos depois, outro vírus mortal está se espalhando rapidamente pelo país mais populoso do mundo. Mas a China evoluiu economicamente, aproveitando-se do suprimento quase ilimitado de mão de obra barata de seus trabalhadores, configurando uma das maiores expropriações do trabalho em toda a história. Hoje, a epidemia é uma ameaça muito mais forte à economia mundial.

A produção econômica anual da China multiplicou-se mais de oito vezes, para quase US$ 14 trilhões, contra US$ 1,7 trilhão em 2002, segundo o Banco Mundial. Sua participação no comércio mundial mais que dobrou, de 5,3% em 2003 para 12,8% no ano passado, segundo a Oxford Economics.

Sua produção econômica multiplicou-se para cerca de US$ 9.000 per capita no ano passado, de US$ 1.500 em 2003, criando um enorme mercado consumidor, em uma nação de 1,4 bilhão de pessoas, cuja classe média ultrapassa a população de muitos países europeus, com um apetite crescente por aparelhos eletrônicos, roupas da moda e viagens pelo mundo.

Baseada no impacto do vírus até agora, a Oxford Economics fez uma previsão de queda do crescimento econômico da China, medido pelo PIB, de 6,1% em 2019 para 5,6% este ano. Isso, por sua vez, reduziria o crescimento econômico mundial em 0,2% em 2020, para uma taxa anual de 2,3% – o ritmo mais lento desde a crise econômica mundial de uma década atrás.

E isto acontece logo após uma trégua na guerra comercial imposta pelo presidente Trump, dos Estados Unidos, que prometia dar uma folga, tanto à economia chinesa quanto à produção agrícola norte-americana, com a promessa de importação de milhões de toneladas de grãos pela China. Isso agora deve ser revisto, gerando problemas nos próprios EUA.

As indústrias norte-americanas e europeias e o comércio de importados na China

Mas, não só os ricos fazendeiros norte-americanos poderão ser afetados. As multinacionais que produzem em fábricas chinesas ou dependem dos consumidores chineses para suas vendas também terão problemas.

A Apple, Starbucks e Ikea fecharam temporariamente suas lojas na China. Os shoppings estão desertos, ameaçando as vendas de tênis Nike, roupas Under Armour e hambúrgueres do McDonald’s. As fábricas da General Motors e Toyota na China estão atrasando a produção enquanto esperam que os trabalhadores retornem do feriado do Ano Novo Lunar, iniciado em 25 de janeiro. O feriado dura, normalmente, uma semana, mas foi estendido pelo governo para impedir a propagação do vírus. As companhias aéreas internacionais, incluindo American, Delta, United, Lufthansa e British Airways, cancelaram voos para a China.

As bolsas de valores chinesas registraram uma queda de 8% em seus negócios no retorno do feriado.  Os mercados de ações em todo o mundo despencaram nos últimos dias, com a sensação de que uma crise de saúde pública pode se transformar em um choque econômico.

Até agora, o impacto nas fábricas era limitado pelo fato de o surto se desenrolar durante o Ano Novo Lunar, o feriado mais importante do ano. Muitas empresas concedem férias coletivas para que centenas de milhões de trabalhadores migrantes retornem para as casas de suas famílias no interior.

Porém, o medo de contrair a doença, em um país com um sistema de saúde pública superlotado – apesar de toda propaganda do governo chinês para mostrar eficiência, como a construção de um hospital em 10 dias – pode fazer com que muitos trabalhadores permaneçam longe das cidades industriais no próximo período. Muitas das principais áreas industriais – incluindo Xangai, Suzhou e província de Guangdong – prolongaram o feriado por conta própria, em pelo menos mais uma semana, impedindo a volta dos trabalhadores.

Com voos para a China limitados e restrições emergenciais de saúde pública, as operações chinesas das multinacionais devem se restringir. Os principais bancos, incluindo o Goldman Sachs e o JPMorgan Chase, estão ordenando que os funcionários que visitaram a China continental fiquem em casa por duas semanas.

A General Motors vendeu no ano passado mais carros na China do que nos Estados Unidos. Suas fábricas chinesas serão fechadas por pelo menos mais uma semana, a pedido do governo. A Ford Motor disse aos gerentes da China para trabalhar em casa enquanto suas fábricas permanecem ociosas, segundo um porta-voz da empresa.

Tudo isso pode causar estragos nas empresas que dependem da China para componentes, desde fábricas de automóveis no Centro-Oeste americano e México até fábricas de roupas em Bangladesh e Turquia.

Se os clientes não puderem comprar o que precisam da China, as fábricas chinesas poderão, por sua vez, reduzir os pedidos de máquinas, componentes e matérias-primas importadas – chips de computador de Taiwan e Coréia do Sul, cobre do Chile e Canadá, bens de capital da Alemanha e Itália.

Isso pode prejudicar as cadeias de suprimento globais, pois hoje a China representa cerca de um terço do crescimento econômico global, uma parcela maior do crescimento global do que os EUA, Europa e Japão juntos, segundo um gerente de fundos de investimento da Matthews Asia.

A indústria norte-americana de semicondutores também pode ser prejudicada. A China é um importante centro de fabricação e um mercado para seus produtos. Os clientes da Intel na China representaram cerca de US$ 20 bilhões em receita em 2019, ou 28% do total do ano. A Qualcomm, principal fabricante de chips para celulares, é ainda mais dependente da China, com 47% de sua receita anual – ou quase US$ 12 bilhões – em vendas no país.

Ninguém sabe quanto tempo durará o surto de coronavírus, até que ponto se espalhará ou quantos morrerão, mas a tendência ainda é crescente. A presença da economia chinesa no mercado mundial significa que o impacto econômico do atual surto provavelmente excederá o do SARS em 2002. E as mudanças na divisão mundial de trabalho, com a introdução da cadeia de valores, onde um produto depende de componentes produzidos em todo o mundo, formando uma espécie de pirâmide de produção, colaboram com isso. A paralização da produção de um componente na China pode levar à paralização de várias fábricas espalhadas pelo mundo.

Isso já pode estar acontecendo. A Apple, que obtém cerca de um sexto de suas vendas da China, anunciou que fecharia suas 42 lojas no país. A Walmart compra grandes volumes de seus produtos de fábricas chinesas enquanto opera 430 lojas no país, inclusive em áreas fechadas por quarentena, com horário de funcionamento reduzido.