África: Disputa interimperialista. Rússia conquista novos aliados
Introdução
A disputa interimperialista segue seu curso. Em geral vemos o papel da disputa entre o imperialismo decadente norte americano e o imperialismo chinês em ascensão. Porém a nova partilha da África, revivendo a de 1884, tem outros atores conforme descrito no artigo “África Subsaariana: Nova partilha ou luta pela II Independência”[1] publicado no site da Liga Internacional dos Trabalhadores.
No referido artigo além dos EUA e China se chama atenção para o papel dos diversos outros países imperialistas e das potências regionais. O papel da Rússia recebeu um tratamento especial que neste artigo queremos atualizar com surpreendentes novos avanços.
A presença russa na África Subsaariana
A Rússia entrou na Africa subsaariana através da Republica Centro Africana, onde em troca da exploração e comercialização de diamantes, os russos ofereceram proteção ao governo de Tuodera frente aos grupo armados que lhe faziam oposição e controlavam mais de 60% do território. Vitoriosos, os russos tinham um bom cartão de visitas para os governos do Mali, Burquina Faso e Niger e a defesa desses países contra as milicias terroristas.
Havia dúvidas quanto ao grau de participação no Chad. De fato, se sabe que os chadianos expulsaram as tropas francesas e têm uma posição beligerante contra os Estados Unidos que suspendeu os vistos de entrada de pessoas do Chad que queiram ir para os EUA. O governo chadiano em uma posição soberana apelou ao principio de reciprocidade suspendendo os vistos para norte americanos.
Hoje a Russia tem acordos militares com 40 dos 56 paises africanos. Porém o significativo são aqueles países que além dos acordos militares há a presença da Afrika Korps, grupo PMC (Private Military Corps), que dá sustentação aos governos locais e impõe o bonapartismo as massas.
A Rússia e a guerra reacionária no Sudão
Desde abril de 2023, o Sudão convive com uma guerra civil de caráter reacionário que envolve dois grupos de interesses que se escondem por trás das Forças de Apoio Rápido, comandado pelo paramilitar Mohamed Hamdan Dagalo (Hemedti) e do outro lado as Forças Armadas Sudanesas controlada pelo General Abdel Fattah al-Burhan.
O grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF) é apoiado pelos Emirados Arabes Unidos e pela Rússia.
Essa guerra é considerada a maior crise humanitária da atualidade, pois a fome, os deslocamentos e as sucessivas práticas de genocídio são marcas dessa guerra que já matou mais de 150 mil pessoas e deixou 12 milhões sem lar, em um pais com 53 milhões de habitantes.
No começo da guerra o Conselho de Segurança da ONU, onde tudo só pode ser votado por unanimidade, a Rússia votou contra iniciativas pelo cessar fogo, afinal, para Rússia quanto mais conturbado o país melhor para o contrabando de ouro e diamante através do Sahel rumo ao Mar Vermelho.
A nova investida Russa na África subsaariana
Depois de obter uma importante base de apoio na região do Sahel, através do oferecimento de ajuda militar por meio do Afrika Corps (ex Grupo Wagner[2]), agora a Russia busca estender suas relações militares, economicas e politicas com o Chad, Congo (Brazaville), Madagascar e Tanzânia[3].
Há dúvidas se é uma fuga para o sul ou se é extensão da presença russa. A dúvida reside no fato que os grupos islâmicos, antes com pouco poderio militar, agora estão recebendo apoio intensivo da União Européia, em especial da França, com a utilização de tecnologia de guerra avançada, em especial drones de ultima geração.
As milícias terroristas estão avançando sobre o território do Mali e Burquina Faso e realizaram algumas tentativas de golpe de Estado no Niger.
Estarão perdendo a guerra os paramilitares russos da Afrika Korps? Seguir a guerra na Ucrânia e enfrentar a União Européia no Sahel será esta a melhor alternativa para os russos? Por esse motivo, alguns falam em fuga combinada com busca de novas areas de atuação. Porém, perder a galinha dos ovos de ouro que representa a exploração de diamantifera e aurifera conquistada no Sahel não está no horizonte do russos, segundo sua página do Ministério de Relações Exteriores.
O apoio e troca de favores com a ditadura do Congo (Brazaville)
A República do Congo também utiliza a denominação Congo Brazaville para não confundir com o país vizinho República Democrática do Congo, e é governada por Denis Sassou-Nguesso desde 1997. Antes Sassou-Nguesso havia governado a partir de um golpe de Estado de 1979 a 1992. Ou seja, tirando os cinco anos que esteve de fora da presidencia, Sassou-Nguesso está no poder há 44 anos.
Os membros do Afrika Korps estão cada vez mais integrados ao sistema de segurança do ditador Denis Sassou-Nguesso. O portal Africa Intelligence assim descreve a nova situação: “Após um ano destacados no Congo como parte da Direção-Geral de Segurança Presidencial (DGSP) , os homens do Africa Corps foram novamente mobilizados à margem do desfile militar organizado em 15 de agosto para comemorar o Dia da Independência, no Boulevard Alfred Raoul, uma das principais vias de Brazzaville”[4].
Segurança e Petroleo essa é a formula para penetração russa no Congo Brazaville que é o quarto maior produtor de petroleo da região. A primeira grande atividade russa no Congo Brazaville será a construção do oleoduto Pointe-Noire – Loutété – Maloukou – Tréchot, que visa garantir o abastecimento de combustível da capital.
Para a construção do oleoduto foi criado uma joint venture entre a petroleira russa Zakneftegazstroy-Prometey e a Société Nationale des Pétroles du Congo (SNPC), com 90% de participação russa e 10% congolês. (90 x 10 é um tratado tão colonial como os 95 x 5 da exploração francesa de urânio no Niger. Por tal iniciativa, no ultimo mês de junho, o diretor-geral da SNPC, Raoul Maixent Ominga, foi condecorado com a medalha de Cavaleiro da Ordem Russa da Amizade.
Madagascar: a renovação da velha parceria
No ultimo dezembro, o General Andrei Averianov, comandante da Afrika Korps, se reuniu com o presidente malgaxe Coronel Michael Randrianirina que se diz ameaçado de morte. Assim, segundo o presidente do parlamento de Madagascar, Siteny Randrianasoloniaiko, os russos mostraram sua disposição em apoiar e auxiliar Madagascar, especialmente na área de treinamento e fortalecimento das capacidades das Forças Armadas e para tanto, segundo o jornal El Pais, doaram “16 drones kamikaze, 50 pistolas e 50 fuzis Kalashnikov, à Guarda Presidencial de Madagascar[5]”, além de instruções militares.
Dessa forma, a Russia volta a restabelecer um acordo militar que esteve vigente nos anos 70 do século passado quando o então governo malgaxe se autodefinia como socialista e mantinha acordo militares com a extinta União Soviética.
Tanzânia: Violencia e fraude eleitoral
As eleições realizadas em outubro do ano passado foram repletas de fraudes e abuso de poder. As eleições foram realizadas com o principal líder da oposição preso e o segundo mais importante teve sua candidatura vetada. Dessa forma, Samia Suluhu Hassan se elegeu com 98% dos votos.
O partido de oposição Chadema, denunciou que “As forças de segurança estão rastreando todos os nossos líderes e alguns tiveram que deixar o país. Essas pessoas matam impunemente” “Continuamos preocupados com o fato de o período que antecedeu as eleições ter sido marcado por assédio, sequestros e intimidação de figuras da oposição, jornalistas e atores da sociedade civil”
No dia das eleições houve protestos em todo o país tendo como seu epicentro a cidade portuária de Dar es Sallam e se estendendo a Shinyanga e Morogoro. O governo e sua polícia acostumados ao sequestro e assassinato de seus opositores, agiu rapidamente, bloqueou a internet, decretou toque de recolher e reprimiu abertamente com bombas de gás lacrimogêneo e balas reais. Não há dados confiáveis do número de mortos. O partido Chadema fala em 700 mortos. A Anistia Internacional documentou 100 mortes.
Os EUA se apressaram em denunciar o caráter antidemocrático das eleições e exigir novas e livres eleições. Obviamente para quem está acostumado a incentivar golpes de Estado e invadir países essas justas exigências contra a violência e o fraude eleitoral tinha um significado maior que a aparência. Em outras eleições também fraudadas, a da Zâmbia não teve a mesma exigência. Como descreve África Report: “Ao comparecer à posse de Hichilema sem expressar publicamente preocupações sobre as alegações de irregularidades na contagem de votos e acusações de traição contra figuras da oposição, García consolidou ainda mais a política do Secretário de Estado Marco Rubio de minimizar o retrocesso democrático em países aliados dos EUA”[6].
Na verdade, a preocupação norte-americana com “eleições limpas” na Tanzânia tem a ver com o progressivo processo de aproximação econômico e militar que começou ainda durante a pandemia entre a Tanzânia e a Rússia.
O Embaixador russo na Tanzania afirmou: “A Rússia está pronta para cooperar militarmente com a Tanzânia, auxiliando o país africano na modernização de seu exército e na aquisição de novos tipos de armamento”[7], e mais “Estamos prontos para compartilhar [com o lado tanzaniano] tipos modernos de armas e novas tecnologias, bem como fornecer toda a assistência necessária para fortalecer e modernizar o exército tanzaniano, mas, ainda mais importante, estamos prontos para compartilhar conhecimento e experiência única em combate”
Há mais de 300 tanzanianos estudando nas academias militares russas. Para os russos “A cooperação militar e técnico-militar contribui para o desenvolvimento do espectro das relações russo-tanzanianas nas esferas da política, do comércio e da economia, e saudamos também a política de economia aberta defendida pela presidente da Tanzânia, Samia Suluhu Hassan”
Apoio russo a governos militares e ditaduras além de reforçar o bonapartismo contra as massas abre as portas para recolonização
O apoio a governos questionados inevitavelmente significa o controle dos setores opositores. E quem são esses setores opositores? Para os adeptos da teoria da conspiração são todos aqueles que se coloquem contra esses governos. Então, pode ser setores burgueses financiados por potencias imperialista ou também o próprio movimento de massas. Assim, sem discutir o conteúdo de classe dos opositores, sindicalistas, movimentos juvenis, movimento de mulheres, glbt, intelectuais são considerados inimigos a serem combatidos.
Assim, a presença do Afrika Korps tem como objetivo reprimir os opositores burgueses financiados por outros imperialismos e ao mesmo tempo impor o método bonapartista as massas.
Em Burquina Faso, a repressão aos estudantes universitário com invasão policial na universidade, a prisão de jornalistas, a incorporação obrigatória de jornalistas opositores as FFAA, a repressão ao movimento glbt são justificadas por importantes setores da esquerda reformista.
No Mali, um governo militar que chegou ao poder por um golpe de Estado depois de uma onda de mobilizações, inicialmente seria um governo provisório por dois anos e depois se autodeclarou presidente pelos proximos cinco anos. A nova Constituição foi elaborada por uma equipe de “notáveis”. A repressão ao moviemnto sindical é frequentemente apontada.
Assim a presença russa não vai trazer mais direitos aos trabalhadores, a juventude ou aos oprimidos. Trará sem dúvidas mais bonapartismo.
Do ponto de vista econômico ler os artigos da esquerda reformista é um exercicio de como esconder o conteúdo de classe e de afronta a soberania dos países africanos. O Brasil de Fato, tras a manchete: “Cooperação econômica Rússia-África: um futuro promissor[8]”. Qual cooperação é possível entre um pais que reconstruiu o capitalismo e se transformou em um pais imperialista emergente? Essa análise, obviamente não aparece no texto.
O mesmo raciocinio apresenta o portal 247. “Moscou sediará cúpula Rússia-África após comércio saltar 43%[9]”, é o titulo da matéria na qual reproduzem as palavras do ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov: “Hoje, estamos testemunhando um fenômeno notável: o ‘segundo despertar’ da África. Os países africanos agora querem ser mestres de seus próprios recursos naturais”.
É verdade que os países africanos querem ser mestres de seus próprios recursos naturais, mas como? A construção do oleoduto no Congo Brazaville pela petrolifera russa a Zakneftegazstroy-Prometey e a Société Nationale des Pétroles du Congo (SNPC), com 90% de participação russa e 10% congolês é um acordo de cooperação como defende o portal 247?
Liberação Nacional: a questão central para as nações africanas
Estamos vivendo uma nova partilha da África capitaneada pela China e EUA e por outros países imperialistas e potencias regionais que também fazem parte dessa nova partilha. Políticas que vem disfarçados de “ajuda ao desenvolvimento”, “cooperação” e tantas outras expressões vazias que escondem o caráter imperialistas dessas medidas. Há uma aversão clara contra o imperialismo americano e aqueles que estiveram diretamente envolvidos no processo de colonização de África, contudo, há um grande déficit programático, sobre quais devem ser as saídas. Duas de destacam: a da formação de uma burguesia nacional e o da abertura com o imperialismo emergente. Ambas revelam desespero e falta de perspectiva histórica, semelhante ao período das independências quando a maioria dos países abraçou o imperialismo americano ou o estalinismo, sem que isso trouxesse soberania para a classe trabalhadora.
É importante que os países africanos percebam o seu papel e que a classe trabalhadora se coloque na dianteira e fortaleça a sua luta em aliança com classe trabalhadora mundial numa frente anti-imperialista e anticapitalista. Não é possível administrar de forma soberana os nossos países dentro do capitalismo. Somente é possível construir um programa de defesa dos trabalhadores, da juventude e do povo pobre a partir da luta pela liberação nacional rumo ao socialismo.
[1] África Subsaariana | Nova partilha ou luta pela II Independência – https://litci.org/pt/2025/07/05/africa-subsaariana-nova-partilha-ou-luta-pela-ii-independencia-parte-i/?utm_source=copylink&utm_medium=browser
[2] O que é o Grupo Wagner? – https://litci.org/pt/2022/03/22/grupo-wagner-milicias-russas-na-africa/?utm_source=copylink&utm_medium=browser
[3] Africa: Russian defence team heads on Africa tour to explore fresh military opportunities – https://www.africaintelligence.com/the-continent/2026/09/11/russian-defence-team-heads-on-africa-tour-to-explore-fresh-military-opportunities,110875842-art
[4] Congo: Eyeing oil projects, Africa Corps draws closer to Denis Sassou-Nguesso – https://www.africaintelligence.com/central-africa/2026/09/04/eyeing-oil-projects-africa-corps-draws-closer-to-denis-sassou-nguesso,110871307-gra
[5] Mercenários do Afrika Korps russo incorporam Madagascar em sua expansão pelo continente – https://english.elpais.com/international/2026-01-25/russian-africa-corps-mercenaries-incorporate-madagascar-into-their-expansion-across-the-continent.html
[6] Frank Garcia five questions to understand US top diplomat’s second trip to Africa – www.theafricareport.com/430444/frank-garcia-five-questions-to-understand-us-top-diplomats-second-trip-to-africa/
[7] Russia ready for military co-operation with Tanzania – https://afrinz.ru/en/2026/02/russia-ready-for-military-co-operation-with-tanzania-ambassador/
[8] Cooperação econômica Rússia-África: um futuro promissor – https://www.brasildefato.com.br/colunista/clube-valdai/2026/08/09/cooperacao-economica-russia-africa-um-futuro-promissor/
[9] Moscou sediará cúpula Rússia-África após comércio saltar 43% – https://www.brasil247.com/sul-global/moscou-sediara-cupula-russia-africa-apos-comercio-saltar-43/




